É muito difícil falar de selfie. É um tema polêmico, que mexe com as nossas entranhas de um jeito esquisito, seja doce ou amargo. É um tema que nos visita nas nossas timelines, dashboards e nos mais diversos cantinhos de nossos lares virtuais.
Como eu já falei aqui antes, as selfies tiveram um papel importante no resgate da minha autoestima. Eu cresci ouvindo que era feia – vindo das mais diversas pessoas e das mais diversas formas – e me forcei minha aparência goela abaixo, uma foto de cada vez. Se eu não gostava do meu perfil, fotografava-o. Uma, duas, infinitas vezes – o necessário até eu aceitar aquela parte de mim. Fui me gostando e me criando nessas fotos – que, na época, iam parar no fotolog.
Numa sociedade em que nossa aparência é constantemente escrutinada, uma foto pode significar um mergulho em direção ao amor próprio.
Compartilhar, para mim, era um desafio. Uma coragem de me colocar na frente do mundo, quando eu estava tão acostumada a me esconder. Hoje minha autoestima está bem melhor e a relação com a câmera certamente teve papel nisso.
Partindo da minha própria experiência eu vejo possibilidades incrivelmente empoderadoras na selfie. Numa sociedade em que nossa aparência é constantemente escrutinada, uma foto pode significar um mergulho em direção ao amor próprio. Um aceitar não precisar ser [ INSIRA NOME DE ATRIZ CONSIDERADA GATA AQUI ] para ser válida. É ter a coragem de se sentir bonita quando se é criada para receber essa validação de outros.
Além disso, a selfie permite que mulheres se vejam. Permite que tenhamos contato com outras possibilidades de beleza e expressão. A linda @hantisedeloubli, por exemplo, é uma constante inspiração de estilo. Negra e gorda, nós dificilmente a veríamos na mídia tradicional. No tumblr e instagram, porém, ela segue nos fazendo indagar padrões.
Por mais que eu ache a selfie uma ferramenta poderosa acredito que não podemos nos fechar em apenas um de seus aspectos. Virar a câmera para si não é uma fórmula mágica de empoderamento e, numa sociedade na qual cada vez mais somos motivadas a nos tornar uma marca para o consumo de outrem nas mídias sociais, a selfie pode ser um passo em direção ao esvaziamento.
Pausa para dizer que não acho a internet ou as redes sociais malignas, advindas das profundezas do inferno para destruir as relações interpessoais, o “todo poderoso” olho no olho (ugh), yada yada. Quem me conhece pessoalmente sabe que eu sou apaixonada por tecnologia e por sua miríade de possibilidades – e que eu tenho profundo ódio pela punhetagem nostalgica. Acho é que nossa discussão das tecnologias tende a ser maniqueísta, preconceituosa e – desculpem a arrogância e agressividade – meio burra, reduzindo sem número de portas a uma.
Ferramentas tem essa característica versatilidade. São o que a gente faz delas. E tem uma caralhada de gente pra fazer. Zero sentido, então, defini-las em uma única coisa. Especialmente quando boa parte dessas definições do que, afinal, é a tecnologia nas nossas vidas, vem de gente com contato limitado com elas.
Não esqueço do meu professor no último ano de psicologia fazendo um ode às cartas e demonstrando seu desprezo pelas novas tecnologias de comunicação. Ele mal sabia usar e-mail – o que dizia com orgulho! – revelando estar criticando algo por uma fração minúscula que ele mal conhece. Parabéns, brother. Assim mesmo que se faz.
Por mais que eu ache a selfie uma ferramenta poderosa acredito que não podemos nos fechar em apenas um de seus aspectos. Virar a câmera para si não é uma fórmula mágica de empoderamento (…)
Mas ok, voltando para o assunto selfie!
Uma das possibilidades que eu vejo nas redes sociais é a de transformar pessoas em marcas. Isso acontece com diversas celebridades, que tem sua humanidade dissolvida para que possamos consumi-los como entretenimento. Algo exigido muitas vezes, inclusive, de pessoas que ganham a repentina atenção ou fama por um viral qualquer: que se comportem como se tivessem toda uma equipe de relações públicas ou morram apedrejadas por tweets. Que mantenham sua imagem imaculada àquilo que foi associada, pronta a ser julgada a qualquer desvio ou tropeço. Que deixem de ser gente e virem uma coca-cola.
Não quero discutir a cultura de celebridades, mas é importante entender que elas influenciam pessoas e comportamentos e, portanto, incluo aí comportamentos virtuais. Vejo que às vezes arriscamos mimetizar esse “ser-marca”. E mimetizar a selfie como algo “agregador” à marca.
Entrar nisso pode ter diversas origens. Pode ser uma necessidade movida pelo receio de ter sua vida invadida e vasculhada por patrões ou potenciais empregadores, tornando importante construir certa imagem nas redes. Pode ser movida pela ansiedade de que a crush vai olhar seu perfil e você precisa parecer “perfeita”. Pode ser movida por querer ser um dia uma dessas celebridades virtuais, oras. Pode ser movida por qualquer angústia que se imponha como barreira à autenticidade.
