Abuso, Jessica Jones e Kilgraves da vida real

Por Beatriz Amendola*

“Kilgrave made me do it” (“Kilgrave me obrigou a fazer isso”). A frase é repetida mais de uma vez na série “Jessica Jones”, sempre com horror e culpa. O grande vilão da nova série do Netflix e da Marvel, afinal, tem como superpoder justamente a habilidade de controlar mentes e fazer com que os outros façam exatamente aquilo que ele quer — de saltar por horas a jogar café quente no próprio rosto.

Nem a própria Jessica Jones (Krysten Ritter), uma heroína dotada de grande força física, escapou disso. Ela ficou sob domínio do vilão por meses, sendo violada mental e fisicamente. Kilgrave forçou Jessica a viver com ele, a afastou de seus amigos, a fez abandonar sua antiga vida, a obrigou a cometer crimes graves e a fez sentir culpa por ações que são responsabilidade dele — e de mais ninguém.

Mas esse “ele a fez/ele a obrigou” não é, nem de longe, exclusividade de seres da ficção que tenham superpoderes. Se você tem Facebook e não ficou sem internet nos últimos dois dias, com certeza leu algumas das seguintes, frases na sua timeline:

Ele me fez sentir feia e burra

Ele fez eu achar que nunca mais seria amada

Ele fez eu me afastar dos meus amigos

Ele me obrigou a transar com ele

Lamentavelmente, essas frases se repetiram entre as centenas de relatos da tag #meuamigosecreto, usada por muitas mulheres para denunciar e desabafar sobre abusos e violências sofridos cotidianamente.

Violações desse tipo são muito reais, e estão presentes no dia a dia de várias mulheres, ainda que de formas sutis. Não é à toa que Kilgrave é o vilão mais aterrorizante do universo cinemático da Marvel até agora: no fim das contas, se você tirar os poderes da equação, dá para perceber que há vários Kilgraves por aí, que podem deixar cicatrizes enormes sem ter qualquer tipo de habilidade especial.

E da mesma forma que isso aconteceu na série com Jessica — que é dotada de habilidade sobre-humanas, mas bebe muito para lidar com os traumas causados por Kilgrave e sofre de estresse pós traumático — , também acontece na vida real com outras tantas mulheres, por mais independentes e esclarecidas que elas sejam.

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É ao abordar esse tema espinhoso que “Jessica Jones” se destaca. A série é ótima como entretenimento: tem uma história atrativa e bem construída, uma protagonista que conquista apesar de não ser “certinha”, ritmo ágil. Mas sua relevância vai além do mundo televisivo. Sem ser didática e apelar para clichês, ela traz à luz um tema necessário que pouco foi abordado na TV, no caso dos abusos psicológicos, e retrata de forma humana o estupro, que vira e mexe é usado como mero recurso para chocar, sem acrescentar em nada à trajetória da personagem.

Que essa abordagem da série e a disposição de tantas mulheres em falar sobre seus #amigossecretos e #primeirosassedios sejam sintomas de que o mundo está ficando pelo menos um pouquinho melhor para as mulheres, dentro e fora da TV.

[separator type="thin"] *Beatriz Amendola é jornalista, escreve sobre televisão no UOL e colaboradora Ovelha. Sente não ter horas suficientes no dia para ver todas as séries que quer.

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Diário de viagem: Nã pela China

Meu nome é Ana Carolina Matsusaki, conhecida pelos amigos como . Antes, a China para mim era um shopping cheio de lojinhas com produtos pirateados na Avenida Paulista ou na 25 de março. O yakisoba era o prato oficial do país, e provavelmente o biscoito da sorte devia ser a sobremesa tradicional deles.

 
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De repente, fui parar na China e tudo mudou. Era 2012 e estávamos eu e meu namorado em uma trip de 5 meses pela Ásia. Passamos pela Tailândia, Camboja, Vietnã, Laos, mas nenhum foi tão marcante em termos de choque cultural quanto foi a China. Gosto de comparar nossa viagem à Ásia a um videogame, sendo os países do Sudeste Asiático o nível fácil. A China é o Chefão.

 
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E por que falar justamente da China? Até hoje, quando penso na China, quando falo sobre a China, é como se eu estivesse contando um sonho. Como encaixar na minha realidade as noites dormidas nos trens me alimentando com macarrão instantâneo, os dumplings no café da manhã, os chineses de cócoras jogando xadrez chinês, suas sopas quentes e perfumadas, os bebês com suas bundinhas de fora, chineses levantando da mesa do restaurante e deixando sobras que alimentariam 10 pessoas, os seus barcos de bambu, seus olhos curiosos nos sondando o tempo todo?

 
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Durante 45 dias viajamos por montanhas, campos de arroz e cidades com lanternas vermelhas. Foram cerca de 10 cidades: Yangshuo, Longsheng, Dali, Lijiang, Shangri-la, Chengdu, Leshan, Xiaan, Luoyang, Pingyao e Beijing.

