Existe uma expressão que diz que o “T” de LGBT na realidade significa “transparente”, e infelizmente isso é bem representativo da realidade. Embora os direitos LGB estejam avançando cada vez mais, existe uma discrepância grande com o dos Ts, que ainda enfrentam preconceito não só na sociedade como também no próprio meio LGBT. Estamos pela primeira vez na história vendo o mídia internacional mainstream retratar as pessoas trans com uma frequência cada vez maior, e com um olhar cada vez mais positivo, como no caso da atriz Laverne Cox e da ex-atleta olímpica Caityln Jenner. Mas esses passos (embora significativos) são passinhos de bebê na trajetória dos direitos das pessoas trans.
Um exemplo bastante aterrorizador disso foi a substituição do termo “gênero” por “sexo” no projeto da lei n.º 292/2013, também conhecida como a lei do feminicídio, que excluiu todas as mulheres trans da alçada de sua proteção. Como se feminicídio transfóbico NÃO EXISTISSE. Então, enquanto (graças aos céus) gays e lésbicas estão finalmente conquistando o direito ao casamento, homens e mulheres trans ainda precisam lutar por direitos como poder usar o banheiro que querem usar, serem chamados pelo nome correto, serem vistos como ser humanos pela sociedade, entre muitas e muitas outras coisas.
Tendo isso em mente, o jornal The New York Timescomeçou a fazer um trabalho bem legal para impulsionar a visibilidade trans. Estão publicando uma série de editorias sobre o assunto, além de publicarem depoimentos que as pessoas enviam, seja em forma de texto, fotos ou videos.
Você pode ter acesso a esse material aqui (os depoimentos estão na seção “Your Stories – Trans Voices“). Como o site infelizmente está disponível somente em inglês, fizemos uma tradução de quatro depoimentos. O texto em itálico é a legenda do vídeo, e o em redondo é o depoimento.
Agora, imagina se um jornal (ou qualquer outro veículo) brasileiro tomasse uma iniciativa dessas? Ainda temos muito chão pela frente…
Trans voices: J. Mase III
TRADUÇÃO DO VÍDEO:
Olá, meu nome é J Mase III e eu sou um poeta que reside no Bronx. Também sou fundador da organização “awQward”, a primeira agência de talentos específica para pessoas de cor trans e queer. É uma organização comandada exclusivamente por pessoas trans de cor, e eu compartilho essa informação porque isso é uma coisa muito rara. Quando eu me assumi trans uns onze, quase doze anos atrás, eu me assumi dentro de uma comunidade LGBTQ que não queria encorajar as nuances de se pensar em raça, não queriam encorajar as nuances de se pensar em classes sociais, e, mesmo eu, como uma pessoa transmasculina, não foi pedido de mim que eu pensasse sobre os meus privilégios em comparação à pessoas que são mulheres trans ou transfemininas. “awQward” surgiu da necessidade de ter essa conversa comigo mesmo e com outras pessoas em relação a arte, e também porque muitas vezes eu recebia respostas extremamente racistas e transfóbicas de estabelecimentos quando eu me candidatava para me apresentar, coisas como “Ah, você é negro? Bom, o mês da consciência negra [Black History Month] já terminou”, ou “Ah, você é trans? Bom, o dia em homenagem aos trans [Trans Day of Remembrance] já passou, então sua arte não precisa estar aqui”. Então, quando você pensa sobre o que significa conseguir ganhar a vida como artista trans de cor quando agências de talento LGTBQ não estão contratando artistas trans de cor, apesar de estarem cientes das estatísticas de pessoas trans desabrigadas e desempregadas e esse tipo de coisa, mostra que não veem a sua vida como tão importante quanto a de outros. “awQward” existe para preservar a história e trilha de um movimento que é muito inclusivo de pessoas trans de cor, que coloca pessoas trans de cor em papeis centrais e permite que suas vozes brilhantes estejam em primeiro plano. Tenho esperanças de que mudemos o movimento. Todos vocês que estão assistindo à esse vídeo e lendo o The New York Times, espalhem que vocês pensam sobre como racismo e supremacia branca afetam as experiências das pessoas trans, como misoginia e o patriarcado afetam, como preconceito de classe afeta. Não podemos ter essas conversas em bolhas isoladas, e eu espero que vocês se juntem a mim em pensar em como podemos ativamente mencionar essas coisas e injetar nossos recursos em locais e espaços carentes.
DEPOIMENTO:
Comecei a “sair do armário” como trans quando tinha por volta de 19 anos. Naquela época eu acreditava nesse mito bastante romântico de uma comunidade LGBTQ coesa. Como se todas as nossas questões fossem as mesmas, sabe? Essa história que é contada a respeito do que significa ser LGBTQ geralmente não inclui as nuances de raça, classe, imigração, status etc. Sendo uma pessoa trans e negra eu descobri que essas questões são muito faladas na comunidade LGBTQ, mas não de fato abordadas. Organizações LGBTQ sempre falam de nós na hora de falar das estatísticas dos desabrigados dentro da comunidade, ou da falta de acesso à saúde ou empregos, ou o risco de violência anti-LGBTQ… lá estávamos nós, pessoas trans de cor, principalmente mulheres trans de cor, no topo de todas as listas. Contudo, me vi lidando com muita supremacia branca, racismo e transfobia dentro de comunidades LGBTQ que promoviam discussões sobre justiça social sem nunca de fato confiar em pessoas trans de cor para assumir posições de liderança ou para criar projetos que nos dariam mais espaço. Como poeta, muitos dos estabelecimentos nos quais eu tentava me apresentar falavam coisas como “Ah, você é trans? Bom, o dia em homenagem aos trans [Trans Day of Remembrance] já passou… então não precisamos te pagar para você se apresentar”. Ou “Ah, você é negra, bom, nós tivemos uma pessoa negra trans se apresentar aqui dois anos atrás, então… não precisamos de você”. Existe uma ideia de que se você é trans e de cor, então menos pessoas conseguirão se relacionar com sua história quando ela não está “na moda”. Isso faz com que seja quase impossível ganhar a vida como performer trans de cor. Eu conversei com amigos meus que também são artistas e performers e vi que eles se deparavam com as mesmas barreiras. Então, com o apoio deles, criei o “awQward”. “awQward” é uma agência de talentos administrada por pessoas trans de cor para promover o trabalho de pessoas trans e queer de cor, e é a primeira agência desse tipo. Tenho esperanças de que artistas trans de cor consigam preservar nossa história e cultura, e consigam ganhar a vida fazendo aquilo que amam.
Trans Voices: Andy Marra
TRADUÇÃO DO VÍDEO:
Andy: Meu nome é Andy Marra.
Drew: Meu nome é Drew.
Andy: E estamos aqui hoje para falar sobre o nosso relacionamento.
Drew: Eu que falei “eu te amo” primeiro. Foi dois anos atrás, no nosso primeiro dia dos namorados juntos. Eu escrevi um cartão para ela e assinei “com amor” ao invés de “sinceramente”. Ela perguntou se eu falei sério quando eu escrevi aquilo, e eu falei “É claro que sim”. E depois disso falei “Eu te amo”.
Andy: E dai eu comecei a chorar. Eu choro muito.
Eu sou uma mulher trans e o Drew é um homem cis. É muito difícil para homens que sentem atração e estão em relacionamentos com pessoas como eu por conta do estigma que a sociedade coloca neles. Ele me levou para conhecer a família dele, e eu fiz o mesmo.
Drew: Essa foi a primeira vez, a única vez que eu pensei “Quero me casar”, eu nunca havia pensado em passar minha vida com outra pessoa.
Eu que pedi a Andy em casamento. Já vinha pensando nisso há um tempo. No ano novo a gente estava deitado na cama basicamente esperando a bola do Times Square cair e o ano virar e eu perguntei para ela se ela queria casar comigo.
Andy: No outono passado me deram um anel de diamantes que está na nossa família há quatro, cinco gerações. É bastante importante receber esse tipo de relíquia familiar, foi um jeito de meus pais darem sua bênção.
Drew: O que eu quero que as pessoas levem do nosso relacionamento é que, não importa o que aconteça com meu emprego ou com minha família, a Andy é o que dá cor à minha vida.
Andy: Drew é quem me deixa centrada, ele me lembra quais as coisas que eu realmente valorizo, quais coisas são as mais importantes para mim. É ele, e nossa vida juntos. Nós somos a cor e a gravidade um do outro.
DEPOIMENTO:
Em 2014 eu escrevi um ensaio sobre vivenciar o amor e relacionamentos como uma mulher trans. O texto que eu escrevi eliciou uma tremenda resposta, especialmente de outras mulheres trans que se identificavam com algumas das minhas experiências. Muitas expressavam suas frustrações e angústias sobre como eram tratadas por homens cis, levando algumas a concluir que seria impossível encontrar um parceiro. Eu não era exceção. Antes de conhecer o meu noivo, Drew, quase todos os homens que sentiam atração por mim insistiam que a gente mantivesse o nosso tempo juntos em segredo. Algo a nunca ser discutido com outras pessoas. Eles tinham medo do que os outros poderiam pensar, por estarem saindo com uma mulher como eu.
Meus amigos falavam cheios de felicidade sobre seus primeiros encontros ou relacionamentos novos. Não podia fazer nada além de ouvir educadamente e sorrir, nunca compartilhando muitos detalhes sobre quem eu estava namorando na época.
Viver uma vida repleta de segredos em troca de um relacionamento nunca me pareceu certo. E porque deveria? Como outras mulheres trans confrontadas por homens que não estavam dispostos a ser abertos e honestos em relação aos próprios sentimentos, eu paguei o preço do silêncio com meu senso de valor próprio.
Esse silêncio promoveu uma cultura profunda de estigma entre homens atraídos por mulheres trans. Ainda pior, esse silêncio deu aos outros homens permissão de polemizar, demonizar e brutalizar mulheres trans. Essa triste realidade é ainda mais forte se você é uma mulher trans de cor. Os moradores de Nova York não precisam ir muito longe para entender os perigos muito reais do silêncio. Faz menos de dois anos que Islan Nettles, de 21 anos, foi espancada por um grupo de homens até ficar inconsciente, porque era trans. Ela morreu quatro dias depois.
Precisamos que os homens criem um novo conceito de masculinidade que não condene outros homens por se sentirem atraídos por mulheres trans. Precisamos de uma masculinidade mais inclusiva que ajude a descontruir o preconceito, violência e discriminação que afetam todas as mulheres – independente de sua identidade de gênero.
Estar com Drew reafirmou o que eu deveria esperar de um homem. Eu mereço ser tratada com respeito. A honestidade deveria ser a base de qualquer relacionamento. E eu nunca deveria me silenciar ou esconder quem eu sou.
Como Drew gosta de dizer: “Você é quem dá cor à minha vida”. Espero que mais homens consigam finalmente reconhecer a beleza e o valor das mulheres trans em suas vidas.
Trans voices: Faye Seidler
DEPOIMENTO:
Eu nasci em Fargo, na Dakota do Norte, onde vivo até hoje, e eu trabalhava como técnica em um hospital. Eu comecei a trabalhar lá antes de fazer a transição, mas na minha avaliação de três meses eu os informei que estaria dando início à minha transição em breve.