E aí me vem outra possibilidade da selfie: sintoma. Ela deixa de ser ferramenta empoderadora, de apropriar-se de si, para afastar dessa apropriação, construindo um você artificial para silenciar alguma dor ou desejo.
A selfie pode ser um escudo às nossas vulnerabilidades. Àquilo que não gostamos. Às nossas fragilidades. Pode ser revelarmos apenas o nosso melhor, não porque queremos aprender a enxergá-lo, mas porque não suportamos que outros vejam qualquer outra parte nossa.
Há uma pessoa na minha vida que ilustra isso claramente. Essa pessoa não é muito interessada em arte ou museus. Sempre que acompanha sua amiga a esses locais, fica profundamente irritada. Mal olha as obras.
Sempre, porém, fotografa uma obra. A mais icônica, de preferência. Posta então nas redes sociais com alguma citação de alguém importante. Diz ter amado o passeio. Quem a acompanha sempre fica um pouco confusa: amou onde?
A foto ali, que poderia ser uma selfie, tanto faz, vem agregar à marca da pessoa. Nas redes, ela é outra – porque precisa ser. Porque há uma imagem a ser construída, mantida. Por que quem conhece uma pessoa intelectual que não gosta de arte? – Porque a autenticidade ali a tornaria vulnerável.
A selfie pode ser um escudo às nossas vulnerabilidades. Àquilo que não gostamos. Às nossas fragilidades. Pode ser revelarmos apenas o nosso melhor, não porque queremos aprender a enxergá-lo, mas porque não suportamos que outros vejam qualquer outra parte nossa.
E, por mais que eu esteja falando de selfie aqui, essa questão da insegurança, da angústia e da “marca” pode estar presente nas mais diversas fotos e comportamentos online.
Outro lado “negativo” da selfie é que ela pode impor novos padrões de beleza e perfeição. Padrões esses por vezes mais cruéis, por serem construídos por pessoas ‘reais’, que, em teoria, não tem auxílio de estúdios ou de photoshop profissional. Que representam algo “atingível”.
Volta e meia vejo alguma garota que sigo no instagram postar fotos sem maquiagem para acalmar suas seguidoras que dizem que gostariam de ser “perfeitas” como elas. Ou revelarem editar suas imagens, pelo mesmo motivo.
“Calma” – elas dizem – “eu também não sou perfeita”.
Ainda com todos os receios e possibilidades negativas que rondam as selfies, eu gostaria de dizer que acredito sermos capazes de construir mais caminhos positivos do que negativos com elas.
O próprio fato de diversas mulheres revelarem suas imperfeições quando os outros não as enxergam – de dizerem também não serem ideais – revela uma solidariedade na busca por amor próprio, bem como maiores possibilidades de desconstruir padrões e ideais (ao revelar que são apenas construções, maquiagens e edições), o que a mídia tradicional ainda tem bastante dificuldade em fazer. A selfie está na mão de pessoas – de gente – e isso abre muito mais portas para que humanidades escapem e se revelem.
Vejo a selfie, portanto, como uma multiplicidade que está em constante construção e descontrução. Algo que estamos fazendo, montando, descobrindo. Algo sem direção definida. Imperfeita, cheia de riscos, mas cheia de potências. Não a discutamos, portanto, por prismas que a limitam – seja a aspectos apenas positivos, seja (o mais comum) a aspectos apenas negativos.
O importante é, ao virarmos a câmera para nós, compreendermos e nos abrirmos àquilo que queremos nos dizer e dizer aos outros.
É muito difícil falar de selfie. É um tema polêmico, que mexe com as nossas entranhas de um jeito esquisito, seja doce ou amargo. É um tema que nos visita nas nossas timelines, dashboards e nos mais diversos cantinhos de nossos lares virtuais.
Como eu já falei aqui antes, as selfies tiveram um papel importante no resgate da minha autoestima. Eu cresci ouvindo que era feia – vindo das mais diversas pessoas e das mais diversas formas – e me forcei minha aparência goela abaixo, uma foto de cada vez. Se eu não gostava do meu perfil, fotografava-o. Uma, duas, infinitas vezes – o necessário até eu aceitar aquela parte de mim. Fui me gostando e me criando nessas fotos – que, na época, iam parar no fotolog.
Numa sociedade em que nossa aparência é constantemente escrutinada, uma foto pode significar um mergulho em direção ao amor próprio.
Compartilhar, para mim, era um desafio. Uma coragem de me colocar na frente do mundo, quando eu estava tão acostumada a me esconder. Hoje minha autoestima está bem melhor e a relação com a câmera certamente teve papel nisso.
Partindo da minha própria experiência eu vejo possibilidades incrivelmente empoderadoras na selfie. Numa sociedade em que nossa aparência é constantemente escrutinada, uma foto pode significar um mergulho em direção ao amor próprio. Um aceitar não precisar ser [ INSIRA NOME DE ATRIZ CONSIDERADA GATA AQUI ] para ser válida. É ter a coragem de se sentir bonita quando se é criada para receber essa validação de outros.