 
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Tínhamos acabado de passar uma semana em Hong Kong quando colocamos nosso pé pela primeira vez na China de fato. Estávamos em Guanzhou, uma “pequena cidade” de 14 milhões de habitantes. Até então eu e meu namorado tínhamos viajado por 3 meses pela Ásia sem fazer nenhuma reserva de hotel. Chegávamos nas cidades e procurávamos na hora ou íamos até um hotel indicado pelo nosso guia de viagens. Na China percebemos que teríamos que mudar o nosso esquema, questão de sobrevivência. No primeiro hotel onde batemos à porta, ninguém falava inglês, e não havia vagas. Desespero. Eu já queria ir embora do país. Ainda bem que ficamos.

 

6 sabedorias milenares para pisar na China

 

Hospede-se em hostels

Na maioria dos hotéis não se fala inglês, e acredite, qualquer pessoa que fale inglês na China é uma pessoa em potencial para resolver 90% dos seus problemas. Nós sempre pedíamos para os recepcionistas dos hostels onde ficávamos, anotarem em papeizinhos tudo o que precisávamos: lugares que queríamos ir, nomes de remédios e o mais imprescindível para mim – a frase “sem pimenta, por favor”.
 

Vá de trem

Seguros e confortáveis são a forma mais divertida de se viajar pela China. Pássavamos horas conversando com os outros passageiros através de mímica. E eles costumam ser generosos, oferecendo – quase obrigando – comidinhas ao longo da viagem. Pode ser um milho cozido, pode ser uma lata de cerveja quente. Lembrando que você, mulher, provavelmente ficará de fora da oferta da cerveja quente e de alguns cigarros. Sim, a China é um país machista. Sim, vale a pena ficar fora da oferta de cerveja quente.
 

Like a superstar

Não faz tanto tempo assim que a China se abriu para o mundo. Turistas ocidentais ainda são raros por lá, principalmente fora de Beijing e Shanghai. Se o seu biotipo é diferente do dos chineses prepare-se para ser o centro das atenções. Os chineses vão querer tirar fotos com você (e inclusive fazer fila para isso), tocar seu cabelo (especialmente se você tiver dreads) e ficar na tua cola o tempo todo. Quando eu e meu namorado estávamos nas estações de trem jogando xadrez chinês para passar o tempo, não era raro nos vermos envoltos por uma multidão de curiosos.
 

Cadê meu yakisoba?

Embora você não encontre o yakisoba como conhecemos no Brasil (e com esse nome), há pratos muito similares. As comidas de lá são bem temperadas, muitas com molho agridoce e eles comem bastante sopa com noodles no dia a dia. Não dispenso e vou junto. Os deliciosos dumplings cozidos ao vapor em cestinhas de bambu são o pau pra toda obra. E para os mais lariquentos a dica é carregar sempre alguns potes de macarrão instantâneo com você, os boilers com água fervendo estão espalhados por todos os lados – trens, hotéis, hostels, estações de trem e de ônibus.
 

Internet controlada

Sim, é verdade que o acesso a sites como Facebook ou Instagram é censurado no país. Quem vê as lojinhas abarrotadas de turistas em cidades como Yangshuo ou Lijiang não diz que a China é um país comunista. Mas quanto mais viajávamos por lá, mais nos dávamos conta da triste mão de ferro que controla o país. Chineses totalmente desinformados (alguns não sabiam dos conflitos no Tibet), controle rigoroso para pisar na Praça da Paz Celestial (raio X e muitas câmeras) e boatos de que nosso guia poderia ser confiscado (por não mostrar Taiwan como parte da China).
 

Talvez doa em você

Escarrar no chão é normal. O tempo todo. Homens e mulheres. E dentro do restaurante, dentro do aeroporto, quando não tem placa proibindo. É a sinfonia da cidade. Além disso, em cidades pequenas, era comum ver crianças pequenas com roupas com uma abertura no bumbum <3 . Para facilitar o processo. Na rua mesmo.    

Cinco momentos maravilhosos para se viver na China

 

Pedalar de bicicleta em Shangri-la, uma pequena cidade próxima ao Tibet

 

Navegar de bambu boat pelo rio Amarelo em Yangshuo

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O famoso bairro 798 de Beijing

 

O bairro muçulmano em Xiaan, a cidade com os guerreiros de Terracota

 

Os terraços de arroz em Longsheng, conhecido como A Espinha do Dragão

 

Onde fiquei: China
Quanto tempo: 45 dias
Com quem: meu namorado
Quanto gastei:
Passagens (via Bangkok): R$ 2.400
Média de preço do hostel: $14 para duas pessoas
Média de gastos diário por pessoa: 20 a 30 dólares

Conclusão: Não é para os fracos. Volto em breve.


 
Nã Matsusaki é designer, ilustradora, mãe da pug Bullying e colaboradora Ovelha. Se você se apaixonou pela viagem dela, leia os relatos e mais fotos incríveis da sua viagem em seu blog, Ásia de Mochila.

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Que essa abordagem da série e a disposição de tantas mulheres em falar sobre seus #amigossecretos e #primeirosassedios sejam sintomas de que o mundo está ficando pelo menos um pouquinho melhor para as mulheres, dentro e fora da TV.

*Beatriz Amendola é jornalista, escreve sobre televisão no UOL e colaboradora Ovelha. Sente não ter horas suficientes no dia para ver todas as séries que quer.

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