A Mag Magrela é uma grafiteira, de 30 anos, que nasceu em São Paulo. Para conhecer seus desenhos, é só olhar alguns muros da cidade e você encontrará figuras femininas, alaranjadas, te encarando em posições quase sempre desconfortáveis.
Como a própria Mag define, seu trabalho “faz dos muros poesia”. Neste sábado (8), a artista lança seu primeiro livro pelo selo Monstrobooks, com fotos de grafites e telas de sete anos de trabalho, no Instituto Chão, que fica na Vila Madalena, zona oeste de SP (saiba mais sobre o evento). Leia trechos da nossa conversa sobre sua história: Ovelha: Mag, você chegou a estudar desenho?
Mag Magrela: Eu sempre desenhei, como toda criança. Lembro da sensação que eu tinha, quando criança, de me realizar com as coisas que eu inventava. Eu pirava. E até hoje eu sou assim com o meu desenho. Só que na minha casa nunca teve essa ideia de ‘ó, você pode ser uma artista’. Aí eu fiz 3 anos de Administração na faculdade que meu pai trabalhava, então não pagava nada, ficava lá moscando até entrar em crise e falar ‘gente, o que eu tô fazendo da minha vida?’. Eu tinha uns 23 anos quando surtei e comecei a questionar ‘o que eu gosto de fazer? o que me realiza? puta, desenhar’. Fiz uma oficina de grafite com o Rui Amaral [um dos pioneiros do movimento do grafite brasileiro] e lá eu conheci uma galera. Com eles, comecei a ir pra rua e não parei mais. Foi autodidata mesmo. Já tentei fazer curso, mas querem me enquadrar e eu não quero desenhar igual a todo mundo.
E o meu desenho muda muito porque eu fui desenhando em casa, buscando movimento porque antes era mais duro. Antes eu fazia só homens, aí comecei a copiar meu corpo, o rosto, e de repente eu estava me fazendo. Eu digo que as mulheres são meu pedacinho. Cada uma me representa de um jeito que eu sou.
Ovelha: Já aconteceu de você se decepcionar com o seu grafite?
Mag: Já me frustrei de querer fazer uma coisa e não conseguir porque eu não tinha ideia de proporção. Daí ou você apaga e começa de novo ou você deixa assim e foda-se. Bem quando eu comecei a grafitar, eu ficava muito tempo no muro tentando entender a personagem. Mas eu sou bem desapegada. Às vezes eu acho que deveria ser mais dedicada. Ovelha: Como você escolhe o local onde você vai grafitar?
Mag: Eu sempre estou de olho nos muros. Quando frequento algum lugar, daí passo, olho e às vezes tenho que pedir autorização de alguém ou, às vezes, o muro tá lá abandonado. Mas o engraçado é que cada um olha a cidade de um jeito. Os grafiteiros e os fotógrafos, por exemplo, olham a cidade completamente diferente das outras pessoas. Eu olho para o lugar e penso ‘olha esse muro que delícia’ e já imagino o meu trabalho ali.
Ovelha: Você tem algum muro favorito ou já voltou para ver como está um desenho seu?
Mag: Não gosto de voltar pra ver, mas gosto muito de vários. Cada muro tem uma história diferente. Tem muro que passa a polícia, daí você tem que desenrolar e já se torna especial porque foi uma conquista. Tem um na Lapa que eu gostei muito de pintar, embaixo da ponte, perto do trem, que é do lado de uma delegacia de polícia. Quando eu estava terminando, os policiais vieram me rodeando, mas não me abordaram. Eles não sabem muito como agir, é engraçado. Ovelha: Algum desenho seu já foi apagado ou pichado?
Mag: Muitos grafites meus foram apagados bem na época do [prefeito Gilberto] Kassab por causa da Lei Cidade Limpa. Na verdade, aprendi até a desapegar por conta disso. Mas pichados só uma vez por uma molecada aqui na Vila Madalena. Geralmente tem esse respeito entre grafiteiro e pichador. Ninguém se atropela. É uma lei da rua bacana e a gente se entende dessa forma. Ovelha: Você se importa mais com o processo da obra ou com o resultado?
Mag: O momento que eu estou ali fazendo é muito foda. A gente não sabe o que vai acontecer. Eu tô de costas para o mundo. Tem que confiar. É uma entrega e você tem tanta liberdade. Você pode fazer sujeira e ninguém vai falar nada. É um momento muito mágico. Só quem está ali pintando entende. E também eu aprendi muito a criar sozinha porque eu pintava muito, no começo, com amigos e isso foi se desfazendo. E aí é outra brisa também porque você entra no seu mundinho.
Ovelha: Você se preocupa com a segurança quando está grafitando?
Mag: Você tem que saber onde está indo pintar. A gente que é mulher, quando está quente, infelizmente não posso ir com um shortinho e uma blusinha porque eu sei que vou sofrer, então vou com uma roupa mais larga para não chamar a atenção. Vou na Cracolândia e fico com um pouco de receio porque a galera tá muito louca. Mesmo assim eles piram no grafite. Nunca sofri nada porque estava pintando. Gente louca ou bandido da área ou polícia ou mauricinho, todo mundo chega e troca ideia na boa. Eu me sinto muito segura quando vou grafitar, como se estivesse com uma armadura porque sinto que a arte faz isso: conecta as pessoas. Ovelha: Como o grafite influencia sua relação com a cidade?