Além disso, a selfie permite que mulheres se vejam. Permite que tenhamos contato com outras possibilidades de beleza e expressão. A linda @hantisedeloubli, por exemplo, é uma constante inspiração de estilo. Negra e gorda, nós dificilmente a veríamos na mídia tradicional. No tumblr e instagram, porém, ela segue nos fazendo indagar padrões.
Por mais que eu ache a selfie uma ferramenta poderosa acredito que não podemos nos fechar em apenas um de seus aspectos. Virar a câmera para si não é uma fórmula mágica de empoderamento e, numa sociedade na qual cada vez mais somos motivadas a nos tornar uma marca para o consumo de outrem nas mídias sociais, a selfie pode ser um passo em direção ao esvaziamento.
Pausa para dizer que não acho a internet ou as redes sociais malignas, advindas das profundezas do inferno para destruir as relações interpessoais, o “todo poderoso” olho no olho (ugh), yada yada. Quem me conhece pessoalmente sabe que eu sou apaixonada por tecnologia e por sua miríade de possibilidades – e que eu tenho profundo ódio pela punhetagem nostalgica. Acho é que nossa discussão das tecnologias tende a ser maniqueísta, preconceituosa e – desculpem a arrogância e agressividade – meio burra, reduzindo sem número de portas a uma.
Ferramentas tem essa característica versatilidade. São o que a gente faz delas. E tem uma caralhada de gente pra fazer. Zero sentido, então, defini-las em uma única coisa. Especialmente quando boa parte dessas definições do que, afinal, é a tecnologia nas nossas vidas, vem de gente com contato limitado com elas.
Não esqueço do meu professor no último ano de psicologia fazendo um ode às cartas e demonstrando seu desprezo pelas novas tecnologias de comunicação. Ele mal sabia usar e-mail – o que dizia com orgulho! – revelando estar criticando algo por uma fração minúscula que ele mal conhece. Parabéns, brother. Assim mesmo que se faz.
Por mais que eu ache a selfie uma ferramenta poderosa acredito que não podemos nos fechar em apenas um de seus aspectos. Virar a câmera para si não é uma fórmula mágica de empoderamento (…)
Mas ok, voltando para o assunto selfie!
Uma das possibilidades que eu vejo nas redes sociais é a de transformar pessoas em marcas. Isso acontece com diversas celebridades, que tem sua humanidade dissolvida para que possamos consumi-los como entretenimento. Algo exigido muitas vezes, inclusive, de pessoas que ganham a repentina atenção ou fama por um viral qualquer: que se comportem como se tivessem toda uma equipe de relações públicas ou morram apedrejadas por tweets. Que mantenham sua imagem imaculada àquilo que foi associada, pronta a ser julgada a qualquer desvio ou tropeço. Que deixem de ser gente e virem uma coca-cola.
Não quero discutir a cultura de celebridades, mas é importante entender que elas influenciam pessoas e comportamentos e, portanto, incluo aí comportamentos virtuais. Vejo que às vezes arriscamos mimetizar esse “ser-marca”. E mimetizar a selfie como algo “agregador” à marca.
Entrar nisso pode ter diversas origens. Pode ser uma necessidade movida pelo receio de ter sua vida invadida e vasculhada por patrões ou potenciais empregadores, tornando importante construir certa imagem nas redes. Pode ser movida pela ansiedade de que a crush vai olhar seu perfil e você precisa parecer “perfeita”. Pode ser movida por querer ser um dia uma dessas celebridades virtuais, oras. Pode ser movida por qualquer angústia que se imponha como barreira à autenticidade.
E aí me vem outra possibilidade da selfie: sintoma. Ela deixa de ser ferramenta empoderadora, de apropriar-se de si, para afastar dessa apropriação, construindo um você artificial para silenciar alguma dor ou desejo.
A selfie pode ser um escudo às nossas vulnerabilidades. Àquilo que não gostamos. Às nossas fragilidades. Pode ser revelarmos apenas o nosso melhor, não porque queremos aprender a enxergá-lo, mas porque não suportamos que outros vejam qualquer outra parte nossa.
Há uma pessoa na minha vida que ilustra isso claramente. Essa pessoa não é muito interessada em arte ou museus. Sempre que acompanha sua amiga a esses locais, fica profundamente irritada. Mal olha as obras.
Sempre, porém, fotografa uma obra. A mais icônica, de preferência. Posta então nas redes sociais com alguma citação de alguém importante. Diz ter amado o passeio. Quem a acompanha sempre fica um pouco confusa: amou onde?
A foto ali, que poderia ser uma selfie, tanto faz, vem agregar à marca da pessoa. Nas redes, ela é outra – porque precisa ser. Porque há uma imagem a ser construída, mantida. Por que quem conhece uma pessoa intelectual que não gosta de arte? – Porque a autenticidade ali a tornaria vulnerável.
A selfie pode ser um escudo às nossas vulnerabilidades. Àquilo que não gostamos. Às nossas fragilidades. Pode ser revelarmos apenas o nosso melhor, não porque queremos aprender a enxergá-lo, mas porque não suportamos que outros vejam qualquer outra parte nossa.
E, por mais que eu esteja falando de selfie aqui, essa questão da insegurança, da angústia e da “marca” pode estar presente nas mais diversas fotos e comportamentos online.