A medida que os meses foram passando eles me interrogaram e intimidaram a respeito da minha identidade de gênero, desconsideraram que estavam se referindo a mim pelo gênero errado, me forçaram a trocar de roupa em um vestiário improvisado e me disseram que educar seus funcionários a respeito de gênero era a mesma coisa que os obrigar a aprender sobre a religião muçulmana como pré-requisito para o trabalho.
Durante todo esse tempo eu ofereci educá-los e tentei trabalhar junto com eles. Eu falei para eles que o que estavam fazendo constitui discriminação e que, enquanto uma pessoa pode deixar sua orientação sexual e religião fora de questões de trabalho, eu não podia parar de ser mulher.
A pior parte é que esse era o mesmo hospital no qual eu estava me tratando. Como era para eu confiar na habilidade do hospital de cuidar de mim como paciente, quando eles nem conseguiam cuidar de mim como funcionária? Eles, que deixavam de me ajudar, alegando que não eram obrigados por lei a fazê-lo?
Eu fiz tudo que podia para trabalhar com eles enquanto eu estava lá, mas quando eles se recusaram a se comunicar comigo eu soube que eu não conseguiria ter nenhuma troca significativa e que não valia a pena me submeter a essa condição hostil. Mas eu não sou só um indivíduo, eu faço parte de uma comunidade, e essa força me deu a perseverança de continuar a lutar pela educação e pelo tratamento justo. Me deu a coragem de depor na câmara de deputados da Dakota do Norte e tentar suscitar mudanças. Infelizmente, o deputado Robin Weisz escolheu ignorar meu depoimento e trabalhou para negar direitos iguais às pessoas LGBT.
Mas, ao passar por tudo isso, eu aprendi quem eu sou e do que eu sou capaz. Que eu consigo enfrentar pessoas hostis e indiferentes e falar o que penso. Que, como uma líder trans, oferecendo educação e assistência para a minha comunidade, eu não tenho medo de lutar. E, mais importante de tudo, que eu nunca vou desistir de lutar para ser tratada como ser humano.
Trans voices: Avery Jackson
TRADUÇÃO DO VÍDEO:
Oi, meu nome é Avery e eu tenho sete anos. Eu gosto de subir em árvores, ser uma ninja, fingir que eu sou um animal e todo tipo de coisa assim. Eu gosto de fingir que sou personagens de jogos de vídeo game, gosto de brincar com meu irmão… e é isso. Essas são as coisas que eu gosto de fazer. Ah! E eu sou trans. Quando eu nasci, os médicos falaram que eu era menino. Mas no meu coração eu sabia que eu era menina. Então eu tenho algumas partes do corpo que são de menino, mas isso não é errado, isso é ok! Quando eu estava no jardim de infância eu podia brincar de me fantasiar, e isso me deixava muito feliz, porque eu podia usar vestidos e simplesmente ser feliz. Às vezes eu brinco que eu sou um animal ou um ninja ou uma princesa, mas não significa que meus pais devem me tratar como se eu fosse essas coisas. É só de faz de conta. Mesmo eu sendo uma menina eu fiquei com medo de contar para os meus pais porque achei que eles iam parar de me amar e me expulsar de casa e não me dar mais comida ou coisas assim. Mas chegou uma hora que precisei contar para os meus pais, eu não conseguia mais guardar isso dentro de mim, era muito difícil eu ser alguém que não era realmente e ter eles me tratando como menino quando eu na verdade era uma menina. Meus pais me levaram para ver alguns médicos, e os médicos falaram que eu ficaria bem, contanto que deixassem eu ser uma menina. Meu amigos aceitaram bem quando eu comecei a me vestir como menina na pré-escola, mas seus pais não. Eles achavam que era contagioso, tipo catapora trans ou coisa parecida. Decidi sair da pré-escola, porque era melhor poder ser eu mesma e perder todos os meus amigos que continuar fingindo ser alguém que eu não sou. Eu pude comprar roupas novas e deixar o meu cabelo crescer, e agora meus novos amigos me conhecem como a garota que sou em meu coração e no meu cérebro. Eu já fiz ginástica de solo, dança, arco e flecha, tae-kwan-do, escoteiras, e muito mais. Sou uma garota normal. E eu pintei o meu cabelo três vezes! Ainda têm pessoas que não entendem ou que têm medo por eu ser um pouco diferente, mas a gente quer consertar isso! Algumas pessoas falam que eu não uso o banheiro certo ou não vou para o lavabo certo, mas quem se importa com as partes do meu corpo! Eu não pergunto o que tá dentro das suas roupas de baixo! Ser trans é difícil, mas você pode ser quem você quer ser. Eu tenho orgulho de quem eu sou, porque sou trans e sou uma menina, sou uma menina normal, uma menina trans normal como qualquer outra.
Depoimento escrito por Tom, pai de Avery:
Meu nome é Tom. Eu sou um marido, um pai, e, acima de tudo, tento ser um ser humano decente. Só digo esta última coisa porque recentemente houveram muitas pessoas direcionando comentários odiosos e vis para minha família.
Aos quatro anos minha filha revelou o verdadeiro eu dela quando declarou, de forma clara e articulada, “Na verdade eu sou uma menina, por dentro eu sou uma menina”. Essa declaração mudou a minha vida para sempre e é algo que eu não mudaria por nada nesse mundo. Agora, olhando para trás, vejo que os sinais no ano que precederam sua declaração foram claros. Uma criança que antes era feliz e despreocupada começou a ficar raivosa, deprimida, a se rebelar. Uma vez que nossa filha encontrou as palavras para expressar quem ela realmente era em seu coração e em seu cérebro, começamos a buscar a ajuda de médicos.
Levamos ela para o pediatra, para um terapeuta de crianças e um terapeuta de gênero. Nossa criança foi diagnosticada com disforia de gênero e nos foi dito que permitir que ela transicionasse e vivesse como menina seria o “tratamento” correto. A essa altura eu e minha esposa tentamos absorver toda informação possível que encontramos a respeito de crianças trans. A informação era escassa, mas o pouco que encontramos era muito perturbador. Mais de 50% das crianças trans tentam cometer suicido na metade ou no final da adolescência. Uma grande quantidade delas consegue. E a principal razão que essas crianças dão para tentar se machucar é falta de amor e apoio por parte de suas famílias e amigos. Eu e minha esposa decidimos que preferimos ter uma filha feliz e saudável que um filho morto.
Desde que começou sua transição, vimos surgir uma menina confiante e corajosa.
Ano passado alguns de vocês foram apresentados para a minha esposa, que inadvertidamente se tornou uma feroz defensora dos direitos da juventude LGBT, graças ao discurso que deu falando do amor que temos pela nossa filha. Recentemente, nossa filha pediu para contar a sua história – nas suas próprias palavras, porque ela tem orgulho de quem ela é e quer ajudar outras crianças como ela a “mudar o mundo”.
Eu só conto a nossa história porque existem pessoas que são desinformadas a respeito do que significa ser trans ou que pensam que nós, como pais, estamos forçando nossa filha a isso. Posso assegurar vocês que não é o caso. A única coisa que eu transmito para minha filha é muito simples: ame a si mesma e dê amor aos outros. É exatamente isso que eu pretendo fazer. Eu amo a minha filha por quem ela é, sem condições prévias, e eu prometo ajudá-la a se tornar um membro feliz, saudável e produtivo da sociedade. Afinal, não é isso que pais devem fazer?
Lembram quando semana passada a Suprema Corte dos EUA decidiu que o casamento de pessoas do mesmo sexo é um direito constitucional no país? O resultado foi uma linda explosão arco-íris no Facebook, graças a um aplicativo desenvolvido pela rede social que aplicava um filtro com as cores da bandeira LGBT na foto de perfil?
Esta semana o movimento é pela visibilidade trans, que tem sua própria bandeira. Só nesse mês, oito pessoas trans foram assassinadas brutalmente, simplesmente por serem quem são. Infelizmente, o Brasil é o 1º lugar no ranking de assassinatos de pessoas trans. Faça parte do movimento! Vista a foto do seu perfil no Facebook de rosa e azul clicando neste link e mostre que é contra a transfobia!
Existe uma expressão que diz que o “T” de LGBT na realidade significa “transparente”, e infelizmente isso é bem representativo da realidade. Embora os direitos LGB estejam avançando cada vez mais, existe uma discrepância grande com o dos Ts, que ainda enfrentam preconceito não só na sociedade como também no próprio meio LGBT. Estamos pela primeira vez na história vendo o mídia internacional mainstream retratar as pessoas trans com uma frequência cada vez maior, e com um olhar cada vez mais positivo, como no caso da atriz Laverne Cox e da ex-atleta olímpica Caityln Jenner. Mas esses passos (embora significativos) são passinhos de bebê na trajetória dos direitos das pessoas trans.
Um exemplo bastante aterrorizador disso foi a substituição do termo “gênero” por “sexo” no projeto da lei n.º 292/2013, também conhecida como a lei do feminicídio, que excluiu todas as mulheres trans da alçada de sua proteção. Como se feminicídio transfóbico NÃO EXISTISSE. Então, enquanto (graças aos céus) gays e lésbicas estão finalmente conquistando o direito ao casamento, homens e mulheres trans ainda precisam lutar por direitos como poder usar o banheiro que querem usar, serem chamados pelo nome correto, serem vistos como ser humanos pela sociedade, entre muitas e muitas outras coisas.
Tendo isso em mente, o jornal The New York Timescomeçou a fazer um trabalho bem legal para impulsionar a visibilidade trans. Estão publicando uma série de editorias sobre o assunto, além de publicarem depoimentos que as pessoas enviam, seja em forma de texto, fotos ou videos.
Você pode ter acesso a esse material aqui (os depoimentos estão na seção “Your Stories – Trans Voices“). Como o site infelizmente está disponível somente em inglês, fizemos uma tradução de quatro depoimentos. O texto em itálico é a legenda do vídeo, e o em redondo é o depoimento.
Agora, imagina se um jornal (ou qualquer outro veículo) brasileiro tomasse uma iniciativa dessas? Ainda temos muito chão pela frente…
Trans voices: J. Mase III
TRADUÇÃO DO VÍDEO:
Olá, meu nome é J Mase III e eu sou um poeta que reside no Bronx. Também sou fundador da organização “awQward”, a primeira agência de talentos específica para pessoas de cor trans e queer. É uma organização comandada exclusivamente por pessoas trans de cor, e eu compartilho essa informação porque isso é uma coisa muito rara. Quando eu me assumi trans uns onze, quase doze anos atrás, eu me assumi dentro de uma comunidade LGBTQ que não queria encorajar as nuances de se pensar em raça, não queriam encorajar as nuances de se pensar em classes sociais, e, mesmo eu, como uma pessoa transmasculina, não foi pedido de mim que eu pensasse sobre os meus privilégios em comparação à pessoas que são mulheres trans ou transfemininas. “awQward” surgiu da necessidade de ter essa conversa comigo mesmo e com outras pessoas em relação a arte, e também porque muitas vezes eu recebia respostas extremamente racistas e transfóbicas de estabelecimentos quando eu me candidatava para me apresentar, coisas como “Ah, você é negro? Bom, o mês da consciência negra [Black History Month] já terminou”, ou “Ah, você é trans? Bom, o dia em homenagem aos trans [Trans Day of Remembrance] já passou, então sua arte não precisa estar aqui”. Então, quando você pensa sobre o que significa conseguir ganhar a vida como artista trans de cor quando agências de talento LGTBQ não estão contratando artistas trans de cor, apesar de estarem cientes das estatísticas de pessoas trans desabrigadas e desempregadas e esse tipo de coisa, mostra que não veem a sua vida como tão importante quanto a de outros. “awQward” existe para preservar a história e trilha de um movimento que é muito inclusivo de pessoas trans de cor, que coloca pessoas trans de cor em papeis centrais e permite que suas vozes brilhantes estejam em primeiro plano. Tenho esperanças de que mudemos o movimento. Todos vocês que estão assistindo à esse vídeo e lendo o The New York Times, espalhem que vocês pensam sobre como racismo e supremacia branca afetam as experiências das pessoas trans, como misoginia e o patriarcado afetam, como preconceito de classe afeta. Não podemos ter essas conversas em bolhas isoladas, e eu espero que vocês se juntem a mim em pensar em como podemos ativamente mencionar essas coisas e injetar nossos recursos em locais e espaços carentes.