Mag: Minha vida sempre foi voltada pro centro da cidade, que era onde eu estudava e onde moravam minhas amigas, e Vila Madalena, que é onde eu moro. O grafite me fez conhecer todos os lugares da cidade. Ia pra zona leste, zona sul, ia pra favela, pros granfinos. Fui pra todo canto, pra fora do país, viajei. O grafite é aceito cada vez mais em todos os lugares e isso é do caralho pra mim. Ovelha: Quando você percebeu que estava desenhando mulheres mais que qualquer outra coisa?
Mag: É maluco isso porque, quando comecei, eu não queria fazer mulheres por não saber o que fazer com isso mesmo. Aí desenhando muito você vai se copiando, tendo seu corpo como referência, e acaba fazendo o que você mais vê na vida, que é você mesmo. Mas não sei exatamente quando foi isso. Talvez de 2009 para 2010. E elas começaram a ir para uma figura meio pesada, escura, meio retangular, mas meu trabalho muda o tempo inteiro. Ovelha: E elas parecem meio frágeis, tensas, muitas vezes sangrando.
Mag: É muito como eu me sinto. Às vezes eu estou muito encolhida, às vezes mais relaxada, então depende muito. Elas são como eu estou me sentindo naquele momento. Quando comecei a fazer ioga, faz pouco tempo, pirei tanto que comecei a fazer umas mulheres contorcidas. É muito reflexo de mim. O lance do sangue também é legal. Antes, eu fazia uns buraquinhos de bala de tiro nelas, mas não tinha sangue. Passei por um momento de separação, de relacionamento, e foi bem maluco pra minha cabeça. Aí eu fiz uma tela e sangrei nela. Aquilo foi um alívio pra mim, como se eu estivesse há muito tempo querendo pôr pra fora aquilo. Parecia que era eu sangrando.
Ovelha: E algumas têm vaginas disfarçadas, outras não.
Mag: Muitas pessoas acham que são flores e não deixam de ser, né. Em 2010, eu estava fazendo uma tela gigante e senti uma energia feminina que veio em mim, que eu comecei a me sentir mulher. Foi muito louco e pirei na tela. Desenhei dois planetas de bucetas, aí tem uma mulher em cima de um planetinha e um homem no outro. Aí pronto. As bucetas começaram a aparecer sempre no meu trabalho. Começou bem agressivo. Fiz uma tela que chama ‘cara de buceta’, que é uma mulher com uma buceta na cara, que era o jeito que eu estava me sentindo na época no meu relacionamento e achava que o cara só queria isso comigo. Comecei a questionar várias coisas de relação entre homem e mulher. Hoje em dia acho que ela vem com mais sutileza, para carimbar essa energia feminina, esse poder da libido, e de manipular os homens com o sexo. Quem já não fez isso?
Ovelha: Por que você usa azulejo no grafite?
Mag: Logo que eu voltei de Portugal, tive a brisa de usar esses caquinhos quebrados de azulejo na parede. Fui em 2012 pra lá e busquei a história dos meus avós. Meu vô era pedreiro e usava muito isso. Aí eu pirei e acho que ninguém tinha feito isso antes no grafite. Também fiz três telas com fundo de azulejo. Quero usar mais essa técnica porque fica muito elegante. É a mesma coisa da buceta que é sutil. A pessoa acha aquilo lindo, mas tem uma puta mensagem pesada ali. É uma coisa que eu saquei. Meu trabalho era muito bruto, agressivo. Hoje as pessoas gostam mais. Ovelha: E a relação da poesia com o seu desenho?
Mag: A palavra sempre foi muito forte pra mim. Quando eu tinha uns 13 anos, já gostava muito de escrever uns contos, e eu escrevia umas coisas tão pesadas na época. Mas não teve uma frequência. Parei de escrever e voltei há alguns anos em um blog, só pra mim. Mas eu gosto de dar um título pro desenho que não seja óbvio e tenha uma poesia nele e, às vezes, a poesia me traz o desenho.
A Mag Magrela é uma grafiteira, de 30 anos, que nasceu em São Paulo. Para conhecer seus desenhos, é só olhar alguns muros da cidade e você encontrará figuras femininas, alaranjadas, te encarando em posições quase sempre desconfortáveis.
Como a própria Mag define, seu trabalho “faz dos muros poesia”. Neste sábado (8), a artista lança seu primeiro livro pelo selo Monstrobooks, com fotos de grafites e telas de sete anos de trabalho, no Instituto Chão, que fica na Vila Madalena, zona oeste de SP (saiba mais sobre o evento). Leia trechos da nossa conversa sobre sua história: Ovelha: Mag, você chegou a estudar desenho?