Outro lado “negativo” da selfie é que ela pode impor novos padrões de beleza e perfeição. Padrões esses por vezes mais cruéis, por serem construídos por pessoas ‘reais’, que, em teoria, não tem auxílio de estúdios ou de photoshop profissional. Que representam algo “atingível”.
Volta e meia vejo alguma garota que sigo no instagram postar fotos sem maquiagem para acalmar suas seguidoras que dizem que gostariam de ser “perfeitas” como elas. Ou revelarem editar suas imagens, pelo mesmo motivo.
“Calma” – elas dizem – “eu também não sou perfeita”.
Ainda com todos os receios e possibilidades negativas que rondam as selfies, eu gostaria de dizer que acredito sermos capazes de construir mais caminhos positivos do que negativos com elas.
O próprio fato de diversas mulheres revelarem suas imperfeições quando os outros não as enxergam – de dizerem também não serem ideais – revela uma solidariedade na busca por amor próprio, bem como maiores possibilidades de desconstruir padrões e ideais (ao revelar que são apenas construções, maquiagens e edições), o que a mídia tradicional ainda tem bastante dificuldade em fazer. A selfie está na mão de pessoas – de gente – e isso abre muito mais portas para que humanidades escapem e se revelem.
Vejo a selfie, portanto, como uma multiplicidade que está em constante construção e descontrução. Algo que estamos fazendo, montando, descobrindo. Algo sem direção definida. Imperfeita, cheia de riscos, mas cheia de potências. Não a discutamos, portanto, por prismas que a limitam – seja a aspectos apenas positivos, seja (o mais comum) a aspectos apenas negativos.
O importante é, ao virarmos a câmera para nós, compreendermos e nos abrirmos àquilo que queremos nos dizer e dizer aos outros.
Ilustração feita com exclusividade por Julia Balthazar.
É muito difícil falar de selfie. É um tema polêmico, que mexe com as nossas entranhas de um jeito esquisito, seja doce ou amargo. É um tema que nos visita nas nossas timelines, dashboards e nos mais diversos cantinhos de nossos lares virtuais.
Como eu já falei aqui antes, as selfies tiveram um papel importante no resgate da minha autoestima. Eu cresci ouvindo que era feia – vindo das mais diversas pessoas e das mais diversas formas – e me forcei minha aparência goela abaixo, uma foto de cada vez. Se eu não gostava do meu perfil, fotografava-o. Uma, duas, infinitas vezes – o necessário até eu aceitar aquela parte de mim. Fui me gostando e me criando nessas fotos – que, na época, iam parar no fotolog.
Numa sociedade em que nossa aparência é constantemente escrutinada, uma foto pode significar um mergulho em direção ao amor próprio.
Compartilhar, para mim, era um desafio. Uma coragem de me colocar na frente do mundo, quando eu estava tão acostumada a me esconder. Hoje minha autoestima está bem melhor e a relação com a câmera certamente teve papel nisso.
Partindo da minha própria experiência eu vejo possibilidades incrivelmente empoderadoras na selfie. Numa sociedade em que nossa aparência é constantemente escrutinada, uma foto pode significar um mergulho em direção ao amor próprio. Um aceitar não precisar ser [ INSIRA NOME DE ATRIZ CONSIDERADA GATA AQUI ] para ser válida. É ter a coragem de se sentir bonita quando se é criada para receber essa validação de outros.
Além disso, a selfie permite que mulheres se vejam. Permite que tenhamos contato com outras possibilidades de beleza e expressão. A linda @hantisedeloubli, por exemplo, é uma constante inspiração de estilo. Negra e gorda, nós dificilmente a veríamos na mídia tradicional. No tumblr e instagram, porém, ela segue nos fazendo indagar padrões.
Por mais que eu ache a selfie uma ferramenta poderosa acredito que não podemos nos fechar em apenas um de seus aspectos. Virar a câmera para si não é uma fórmula mágica de empoderamento e, numa sociedade na qual cada vez mais somos motivadas a nos tornar uma marca para o consumo de outrem nas mídias sociais, a selfie pode ser um passo em direção ao esvaziamento.
Pausa para dizer que não acho a internet ou as redes sociais malignas, advindas das profundezas do inferno para destruir as relações interpessoais, o “todo poderoso” olho no olho (ugh), yada yada. Quem me conhece pessoalmente sabe que eu sou apaixonada por tecnologia e por sua miríade de possibilidades – e que eu tenho profundo ódio pela punhetagem nostalgica. Acho é que nossa discussão das tecnologias tende a ser maniqueísta, preconceituosa e – desculpem a arrogância e agressividade – meio burra, reduzindo sem número de portas a uma.
Ferramentas tem essa característica versatilidade. São o que a gente faz delas. E tem uma caralhada de gente pra fazer. Zero sentido, então, defini-las em uma única coisa. Especialmente quando boa parte dessas definições do que, afinal, é a tecnologia nas nossas vidas, vem de gente com contato limitado com elas.