DEPOIMENTO:
Comecei a “sair do armário” como trans quando tinha por volta de 19 anos. Naquela época eu acreditava nesse mito bastante romântico de uma comunidade LGBTQ coesa. Como se todas as nossas questões fossem as mesmas, sabe? Essa história que é contada a respeito do que significa ser LGBTQ geralmente não inclui as nuances de raça, classe, imigração, status etc. Sendo uma pessoa trans e negra eu descobri que essas questões são muito faladas na comunidade LGBTQ, mas não de fato abordadas. Organizações LGBTQ sempre falam de nós na hora de falar das estatísticas dos desabrigados dentro da comunidade, ou da falta de acesso à saúde ou empregos, ou o risco de violência anti-LGBTQ… lá estávamos nós, pessoas trans de cor, principalmente mulheres trans de cor, no topo de todas as listas. Contudo, me vi lidando com muita supremacia branca, racismo e transfobia dentro de comunidades LGBTQ que promoviam discussões sobre justiça social sem nunca de fato confiar em pessoas trans de cor para assumir posições de liderança ou para criar projetos que nos dariam mais espaço. Como poeta, muitos dos estabelecimentos nos quais eu tentava me apresentar falavam coisas como “Ah, você é trans? Bom, o dia em homenagem aos trans [Trans Day of Remembrance] já passou… então não precisamos te pagar para você se apresentar”. Ou “Ah, você é negra, bom, nós tivemos uma pessoa negra trans se apresentar aqui dois anos atrás, então… não precisamos de você”. Existe uma ideia de que se você é trans e de cor, então menos pessoas conseguirão se relacionar com sua história quando ela não está “na moda”. Isso faz com que seja quase impossível ganhar a vida como performer trans de cor. Eu conversei com amigos meus que também são artistas e performers e vi que eles se deparavam com as mesmas barreiras. Então, com o apoio deles, criei o “awQward”. “awQward” é uma agência de talentos administrada por pessoas trans de cor para promover o trabalho de pessoas trans e queer de cor, e é a primeira agência desse tipo. Tenho esperanças de que artistas trans de cor consigam preservar nossa história e cultura, e consigam ganhar a vida fazendo aquilo que amam.
Trans Voices: Andy Marra
TRADUÇÃO DO VÍDEO:
Andy: Meu nome é Andy Marra.
Drew: Meu nome é Drew.
Andy: E estamos aqui hoje para falar sobre o nosso relacionamento.
Drew: Eu que falei “eu te amo” primeiro. Foi dois anos atrás, no nosso primeiro dia dos namorados juntos. Eu escrevi um cartão para ela e assinei “com amor” ao invés de “sinceramente”. Ela perguntou se eu falei sério quando eu escrevi aquilo, e eu falei “É claro que sim”. E depois disso falei “Eu te amo”.
Andy: E dai eu comecei a chorar. Eu choro muito.
Eu sou uma mulher trans e o Drew é um homem cis. É muito difícil para homens que sentem atração e estão em relacionamentos com pessoas como eu por conta do estigma que a sociedade coloca neles. Ele me levou para conhecer a família dele, e eu fiz o mesmo.
Drew: Essa foi a primeira vez, a única vez que eu pensei “Quero me casar”, eu nunca havia pensado em passar minha vida com outra pessoa.
Eu que pedi a Andy em casamento. Já vinha pensando nisso há um tempo. No ano novo a gente estava deitado na cama basicamente esperando a bola do Times Square cair e o ano virar e eu perguntei para ela se ela queria casar comigo.
Andy: No outono passado me deram um anel de diamantes que está na nossa família há quatro, cinco gerações. É bastante importante receber esse tipo de relíquia familiar, foi um jeito de meus pais darem sua bênção.
Drew: O que eu quero que as pessoas levem do nosso relacionamento é que, não importa o que aconteça com meu emprego ou com minha família, a Andy é o que dá cor à minha vida.
Andy: Drew é quem me deixa centrada, ele me lembra quais as coisas que eu realmente valorizo, quais coisas são as mais importantes para mim. É ele, e nossa vida juntos. Nós somos a cor e a gravidade um do outro.
DEPOIMENTO:
Em 2014 eu escrevi um ensaio sobre vivenciar o amor e relacionamentos como uma mulher trans. O texto que eu escrevi eliciou uma tremenda resposta, especialmente de outras mulheres trans que se identificavam com algumas das minhas experiências. Muitas expressavam suas frustrações e angústias sobre como eram tratadas por homens cis, levando algumas a concluir que seria impossível encontrar um parceiro. Eu não era exceção. Antes de conhecer o meu noivo, Drew, quase todos os homens que sentiam atração por mim insistiam que a gente mantivesse o nosso tempo juntos em segredo. Algo a nunca ser discutido com outras pessoas. Eles tinham medo do que os outros poderiam pensar, por estarem saindo com uma mulher como eu.
Meus amigos falavam cheios de felicidade sobre seus primeiros encontros ou relacionamentos novos. Não podia fazer nada além de ouvir educadamente e sorrir, nunca compartilhando muitos detalhes sobre quem eu estava namorando na época.
Viver uma vida repleta de segredos em troca de um relacionamento nunca me pareceu certo. E porque deveria? Como outras mulheres trans confrontadas por homens que não estavam dispostos a ser abertos e honestos em relação aos próprios sentimentos, eu paguei o preço do silêncio com meu senso de valor próprio.
Esse silêncio promoveu uma cultura profunda de estigma entre homens atraídos por mulheres trans. Ainda pior, esse silêncio deu aos outros homens permissão de polemizar, demonizar e brutalizar mulheres trans. Essa triste realidade é ainda mais forte se você é uma mulher trans de cor. Os moradores de Nova York não precisam ir muito longe para entender os perigos muito reais do silêncio. Faz menos de dois anos que Islan Nettles, de 21 anos, foi espancada por um grupo de homens até ficar inconsciente, porque era trans. Ela morreu quatro dias depois.
Precisamos que os homens criem um novo conceito de masculinidade que não condene outros homens por se sentirem atraídos por mulheres trans. Precisamos de uma masculinidade mais inclusiva que ajude a descontruir o preconceito, violência e discriminação que afetam todas as mulheres – independente de sua identidade de gênero.
Estar com Drew reafirmou o que eu deveria esperar de um homem. Eu mereço ser tratada com respeito. A honestidade deveria ser a base de qualquer relacionamento. E eu nunca deveria me silenciar ou esconder quem eu sou.
Como Drew gosta de dizer: “Você é quem dá cor à minha vida”. Espero que mais homens consigam finalmente reconhecer a beleza e o valor das mulheres trans em suas vidas.
Trans voices: Faye Seidler
DEPOIMENTO:
Eu nasci em Fargo, na Dakota do Norte, onde vivo até hoje, e eu trabalhava como técnica em um hospital. Eu comecei a trabalhar lá antes de fazer a transição, mas na minha avaliação de três meses eu os informei que estaria dando início à minha transição em breve.
A medida que os meses foram passando eles me interrogaram e intimidaram a respeito da minha identidade de gênero, desconsideraram que estavam se referindo a mim pelo gênero errado, me forçaram a trocar de roupa em um vestiário improvisado e me disseram que educar seus funcionários a respeito de gênero era a mesma coisa que os obrigar a aprender sobre a religião muçulmana como pré-requisito para o trabalho.
Durante todo esse tempo eu ofereci educá-los e tentei trabalhar junto com eles. Eu falei para eles que o que estavam fazendo constitui discriminação e que, enquanto uma pessoa pode deixar sua orientação sexual e religião fora de questões de trabalho, eu não podia parar de ser mulher.
A pior parte é que esse era o mesmo hospital no qual eu estava me tratando. Como era para eu confiar na habilidade do hospital de cuidar de mim como paciente, quando eles nem conseguiam cuidar de mim como funcionária? Eles, que deixavam de me ajudar, alegando que não eram obrigados por lei a fazê-lo?
Eu fiz tudo que podia para trabalhar com eles enquanto eu estava lá, mas quando eles se recusaram a se comunicar comigo eu soube que eu não conseguiria ter nenhuma troca significativa e que não valia a pena me submeter a essa condição hostil. Mas eu não sou só um indivíduo, eu faço parte de uma comunidade, e essa força me deu a perseverança de continuar a lutar pela educação e pelo tratamento justo. Me deu a coragem de depor na câmara de deputados da Dakota do Norte e tentar suscitar mudanças. Infelizmente, o deputado Robin Weisz escolheu ignorar meu depoimento e trabalhou para negar direitos iguais às pessoas LGBT.
Mas, ao passar por tudo isso, eu aprendi quem eu sou e do que eu sou capaz. Que eu consigo enfrentar pessoas hostis e indiferentes e falar o que penso. Que, como uma líder trans, oferecendo educação e assistência para a minha comunidade, eu não tenho medo de lutar. E, mais importante de tudo, que eu nunca vou desistir de lutar para ser tratada como ser humano.
Trans voices: Avery Jackson
TRADUÇÃO DO VÍDEO:
Oi, meu nome é Avery e eu tenho sete anos. Eu gosto de subir em árvores, ser uma ninja, fingir que eu sou um animal e todo tipo de coisa assim. Eu gosto de fingir que sou personagens de jogos de vídeo game, gosto de brincar com meu irmão… e é isso. Essas são as coisas que eu gosto de fazer. Ah! E eu sou trans. Quando eu nasci, os médicos falaram que eu era menino. Mas no meu coração eu sabia que eu era menina. Então eu tenho algumas partes do corpo que são de menino, mas isso não é errado, isso é ok! Quando eu estava no jardim de infância eu podia brincar de me fantasiar, e isso me deixava muito feliz, porque eu podia usar vestidos e simplesmente ser feliz. Às vezes eu brinco que eu sou um animal ou um ninja ou uma princesa, mas não significa que meus pais devem me tratar como se eu fosse essas coisas. É só de faz de conta. Mesmo eu sendo uma menina eu fiquei com medo de contar para os meus pais porque achei que eles iam parar de me amar e me expulsar de casa e não me dar mais comida ou coisas assim. Mas chegou uma hora que precisei contar para os meus pais, eu não conseguia mais guardar isso dentro de mim, era muito difícil eu ser alguém que não era realmente e ter eles me tratando como menino quando eu na verdade era uma menina. Meus pais me levaram para ver alguns médicos, e os médicos falaram que eu ficaria bem, contanto que deixassem eu ser uma menina. Meu amigos aceitaram bem quando eu comecei a me vestir como menina na pré-escola, mas seus pais não. Eles achavam que era contagioso, tipo catapora trans ou coisa parecida. Decidi sair da pré-escola, porque era melhor poder ser eu mesma e perder todos os meus amigos que continuar fingindo ser alguém que eu não sou. Eu pude comprar roupas novas e deixar o meu cabelo crescer, e agora meus novos amigos me conhecem como a garota que sou em meu coração e no meu cérebro. Eu já fiz ginástica de solo, dança, arco e flecha, tae-kwan-do, escoteiras, e muito mais. Sou uma garota normal. E eu pintei o meu cabelo três vezes! Ainda têm pessoas que não entendem ou que têm medo por eu ser um pouco diferente, mas a gente quer consertar isso! Algumas pessoas falam que eu não uso o banheiro certo ou não vou para o lavabo certo, mas quem se importa com as partes do meu corpo! Eu não pergunto o que tá dentro das suas roupas de baixo! Ser trans é difícil, mas você pode ser quem você quer ser. Eu tenho orgulho de quem eu sou, porque sou trans e sou uma menina, sou uma menina normal, uma menina trans normal como qualquer outra.