Mag Magrela: Eu sempre desenhei, como toda criança. Lembro da sensação que eu tinha, quando criança, de me realizar com as coisas que eu inventava. Eu pirava. E até hoje eu sou assim com o meu desenho. Só que na minha casa nunca teve essa ideia de ‘ó, você pode ser uma artista’. Aí eu fiz 3 anos de Administração na faculdade que meu pai trabalhava, então não pagava nada, ficava lá moscando até entrar em crise e falar ‘gente, o que eu tô fazendo da minha vida?’. Eu tinha uns 23 anos quando surtei e comecei a questionar ‘o que eu gosto de fazer? o que me realiza? puta, desenhar’. Fiz uma oficina de grafite com o Rui Amaral [um dos pioneiros do movimento do grafite brasileiro] e lá eu conheci uma galera. Com eles, comecei a ir pra rua e não parei mais. Foi autodidata mesmo. Já tentei fazer curso, mas querem me enquadrar e eu não quero desenhar igual a todo mundo.
E o meu desenho muda muito porque eu fui desenhando em casa, buscando movimento porque antes era mais duro. Antes eu fazia só homens, aí comecei a copiar meu corpo, o rosto, e de repente eu estava me fazendo. Eu digo que as mulheres são meu pedacinho. Cada uma me representa de um jeito que eu sou.
Ovelha: Já aconteceu de você se decepcionar com o seu grafite?
Mag: Já me frustrei de querer fazer uma coisa e não conseguir porque eu não tinha ideia de proporção. Daí ou você apaga e começa de novo ou você deixa assim e foda-se. Bem quando eu comecei a grafitar, eu ficava muito tempo no muro tentando entender a personagem. Mas eu sou bem desapegada. Às vezes eu acho que deveria ser mais dedicada. Ovelha: Como você escolhe o local onde você vai grafitar?
Mag: Eu sempre estou de olho nos muros. Quando frequento algum lugar, daí passo, olho e às vezes tenho que pedir autorização de alguém ou, às vezes, o muro tá lá abandonado. Mas o engraçado é que cada um olha a cidade de um jeito. Os grafiteiros e os fotógrafos, por exemplo, olham a cidade completamente diferente das outras pessoas. Eu olho para o lugar e penso ‘olha esse muro que delícia’ e já imagino o meu trabalho ali.
Ovelha: Você tem algum muro favorito ou já voltou para ver como está um desenho seu?
Mag: Não gosto de voltar pra ver, mas gosto muito de vários. Cada muro tem uma história diferente. Tem muro que passa a polícia, daí você tem que desenrolar e já se torna especial porque foi uma conquista. Tem um na Lapa que eu gostei muito de pintar, embaixo da ponte, perto do trem, que é do lado de uma delegacia de polícia. Quando eu estava terminando, os policiais vieram me rodeando, mas não me abordaram. Eles não sabem muito como agir, é engraçado. Ovelha: Algum desenho seu já foi apagado ou pichado?
Mag: Muitos grafites meus foram apagados bem na época do [prefeito Gilberto] Kassab por causa da Lei Cidade Limpa. Na verdade, aprendi até a desapegar por conta disso. Mas pichados só uma vez por uma molecada aqui na Vila Madalena. Geralmente tem esse respeito entre grafiteiro e pichador. Ninguém se atropela. É uma lei da rua bacana e a gente se entende dessa forma. Ovelha: Você se importa mais com o processo da obra ou com o resultado?
Mag: O momento que eu estou ali fazendo é muito foda. A gente não sabe o que vai acontecer. Eu tô de costas para o mundo. Tem que confiar. É uma entrega e você tem tanta liberdade. Você pode fazer sujeira e ninguém vai falar nada. É um momento muito mágico. Só quem está ali pintando entende. E também eu aprendi muito a criar sozinha porque eu pintava muito, no começo, com amigos e isso foi se desfazendo. E aí é outra brisa também porque você entra no seu mundinho.
Ovelha: Você se preocupa com a segurança quando está grafitando?
Mag: Você tem que saber onde está indo pintar. A gente que é mulher, quando está quente, infelizmente não posso ir com um shortinho e uma blusinha porque eu sei que vou sofrer, então vou com uma roupa mais larga para não chamar a atenção. Vou na Cracolândia e fico com um pouco de receio porque a galera tá muito louca. Mesmo assim eles piram no grafite. Nunca sofri nada porque estava pintando. Gente louca ou bandido da área ou polícia ou mauricinho, todo mundo chega e troca ideia na boa. Eu me sinto muito segura quando vou grafitar, como se estivesse com uma armadura porque sinto que a arte faz isso: conecta as pessoas. Ovelha: Como o grafite influencia sua relação com a cidade?
Mag: Minha vida sempre foi voltada pro centro da cidade, que era onde eu estudava e onde moravam minhas amigas, e Vila Madalena, que é onde eu moro. O grafite me fez conhecer todos os lugares da cidade. Ia pra zona leste, zona sul, ia pra favela, pros granfinos. Fui pra todo canto, pra fora do país, viajei. O grafite é aceito cada vez mais em todos os lugares e isso é do caralho pra mim. Ovelha: Quando você percebeu que estava desenhando mulheres mais que qualquer outra coisa?
