A mulher “Leila Diniz”

Leila Diniz no Rio de Janeiro em 1969
Leila Diniz no Rio de Janeiro em 1969

Gosto bastante de textos antropológicos e por isso não tive dificuldades de gostar logo de cara das obras de Mirian Goldenberg. Mas até pra quem não gosta mesmo desse tipo de leitura vai se envolver facilmente com os textos da antropóloga do Rio de Janeiro. E isso exatamente porque ela usa uma escrita acadêmica que é a menos acadêmica possível, por não ser tão objetiva e imparcial.  Em“Infiel”, livro de 2006 que ganhou uma tradução para o alemão em 2014, Mirian conta a história de um de seus estudos de caso como uma narrativa romântica. Só isso já me fez devorar o livro, de tanta ansiedade para saber o que ia acontecer com a bendita personagem. Esse é um daqueles livros que te deixa de ressaca depois de ler, mas no bom sentindo – eu, por exemplo, fiquei dias pensando e refletindo sobre o livro. Só sosseguei depois de boas discussões sobre ele com amigas e, por muita sorte, com a própria Mirian. Em uma conversa pra uma matéria da revista alemã Wir Frauen, eu aproveitei a meia horinha de telefonema para sanar todos meus anseios e dúvidas sobre o “Infiel”.

 

[caption id="attachment_3667" align="aligncenter" width="678"]A antropóloga Mirian Goldenberg A antropóloga Mirian Goldenberg[/caption]

 

Nas primeiras páginas, a antropóloga faz uma pequena análise da vida amorosa de Simone de Beauvoir com Jean-Paul Sartre e Nelson Algren. Mirian diz ter ficado impressionada ao notar, pelas leituras e releituras de Beauvoir que, mesmo uma mulher tão feminista e defensora da liberdade, poderia se tornar dependente de seus amores, de seus homens. E foi na busca por respostas sobre essas contradições entre comportamentos e discursos, quanto ao tema relacionamentos, que Mirian conheceu Mônica.

Mônica é uma jornalista que mora no Rio de Janeiro e tem a vida de um roteiro de filme. Com tragédia, amores, sexo e traições. Uma vida com a qual, acredito, muitas mulheres se identificariam. Não por sua história em si, mas por seus sentimentos e desejos ambíguos. Mônica é uma mulher independente, autoconfiante, segura de si. Mas também é uma mulher que deseja a segurança de um relacionamento mais estável e duradouro.

“Eu achei que ela sintetiza muitas histórias que eu ouvi sobre a dificuldade da mulher de viver seus próprios desejos, de assumi-los. Muitas brasileiras ainda têm medo de assumir sua sexualidade pelo que os homens vão pensar”. Mirian chega a compará-la com Leila Diniz por ser uma mulher que fala abertamente de sua vida e seus relacionamentos, sem medo de assumir verbalmente que teve muitos parceiros sexuais, que traiu ou fez sexo sem amor. “Ela me pareceu muito segura, autoconfiante. Uma mulher que eu raramente encontro no Brasil”, descreveu Mirian.

Mas ao mesmo tempo, Mônica é como muitas mulheres brasileiras e se afoga em uma crise de culpa quando trai seu parceiro com um homem, que nem faz seu tipo, mas que desperta nela um desejo sexual enorme. Com seu amante, Mônica descobre um lado sexual que ainda era desconhecido, mesmo depois de ter transado com vários homens. Daí é que a história complica e a jornalista se vê em um conflito entre o desejo por liberdade mas também pela segurança do relacionamento com seu parceiro. Um conflito que Mirian diz ter observado em muitas mulheres em seus estudos nas camadas médias urbanas do Rio de Janeiro.

A incrível história de vida de Mônica me deixou ansiosa por cada página. Exatamente por ser uma história que poderia acontecer com qualquer uma de nós. Mas não serei aqui spoiler chata e não contarei o desfecho disso tudo. O que mais posso revelar do livro são alguns fatos que me deixaram pensando e pensando e pensando no “Infiel”.