Não esqueço do meu professor no último ano de psicologia fazendo um ode às cartas e demonstrando seu desprezo pelas novas tecnologias de comunicação. Ele mal sabia usar e-mail – o que dizia com orgulho! – revelando estar criticando algo por uma fração minúscula que ele mal conhece. Parabéns, brother. Assim mesmo que se faz.
Por mais que eu ache a selfie uma ferramenta poderosa acredito que não podemos nos fechar em apenas um de seus aspectos. Virar a câmera para si não é uma fórmula mágica de empoderamento (…)
Mas ok, voltando para o assunto selfie!
Uma das possibilidades que eu vejo nas redes sociais é a de transformar pessoas em marcas. Isso acontece com diversas celebridades, que tem sua humanidade dissolvida para que possamos consumi-los como entretenimento. Algo exigido muitas vezes, inclusive, de pessoas que ganham a repentina atenção ou fama por um viral qualquer: que se comportem como se tivessem toda uma equipe de relações públicas ou morram apedrejadas por tweets. Que mantenham sua imagem imaculada àquilo que foi associada, pronta a ser julgada a qualquer desvio ou tropeço. Que deixem de ser gente e virem uma coca-cola.
Não quero discutir a cultura de celebridades, mas é importante entender que elas influenciam pessoas e comportamentos e, portanto, incluo aí comportamentos virtuais. Vejo que às vezes arriscamos mimetizar esse “ser-marca”. E mimetizar a selfie como algo “agregador” à marca.
Entrar nisso pode ter diversas origens. Pode ser uma necessidade movida pelo receio de ter sua vida invadida e vasculhada por patrões ou potenciais empregadores, tornando importante construir certa imagem nas redes. Pode ser movida pela ansiedade de que a crush vai olhar seu perfil e você precisa parecer “perfeita”. Pode ser movida por querer ser um dia uma dessas celebridades virtuais, oras. Pode ser movida por qualquer angústia que se imponha como barreira à autenticidade.
E aí me vem outra possibilidade da selfie: sintoma. Ela deixa de ser ferramenta empoderadora, de apropriar-se de si, para afastar dessa apropriação, construindo um você artificial para silenciar alguma dor ou desejo.
A selfie pode ser um escudo às nossas vulnerabilidades. Àquilo que não gostamos. Às nossas fragilidades. Pode ser revelarmos apenas o nosso melhor, não porque queremos aprender a enxergá-lo, mas porque não suportamos que outros vejam qualquer outra parte nossa.
Há uma pessoa na minha vida que ilustra isso claramente. Essa pessoa não é muito interessada em arte ou museus. Sempre que acompanha sua amiga a esses locais, fica profundamente irritada. Mal olha as obras.
Sempre, porém, fotografa uma obra. A mais icônica, de preferência. Posta então nas redes sociais com alguma citação de alguém importante. Diz ter amado o passeio. Quem a acompanha sempre fica um pouco confusa: amou onde?
A foto ali, que poderia ser uma selfie, tanto faz, vem agregar à marca da pessoa. Nas redes, ela é outra – porque precisa ser. Porque há uma imagem a ser construída, mantida. Por que quem conhece uma pessoa intelectual que não gosta de arte? – Porque a autenticidade ali a tornaria vulnerável.
A selfie pode ser um escudo às nossas vulnerabilidades. Àquilo que não gostamos. Às nossas fragilidades. Pode ser revelarmos apenas o nosso melhor, não porque queremos aprender a enxergá-lo, mas porque não suportamos que outros vejam qualquer outra parte nossa.
E, por mais que eu esteja falando de selfie aqui, essa questão da insegurança, da angústia e da “marca” pode estar presente nas mais diversas fotos e comportamentos online.
Outro lado “negativo” da selfie é que ela pode impor novos padrões de beleza e perfeição. Padrões esses por vezes mais cruéis, por serem construídos por pessoas ‘reais’, que, em teoria, não tem auxílio de estúdios ou de photoshop profissional. Que representam algo “atingível”.
Volta e meia vejo alguma garota que sigo no instagram postar fotos sem maquiagem para acalmar suas seguidoras que dizem que gostariam de ser “perfeitas” como elas. Ou revelarem editar suas imagens, pelo mesmo motivo.
“Calma” – elas dizem – “eu também não sou perfeita”.
Ainda com todos os receios e possibilidades negativas que rondam as selfies, eu gostaria de dizer que acredito sermos capazes de construir mais caminhos positivos do que negativos com elas.
O próprio fato de diversas mulheres revelarem suas imperfeições quando os outros não as enxergam – de dizerem também não serem ideais – revela uma solidariedade na busca por amor próprio, bem como maiores possibilidades de desconstruir padrões e ideais (ao revelar que são apenas construções, maquiagens e edições), o que a mídia tradicional ainda tem bastante dificuldade em fazer. A selfie está na mão de pessoas – de gente – e isso abre muito mais portas para que humanidades escapem e se revelem.
Vejo a selfie, portanto, como uma multiplicidade que está em constante construção e descontrução. Algo que estamos fazendo, montando, descobrindo. Algo sem direção definida. Imperfeita, cheia de riscos, mas cheia de potências. Não a discutamos, portanto, por prismas que a limitam – seja a aspectos apenas positivos, seja (o mais comum) a aspectos apenas negativos.