Depoimento escrito por Tom, pai de Avery:
Meu nome é Tom. Eu sou um marido, um pai, e, acima de tudo, tento ser um ser humano decente. Só digo esta última coisa porque recentemente houveram muitas pessoas direcionando comentários odiosos e vis para minha família.
Aos quatro anos minha filha revelou o verdadeiro eu dela quando declarou, de forma clara e articulada, “Na verdade eu sou uma menina, por dentro eu sou uma menina”. Essa declaração mudou a minha vida para sempre e é algo que eu não mudaria por nada nesse mundo. Agora, olhando para trás, vejo que os sinais no ano que precederam sua declaração foram claros. Uma criança que antes era feliz e despreocupada começou a ficar raivosa, deprimida, a se rebelar. Uma vez que nossa filha encontrou as palavras para expressar quem ela realmente era em seu coração e em seu cérebro, começamos a buscar a ajuda de médicos.
Levamos ela para o pediatra, para um terapeuta de crianças e um terapeuta de gênero. Nossa criança foi diagnosticada com disforia de gênero e nos foi dito que permitir que ela transicionasse e vivesse como menina seria o “tratamento” correto. A essa altura eu e minha esposa tentamos absorver toda informação possível que encontramos a respeito de crianças trans. A informação era escassa, mas o pouco que encontramos era muito perturbador. Mais de 50% das crianças trans tentam cometer suicido na metade ou no final da adolescência. Uma grande quantidade delas consegue. E a principal razão que essas crianças dão para tentar se machucar é falta de amor e apoio por parte de suas famílias e amigos. Eu e minha esposa decidimos que preferimos ter uma filha feliz e saudável que um filho morto.
Desde que começou sua transição, vimos surgir uma menina confiante e corajosa.
Ano passado alguns de vocês foram apresentados para a minha esposa, que inadvertidamente se tornou uma feroz defensora dos direitos da juventude LGBT, graças ao discurso que deu falando do amor que temos pela nossa filha. Recentemente, nossa filha pediu para contar a sua história – nas suas próprias palavras, porque ela tem orgulho de quem ela é e quer ajudar outras crianças como ela a “mudar o mundo”.
Eu só conto a nossa história porque existem pessoas que são desinformadas a respeito do que significa ser trans ou que pensam que nós, como pais, estamos forçando nossa filha a isso. Posso assegurar vocês que não é o caso. A única coisa que eu transmito para minha filha é muito simples: ame a si mesma e dê amor aos outros. É exatamente isso que eu pretendo fazer. Eu amo a minha filha por quem ela é, sem condições prévias, e eu prometo ajudá-la a se tornar um membro feliz, saudável e produtivo da sociedade. Afinal, não é isso que pais devem fazer?
Lembram quando semana passada a Suprema Corte dos EUA decidiu que o casamento de pessoas do mesmo sexo é um direito constitucional no país? O resultado foi uma linda explosão arco-íris no Facebook, graças a um aplicativo desenvolvido pela rede social que aplicava um filtro com as cores da bandeira LGBT na foto de perfil?
Esta semana o movimento é pela visibilidade trans, que tem sua própria bandeira. Só nesse mês, oito pessoas trans foram assassinadas brutalmente, simplesmente por serem quem são. Infelizmente, o Brasil é o 1º lugar no ranking de assassinatos de pessoas trans. Faça parte do movimento! Vista a foto do seu perfil no Facebook de rosa e azul clicando neste link e mostre que é contra a transfobia!
Existe uma expressão que diz que o “T” de LGBT na realidade significa “transparente”, e infelizmente isso é bem representativo da realidade. Embora os direitos LGB estejam avançando cada vez mais, existe uma discrepância grande com o dos Ts, que ainda enfrentam preconceito não só na sociedade como também no próprio meio LGBT. Estamos pela primeira vez na história vendo o mídia internacional mainstream retratar as pessoas trans com uma frequência cada vez maior, e com um olhar cada vez mais positivo, como no caso da atriz Laverne Cox e da ex-atleta olímpica Caityln Jenner. Mas esses passos (embora significativos) são passinhos de bebê na trajetória dos direitos das pessoas trans.
Um exemplo bastante aterrorizador disso foi a substituição do termo “gênero” por “sexo” no projeto da lei n.º 292/2013, também conhecida como a lei do feminicídio, que excluiu todas as mulheres trans da alçada de sua proteção. Como se feminicídio transfóbico NÃO EXISTISSE. Então, enquanto (graças aos céus) gays e lésbicas estão finalmente conquistando o direito ao casamento, homens e mulheres trans ainda precisam lutar por direitos como poder usar o banheiro que querem usar, serem chamados pelo nome correto, serem vistos como ser humanos pela sociedade, entre muitas e muitas outras coisas.
Tendo isso em mente, o jornal The New York Timescomeçou a fazer um trabalho bem legal para impulsionar a visibilidade trans. Estão publicando uma série de editorias sobre o assunto, além de publicarem depoimentos que as pessoas enviam, seja em forma de texto, fotos ou videos.
Você pode ter acesso a esse material aqui (os depoimentos estão na seção “Your Stories – Trans Voices“). Como o site infelizmente está disponível somente em inglês, fizemos uma tradução de quatro depoimentos. O texto em itálico é a legenda do vídeo, e o em redondo é o depoimento.
Agora, imagina se um jornal (ou qualquer outro veículo) brasileiro tomasse uma iniciativa dessas? Ainda temos muito chão pela frente…
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Trans voices: J. Mase III
TRADUÇÃO DO VÍDEO:
Olá, meu nome é J Mase III e eu sou um poeta que reside no Bronx. Também sou fundador da organização “awQward”, a primeira agência de talentos específica para pessoas de cor trans e queer. É uma organização comandada exclusivamente por pessoas trans de cor, e eu compartilho essa informação porque isso é uma coisa muito rara. Quando eu me assumi trans uns onze, quase doze anos atrás, eu me assumi dentro de uma comunidade LGBTQ que não queria encorajar as nuances de se pensar em raça, não queriam encorajar as nuances de se pensar em classes sociais, e, mesmo eu, como uma pessoa transmasculina, não foi pedido de mim que eu pensasse sobre os meus privilégios em comparação à pessoas que são mulheres trans ou transfemininas. “awQward” surgiu da necessidade de ter essa conversa comigo mesmo e com outras pessoas em relação a arte, e também porque muitas vezes eu recebia respostas extremamente racistas e transfóbicas de estabelecimentos quando eu me candidatava para me apresentar, coisas como “Ah, você é negro? Bom, o mês da consciência negra [Black History Month] já terminou”, ou “Ah, você é trans? Bom, o dia em homenagem aos trans [Trans Day of Remembrance] já passou, então sua arte não precisa estar aqui”. Então, quando você pensa sobre o que significa conseguir ganhar a vida como artista trans de cor quando agências de talento LGTBQ não estão contratando artistas trans de cor, apesar de estarem cientes das estatísticas de pessoas trans desabrigadas e desempregadas e esse tipo de coisa, mostra que não veem a sua vida como tão importante quanto a de outros. “awQward” existe para preservar a história e trilha de um movimento que é muito inclusivo de pessoas trans de cor, que coloca pessoas trans de cor em papeis centrais e permite que suas vozes brilhantes estejam em primeiro plano. Tenho esperanças de que mudemos o movimento. Todos vocês que estão assistindo à esse vídeo e lendo o The New York Times, espalhem que vocês pensam sobre como racismo e supremacia branca afetam as experiências das pessoas trans, como misoginia e o patriarcado afetam, como preconceito de classe afeta. Não podemos ter essas conversas em bolhas isoladas, e eu espero que vocês se juntem a mim em pensar em como podemos ativamente mencionar essas coisas e injetar nossos recursos em locais e espaços carentes.
DEPOIMENTO:
Comecei a “sair do armário” como trans quando tinha por volta de 19 anos. Naquela época eu acreditava nesse mito bastante romântico de uma comunidade LGBTQ coesa. Como se todas as nossas questões fossem as mesmas, sabe? Essa história que é contada a respeito do que significa ser LGBTQ geralmente não inclui as nuances de raça, classe, imigração, status etc. Sendo uma pessoa trans e negra eu descobri que essas questões são muito faladas na comunidade LGBTQ, mas não de fato abordadas. Organizações LGBTQ sempre falam de nós na hora de falar das estatísticas dos desabrigados dentro da comunidade, ou da falta de acesso à saúde ou empregos, ou o risco de violência anti-LGBTQ… lá estávamos nós, pessoas trans de cor, principalmente mulheres trans de cor, no topo de todas as listas. Contudo, me vi lidando com muita supremacia branca, racismo e transfobia dentro de comunidades LGBTQ que promoviam discussões sobre justiça social sem nunca de fato confiar em pessoas trans de cor para assumir posições de liderança ou para criar projetos que nos dariam mais espaço. Como poeta, muitos dos estabelecimentos nos quais eu tentava me apresentar falavam coisas como “Ah, você é trans? Bom, o dia em homenagem aos trans [Trans Day of Remembrance] já passou… então não precisamos te pagar para você se apresentar”. Ou “Ah, você é negra, bom, nós tivemos uma pessoa negra trans se apresentar aqui dois anos atrás, então… não precisamos de você”. Existe uma ideia de que se você é trans e de cor, então menos pessoas conseguirão se relacionar com sua história quando ela não está “na moda”. Isso faz com que seja quase impossível ganhar a vida como performer trans de cor. Eu conversei com amigos meus que também são artistas e performers e vi que eles se deparavam com as mesmas barreiras. Então, com o apoio deles, criei o “awQward”. “awQward” é uma agência de talentos administrada por pessoas trans de cor para promover o trabalho de pessoas trans e queer de cor, e é a primeira agência desse tipo. Tenho esperanças de que artistas trans de cor consigam preservar nossa história e cultura, e consigam ganhar a vida fazendo aquilo que amam.
Trans Voices: Andy Marra
TRADUÇÃO DO VÍDEO:
Andy: Meu nome é Andy Marra.
Drew: Meu nome é Drew.
Andy: E estamos aqui hoje para falar sobre o nosso relacionamento.
Drew: Eu que falei “eu te amo” primeiro. Foi dois anos atrás, no nosso primeiro dia dos namorados juntos. Eu escrevi um cartão para ela e assinei “com amor” ao invés de “sinceramente”. Ela perguntou se eu falei sério quando eu escrevi aquilo, e eu falei “É claro que sim”. E depois disso falei “Eu te amo”.