Sabe aquele estereótipo sobre amantes que elas seriam mulheres atrás de homens casados, ricos, que as pudessem enche-las de presentes e sustenta-las? Sabe aquela ideia de que toda amante é uma mulher na fila do casamento, só no aguardo para que o tal homem casado se separe? Pois é, a pesquisa de Mirian revelou uma imagem muito diferente que quebra esse tipo de preconceito. A Outra é, em muitos casos, uma mulher super independente – ela mora sozinha, trabalha, se sustenta e, algumas vezes, tem outros parceiros além do amante. Mirian a descreve como alguém que, muitas vezes, tem uma relação mais igualitária com o homem do que a própria esposa. “Ser a Outra pode ser, para algumas mulheres, uma forma de combinar companheirismo com liberdade”, escreve Mirian ao contar o caso de mulheres que desejam manter sua independência e não acham que isso seja completamente possível em um casamento.

Mas além desse desejo de liberdade e companheirismo, os números apresentados no livro revelam que para, algumas mulheres, ter um relacionamento com um homem casado é a forma mais fácil de não ficar só. Ela escreve que existem três mulheres para cada homem não-casado depois dos 45 anos, e cinco para um depois dos 65 anos. Ou seja, a opção seria dividir para não ficar só.

Depois disso fiquei me perguntando: “seria a mulher brasileira tão dependente que não consegue ficar sozinha e precisa de um marido/namorado/peguete?” Em nossa conversa, Mirian me deu uma interessante resposta. “Ela (a mulher brasileira) consegue ficar sozinha, ela até gosta de ficar sozinha, ela até prefere ficar sozinha! Mas morre de medo porque ficar sozinha aqui dá uma ideia de abandono e de fracasso. Há mulheres bem sucedidas que quando chegam sozinhas em algum evento são encaradas como coitadas. Elas querem curtir sua vida e sua liberdade. Mas hoje é preciso enfrentar tanta coisa pra ficar sozinha, tem que enfrentar tantos olhares de pena e de acusação, que muitas têm medo e acabam ficando com alguém por isso”. Mirian diz que o novo capital mais valioso da mulher no Brasil, além do corpão e da juventude, é o maridão. Ela observa que, além da pressão por um casamento, a mulher ainda sofre com uma criação que a tornou uma “romântica incurável”: “As novelas, os romances, os filmes, tudo conspira. Nunca as meninas brasileiras foram tão cor de rosa. Desde que você nasce, você é criada pra ser assim, ganhando bonecas e vestido de princesa pra brincar de casinha”.

 

[caption id="attachment_3625" align="aligncenter" width="1024"]Os livros de Mirian Goldenberg Os livros de Mirian Goldenberg[/caption]

 

Enfim, depois da leitura e da conversa com Mirian notei que talvez ainda sejam precisos muitos passos para que toda mulher brasileira se torne “meio Leila Diniz”. Mas estamos no caminho. Segundo Mirian, já é maior o número de mulheres que decidem ficar só, sem marido, filhos ou amantes fixos. Mulheres que decidiram enfrentar os olhares de pena e de julgamento. Que não tem medo de assumir e falar abertamente de sua sexualidade e que estão mais próximas do ideal “Leila Diniz” que Mirian tanto cita em sua obra.

Os livros da Mirian foram lançados pela Editoraecord e podem ser encontrados facilmente em grandes livrarias ou até em sebos (onde eu achei o meu). Além do “Infiel”, outros títulos interessantes são “A Outra”, “Toda Mulher é meio Leila Diniz”, “Coroas” e o mais recente “Sexo”.

Escrito por
Mais de Débora Backes

Ultrapassando os limites da cor

Passing” de Nella Larsen é uma novela sobre identidade. Sobre conhecer e desconhecer uma identidade. Sobre o jogo entre possibilidades de se ter diferentes identidades em uma pessoa só.

Na década de 1920 nos Estados Unidos, a “color line”, linha de limite entre negros e brancos, era um tema bastante delicado. Nesse contexto, negros de pele mais clara e de descendência mista praticavam algo chamado “passing”. Em uma sociedade, em que raça determinava quem podia ou não frequentar certos lugares, ter determinados empregos e morar em um bairro lá ou aqui, “passing” era quase como uma forma de sobrevivência. Como é o caso de uma das principais personagens da novela.