O importante é, ao virarmos a câmera para nós, compreendermos e nos abrirmos àquilo que queremos nos dizer e dizer aos outros.
A primeira vez que eu considerei não continuar com essa tal “vida” eu tinha seis anos. Eu havia brigado com a minha irmã mais velha e me sentido muito culpada por isso. Sentindo-me não merecedora de continuar, misturei detergente (que, na minha imaginação, seria capaz de me matar) no leite do sucrilhos e comecei a tomar. O gosto ruim me impediu de continuar e só então fui tomada pela culpa da dor que poderia estar causando à minha mãe – dor que segurou minha mão e minha cabeça diversas vezes.
Depois dessa foram poucas tentativas, mas muitos e muitos planos, numa batalha interna exaustiva. Por vezes, quando agir contra minha vida me parecia extremo ou dramático, eu celebrava adoecimentos internamente e negligenciava minha saúde, como maneira de, quem sabe, deixar a própria morte chegar, ajudando-a a acelerar o passo.
A verdade é que existir me é uma coisa muito cansativa com a qual nunca me dei bem – e parar para olhar as flores ou os grafites da cidade, que me agradam mais, não reduz em nada essa fadiga. Não importa quais planos ou projetos eu tenha pro futuro, eles nunca parecem compensar um dia-a-dia de estar num mundo que muito me incomoda – não importa meu humor ou quão bem eu esteja.
Setembro, coincidentemente mês do meu aniversário, é também mês da prevenção ao suicídio (conhecido como Setembro Amarelo). Muitas campanhas que vejo pela internet me incomodam porque parecem partir de pessoas que não sabem o que é considerar morrer, desejar morrer. Porque isso não é, definitivamente, questão de parar para cheirar as flores ou apreciar as pequenas coisas. Se você está namorando a única porta de saída é porque o perfume da flor deixou de compensar tem um tempo.
Decidi escrever sobre isso, então, como aconselhamentos de quem sabe o quanto essa briga dentro da nossa cabeça é difícil.
Não é sempre que eu considero suicídio. Eu tenho crises em que, repentinamente, acho a vida ou demasiadamente insuportável ou me acho não merecedora da vida, entrando numa espiral de culpa e autodestrutividade. É difícil, mas é importante aprender a romper com a espiral.
Você pode tentar se distrair. Enganar sua cabeça pra que ela foque em outra coisa. Às vezes isso é possível. Ler um livro, ver um filme, uma série, olhar o tumblr, jogar videogame. Tem vez que tudo que você precisa é esquecer essas ideias. Mas eu sei que nem sempre isso é possível.
Lembre-se das coisas que te mantém aqui. Você tem um sonho para o futuro e tem enfrentado as dores para realizá-lo? Pense nele. Se pensar nos seus sonhos te levar a pensar na impossibilidade deles, pense no quanto você já tem feito para atingi-los e no quão injusto contigo seria parar agora.
Se você é como eu e fica no mundo pela companhia, pense nas pessoas que você ama. É muito fácil, quando entramos nessa espiral, que pensar nessas pessoas nos faça nos sentirmos egoístas por querermos abandonar a vida e sabermos que isso causará dor a elas – o que pode piorar ainda mais a culpa e autodestrutividade – então tente pensar nos motivos pelos quais aquelas pessoas te amam. Pense no que elas valorizam em você. Pense que você tem valor pra elas – e que elas não podem estar tão erradas sobre você, afinal, você também gosta delas, você sabe que elas são pessoas inteligentes.
Pense nas coisas que você faz e que você valoriza. Você as tem. Você não se odeia sempre. É difícil lembrar-se disso nessas horas, mas o esforço é importante. O que você gosta em você? O que é bom em você? O que você pode fazer pra mudar aquilo que você não gosta em você?
Se você sente que não fará falta, lembre que você está mentindo pra si mesmo. Você faz falta – e se for pra uma pessoa já é muita coisa. O nosso mundinho capitalista muitas vezes nos faz pensar quantitativamente ou associar nosso valor a coisas estúpidas – mas você tem muito valor. Você é uma pessoa única com potencialidades únicas. E, num mundo cheio de gente, isso pode não parecer muita coisa, mas é.
Conte para alguém em quem você confia. Ligue para a pessoa e diga: “eu estou pensando em me matar, me ajuda”. Eu sei que isso é muito difícil – a gente tem medo de não ser compreendida ou de machucar a outra pessoa – mas ter ajuda e companhia nessas horas pode fazer toda a diferença.
Se a vida está muito, mas muito difícil, lembre que por um fim nela acaba com a possibilidade de você viver tempos melhores. A fase em que eu mais tive ideações suicidas – ou seja, desejei e planejei me matar – foi na minha adolescência, um tempo bastante complicado da minha história. Eu sou uma pessoa muito mais feliz hoje (e sim, mesmo que eu ainda tenha uma série de crises e uma série de questões de saúde mental, eu me considero uma pessoa muito feliz. Pode parecer contraditório, mas eu acho que existir como humana é uma contradição mesmo, haha). Eu conheci pessoas com as quais me dou muito bem. Conheci o amor da minha vida, com quem estou já há sete anos. Eu conheci causas pelas quais eu quero lutar. Eu estou me tornando uma pessoa da qual eu me orgulho.