Andy: E dai eu comecei a chorar. Eu choro muito.
Eu sou uma mulher trans e o Drew é um homem cis. É muito difícil para homens que sentem atração e estão em relacionamentos com pessoas como eu por conta do estigma que a sociedade coloca neles. Ele me levou para conhecer a família dele, e eu fiz o mesmo.
Drew: Essa foi a primeira vez, a única vez que eu pensei “Quero me casar”, eu nunca havia pensado em passar minha vida com outra pessoa.
Eu que pedi a Andy em casamento. Já vinha pensando nisso há um tempo. No ano novo a gente estava deitado na cama basicamente esperando a bola do Times Square cair e o ano virar e eu perguntei para ela se ela queria casar comigo.
Andy: No outono passado me deram um anel de diamantes que está na nossa família há quatro, cinco gerações. É bastante importante receber esse tipo de relíquia familiar, foi um jeito de meus pais darem sua bênção.
Drew: O que eu quero que as pessoas levem do nosso relacionamento é que, não importa o que aconteça com meu emprego ou com minha família, a Andy é o que dá cor à minha vida.
Andy: Drew é quem me deixa centrada, ele me lembra quais as coisas que eu realmente valorizo, quais coisas são as mais importantes para mim. É ele, e nossa vida juntos. Nós somos a cor e a gravidade um do outro.
DEPOIMENTO:
Em 2014 eu escrevi um ensaio sobre vivenciar o amor e relacionamentos como uma mulher trans. O texto que eu escrevi eliciou uma tremenda resposta, especialmente de outras mulheres trans que se identificavam com algumas das minhas experiências. Muitas expressavam suas frustrações e angústias sobre como eram tratadas por homens cis, levando algumas a concluir que seria impossível encontrar um parceiro. Eu não era exceção. Antes de conhecer o meu noivo, Drew, quase todos os homens que sentiam atração por mim insistiam que a gente mantivesse o nosso tempo juntos em segredo. Algo a nunca ser discutido com outras pessoas. Eles tinham medo do que os outros poderiam pensar, por estarem saindo com uma mulher como eu.
Meus amigos falavam cheios de felicidade sobre seus primeiros encontros ou relacionamentos novos. Não podia fazer nada além de ouvir educadamente e sorrir, nunca compartilhando muitos detalhes sobre quem eu estava namorando na época.
Viver uma vida repleta de segredos em troca de um relacionamento nunca me pareceu certo. E porque deveria? Como outras mulheres trans confrontadas por homens que não estavam dispostos a ser abertos e honestos em relação aos próprios sentimentos, eu paguei o preço do silêncio com meu senso de valor próprio.
Esse silêncio promoveu uma cultura profunda de estigma entre homens atraídos por mulheres trans. Ainda pior, esse silêncio deu aos outros homens permissão de polemizar, demonizar e brutalizar mulheres trans. Essa triste realidade é ainda mais forte se você é uma mulher trans de cor. Os moradores de Nova York não precisam ir muito longe para entender os perigos muito reais do silêncio. Faz menos de dois anos que Islan Nettles, de 21 anos, foi espancada por um grupo de homens até ficar inconsciente, porque era trans. Ela morreu quatro dias depois.
Precisamos que os homens criem um novo conceito de masculinidade que não condene outros homens por se sentirem atraídos por mulheres trans. Precisamos de uma masculinidade mais inclusiva que ajude a descontruir o preconceito, violência e discriminação que afetam todas as mulheres – independente de sua identidade de gênero.
Estar com Drew reafirmou o que eu deveria esperar de um homem. Eu mereço ser tratada com respeito. A honestidade deveria ser a base de qualquer relacionamento. E eu nunca deveria me silenciar ou esconder quem eu sou.
Como Drew gosta de dizer: “Você é quem dá cor à minha vida”. Espero que mais homens consigam finalmente reconhecer a beleza e o valor das mulheres trans em suas vidas.
Trans voices: Faye Seidler
DEPOIMENTO:
Eu nasci em Fargo, na Dakota do Norte, onde vivo até hoje, e eu trabalhava como técnica em um hospital. Eu comecei a trabalhar lá antes de fazer a transição, mas na minha avaliação de três meses eu os informei que estaria dando início à minha transição em breve.
A medida que os meses foram passando eles me interrogaram e intimidaram a respeito da minha identidade de gênero, desconsideraram que estavam se referindo a mim pelo gênero errado, me forçaram a trocar de roupa em um vestiário improvisado e me disseram que educar seus funcionários a respeito de gênero era a mesma coisa que os obrigar a aprender sobre a religião muçulmana como pré-requisito para o trabalho.
Durante todo esse tempo eu ofereci educá-los e tentei trabalhar junto com eles. Eu falei para eles que o que estavam fazendo constitui discriminação e que, enquanto uma pessoa pode deixar sua orientação sexual e religião fora de questões de trabalho, eu não podia parar de ser mulher.
A pior parte é que esse era o mesmo hospital no qual eu estava me tratando. Como era para eu confiar na habilidade do hospital de cuidar de mim como paciente, quando eles nem conseguiam cuidar de mim como funcionária? Eles, que deixavam de me ajudar, alegando que não eram obrigados por lei a fazê-lo?
Eu fiz tudo que podia para trabalhar com eles enquanto eu estava lá, mas quando eles se recusaram a se comunicar comigo eu soube que eu não conseguiria ter nenhuma troca significativa e que não valia a pena me submeter a essa condição hostil. Mas eu não sou só um indivíduo, eu faço parte de uma comunidade, e essa força me deu a perseverança de continuar a lutar pela educação e pelo tratamento justo. Me deu a coragem de depor na câmara de deputados da Dakota do Norte e tentar suscitar mudanças. Infelizmente, o deputado Robin Weisz escolheu ignorar meu depoimento e trabalhou para negar direitos iguais às pessoas LGBT.
Mas, ao passar por tudo isso, eu aprendi quem eu sou e do que eu sou capaz. Que eu consigo enfrentar pessoas hostis e indiferentes e falar o que penso. Que, como uma líder trans, oferecendo educação e assistência para a minha comunidade, eu não tenho medo de lutar. E, mais importante de tudo, que eu nunca vou desistir de lutar para ser tratada como ser humano.
Trans voices: Avery Jackson
TRADUÇÃO DO VÍDEO:
Oi, meu nome é Avery e eu tenho sete anos. Eu gosto de subir em árvores, ser uma ninja, fingir que eu sou um animal e todo tipo de coisa assim. Eu gosto de fingir que sou personagens de jogos de vídeo game, gosto de brincar com meu irmão… e é isso. Essas são as coisas que eu gosto de fazer. Ah! E eu sou trans. Quando eu nasci, os médicos falaram que eu era menino. Mas no meu coração eu sabia que eu era menina. Então eu tenho algumas partes do corpo que são de menino, mas isso não é errado, isso é ok! Quando eu estava no jardim de infância eu podia brincar de me fantasiar, e isso me deixava muito feliz, porque eu podia usar vestidos e simplesmente ser feliz. Às vezes eu brinco que eu sou um animal ou um ninja ou uma princesa, mas não significa que meus pais devem me tratar como se eu fosse essas coisas. É só de faz de conta. Mesmo eu sendo uma menina eu fiquei com medo de contar para os meus pais porque achei que eles iam parar de me amar e me expulsar de casa e não me dar mais comida ou coisas assim. Mas chegou uma hora que precisei contar para os meus pais, eu não conseguia mais guardar isso dentro de mim, era muito difícil eu ser alguém que não era realmente e ter eles me tratando como menino quando eu na verdade era uma menina. Meus pais me levaram para ver alguns médicos, e os médicos falaram que eu ficaria bem, contanto que deixassem eu ser uma menina. Meu amigos aceitaram bem quando eu comecei a me vestir como menina na pré-escola, mas seus pais não. Eles achavam que era contagioso, tipo catapora trans ou coisa parecida. Decidi sair da pré-escola, porque era melhor poder ser eu mesma e perder todos os meus amigos que continuar fingindo ser alguém que eu não sou. Eu pude comprar roupas novas e deixar o meu cabelo crescer, e agora meus novos amigos me conhecem como a garota que sou em meu coração e no meu cérebro. Eu já fiz ginástica de solo, dança, arco e flecha, tae-kwan-do, escoteiras, e muito mais. Sou uma garota normal. E eu pintei o meu cabelo três vezes! Ainda têm pessoas que não entendem ou que têm medo por eu ser um pouco diferente, mas a gente quer consertar isso! Algumas pessoas falam que eu não uso o banheiro certo ou não vou para o lavabo certo, mas quem se importa com as partes do meu corpo! Eu não pergunto o que tá dentro das suas roupas de baixo! Ser trans é difícil, mas você pode ser quem você quer ser. Eu tenho orgulho de quem eu sou, porque sou trans e sou uma menina, sou uma menina normal, uma menina trans normal como qualquer outra.
Depoimento escrito por Tom, pai de Avery:
Meu nome é Tom. Eu sou um marido, um pai, e, acima de tudo, tento ser um ser humano decente. Só digo esta última coisa porque recentemente houveram muitas pessoas direcionando comentários odiosos e vis para minha família.
Aos quatro anos minha filha revelou o verdadeiro eu dela quando declarou, de forma clara e articulada, “Na verdade eu sou uma menina, por dentro eu sou uma menina”. Essa declaração mudou a minha vida para sempre e é algo que eu não mudaria por nada nesse mundo. Agora, olhando para trás, vejo que os sinais no ano que precederam sua declaração foram claros. Uma criança que antes era feliz e despreocupada começou a ficar raivosa, deprimida, a se rebelar. Uma vez que nossa filha encontrou as palavras para expressar quem ela realmente era em seu coração e em seu cérebro, começamos a buscar a ajuda de médicos.
Levamos ela para o pediatra, para um terapeuta de crianças e um terapeuta de gênero. Nossa criança foi diagnosticada com disforia de gênero e nos foi dito que permitir que ela transicionasse e vivesse como menina seria o “tratamento” correto. A essa altura eu e minha esposa tentamos absorver toda informação possível que encontramos a respeito de crianças trans. A informação era escassa, mas o pouco que encontramos era muito perturbador. Mais de 50% das crianças trans tentam cometer suicido na metade ou no final da adolescência. Uma grande quantidade delas consegue. E a principal razão que essas crianças dão para tentar se machucar é falta de amor e apoio por parte de suas famílias e amigos. Eu e minha esposa decidimos que preferimos ter uma filha feliz e saudável que um filho morto.
Desde que começou sua transição, vimos surgir uma menina confiante e corajosa.
Ano passado alguns de vocês foram apresentados para a minha esposa, que inadvertidamente se tornou uma feroz defensora dos direitos da juventude LGBT, graças ao discurso que deu falando do amor que temos pela nossa filha. Recentemente, nossa filha pediu para contar a sua história – nas suas próprias palavras, porque ela tem orgulho de quem ela é e quer ajudar outras crianças como ela a “mudar o mundo”.
Eu só conto a nossa história porque existem pessoas que são desinformadas a respeito do que significa ser trans ou que pensam que nós, como pais, estamos forçando nossa filha a isso. Posso assegurar vocês que não é o caso. A única coisa que eu transmito para minha filha é muito simples: ame a si mesma e dê amor aos outros. É exatamente isso que eu pretendo fazer. Eu amo a minha filha por quem ela é, sem condições prévias, e eu prometo ajudá-la a se tornar um membro feliz, saudável e produtivo da sociedade. Afinal, não é isso que pais devem fazer?