O livro de Nella Larsen, publicado em 1929, conta a história das amigas de infância Irene Redfield e Claire Kendry. Duas mulheres com passados iguais e um presente muito parecido, tirando alguns detalhes. As duas foram criadas no bairro de maioria afro-americana Harlem, em Nova York. Até que a morte do pai de Claire fez com que ela desaparecesse da vizinhança, o que despertou fofocas dos moradores.
PassingA novela é toda narrada em terceira pessoa pela visão de Irene, que na primeira página do livro, se mostra nervosa ao receber uma carta. O envelope com a mensagem de Claire a lembra de um encontro, por acaso, anos atrás, em Chicago. As duas estavam no terraço do Hotel Drayton, em um dia quente de verão. Era um lugar onde ambas não poderiam estar, mas estavam. A pela mais clara das duas mulheres afro-americanos as faziam passar por mulheres brancas. Ninguém mais ali sabia que elas estavam “passing”, apenas as duas. Ambas tinham conhecimento da origem uma da outra. A possibilidade de “pass” por uma pessoa de outra raça não era conhecida pelos brancos – e, só por isso, ela era possível.

Para quem lê a novela e não conhece o conceito de “passing”, a identidade racial de Irene não fica clara nas primeiras páginas. É somente no segundo capítulo que Nella Larsen revela que Irene é uma mulher negra de pele mais clara. A novela em si está “passing”, de certa forma. E é isso que a faz tão interessante.

Mesmo que ambas possam passar por mulheres brancas, apenas Claire precisa disso para sobreviver. Irene mora em Harlem, onde é bastante ativa dentro da comunidade negra. Ela é casada com o médico Brian, também afro-americano, e tem dois filhos. Irene vive sua identidade racial em sua casa, em seu bairro, em sua comunidade. Já Claire é casada com John Bellew, um homem branco bastante racista e que não faz ideia de que sua esposa tenha descendências afro-americanas. Claire esconde sua identidade racial e ignora os discursos preconceituosos do marido. Mesmo assim, ela não tem medo de ser descoberta.

Esse é outro ponto importante na novela. As duas amigas têm personalidades muito diferentes. Irene é séria, contida, controlada. Tive uma matéria sobre Leituras Feministas e Queer na minha faculdade e discutimos semanas sobre Passing e suas personagens. A professora observou que Irene tenta constantemente passar a ideia de uma mulher respeitável, séria, de classe média, também numa tentativa de ir contra aquele estereótipo da mulher negra super sexualizada – na época, havia essa ideia de que a mulher negra era sensual, selvagem sexualmente e objeto de desejo dos homens brancos. Por isso, para se aproximar do conceito de “mulher branca”, Irene tinha que mostrar um comportamento contrário a essa ideia de o que era ser uma mulher negra.

Claire, diferente da amiga, é uma mulher solta, simpática, sexy, sempre animada e que gosta de se aventurar sem pensar nos riscos. O mais interessante é que Irene parece ter mais liberdade em sua vida do que Claire, pois não tem segredos a guardar. Mas ela não vive essa liberdade plenamente. Já Claire, mesmo correndo riscos de que o Mrs. Bellew descubra suas origens, vai a eventos e bailes da comunidade negra e anseia por viver essa identidade “blackness” que lhe foi limitada.

A história gira em torno dessa relação de amizade entre as duas mulheres. Mas muitas questões ficam no ar o tempo todo. Alguns enxergam uma atração física de Irene por Claire, pela forma como a descreve – como uma mulher linda e sensual – e fica obcecada pela amiga. Também tem uma questão de traição no meio da trama. Irene começa a suspeitar de que Brian a está traindo com Claire, já que os dois passam muito tempo juntos. Mas nada disso é esclarecido em nenhum momento do romance.

Roubando mais uma vez a fala da minha professora, dá pra dizer a obra de Nella Larsen é uma novela sobre knowing and not-knowing. E é exatamente isso que faz a prática do passing possível. O saber mas não saber exatamente, como no caso de John Bellew, que acreditava saber tudo sobre sua esposa, mas que não conhece seu passado. É um livro que coloca o tempo todo a questão do que é afinal blackness and whitness – o que são essas identidade? O que significa ser negro ou branco? O que é afinal essa “color line”? Isso não é respondido no livro, mas fica nas nossas cabecinhas pensantes.
 

 
Acredito também que Nella Larsen colocou muito de sua experiência de vida na novela. Nascida em Chicago, a autora também tinha descendência mista: afro-caribenha e dinamarquesa. Larsen morou em Nova York e, por um tempo, no bairro de suas protagonistas, o Harlem.

Infelizmente, não encontrei o livro em português, somente em inglês. Talvez ainda não tenha sido traduzido… Mas a linguagem em inglês até que é bem fácil e o livro não é longo. Ou seja, super recomendável pra quem gosta de novelas feministas mais clássicas (e quer treinar seu inglês!).
 

Imagem de capa feita a partir da edição do livro pela African/American Library

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