E, nos aspectos de pensar uma vida melhor, um conselho que eu acho fundamental é: livre-se das pessoas que te fazem mal. Saia dos relacionamentos abusivos. Se afaste de pessoas que querem que você seja outra. Eu sei que nem sempre isso é possível, pois muitas vezes essas pessoas são da sua família e você precisa conviver com elas, morar com elas. Mas reduza ao máximo essas pessoas e se aproxime ao máximo daquelas que te aceitam e te amam. Eu sei que cortar relacionamentos é algo difícil e a gente pode pensar “poxa, mas fulana não faz por mal” – foda-se. Você está protegendo a sua vida e não importa quão bem intencionada a sua prima é quando diz que você deveria ser x ou y, se ela está potencializando ideias negativas tuas, isso precisa acabar.
Procure ajuda. Procure acompanhamento psicológico – e, o mais importante nisso, procure uma profissional com a qual você se sinta confortável, em quem você confie. Terapia só funciona quando você se sente à vontade. A depender do teu caso e situação, pode ser que você precise de ajuda psiquiátrica. Não há nada de errado com isso. A gente precisa das ajudas que precisa e precisar de ajuda não faz ninguém ser fraca.
Eu sei que nem todo mundo vive as ideações da mesma maneira. Esses conselhos são apenas o que funciona pra mim e como cada pessoa é uma pessoa, cada cabeça é uma cabeça e cada caso é um caso. Mas se funcionar e ajudar duas ou três pessoas eu já me sinto bastante feliz.
Se você ama alguém que sofre de ideações suicidas, esteja do lado dela e demonstre estar lá pra ela. Escute os choramingos, desabafos, crises. Mas não se culpe se você não aguentar ou não der conta de vez em quando. Nós todos temos que cuidar da nossa própria saúde mental e cuidar de alguém em profundo sofrimento pode ser cansativo.
Mais importante: não se culpe se a pessoa eventualmente perder essa luta. É uma luta dela e, por mais que pessoas ao nosso redor possam ajudar ou apoiar, no fim quem tem que derrotar nossos monstros somos nós. E a última coisa que nós desejamos é que vocês se sintam culpados. Mesmo.
Suicídio não é uma questão fácil de lidar, de se conversar. É um tema rodeado de estereótipos, de medos, de tabus. Mas é um tema que a afeta a vida de muitas pessoas, de maneiras extremamente dolorosas e sobre o qual precisamos falar. Precisamos conversar e assumir nossas experiências para que mais pessoas possam sentir-se confortáveis em se abrir sobre o tema, procurar ajuda. Precisamos nos unir, nos fortalecermos.
E, por fim, se você estiver pensando: “afe, mas psicóloga e com esses problemas?” deixe-me responder que psicólogos são pessoas, humanas, imperfeitas, sujeitas a todo tipo de sofrimento e adoecimento – e que isso não reduz em nada nossa capacidade de ouvir, compreender, esclarecer e auxiliar a jornada dos outros. Talvez isso até garanta que, na hora em que você estiver sofrendo, saibamos que parar para cheirar flores não resolve tudo.
Ilustrações feitas com exclusividade por Fernanda Garcia (a.k.a. Kissy)
@hantisedeloubli, por exemplo, é uma constante inspiração de estilo. Negra e gorda, nós dificilmente a veríamos na mídia tradicional. No tumblr e instagram, porém, ela segue nos fazendo indagar padrões.
Por mais que eu ache a selfie uma ferramenta poderosa acredito que não podemos nos fechar em apenas um de seus aspectos. Virar a câmera para si não é uma fórmula mágica de empoderamento e, numa sociedade na qual cada vez mais somos motivadas a nos tornar uma marca para o consumo de outrem nas mídias sociais, a selfie pode ser um passo em direção ao esvaziamento.
Pausa para dizer que não acho a internet ou as redes sociais malignas, advindas das profundezas do inferno para destruir as relações interpessoais, o “todo poderoso” olho no olho (ugh), yada yada. Quem me conhece pessoalmente sabe que eu sou apaixonada por tecnologia e por sua miríade de possibilidades – e que eu tenho profundo ódio pela punhetagem nostalgica. Acho é que nossa discussão das tecnologias tende a ser maniqueísta, preconceituosa e – desculpem a arrogância e agressividade – meio burra, reduzindo sem número de portas a uma.
Ferramentas tem essa característica versatilidade. São o que a gente faz delas. E tem uma caralhada de gente pra fazer. Zero sentido, então, defini-las em uma única coisa. Especialmente quando boa parte dessas definições do que, afinal, é a tecnologia nas nossas vidas, vem de gente com contato limitado com elas.
Não esqueço do meu professor no último ano de psicologia fazendo um ode às cartas e demonstrando seu desprezo pelas novas tecnologias de comunicação. Ele mal sabia usar e-mail – o que dizia com orgulho! – revelando estar criticando algo por uma fração minúscula que ele mal conhece. Parabéns, brother. Assim mesmo que se faz.