Mag: É maluco isso porque, quando comecei, eu não queria fazer mulheres por não saber o que fazer com isso mesmo. Aí desenhando muito você vai se copiando, tendo seu corpo como referência, e acaba fazendo o que você mais vê na vida, que é você mesmo. Mas não sei exatamente quando foi isso. Talvez de 2009 para 2010. E elas começaram a ir para uma figura meio pesada, escura, meio retangular, mas meu trabalho muda o tempo inteiro. Ovelha: E elas parecem meio frágeis, tensas, muitas vezes sangrando.
Mag: É muito como eu me sinto. Às vezes eu estou muito encolhida, às vezes mais relaxada, então depende muito. Elas são como eu estou me sentindo naquele momento. Quando comecei a fazer ioga, faz pouco tempo, pirei tanto que comecei a fazer umas mulheres contorcidas. É muito reflexo de mim. O lance do sangue também é legal. Antes, eu fazia uns buraquinhos de bala de tiro nelas, mas não tinha sangue. Passei por um momento de separação, de relacionamento, e foi bem maluco pra minha cabeça. Aí eu fiz uma tela e sangrei nela. Aquilo foi um alívio pra mim, como se eu estivesse há muito tempo querendo pôr pra fora aquilo. Parecia que era eu sangrando.
Ovelha: E algumas têm vaginas disfarçadas, outras não.
Mag: Muitas pessoas acham que são flores e não deixam de ser, né. Em 2010, eu estava fazendo uma tela gigante e senti uma energia feminina que veio em mim, que eu comecei a me sentir mulher. Foi muito louco e pirei na tela. Desenhei dois planetas de bucetas, aí tem uma mulher em cima de um planetinha e um homem no outro. Aí pronto. As bucetas começaram a aparecer sempre no meu trabalho. Começou bem agressivo. Fiz uma tela que chama ‘cara de buceta’, que é uma mulher com uma buceta na cara, que era o jeito que eu estava me sentindo na época no meu relacionamento e achava que o cara só queria isso comigo. Comecei a questionar várias coisas de relação entre homem e mulher. Hoje em dia acho que ela vem com mais sutileza, para carimbar essa energia feminina, esse poder da libido, e de manipular os homens com o sexo. Quem já não fez isso?
Ovelha: Por que você usa azulejo no grafite?
Mag: Logo que eu voltei de Portugal, tive a brisa de usar esses caquinhos quebrados de azulejo na parede. Fui em 2012 pra lá e busquei a história dos meus avós. Meu vô era pedreiro e usava muito isso. Aí eu pirei e acho que ninguém tinha feito isso antes no grafite. Também fiz três telas com fundo de azulejo. Quero usar mais essa técnica porque fica muito elegante. É a mesma coisa da buceta que é sutil. A pessoa acha aquilo lindo, mas tem uma puta mensagem pesada ali. É uma coisa que eu saquei. Meu trabalho era muito bruto, agressivo. Hoje as pessoas gostam mais. Ovelha: E a relação da poesia com o seu desenho?
Mag: A palavra sempre foi muito forte pra mim. Quando eu tinha uns 13 anos, já gostava muito de escrever uns contos, e eu escrevia umas coisas tão pesadas na época. Mas não teve uma frequência. Parei de escrever e voltei há alguns anos em um blog, só pra mim. Mas eu gosto de dar um título pro desenho que não seja óbvio e tenha uma poesia nele e, às vezes, a poesia me traz o desenho.
Mag Magrela grafita parede do Instituto Chão, em SP
A Mag Magrela é uma grafiteira, de 30 anos, que nasceu em São Paulo. Para conhecer seus desenhos, é só olhar alguns muros da cidade e você encontrará figuras femininas, alaranjadas, te encarando em posições quase sempre desconfortáveis.
Como a própria Mag define, seu trabalho “faz dos muros poesia”. Neste sábado (8), a artista lança seu primeiro livro pelo selo Monstrobooks, com fotos de grafites e telas de sete anos de trabalho, no Instituto Chão, que fica na Vila Madalena, zona oeste de SP (saiba mais sobre o evento). Leia trechos da nossa conversa sobre sua história: Ovelha: Mag, você chegou a estudar desenho?
Mag Magrela: Eu sempre desenhei, como toda criança. Lembro da sensação que eu tinha, quando criança, de me realizar com as coisas que eu inventava. Eu pirava. E até hoje eu sou assim com o meu desenho. Só que na minha casa nunca teve essa ideia de ‘ó, você pode ser uma artista’. Aí eu fiz 3 anos de Administração na faculdade que meu pai trabalhava, então não pagava nada, ficava lá moscando até entrar em crise e falar ‘gente, o que eu tô fazendo da minha vida?’. Eu tinha uns 23 anos quando surtei e comecei a questionar ‘o que eu gosto de fazer? o que me realiza? puta, desenhar’. Fiz uma oficina de grafite com o Rui Amaral [um dos pioneiros do movimento do grafite brasileiro] e lá eu conheci uma galera. Com eles, comecei a ir pra rua e não parei mais. Foi autodidata mesmo. Já tentei fazer curso, mas querem me enquadrar e eu não quero desenhar igual a todo mundo.
E o meu desenho muda muito porque eu fui desenhando em casa, buscando movimento porque antes era mais duro. Antes eu fazia só homens, aí comecei a copiar meu corpo, o rosto, e de repente eu estava me fazendo. Eu digo que as mulheres são meu pedacinho. Cada uma me representa de um jeito que eu sou.