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Lembram quando semana passada a Suprema Corte dos EUA decidiu que o casamento de pessoas do mesmo sexo é um direito constitucional no país? O resultado foi uma linda explosão arco-íris no Facebook, graças a um aplicativo desenvolvido pela rede social que aplicava um filtro com as cores da bandeira LGBT na foto de perfil?
Esta semana o movimento é pela visibilidade trans, que tem sua própria bandeira. Só nesse mês, oito pessoas trans foram assassinadas brutalmente, simplesmente por serem quem são. Infelizmente, o Brasil é o 1º lugar no ranking de assassinatos de pessoas trans. Faça parte do movimento! Vista a foto do seu perfil no Facebook de rosa e azul clicando neste link e mostre que é contra a transfobia!
Existe um conceito latente em nossa sociedade que nós, mulheres, aprendemos já crianças, e que nos afeta durante o resto da vida. É a ideia de que o corpo feminino é algo público, não só para ser olhado e avaliado (muitas vezes em voz alta), como também tocado.
O que eu estou dizendo não é novidade. Todas nós sabemos muito bem o que é ter o nosso espaço pessoal invadido – não preciso nem citar exemplos. E eventualmente incorporamos essas violências na nossa rotina e aprendemos pequenas ferramentas de sobrevivência. Mas mesmo assim, pelo menos para mim, ainda sobram muitas dúvidas – se estou reagindo ao assédio do “jeito certo”, se estou fazendo tudo que posso fazer, como não deixar a raiva entrar no peito e ficar. Como acho que essas são dúvidas que todas nós temos, convidei uma amiga (a G.) para conversar um pouco sobre o assunto – não para tentar achar respostas, mas para pensar mais sobre as perguntas, e ver que não estamos tão sozinhas.
B: Eu comecei a escrever um post para a Ovelha sobre assédio e como não deixar a raiva que você sente na hora atrapalhar a sua existência, mas enquanto escrevia percebi que não tenho a resposta para essa pergunta, de forma alguma! Por isso quis convidar você para conversar um pouco sobre o assunto e falar sobre as dúvidas que sinto. Eu tive a ideia para este post um dia que eu fui em uma festa com a perna imobilizada (eu estava com o ligamento rompido). Uma hora veio uma menina e começou a encostar na minha perna, e eu fiquei muito brava e comecei a falar: “Para de encostar em mim, não encosta em mim, você não me conhece”. Foi uma situação extremamente chata. Eu percebi que na minha vida, agora, eu sinto um pouco de dificuldade em diferenciar quando é ok a pessoa encostar em mim e quando não é ok, por conta de trauma e por isso ter tomado um peso tão grande.
Às vezes quando eu estou na rua e um cara fala alguma coisa eu dou uma olhada feia e tal, mas eu sei que se eu for responder eu vou ficar estressada com isso o dia inteiro. Vou ficar lembrando do que eu falei, e que o cara foi escroto, e por isso eu parei de responder.
B: O outro dia eu estava em um bar escrevendo e meu amigo havia deixado o violão dele na mesa comigo. Um cara que estava parado atrás de mim simplesmente pôs a mão no meu ombro e falou “O quê você está escrevendo, música?”. Eu fiquei super desconfortável, e acho que isso é uma situação onde dá para ficar desconfortável. Mas por outro lado, quando amigos que eu já não conheço tanto me abraçam eu também fico desconfortável, por que isso pilhou tanto que encostar em mim virou um negócio. Eu acho que a gente só deveria deixar as pessoas encostarem na gente quando a gente está confortável com a ideia, mas percebo que muitas vezes eu não tenho nada contra a pessoa encostar em mim, até que ela de fato encoste, e aí vejo que eu não consigo lidar. Outra coisa que não sei mais como lidar é com como responder alguém que está me assediando. Por exemplo, quando a gente está andando na rua e alguém assedia e o primeiro instinto é gritar e falar “Vai se fuder, não fala assim comigo” etc. Mas depois eu sinto uma carga de ódio muito grande dentro de mim, e isso me afeta muito. Você falou que você parou de gritar com as pessoas na rua quando elas te assediam, por que isso aconteceu?
G: Isso na verdade tem a ver com uma postura minha. Antes eu usava roupas muito mais curtas e por conta do trabalho eu tenho usado roupas mais comportadas, e por isso muito do assédio que tinha antes parou. Esse macaquinho eu comprei no final de semana, mas não era a minha primeira opção de roupa. Minha primeira opção era uma saia bem comprida, mas ai eu pensei “Por que eu estou comprando um monte de roupa comprida sendo que eu sempre comprei roupa curta?”. Tanto que eu comprei até para voltar a usar as roupas que eu usava antes. Eu acho que parei de usar roupas curtas primeiro por não me sentir mais tão confortável por conta do assédio, e segundo, por causa do trabalho (é natural que você não vá usar um shorts numa reunião com cliente). Eu comecei a ficar muito estressada de ter que ficar respondendo sempre e pensar que a minha reação era tão importante. Eu sempre achei que a minha reação ia ter um efeito muito grande na outra pessoa, e muitas vezes teve, como aquela vez em que eu falei com o cara do posto de gasolina. Só que, mesmo naquela vez, acabou gerando uma situação chata, porque era um lugar onde eu passava todo dia e eles sempre falavam bom dia e era um negócio legal porque eu sempre falava oi para pessoas que eu via no meu caminho, e depois disso ficou uma situação incrivelmente chata, onde eu passava e ele fazia cara feia, e os outros caras do posto não me cumprimentavam mais. Acabou gerando uma situação que eu pensei “Tá, será que eu preciso disso?”. Às vezes quando eu estou na rua e um cara fala alguma coisa eu dou uma olhada feia e tal, mas eu sei que se eu for responder eu vou ficar estressada com isso o dia inteiro. Vou ficar lembrando do que eu falei, e que o cara foi escroto, e por isso eu parei de responder.
Eu comecei a entrar em um dilema, porque muitas vezes eu não tinha mais vontade de responder, porque eu ia ter que carregar aquela raiva pelo resto do dia. Mas eu também me sentia péssima de não responder, como se eu tivesse a obrigação de responder.
B: Eu tenho muito isso também. Uma coisa que eu sempre fazia era gritar muito alto para tentar fazer a pessoa passar vergonha. É que antes eu não falava absolutamente nada, então foi muito natural para mim quando eu comecei a falar isso virar um veículo para toda a raiva que eu sentia. Ainda mais porque quando você não fala nada, existe uma coisa muito forte de você se sentir invisível, então eu era extra raivosa para me sentir extremamente visível. No começo, eu acho que foi necessário e foi muito bom, e me ajudou a me firmar. Só que depois de um tempo acontecia de eu simplesmente estar carregando aquela raiva dentro de mim. Tipo, a pessoa falava uma besteira, eu xingava ela, o cara quase sempre me xingava de volta, e daí eu virava a esquina tremendo e me sentindo feliz de ter falado alguma coisa, mas era muito ruim ter que carregar aquilo pelo resto do dia. Eu percebi que depois que eu comecei a responder eu comecei a sofrer menos assédio. Eu não sei se mudou alguma coisa na minha postura. Pode ser também. Eu realmente espero que o assédio tenha de fato diminuído por isso ter se tornado uma coisa mais amplamente discutido, e eu realmente sinto que ultimamente tem sido. Eu comecei a entrar em um dilema, porque muitas vezes eu não tinha mais vontade de responder, porque eu ia ter que carregar aquela raiva pelo resto do dia. Mas eu também me sentia péssima de não responder, como se eu tivesse a obrigação de responder. Se a pessoa fala alguma coisa, sinto que eu tenho a obrigação de constranger ela, já que ela me constrangeu, para ela não passar impune. E é um dilema muito grande isso. O que fazer? Eu realmente não sei o que fazer.
G: Tem vezes que você está mais cansada, até sobre o assunto, e você não está afim de responder. Um exemplo disso é o tema ‘bicicleta’. Eu nem fui no primeiro protesto a favor das ciclovias, só dei uma passada. Eu estava muito cansada de ficar insistindo em uma coisa que eu acredito e sempre acontecer várias merdas. Mas aí eu fui no segundo e a liminar foi derrubada. Então isso foi um lembrete para mim, porque eu estava tão descrente. Ultimamente quando um cara fala alguma coisa na rua, quando sinto um olhar esquisito, eu penso “Ah, foda-se, tô cansada, não aguento mais, não quero responder”. Isso foi um lembrete de que a reação também é importante. Você não deixar isso acontecer também é importante. Eu tenho certeza que aquele cara do posto pensou duas vezes antes de ir ‘brincar’ com uma menina, ou tomar uma liberdade que ele não tem. Ou às vezes ele ficou puto na hora, mas depois ele até pensou sobre isso. Ele foi educado para fazer isso a vida inteira, então ele não acha que é um problema, e nem pensa sobre o impacto disso na vida das outras pessoas.
B: Eu lembro que a primeira vez que eu respondi para um cara na rua eu tentei explicar para ele que o que ele estava fazendo era errado. Eu até cheguei e falei “Oi, desculpa, eu sei que você acha que o que você tá fazendo é certo”. Só que a pessoa não quer ouvir, é uma bosta isso. Então você é forçada a reagir de forma raivosa. Ultimamente eu tenho me perguntado qual é a maneira eficiente de fazer alguma coisa. Mas talvez não tenha uma resposta, talvez seja de situação em situação.
G: É, depende muito do caso. Tem vezes que você tem a liberdade de voltar e falar com a pessoa, tem vezes que você vê a pessoa e pensa ‘Eu só vou conseguir explicar o meu desconforto com uma piada, ou ridicularizando ele’. Tem vezes que você vê que você só vai conseguir explicar retrucando com ódio. Tem cara que está fazendo aquilo para te constranger. Ele sabe que aquilo é errado, que aquilo vai te deixar chateada, mas ele faz e esse é o objetivo dele, essa é a graça do assédio para ele. Aí se você virar para ele e falar alguma coisa mais raivosa às vezes é mais eficaz que ir lá conversar com o cara. Mas tem cara que está fazendo porque nunca parou para pensar sobre isso, e se você virar para ele e explicar porque isso te constrange ele vai pensar. Tem gente que está aberta, mas tem gente que quer exercer poder sobre você, e você só vai conseguir lutar contra isso se você mostrar que também consegue exercer poder sobre ele, que ele não é nada superior a você só porque ele quer te constranger.
Colocamos essa pressão em nós mesmas para ser essas superfeministas que nunca vão falhar a humanidade ou falhar a nova geração de feministas, e dai é bom saber que não existe uma resposta certa, que existem jeitos diferentes de fazer as coisas e que a gente nunca vai acertar sempre.
