O corpo é seu, mas…

Mônica disse "Meu corpo, minhas regras" na edição nº 94 da Turma da Mônica Jovem
Tentando achar coerência em quem diz que "a mulher é quem deve decidir sobre as questões do seu corpo... mas sou contra o aborto"

Hoje, dia 5 de abril, a organização Católicas pelo Direito de Decidir, junto ao IBOPE Inteligência, divulgaram o resultado de uma pesquisa sobre aborto – mais especificamente, sobre se a decisão de se interromper uma gravidez é de responsabilidade da mulher ou do parceiro/Estado/religião. O principal resultado mostrou que 64% entre os 2000 entrevistados acreditam que a mulher é quem deve tomar essa decisão e ninguém mais. Isso parece um grande plot twist ao se ler que 78% da população é contrária ao aborto segundo a mesma instituição em pesquisa realizada em dezembro de 2016. Qual é o problema de tudo isso?

Primeiramente, a pesquisa mostra que, mesmo sem entender direito a pergunta, ou apesar do conservadorismo geral da nação, a maior parte das pessoas discorda que a realização de um aborto deva ser uma decisão peneirada pelo corpo social. Apenas 1% dos/as entrevistados/as acredita que a decisão última cabe à Presidência da República. Outro 1% acredita que o congresso deva decidir sobre o corpo da mulher. 4% a Igreja e 6% o judiciário. Ou seja, apesar de a população não acreditar em justiça reprodutiva, a grande maioria apoia que o aborto seja uma decisão individual da mulher, não cabendo às instituições.

Ao perguntar a uma pessoa se ela é favor do aborto/legalização do aborto ou não, ela responderá de acordo com sua experiência pessoal e moral – ou seja, algo que vale para ela e somente ela. Percebe como perguntar isso soa muito diferente de perguntar a quem cabe decidir sobre o corpo da mulher ou não?

Por outro lado, a pesquisa mostrou um outro viés dessa questão. De 2010 para os dados mais recentes, a proporção de pessoas que defendem que a decisão caiba ao parceirO aumentou de 6% para 9%. Aqui o conservadorismo mostra a sua cara: o homem ainda é visto como a grande autoridade sobre a autonomia do corpo das mulheres.

As questões que podemos levantar com esses dados são as seguintes: Por que o poder público insiste em fazer pesquisas de modo a demonizar o aborto? Explico. Ao perguntar a uma pessoa se ela é favor do aborto/legalização do aborto ou não, ela responderá de acordo com sua experiência pessoal e moral – ou seja, algo que vale para ela e somente ela. Percebe como perguntar isso soa muito diferente de perguntar a quem cabe decidir sobre o corpo da mulher ou não? Em última instância, a luta pela descriminalização do aborto não seria uma luta por autonomia corporal?

Esse viés conservador que vemos nas pesquisas prévias não surge da cabeça dos pesquisadores do IBOPE, mas das próprias instituições que deveriam garantir esse direito. O fato de o Estado ignorar a urgência do assunto e acreditar que o fato de a maior parte da população ser contra o aborto seja suficiente para barras a descriminalização é ferir o direito das mulheres à justiça reprodutiva. Afinal de contas, segundo o que aprendemos na escola, em um estado democrático de direito direitos humanos e respeito à integridade de grupos vulneráveis são mais importantes do que a vontade da maioria. Ou seja, o poder público mascara a falta de democracia e acesso a direitos com um discurso aparentemente democrático.

Já passou da hora de aqueles que formulam políticas públicas percebam que a opinião pessoal da população nunca deva se sobrepor ao direito de minorias quando se trata da promoção de direitos humanos. Continuar negligenciando a pauta e tratando o aborto como crime é ir na contramão do que outros países têm feito para a promover os direitos das mulheres.

Essa pesquisa mostra que já passou da hora de popularizarmos o debate sobre justiça reprodutiva e parar de tratar o aborto como uma simples vontade da mulher – ou como já diria nosso presidente, um “capricho”. Aborto não é um capricho. Aborto é doloroso a todos os envolvidos – com exceção do amontoado celular que existem no útero da mulher até a 12ª semana. Precisamos continuar falando sobre isso e desmistificar o aborto – mas isso terá de ficar para outro texto.

Escrito por
Mais de Júlia Rocha

Leia: Pola Oloixarac

Após seu ovacionado romance de estreia As Teorias Selvagens, a escritora argentina Pola Oloixarac publica um segundo romance que conserva atualidade em termos de publicação e temática.

Aclamada como “a Musa da Flip” da edição de 2011, a autora cruza biologia, tecnologia e cultura pop para promover uma perspectiva quase dantesca da sociedade atual em Las Constelaciones Oscuras (“As constelações escuras”, em tradução livre). Ainda inédito no Brasil, a obra promete lançar uma nova luz sobre o impacto da internet e do capital na vida dos indivíduos: seria de fato possível escapar das influências cibernéticas capitalistas atuais? Quem seriam os novos agentes da mudança social no atual cenário de desenfreado desenvolvimento tecnológico?

Conservando um senso de humor que lhe é próprio, assim como a paixão pelo Rock e pela filosofia clássica, Oloixarac desenrola a vida de Cássio, um Hacker envolvido em um ambicioso projeto de mapeamento genético que funde biologia e internet em um só sistema, mas que se desilude com o potencial revolucionário cibernético, rapidamente corrompido pelo capital.

É dessa forma que a autora mostra o que há de mais obscuro das luzes que são emitidas pela tecnologia: não é mais possível desvencilhar o humano da web, e muito menos o controle político-biológico do poder do capital. As metáforas e comparações com fenômenos celestes resgatam a sensação de que tudo aquilo que está ocorrendo é inevitável – ou que tudo é grande demais para que apenas um indivíduo ou um pequeno grupo de indivíduos possa gerar uma mudança de impacto.

Contudo, o livro revoluciona não só a maneira com a qual o leitor irá perceber o mundo após sua leitura, como também as próprias direções da carreira da autora. Diferentemente de As Teorias Selvagens, Las Constelaciones Oscuras tem uma pretensão internacional muito clara: os personagens são de diversas partes do mundo, não somente argentinos, e a ficção científica se fortalece frente à “crônica de costumes” que foi “Teorias”.

O que permanece são questões essenciais que definem o estilo da autora, como o evidente esforço de pesquisa para a confecção da obra, as imagens que permeiam as páginas e ilustram o romance, o interesse pelas “ovelhas negras” do corpo social, e a temática da juventude e seus episódios típicos – o descobrimento da sexualidade, a pornografia, o envolvimento político das personagens e as referências musicais e culturais que fazem parte dessa fase da vida.

Se Oloixarac já havia se consagrado enquanto a nova voz da literatura argentina com seu primeiro romance, Constelaciones… traz um novo momento de sua carreira e demonstra a paixão que a autora tem pela literatura – e pela biologia.

Com uma temática mais concentrada e desenvolvida, a teia de aranha que foi seu primeiro romance é substituída por um romance com começo, meio e fim históricos e bem divididos, o que também demonstra a capacidade da escritora de trabalhar com diferentes formas e linhas narrativas. É entre nomes científicos, guerras cibernéticas e espetáculos de luzes celestes e terrestres que a autora confecciona um verdadeiro trabalho artístico – e sinaliza que tudo aquilo que vier de sua autoria terá muita qualidade.

Ilustração feita com exclusividade por Malu Risi.

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