[caption id="attachment_5580" align="aligncenter" width="1024"] ‘Choque de água fria. Me perdi no horizonte da resiliência dela’. São João da Boa Vista, SP, 2015. Foto: El Graffiti[/caption]
Ovelha: Já aconteceu de você se decepcionar com o seu grafite?
Mag: Já me frustrei de querer fazer uma coisa e não conseguir porque eu não tinha ideia de proporção. Daí ou você apaga e começa de novo ou você deixa assim e foda-se. Bem quando eu comecei a grafitar, eu ficava muito tempo no muro tentando entender a personagem. Mas eu sou bem desapegada. Às vezes eu acho que deveria ser mais dedicada. Ovelha: Como você escolhe o local onde você vai grafitar?
Mag: Eu sempre estou de olho nos muros. Quando frequento algum lugar, daí passo, olho e às vezes tenho que pedir autorização de alguém ou, às vezes, o muro tá lá abandonado. Mas o engraçado é que cada um olha a cidade de um jeito. Os grafiteiros e os fotógrafos, por exemplo, olham a cidade completamente diferente das outras pessoas. Eu olho para o lugar e penso ‘olha esse muro que delícia’ e já imagino o meu trabalho ali.
[caption id="attachment_5585" align="aligncenter" width="1024"] ‘Em falta d’água, vai sangue. Aguaceiro não enche bacia. Craquela o couro. Deserta o corpo. Em guerra civil o rei é dono de bica’. Avenida 23 de maio, SP, 2015. Foto: Paulo Espirito[/caption]
Ovelha: Você tem algum muro favorito ou já voltou para ver como está um desenho seu?
Mag: Não gosto de voltar pra ver, mas gosto muito de vários. Cada muro tem uma história diferente. Tem muro que passa a polícia, daí você tem que desenrolar e já se torna especial porque foi uma conquista. Tem um na Lapa que eu gostei muito de pintar, embaixo da ponte, perto do trem, que é do lado de uma delegacia de polícia. Quando eu estava terminando, os policiais vieram me rodeando, mas não me abordaram. Eles não sabem muito como agir, é engraçado. Ovelha: Algum desenho seu já foi apagado ou pichado?
Mag: Muitos grafites meus foram apagados bem na época do [prefeito Gilberto] Kassab por causa da Lei Cidade Limpa. Na verdade, aprendi até a desapegar por conta disso. Mas pichados só uma vez por uma molecada aqui na Vila Madalena. Geralmente tem esse respeito entre grafiteiro e pichador. Ninguém se atropela. É uma lei da rua bacana e a gente se entende dessa forma. Ovelha: Você se importa mais com o processo da obra ou com o resultado?
Mag: O momento que eu estou ali fazendo é muito foda. A gente não sabe o que vai acontecer. Eu tô de costas para o mundo. Tem que confiar. É uma entrega e você tem tanta liberdade. Você pode fazer sujeira e ninguém vai falar nada. É um momento muito mágico. Só quem está ali pintando entende. E também eu aprendi muito a criar sozinha porque eu pintava muito, no começo, com amigos e isso foi se desfazendo. E aí é outra brisa também porque você entra no seu mundinho.
[caption id="attachment_5587" align="aligncenter" width="1024"] ‘Se tarsila hoje em dia fosse. Corasebo de concreto-loei-seria’. Greenpoint, Nova York, EUA, 2014.[/caption]
[caption id="attachment_5588" align="aligncenter" width="1024"] ‘banzo’. Mag Magrela + Ram Miguel. Sintra, Portugal, 2013[/caption]
Ovelha: Você se preocupa com a segurança quando está grafitando?
Mag: Você tem que saber onde está indo pintar. A gente que é mulher, quando está quente, infelizmente não posso ir com um shortinho e uma blusinha porque eu sei que vou sofrer, então vou com uma roupa mais larga para não chamar a atenção. Vou na Cracolândia e fico com um pouco de receio porque a galera tá muito louca. Mesmo assim eles piram no grafite. Nunca sofri nada porque estava pintando. Gente louca ou bandido da área ou polícia ou mauricinho, todo mundo chega e troca ideia na boa. Eu me sinto muito segura quando vou grafitar, como se estivesse com uma armadura porque sinto que a arte faz isso: conecta as pessoas. Ovelha: Como o grafite influencia sua relação com a cidade?
Mag: Minha vida sempre foi voltada pro centro da cidade, que era onde eu estudava e onde moravam minhas amigas, e Vila Madalena, que é onde eu moro. O grafite me fez conhecer todos os lugares da cidade. Ia pra zona leste, zona sul, ia pra favela, pros granfinos. Fui pra todo canto, pra fora do país, viajei. O grafite é aceito cada vez mais em todos os lugares e isso é do caralho pra mim. Ovelha: Quando você percebeu que estava desenhando mulheres mais que qualquer outra coisa?
