O desafio que é a maternidade

Colagem feita com exclusividade por Bárbara Malagoli (Baby C)

Por Mayra Oi*

Nesse meu momento de estreia como mãe e de corrente do “desafio da maternidade”, também fui convidada por algumas amigas a participar. Coincidindo com esse turbilhão de novas percepções que estou sentindo e de questionamentos que tenho acompanhado por aqui no feminismo fico pensando que é um momento incrível pra ter um bebê e viver esse turbilhão! Incrível porque está no ar uma grande discussão sobre a maternidade compulsória e todos os pesos que o patriarcado nos impõe. Contextualizo isso rasamente pra situar sobre o meu ponto de vista, mas quem quiser saber mais, é só fuçar nos grupos feministas por aí que a coisa tá pegando fogo!

Fato é que pra mim é incrível esse momento porque bem quando eu estava mergulhada no assunto e me aproximando do feminismo radical, engravidei, topei levar essa parada a cabo e como se não bastasse, dei a luz a um ser com pênis! Hahaha, Martín já veio chacoalhando os princípios dessa mãe feminista!

Me tornar mãe foi e está sendo uma elaboração difícil. Amorosa, mas dolorosa, como imagino que seja pra todas, mas sobre a qual nem todas falam. Eu sou privilegiada, estou tendo todo o apoio, afetivo e financeiro pra bancar essa situação. Por isso, me identifico com as mães apaixonadas e encantadas por serem mães de seus bebês, mas também me reconheço muito nas falas das mães amarguradas, cheias de dores, complicações de saúde, carências emocionais, limitações na vida que antes foi construída tão independentemente. Nem imagino o que seja ser mãe-solo, ou que está doente, ou que tem o filho doente, ou que sofre violência, ou que está em qualquer outra situação de risco, enfim, todo o respeito e solidariedade, sem julgamento, à essas mães.

Dividida entre essas posições, prefiro não tomar um só partido, até porque se estou entendendo um pouco do que é a maternidade é que ela é multifacetada. Tem dores e delícias. A alegria de ver seu filho sorrir, aprender a controlar as mãozinhas, a fazer novos barulhos, e a angústia de estar com ele chorando sem saber o que fazer pra passar a dor, ou de não poder fazer nem um quinto das coisas que eu podia antes dele chegar.

Por isso, aproveito essa corrente pra homenagear o outro lado da maternidade: a minha mãe. Não tem maior verdade do que aquela que diz que a gente vai entender e dar razão à nossa mãe quando tiver um filho. Eu sempre soube disso, mas agora eu sinto isso. Ao longo da gravidez, no meu parto e agora no puerpério eu fui acompanhando o nascimento da minha mãe como avó e o renascimento dela como mãe também. Renascimento porque nossa relação se renovou. Eu fico tão comovida ao ver o quanto ela se dedicou à mim (agora e sempre) e se dedica ao Martín, com todo amor, dispondo de todo o tempo, energia e recursos pra ver a gente bem.

 

[caption id="attachment_9333" align="aligncenter" width="700"]Essa imagem é dela caminhando ao meu lado no hospital, durante o trabalho de parto. Minha mãe me ajudando a virar mãe também. Essa imagem é dela caminhando ao meu lado no hospital, durante o trabalho de parto. Minha mãe me ajudando a virar mãe também.[/caption]

 

Fico pensando em como foi na vez dela, o que foi ser mãe sem ter a dela por perto. Imagino a dureza que foi. Eu acho que não conseguiria sem ela aqui. Agora eu entendo as decisões que ela tomou, as coisas que teve que abrir mão e vejo que ela fez o melhor que pode. Mesmo nas cobranças, nas reclamações, nos vícios, mesmo errando, ela tava tentando acertar. Se eu for metade da mãe que ela é, já vou estar bem satisfeita.

Escrevi isso tudo pra você mãe, e é um pouco de tudo que venho percebendo nos últimos meses e da gratidão e do amor que sinto transbordando em mim.