B: Eu sempre lembro de dois casos muito bizarros que aconteceram comigo de ser assediada por grupos de meninos de 12 anos. Isso aconteceu duas vezes e foi muito estranho. E na primeira vez foram muitos meninos, uns seis meninos. Eles vieram e começaram o assédio, e eu xinguei eles, e eles ficaram muito bravos e começaram a me xingar de volta. Depois eu fiquei pensando, eu não deveria ter xingado eles. Deveria ter virado e falado “Escuta, o que você está fazendo? Não é certo o que você está fazendo”. Eu não sei se eles teriam me ouvido, porque eles estavam em muitos, e geralmente jovens quando estão em muitos não estão dispostos a ouvir. A segunda vez eu estava perto do trabalho e passaram esses três meninos e começaram com a mesma conversa. Eu virei e fiquei olhando feio para eles. Eles pararam, e quando eu olhei para frente para continuar andando um meio que continuou, e o outro mandou ele calar a boca. Depois eu fiquei pensando que eu deveria ter falado alguma coisa para eles. Eu acho que teria um espaço de escuta. Eu deveria ter sido mais observadora do que seria uma boa reação. Tudo bem, eles ficaram constrangidos. Espero que eles não façam isso de novo, mas pode ser que eles façam. Pelo que eu senti, era uma espécie de ‘ato de desafio à autoridade’. Mas assediar pessoas não deveria ser um desafio à autoridade.
G: Mas acho que só de você ter olhado feio já serviu para alguma coisa.
B: Eu espero que sim. Eu acho que às vezes a gente sente muita pressão para ser supermulheres. Toda vez que eu sou assediada na rua eu penso ‘Eu preciso constranger esse homem porque senão ele vai fazer isso com outras mulheres, possivelmente uma menina de quatorze anos que nem eu era quando era assediada na rua e achava que não podia fazer nada’. Ou eu penso em como eu só aprendi que eu poderia responder o dia que eu vi você respondendo. Antes eu nunca achei que isso fosse uma possibilidade. Então eu sinto como se tivesse uma responsabilidade social de fazer essas coisas. Eu fico muito triste porque eu sinto muita raiva e é muita pressão quando o assédio acontece, mas eu sinto que eu preciso responder. Por isso achei legal conversar com você sobre isso, acho que a gente acaba se sentindo muito sozinha. Colocamos essa pressão em nós mesmas para ser essas superfeministas que nunca vão falhar a humanidade ou falhar a nova geração de feministas, e dai é bom saber que não existe uma resposta certa, que existem jeitos diferentes de fazer as coisas e que a gente nunca vai acertar sempre.
Hoje, por mais que o assédio na rua pareça ter diminuído, todos os outros pontos de contato do machismo continuam. Algumas expectativas dos outros, ou da família. Sempre vai ter alguma coisa, e nem sempre a minha primeira reação vai ser a reação ideal.
G: Eu sempre penso que eu sou uma pessoa que foi criada em uma sociedade machista e o feminismo não veio do berço. Ele veio na adolescência, e mesmo na adolescência ele veio de forma muito preliminar, muito primitiva. Eu só fui realmente pensar nisso mais profundamente na faculdade. Então eu entendo que eu vou ter atitudes machistas, e o importante é consegui identificar elas e ter a vontade de mudar. Eventualmente vamos ter algum resquício disso, principalmente por nós sermos as pessoas afetadas. Hoje, por mais que o assédio na rua pareça ter diminuído, todos os outros pontos de contato do machismo continuam. Algumas expectativas dos outros, ou da família. Sempre vai ter alguma coisa, e nem sempre a minha primeira reação vai ser a reação ideal. E é compreensível se a primeira reação não for a ideal, porque a gente foi criada em uma sociedade machista. Mas o fato de você estar aqui e conversar sobre isso, e pensar sobre isso diariamente, já é uma mudança.
B: É, eu acho que a gente precisa entender que o feminismo é uma coisa em processo, e que se a sua primeira reação não for a ideal, você vai pensar sobre isso e dai na próxima vez ela vai ser mais perto da ideal.
G: Isso. Pensa na primeira vez que você foi responder para um cara. Hoje você tem os traquejos de responder para caras. Hoje, se chegasse um grupo de meninos daquela idade para falar aquelas coisas para você a sua reação nunca seria igual a primeira.
B: Exatamente. Tanto que ela mudou da primeira para a segunda.
G: O meu meio profissional é um meio muito dominado por homens. Só tem homem. Existe um senso comum de que homens irão aguentar a pressão e mulheres não. Mas cara, eu aguento bem a pressão. Sempre vai ter um ponto de contato com o machismo, e a nossa reação vai ser sempre diferente. Mas sempre que eu sou enquadrada em uma situação onde eu sou a oprimida, ou a pessoa menor na situação, eu ajo do jeito que eu agiria normalmente, como se isso não importasse. No final, isso acaba dando certo. É muito difícil você se levantar contra uma situação onde você está sendo oprimido, mas o fato da gente responder muda muito. Você se comportar de um jeito que mostre que é a outra pessoa que está maluca, e não você por estar andando na rua. Eu não sei se eu estou respondendo do jeito certo. Eu nunca sei se uma cara feia vai ser o suficiente, ou se eu preciso ir lá e falar com a pessoa, ou se devo xingar. Eu sei que xingar com certeza não é o ideal, mas tem vezes que eu preciso fazer isso, porque a pessoa está querendo me agredir. Eu não tenho uma resposta do que eu acho que é o ideal na situação. Às vezes até penso que talvez responder nem seja o ideal. Mas, na verdade, acho que é sim.
aqui (os depoimentos estão na seção “Your Stories – Trans Voices“). Como o site infelizmente está disponível somente em inglês, fizemos uma tradução de quatro depoimentos. O texto em itálico é a legenda do vídeo, e o em redondo é o depoimento.
Agora, imagina se um jornal (ou qualquer outro veículo) brasileiro tomasse uma iniciativa dessas? Ainda temos muito chão pela frente…
Trans voices: J. Mase III
TRADUÇÃO DO VÍDEO:
Olá, meu nome é J Mase III e eu sou um poeta que reside no Bronx. Também sou fundador da organização “awQward”, a primeira agência de talentos específica para pessoas de cor trans e queer. É uma organização comandada exclusivamente por pessoas trans de cor, e eu compartilho essa informação porque isso é uma coisa muito rara. Quando eu me assumi trans uns onze, quase doze anos atrás, eu me assumi dentro de uma comunidade LGBTQ que não queria encorajar as nuances de se pensar em raça, não queriam encorajar as nuances de se pensar em classes sociais, e, mesmo eu, como uma pessoa transmasculina, não foi pedido de mim que eu pensasse sobre os meus privilégios em comparação à pessoas que são mulheres trans ou transfemininas. “awQward” surgiu da necessidade de ter essa conversa comigo mesmo e com outras pessoas em relação a arte, e também porque muitas vezes eu recebia respostas extremamente racistas e transfóbicas de estabelecimentos quando eu me candidatava para me apresentar, coisas como “Ah, você é negro? Bom, o mês da consciência negra [Black History Month] já terminou”, ou “Ah, você é trans? Bom, o dia em homenagem aos trans [Trans Day of Remembrance] já passou, então sua arte não precisa estar aqui”. Então, quando você pensa sobre o que significa conseguir ganhar a vida como artista trans de cor quando agências de talento LGTBQ não estão contratando artistas trans de cor, apesar de estarem cientes das estatísticas de pessoas trans desabrigadas e desempregadas e esse tipo de coisa, mostra que não veem a sua vida como tão importante quanto a de outros. “awQward” existe para preservar a história e trilha de um movimento que é muito inclusivo de pessoas trans de cor, que coloca pessoas trans de cor em papeis centrais e permite que suas vozes brilhantes estejam em primeiro plano. Tenho esperanças de que mudemos o movimento. Todos vocês que estão assistindo à esse vídeo e lendo o The New York Times, espalhem que vocês pensam sobre como racismo e supremacia branca afetam as experiências das pessoas trans, como misoginia e o patriarcado afetam, como preconceito de classe afeta. Não podemos ter essas conversas em bolhas isoladas, e eu espero que vocês se juntem a mim em pensar em como podemos ativamente mencionar essas coisas e injetar nossos recursos em locais e espaços carentes.
DEPOIMENTO:
Comecei a “sair do armário” como trans quando tinha por volta de 19 anos. Naquela época eu acreditava nesse mito bastante romântico de uma comunidade LGBTQ coesa. Como se todas as nossas questões fossem as mesmas, sabe? Essa história que é contada a respeito do que significa ser LGBTQ geralmente não inclui as nuances de raça, classe, imigração, status etc. Sendo uma pessoa trans e negra eu descobri que essas questões são muito faladas na comunidade LGBTQ, mas não de fato abordadas. Organizações LGBTQ sempre falam de nós na hora de falar das estatísticas dos desabrigados dentro da comunidade, ou da falta de acesso à saúde ou empregos, ou o risco de violência anti-LGBTQ… lá estávamos nós, pessoas trans de cor, principalmente mulheres trans de cor, no topo de todas as listas. Contudo, me vi lidando com muita supremacia branca, racismo e transfobia dentro de comunidades LGBTQ que promoviam discussões sobre justiça social sem nunca de fato confiar em pessoas trans de cor para assumir posições de liderança ou para criar projetos que nos dariam mais espaço. Como poeta, muitos dos estabelecimentos nos quais eu tentava me apresentar falavam coisas como “Ah, você é trans? Bom, o dia em homenagem aos trans [Trans Day of Remembrance] já passou… então não precisamos te pagar para você se apresentar”. Ou “Ah, você é negra, bom, nós tivemos uma pessoa negra trans se apresentar aqui dois anos atrás, então… não precisamos de você”. Existe uma ideia de que se você é trans e de cor, então menos pessoas conseguirão se relacionar com sua história quando ela não está “na moda”. Isso faz com que seja quase impossível ganhar a vida como performer trans de cor. Eu conversei com amigos meus que também são artistas e performers e vi que eles se deparavam com as mesmas barreiras. Então, com o apoio deles, criei o “awQward”. “awQward” é uma agência de talentos administrada por pessoas trans de cor para promover o trabalho de pessoas trans e queer de cor, e é a primeira agência desse tipo. Tenho esperanças de que artistas trans de cor consigam preservar nossa história e cultura, e consigam ganhar a vida fazendo aquilo que amam.
Trans Voices: Andy Marra
TRADUÇÃO DO VÍDEO:
Andy: Meu nome é Andy Marra.
Drew: Meu nome é Drew.
Andy: E estamos aqui hoje para falar sobre o nosso relacionamento.
Drew: Eu que falei “eu te amo” primeiro. Foi dois anos atrás, no nosso primeiro dia dos namorados juntos. Eu escrevi um cartão para ela e assinei “com amor” ao invés de “sinceramente”. Ela perguntou se eu falei sério quando eu escrevi aquilo, e eu falei “É claro que sim”. E depois disso falei “Eu te amo”.
Andy: E dai eu comecei a chorar. Eu choro muito.
Eu sou uma mulher trans e o Drew é um homem cis. É muito difícil para homens que sentem atração e estão em relacionamentos com pessoas como eu por conta do estigma que a sociedade coloca neles. Ele me levou para conhecer a família dele, e eu fiz o mesmo.
Drew: Essa foi a primeira vez, a única vez que eu pensei “Quero me casar”, eu nunca havia pensado em passar minha vida com outra pessoa.
Eu que pedi a Andy em casamento. Já vinha pensando nisso há um tempo. No ano novo a gente estava deitado na cama basicamente esperando a bola do Times Square cair e o ano virar e eu perguntei para ela se ela queria casar comigo.
Andy: No outono passado me deram um anel de diamantes que está na nossa família há quatro, cinco gerações. É bastante importante receber esse tipo de relíquia familiar, foi um jeito de meus pais darem sua bênção.