Mag: É maluco isso porque, quando comecei, eu não queria fazer mulheres por não saber o que fazer com isso mesmo. Aí desenhando muito você vai se copiando, tendo seu corpo como referência, e acaba fazendo o que você mais vê na vida, que é você mesmo. Mas não sei exatamente quando foi isso. Talvez de 2009 para 2010. E elas começaram a ir para uma figura meio pesada, escura, meio retangular, mas meu trabalho muda o tempo inteiro. Ovelha: E elas parecem meio frágeis, tensas, muitas vezes sangrando.
Mag: É muito como eu me sinto. Às vezes eu estou muito encolhida, às vezes mais relaxada, então depende muito. Elas são como eu estou me sentindo naquele momento. Quando comecei a fazer ioga, faz pouco tempo, pirei tanto que comecei a fazer umas mulheres contorcidas. É muito reflexo de mim. O lance do sangue também é legal. Antes, eu fazia uns buraquinhos de bala de tiro nelas, mas não tinha sangue. Passei por um momento de separação, de relacionamento, e foi bem maluco pra minha cabeça. Aí eu fiz uma tela e sangrei nela. Aquilo foi um alívio pra mim, como se eu estivesse há muito tempo querendo pôr pra fora aquilo. Parecia que era eu sangrando.
[caption id="attachment_5616" align="aligncenter" width="1024"] ‘A morte da dona da lua’. Lapa, SP, 2015[/caption]
Ovelha: E algumas têm vaginas disfarçadas, outras não.
Mag: Muitas pessoas acham que são flores e não deixam de ser, né. Em 2010, eu estava fazendo uma tela gigante e senti uma energia feminina que veio em mim, que eu comecei a me sentir mulher. Foi muito louco e pirei na tela. Desenhei dois planetas de bucetas, aí tem uma mulher em cima de um planetinha e um homem no outro. Aí pronto. As bucetas começaram a aparecer sempre no meu trabalho. Começou bem agressivo. Fiz uma tela que chama ‘cara de buceta’, que é uma mulher com uma buceta na cara, que era o jeito que eu estava me sentindo na época no meu relacionamento e achava que o cara só queria isso comigo. Comecei a questionar várias coisas de relação entre homem e mulher. Hoje em dia acho que ela vem com mais sutileza, para carimbar essa energia feminina, esse poder da libido, e de manipular os homens com o sexo. Quem já não fez isso?
[caption id="attachment_5619" align="aligncenter" width="1024"] ‘O começo de mim tinha gosto de sangue doce. em breve meu fim vestirá pedaços de nostalgia’. São Paulo, SP, 2013[/caption]
Ovelha: Por que você usa azulejo no grafite?
Mag: Logo que eu voltei de Portugal, tive a brisa de usar esses caquinhos quebrados de azulejo na parede. Fui em 2012 pra lá e busquei a história dos meus avós. Meu vô era pedreiro e usava muito isso. Aí eu pirei e acho que ninguém tinha feito isso antes no grafite. Também fiz três telas com fundo de azulejo. Quero usar mais essa técnica porque fica muito elegante. É a mesma coisa da buceta que é sutil. A pessoa acha aquilo lindo, mas tem uma puta mensagem pesada ali. É uma coisa que eu saquei. Meu trabalho era muito bruto, agressivo. Hoje as pessoas gostam mais. Ovelha: E a relação da poesia com o seu desenho?
Mag: A palavra sempre foi muito forte pra mim. Quando eu tinha uns 13 anos, já gostava muito de escrever uns contos, e eu escrevia umas coisas tão pesadas na época. Mas não teve uma frequência. Parei de escrever e voltei há alguns anos em um blog, só pra mim. Mas eu gosto de dar um título pro desenho que não seja óbvio e tenha uma poesia nele e, às vezes, a poesia me traz o desenho.
[caption id="attachment_5591" align="aligncenter" width="1024"] ‘azulejo a ausência dos pedaços que deixo em você’. Tucuruvi, SP, 2014[/caption]
Mais uma semana com um monte de coisas legais, importantes e inspiradoras que vimos e achamos que merecem a atenção de vocês.
// YANDÊ
A Noisey fez uma matéria sobre a primeira rádio indígena online do Brasil. Leia aqui.
// DOMINATRIX
Karmenife Paulino tinha 22 anos quando foi estuprada por um cara de uma fraternidade da Universidade de Wesleyan, em Connecticut, Estados Unidos (aliás, assistam ao documentário “The hunting ground”, no Netflix).
Com a fotógrafa Tess Altman, ela criou uma série de fotos chamada “Reclamation”, em que ela posa de dominatrix em frente à fraternidade em que foi violentada. Leia mais aqui.
// VIOLÊNCIA NA USP
Residência estudantil da USP, o Crusp, tem pelo menos um agressor de mulher por andar. Leia aqui.
// BATEKOO
Matéria sobre a Batekoo, festa para gays, lésbicas e transexuais negros que acontece em SP. Aqui.
// MERCADO DE TRABALHO
Entrevista com Angela Christina Lucas, professora de gestão de pessoas e comportamento organizacional no Centro Universitário FEI, que aponta como os RHs cometem injustiças contra as mulheres.
// QUANDO?
A revista Select fez uma edição bem boa sobre feminismo. Eu destaco essa resposta da Eliane Robert de Moraes, que foi minha professora na PUC-SP e é musa da vida.