Por mais que eu ache a selfie uma ferramenta poderosa acredito que não podemos nos fechar em apenas um de seus aspectos. Virar a câmera para si não é uma fórmula mágica de empoderamento (…)
Mas ok, voltando para o assunto selfie!
Uma das possibilidades que eu vejo nas redes sociais é a de transformar pessoas em marcas. Isso acontece com diversas celebridades, que tem sua humanidade dissolvida para que possamos consumi-los como entretenimento. Algo exigido muitas vezes, inclusive, de pessoas que ganham a repentina atenção ou fama por um viral qualquer: que se comportem como se tivessem toda uma equipe de relações públicas ou morram apedrejadas por tweets. Que mantenham sua imagem imaculada àquilo que foi associada, pronta a ser julgada a qualquer desvio ou tropeço. Que deixem de ser gente e virem uma coca-cola.
Não quero discutir a cultura de celebridades, mas é importante entender que elas influenciam pessoas e comportamentos e, portanto, incluo aí comportamentos virtuais. Vejo que às vezes arriscamos mimetizar esse “ser-marca”. E mimetizar a selfie como algo “agregador” à marca.
Entrar nisso pode ter diversas origens. Pode ser uma necessidade movida pelo receio de ter sua vida invadida e vasculhada por patrões ou potenciais empregadores, tornando importante construir certa imagem nas redes. Pode ser movida pela ansiedade de que a crush vai olhar seu perfil e você precisa parecer “perfeita”. Pode ser movida por querer ser um dia uma dessas celebridades virtuais, oras. Pode ser movida por qualquer angústia que se imponha como barreira à autenticidade.
E aí me vem outra possibilidade da selfie: sintoma. Ela deixa de ser ferramenta empoderadora, de apropriar-se de si, para afastar dessa apropriação, construindo um você artificial para silenciar alguma dor ou desejo.
A selfie pode ser um escudo às nossas vulnerabilidades. Àquilo que não gostamos. Às nossas fragilidades. Pode ser revelarmos apenas o nosso melhor, não porque queremos aprender a enxergá-lo, mas porque não suportamos que outros vejam qualquer outra parte nossa.
Há uma pessoa na minha vida que ilustra isso claramente. Essa pessoa não é muito interessada em arte ou museus. Sempre que acompanha sua amiga a esses locais, fica profundamente irritada. Mal olha as obras.
Sempre, porém, fotografa uma obra. A mais icônica, de preferência. Posta então nas redes sociais com alguma citação de alguém importante. Diz ter amado o passeio. Quem a acompanha sempre fica um pouco confusa: amou onde?
A foto ali, que poderia ser uma selfie, tanto faz, vem agregar à marca da pessoa. Nas redes, ela é outra – porque precisa ser. Porque há uma imagem a ser construída, mantida. Por que quem conhece uma pessoa intelectual que não gosta de arte? – Porque a autenticidade ali a tornaria vulnerável.
A selfie pode ser um escudo às nossas vulnerabilidades. Àquilo que não gostamos. Às nossas fragilidades. Pode ser revelarmos apenas o nosso melhor, não porque queremos aprender a enxergá-lo, mas porque não suportamos que outros vejam qualquer outra parte nossa.
E, por mais que eu esteja falando de selfie aqui, essa questão da insegurança, da angústia e da “marca” pode estar presente nas mais diversas fotos e comportamentos online.
Outro lado “negativo” da selfie é que ela pode impor novos padrões de beleza e perfeição. Padrões esses por vezes mais cruéis, por serem construídos por pessoas ‘reais’, que, em teoria, não tem auxílio de estúdios ou de photoshop profissional. Que representam algo “atingível”.
Volta e meia vejo alguma garota que sigo no instagram postar fotos sem maquiagem para acalmar suas seguidoras que dizem que gostariam de ser “perfeitas” como elas. Ou revelarem editar suas imagens, pelo mesmo motivo.
“Calma” – elas dizem – “eu também não sou perfeita”.
Ainda com todos os receios e possibilidades negativas que rondam as selfies, eu gostaria de dizer que acredito sermos capazes de construir mais caminhos positivos do que negativos com elas.
O próprio fato de diversas mulheres revelarem suas imperfeições quando os outros não as enxergam – de dizerem também não serem ideais – revela uma solidariedade na busca por amor próprio, bem como maiores possibilidades de desconstruir padrões e ideais (ao revelar que são apenas construções, maquiagens e edições), o que a mídia tradicional ainda tem bastante dificuldade em fazer. A selfie está na mão de pessoas – de gente – e isso abre muito mais portas para que humanidades escapem e se revelem.
Vejo a selfie, portanto, como uma multiplicidade que está em constante construção e descontrução. Algo que estamos fazendo, montando, descobrindo. Algo sem direção definida. Imperfeita, cheia de riscos, mas cheia de potências. Não a discutamos, portanto, por prismas que a limitam – seja a aspectos apenas positivos, seja (o mais comum) a aspectos apenas negativos.
O importante é, ao virarmos a câmera para nós, compreendermos e nos abrirmos àquilo que queremos nos dizer e dizer aos outros.