Drew: O que eu quero que as pessoas levem do nosso relacionamento é que, não importa o que aconteça com meu emprego ou com minha família, a Andy é o que dá cor à minha vida.
Andy: Drew é quem me deixa centrada, ele me lembra quais as coisas que eu realmente valorizo, quais coisas são as mais importantes para mim. É ele, e nossa vida juntos. Nós somos a cor e a gravidade um do outro.
DEPOIMENTO:
Em 2014 eu escrevi um ensaio sobre vivenciar o amor e relacionamentos como uma mulher trans. O texto que eu escrevi eliciou uma tremenda resposta, especialmente de outras mulheres trans que se identificavam com algumas das minhas experiências. Muitas expressavam suas frustrações e angústias sobre como eram tratadas por homens cis, levando algumas a concluir que seria impossível encontrar um parceiro. Eu não era exceção. Antes de conhecer o meu noivo, Drew, quase todos os homens que sentiam atração por mim insistiam que a gente mantivesse o nosso tempo juntos em segredo. Algo a nunca ser discutido com outras pessoas. Eles tinham medo do que os outros poderiam pensar, por estarem saindo com uma mulher como eu.
Meus amigos falavam cheios de felicidade sobre seus primeiros encontros ou relacionamentos novos. Não podia fazer nada além de ouvir educadamente e sorrir, nunca compartilhando muitos detalhes sobre quem eu estava namorando na época.
Viver uma vida repleta de segredos em troca de um relacionamento nunca me pareceu certo. E porque deveria? Como outras mulheres trans confrontadas por homens que não estavam dispostos a ser abertos e honestos em relação aos próprios sentimentos, eu paguei o preço do silêncio com meu senso de valor próprio.
Esse silêncio promoveu uma cultura profunda de estigma entre homens atraídos por mulheres trans. Ainda pior, esse silêncio deu aos outros homens permissão de polemizar, demonizar e brutalizar mulheres trans. Essa triste realidade é ainda mais forte se você é uma mulher trans de cor. Os moradores de Nova York não precisam ir muito longe para entender os perigos muito reais do silêncio. Faz menos de dois anos que Islan Nettles, de 21 anos, foi espancada por um grupo de homens até ficar inconsciente, porque era trans. Ela morreu quatro dias depois.
Precisamos que os homens criem um novo conceito de masculinidade que não condene outros homens por se sentirem atraídos por mulheres trans. Precisamos de uma masculinidade mais inclusiva que ajude a descontruir o preconceito, violência e discriminação que afetam todas as mulheres – independente de sua identidade de gênero.
Estar com Drew reafirmou o que eu deveria esperar de um homem. Eu mereço ser tratada com respeito. A honestidade deveria ser a base de qualquer relacionamento. E eu nunca deveria me silenciar ou esconder quem eu sou.
Como Drew gosta de dizer: “Você é quem dá cor à minha vida”. Espero que mais homens consigam finalmente reconhecer a beleza e o valor das mulheres trans em suas vidas.
Trans voices: Faye Seidler
DEPOIMENTO:
Eu nasci em Fargo, na Dakota do Norte, onde vivo até hoje, e eu trabalhava como técnica em um hospital. Eu comecei a trabalhar lá antes de fazer a transição, mas na minha avaliação de três meses eu os informei que estaria dando início à minha transição em breve.
A medida que os meses foram passando eles me interrogaram e intimidaram a respeito da minha identidade de gênero, desconsideraram que estavam se referindo a mim pelo gênero errado, me forçaram a trocar de roupa em um vestiário improvisado e me disseram que educar seus funcionários a respeito de gênero era a mesma coisa que os obrigar a aprender sobre a religião muçulmana como pré-requisito para o trabalho.
Durante todo esse tempo eu ofereci educá-los e tentei trabalhar junto com eles. Eu falei para eles que o que estavam fazendo constitui discriminação e que, enquanto uma pessoa pode deixar sua orientação sexual e religião fora de questões de trabalho, eu não podia parar de ser mulher.
A pior parte é que esse era o mesmo hospital no qual eu estava me tratando. Como era para eu confiar na habilidade do hospital de cuidar de mim como paciente, quando eles nem conseguiam cuidar de mim como funcionária? Eles, que deixavam de me ajudar, alegando que não eram obrigados por lei a fazê-lo?
Eu fiz tudo que podia para trabalhar com eles enquanto eu estava lá, mas quando eles se recusaram a se comunicar comigo eu soube que eu não conseguiria ter nenhuma troca significativa e que não valia a pena me submeter a essa condição hostil. Mas eu não sou só um indivíduo, eu faço parte de uma comunidade, e essa força me deu a perseverança de continuar a lutar pela educação e pelo tratamento justo. Me deu a coragem de depor na câmara de deputados da Dakota do Norte e tentar suscitar mudanças. Infelizmente, o deputado Robin Weisz escolheu ignorar meu depoimento e trabalhou para negar direitos iguais às pessoas LGBT.
Mas, ao passar por tudo isso, eu aprendi quem eu sou e do que eu sou capaz. Que eu consigo enfrentar pessoas hostis e indiferentes e falar o que penso. Que, como uma líder trans, oferecendo educação e assistência para a minha comunidade, eu não tenho medo de lutar. E, mais importante de tudo, que eu nunca vou desistir de lutar para ser tratada como ser humano.
Trans voices: Avery Jackson
TRADUÇÃO DO VÍDEO:
Oi, meu nome é Avery e eu tenho sete anos. Eu gosto de subir em árvores, ser uma ninja, fingir que eu sou um animal e todo tipo de coisa assim. Eu gosto de fingir que sou personagens de jogos de vídeo game, gosto de brincar com meu irmão… e é isso. Essas são as coisas que eu gosto de fazer. Ah! E eu sou trans. Quando eu nasci, os médicos falaram que eu era menino. Mas no meu coração eu sabia que eu era menina. Então eu tenho algumas partes do corpo que são de menino, mas isso não é errado, isso é ok! Quando eu estava no jardim de infância eu podia brincar de me fantasiar, e isso me deixava muito feliz, porque eu podia usar vestidos e simplesmente ser feliz. Às vezes eu brinco que eu sou um animal ou um ninja ou uma princesa, mas não significa que meus pais devem me tratar como se eu fosse essas coisas. É só de faz de conta. Mesmo eu sendo uma menina eu fiquei com medo de contar para os meus pais porque achei que eles iam parar de me amar e me expulsar de casa e não me dar mais comida ou coisas assim. Mas chegou uma hora que precisei contar para os meus pais, eu não conseguia mais guardar isso dentro de mim, era muito difícil eu ser alguém que não era realmente e ter eles me tratando como menino quando eu na verdade era uma menina. Meus pais me levaram para ver alguns médicos, e os médicos falaram que eu ficaria bem, contanto que deixassem eu ser uma menina. Meu amigos aceitaram bem quando eu comecei a me vestir como menina na pré-escola, mas seus pais não. Eles achavam que era contagioso, tipo catapora trans ou coisa parecida. Decidi sair da pré-escola, porque era melhor poder ser eu mesma e perder todos os meus amigos que continuar fingindo ser alguém que eu não sou. Eu pude comprar roupas novas e deixar o meu cabelo crescer, e agora meus novos amigos me conhecem como a garota que sou em meu coração e no meu cérebro. Eu já fiz ginástica de solo, dança, arco e flecha, tae-kwan-do, escoteiras, e muito mais. Sou uma garota normal. E eu pintei o meu cabelo três vezes! Ainda têm pessoas que não entendem ou que têm medo por eu ser um pouco diferente, mas a gente quer consertar isso! Algumas pessoas falam que eu não uso o banheiro certo ou não vou para o lavabo certo, mas quem se importa com as partes do meu corpo! Eu não pergunto o que tá dentro das suas roupas de baixo! Ser trans é difícil, mas você pode ser quem você quer ser. Eu tenho orgulho de quem eu sou, porque sou trans e sou uma menina, sou uma menina normal, uma menina trans normal como qualquer outra.
Depoimento escrito por Tom, pai de Avery:
Meu nome é Tom. Eu sou um marido, um pai, e, acima de tudo, tento ser um ser humano decente. Só digo esta última coisa porque recentemente houveram muitas pessoas direcionando comentários odiosos e vis para minha família.
Aos quatro anos minha filha revelou o verdadeiro eu dela quando declarou, de forma clara e articulada, “Na verdade eu sou uma menina, por dentro eu sou uma menina”. Essa declaração mudou a minha vida para sempre e é algo que eu não mudaria por nada nesse mundo. Agora, olhando para trás, vejo que os sinais no ano que precederam sua declaração foram claros. Uma criança que antes era feliz e despreocupada começou a ficar raivosa, deprimida, a se rebelar. Uma vez que nossa filha encontrou as palavras para expressar quem ela realmente era em seu coração e em seu cérebro, começamos a buscar a ajuda de médicos.
Levamos ela para o pediatra, para um terapeuta de crianças e um terapeuta de gênero. Nossa criança foi diagnosticada com disforia de gênero e nos foi dito que permitir que ela transicionasse e vivesse como menina seria o “tratamento” correto. A essa altura eu e minha esposa tentamos absorver toda informação possível que encontramos a respeito de crianças trans. A informação era escassa, mas o pouco que encontramos era muito perturbador. Mais de 50% das crianças trans tentam cometer suicido na metade ou no final da adolescência. Uma grande quantidade delas consegue. E a principal razão que essas crianças dão para tentar se machucar é falta de amor e apoio por parte de suas famílias e amigos. Eu e minha esposa decidimos que preferimos ter uma filha feliz e saudável que um filho morto.
Desde que começou sua transição, vimos surgir uma menina confiante e corajosa.
Ano passado alguns de vocês foram apresentados para a minha esposa, que inadvertidamente se tornou uma feroz defensora dos direitos da juventude LGBT, graças ao discurso que deu falando do amor que temos pela nossa filha. Recentemente, nossa filha pediu para contar a sua história – nas suas próprias palavras, porque ela tem orgulho de quem ela é e quer ajudar outras crianças como ela a “mudar o mundo”.
Eu só conto a nossa história porque existem pessoas que são desinformadas a respeito do que significa ser trans ou que pensam que nós, como pais, estamos forçando nossa filha a isso. Posso assegurar vocês que não é o caso. A única coisa que eu transmito para minha filha é muito simples: ame a si mesma e dê amor aos outros. É exatamente isso que eu pretendo fazer. Eu amo a minha filha por quem ela é, sem condições prévias, e eu prometo ajudá-la a se tornar um membro feliz, saudável e produtivo da sociedade. Afinal, não é isso que pais devem fazer?
Lembram quando semana passada a Suprema Corte dos EUA decidiu que o casamento de pessoas do mesmo sexo é um direito constitucional no país? O resultado foi uma linda explosão arco-íris no Facebook, graças a um aplicativo desenvolvido pela rede social que aplicava um filtro com as cores da bandeira LGBT na foto de perfil?
Esta semana o movimento é pela visibilidade trans, que tem sua própria bandeira. Só nesse mês, oito pessoas trans foram assassinadas brutalmente, simplesmente por serem quem são. Infelizmente, o Brasil é o 1º lugar no ranking de assassinatos de pessoas trans. Faça parte do movimento! Vista a foto do seu perfil no Facebook de rosa e azul clicando neste link e mostre que é contra a transfobia!