O mundo deixará de ser machista quando nós, mulheres, formos todas respeitadas. O mundo deixará de ser machista quando formos todas respeitadas nos espaços privados e nos espaços públicos. Todas, sem exceção: as que usam biquíni e as que usam burca. E também as que usam outras vestimentas. E ainda as que preferem não usar nada. O mundo deixará de ser machista quando as mulheres usarem biquínis ou burcas ou qualquer outra vestimenta ou mesmo nada por desejo próprio. E o mundo esquecerá que um dia terá sido machista quando o respeito dos homens e das instituições pelas mulheres for não mais uma obrigação, mas um desejo de todos. Todos, sem exceção. Vai ser festa.
http://www.select.art.br/8410-2/
// NEGRA NO CINEMA BR
Juliana Gonçalves e Renata Martins entrevistaram Adélia Sampaio, a primeira cineasta negra a dirigir um longa-metragem. “Cinema é, sem dúvida, uma arte elitista, aí chega uma preta, filha de empregada doméstica e diz que vai chegar à direção, claro que foi difícil! Até porque me dividia entre fazer cinema e criar meus dois filhos”.
A “TPM” publicou uma entrevista com a jornalista Pilar del Río, viúva do escritor José Saramago. E é uma das coisas mais lindas que eu li essa semana. Clique aqui.
“Mad men” pode ter acabado, mas Sally Draper sempre estará nos nossos corações. Veja esse ensaio maravilhoso e uma entrevista com a atriz Kiernan Shipka feita pela “Dazed”.
saiba mais sobre o evento). Leia trechos da nossa conversa sobre sua história: Ovelha: Mag, você chegou a estudar desenho?
Mag Magrela: Eu sempre desenhei, como toda criança. Lembro da sensação que eu tinha, quando criança, de me realizar com as coisas que eu inventava. Eu pirava. E até hoje eu sou assim com o meu desenho. Só que na minha casa nunca teve essa ideia de ‘ó, você pode ser uma artista’. Aí eu fiz 3 anos de Administração na faculdade que meu pai trabalhava, então não pagava nada, ficava lá moscando até entrar em crise e falar ‘gente, o que eu tô fazendo da minha vida?’. Eu tinha uns 23 anos quando surtei e comecei a questionar ‘o que eu gosto de fazer? o que me realiza? puta, desenhar’. Fiz uma oficina de grafite com o Rui Amaral [um dos pioneiros do movimento do grafite brasileiro] e lá eu conheci uma galera. Com eles, comecei a ir pra rua e não parei mais. Foi autodidata mesmo. Já tentei fazer curso, mas querem me enquadrar e eu não quero desenhar igual a todo mundo.
E o meu desenho muda muito porque eu fui desenhando em casa, buscando movimento porque antes era mais duro. Antes eu fazia só homens, aí comecei a copiar meu corpo, o rosto, e de repente eu estava me fazendo. Eu digo que as mulheres são meu pedacinho. Cada uma me representa de um jeito que eu sou.
Ovelha: Já aconteceu de você se decepcionar com o seu grafite?
Mag: Já me frustrei de querer fazer uma coisa e não conseguir porque eu não tinha ideia de proporção. Daí ou você apaga e começa de novo ou você deixa assim e foda-se. Bem quando eu comecei a grafitar, eu ficava muito tempo no muro tentando entender a personagem. Mas eu sou bem desapegada. Às vezes eu acho que deveria ser mais dedicada. Ovelha: Como você escolhe o local onde você vai grafitar?
Mag: Eu sempre estou de olho nos muros. Quando frequento algum lugar, daí passo, olho e às vezes tenho que pedir autorização de alguém ou, às vezes, o muro tá lá abandonado. Mas o engraçado é que cada um olha a cidade de um jeito. Os grafiteiros e os fotógrafos, por exemplo, olham a cidade completamente diferente das outras pessoas. Eu olho para o lugar e penso ‘olha esse muro que delícia’ e já imagino o meu trabalho ali.
Ovelha: Você tem algum muro favorito ou já voltou para ver como está um desenho seu?
Mag: Não gosto de voltar pra ver, mas gosto muito de vários. Cada muro tem uma história diferente. Tem muro que passa a polícia, daí você tem que desenrolar e já se torna especial porque foi uma conquista. Tem um na Lapa que eu gostei muito de pintar, embaixo da ponte, perto do trem, que é do lado de uma delegacia de polícia. Quando eu estava terminando, os policiais vieram me rodeando, mas não me abordaram. Eles não sabem muito como agir, é engraçado. Ovelha: Algum desenho seu já foi apagado ou pichado?
Mag: Muitos grafites meus foram apagados bem na época do [prefeito Gilberto] Kassab por causa da Lei Cidade Limpa. Na verdade, aprendi até a desapegar por conta disso. Mas pichados só uma vez por uma molecada aqui na Vila Madalena. Geralmente tem esse respeito entre grafiteiro e pichador. Ninguém se atropela. É uma lei da rua bacana e a gente se entende dessa forma. Ovelha: Você se importa mais com o processo da obra ou com o resultado?
Mag: O momento que eu estou ali fazendo é muito foda. A gente não sabe o que vai acontecer. Eu tô de costas para o mundo. Tem que confiar. É uma entrega e você tem tanta liberdade. Você pode fazer sujeira e ninguém vai falar nada. É um momento muito mágico. Só quem está ali pintando entende. E também eu aprendi muito a criar sozinha porque eu pintava muito, no começo, com amigos e isso foi se desfazendo. E aí é outra brisa também porque você entra no seu mundinho.
Ovelha: Você se preocupa com a segurança quando está grafitando?
Mag: Você tem que saber onde está indo pintar. A gente que é mulher, quando está quente, infelizmente não posso ir com um shortinho e uma blusinha porque eu sei que vou sofrer, então vou com uma roupa mais larga para não chamar a atenção. Vou na Cracolândia e fico com um pouco de receio porque a galera tá muito louca. Mesmo assim eles piram no grafite. Nunca sofri nada porque estava pintando. Gente louca ou bandido da área ou polícia ou mauricinho, todo mundo chega e troca ideia na boa. Eu me sinto muito segura quando vou grafitar, como se estivesse com uma armadura porque sinto que a arte faz isso: conecta as pessoas. Ovelha: Como o grafite influencia sua relação com a cidade?
Mag: Minha vida sempre foi voltada pro centro da cidade, que era onde eu estudava e onde moravam minhas amigas, e Vila Madalena, que é onde eu moro. O grafite me fez conhecer todos os lugares da cidade. Ia pra zona leste, zona sul, ia pra favela, pros granfinos. Fui pra todo canto, pra fora do país, viajei. O grafite é aceito cada vez mais em todos os lugares e isso é do caralho pra mim. Ovelha: Quando você percebeu que estava desenhando mulheres mais que qualquer outra coisa?
Mag: É maluco isso porque, quando comecei, eu não queria fazer mulheres por não saber o que fazer com isso mesmo. Aí desenhando muito você vai se copiando, tendo seu corpo como referência, e acaba fazendo o que você mais vê na vida, que é você mesmo. Mas não sei exatamente quando foi isso. Talvez de 2009 para 2010. E elas começaram a ir para uma figura meio pesada, escura, meio retangular, mas meu trabalho muda o tempo inteiro. Ovelha: E elas parecem meio frágeis, tensas, muitas vezes sangrando.
Mag: É muito como eu me sinto. Às vezes eu estou muito encolhida, às vezes mais relaxada, então depende muito. Elas são como eu estou me sentindo naquele momento. Quando comecei a fazer ioga, faz pouco tempo, pirei tanto que comecei a fazer umas mulheres contorcidas. É muito reflexo de mim. O lance do sangue também é legal. Antes, eu fazia uns buraquinhos de bala de tiro nelas, mas não tinha sangue. Passei por um momento de separação, de relacionamento, e foi bem maluco pra minha cabeça. Aí eu fiz uma tela e sangrei nela. Aquilo foi um alívio pra mim, como se eu estivesse há muito tempo querendo pôr pra fora aquilo. Parecia que era eu sangrando.
Ovelha: E algumas têm vaginas disfarçadas, outras não.
Mag: Muitas pessoas acham que são flores e não deixam de ser, né. Em 2010, eu estava fazendo uma tela gigante e senti uma energia feminina que veio em mim, que eu comecei a me sentir mulher. Foi muito louco e pirei na tela. Desenhei dois planetas de bucetas, aí tem uma mulher em cima de um planetinha e um homem no outro. Aí pronto. As bucetas começaram a aparecer sempre no meu trabalho. Começou bem agressivo. Fiz uma tela que chama ‘cara de buceta’, que é uma mulher com uma buceta na cara, que era o jeito que eu estava me sentindo na época no meu relacionamento e achava que o cara só queria isso comigo. Comecei a questionar várias coisas de relação entre homem e mulher. Hoje em dia acho que ela vem com mais sutileza, para carimbar essa energia feminina, esse poder da libido, e de manipular os homens com o sexo. Quem já não fez isso?
Ovelha: Por que você usa azulejo no grafite?
Mag: Logo que eu voltei de Portugal, tive a brisa de usar esses caquinhos quebrados de azulejo na parede. Fui em 2012 pra lá e busquei a história dos meus avós. Meu vô era pedreiro e usava muito isso. Aí eu pirei e acho que ninguém tinha feito isso antes no grafite. Também fiz três telas com fundo de azulejo. Quero usar mais essa técnica porque fica muito elegante. É a mesma coisa da buceta que é sutil. A pessoa acha aquilo lindo, mas tem uma puta mensagem pesada ali. É uma coisa que eu saquei. Meu trabalho era muito bruto, agressivo. Hoje as pessoas gostam mais. Ovelha: E a relação da poesia com o seu desenho?
Mag: A palavra sempre foi muito forte pra mim. Quando eu tinha uns 13 anos, já gostava muito de escrever uns contos, e eu escrevia umas coisas tão pesadas na época. Mas não teve uma frequência. Parei de escrever e voltei há alguns anos em um blog, só pra mim. Mas eu gosto de dar um título pro desenho que não seja óbvio e tenha uma poesia nele e, às vezes, a poesia me traz o desenho.