 


*Mayra Oi trabalha há 10 anos com educação e arte. Tem um amor enorme pelas matrizes africanas e indígenas do Brasil, além da nave-mãe nipônica. É filha de Oxum e mãe do Martín.

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Agora é a hora de falar sobre o que realmente estamos falando

Tradução de Bárbara Paes para o texto em inglês de Chimamanda Ngozi Adichie para a New YorkerNOW IS THE TIME TO TALK ABOUT WHAT WE ARE ACTUALLY TALKING ABOUT

Chimamanda Ngozi Adichie é autora de três romances, incluindo “Americanah”, que será adaptado para o cinema

 


Os Estados Unidos sempre foram fonte de inspiração para mim. Mesmo quando eu me incomodei com suas hipocrisias, de alguma forma o país sempre parecia certo, uma nação que sabia o que estava fazendo, refrescantemente livre daquela incerteza existencial de qualquer-coisa-pode-acontecer tão familiar para as nações em desenvolvimento. Mas não mais. A eleição de Donald Trump acabou com a poesia existente na filosofia fundadora da América: o país nascido de uma ideia de liberdade está prestes a ser governado por um demagogo instável, obstinadamente desinformado e autoritário. E, em resposta a isso, há pessoas vivendo com um medo visceral, pessoas ansiosamente tentando discernir a política da algazarra, e pessoas reverenciando como se houvesse um novo rei. As coisas que recentemente tinham sido empurradas para os cantos do espaço político americano – o racismo manifesto, a misoginia evidente, e o anti-intelectualismo – estão novamente rastejando para o centro das discussões.

Agora é a hora de resistir à mais mínima extensão nos limites do que é certo e justo. Agora é a hora de se manifestar e usar como emblema de honra o opróbrio dos intolerantes. Agora é a hora de confrontar o fraco miolo do coração do vício americano de otimismo; ele deixa muito pouco espaço para a resiliência, e muito espaço para a fragilidade. Visões nebulosas de “cura” e de “não se tornar o ódio que odiamos” soam perigosamente como apaziguamento. A responsabilidade de criar unidade não pertence àqueles que estão sendo injustiçados, mas àqueles que cometem as injustiças. A premissa da empatia deve ser de humanidade igualitária; é uma injustiça exigir que os malignos se identifiquem com aqueles que questionam sua humanidade.

América ama vencedores, mas a vitória não absolve. A vitória, especialmente uma vitória precária decidida por alguns milhares de votos em um punhado de estados, não garante respeito. Ninguém automaticamente merece respeito por ascender à liderança de qualquer país. Os jornalistas americanos sabem disso muito bem quando falam sobre os líderes estrangeiros – o modo padrão com os africanos, por exemplo, é quase sempre um desdém quase oculto. O presidente Obama suportou o desrespeito de todos os lados. De longe, o insulto mais notório dirigido a ele, o movimento racista mansamente denominado “birtherism”, foi defendido por Trump.

Agora é a hora de se manifestar e usar como emblema de honra o opróbrio dos intolerantes

Ainda assim, um dia depois das eleições, ouvi um jornalista no rádio falar da acidez existente entre Obama e Trump. Não, a acidez era de Trump. Agora é a hora de queimar falsas equivalências para sempre. Fingir que ambos os lados de uma questão são iguais quando não são não é jornalismo “equilibrado”; é um conto de fadas e, ao contrário da maioria dos contos de fadas, é malicioso.

Agora é a hora de recusarmos o apagamento da memória. Cada menção de “impasse” durante a administração Obama deve ser lida com honestidade: esses “impasses” foram resultado de uma recusa deliberada e sistemática do Congresso Republicano de trabalhar com ele. Agora é a hora de chamar as coisas do que elas realmente são, porque a linguagem pode tanto iluminar a verdade quanto ofuscá-la. Agora é a hora de forjar novas palavras. “Alt-right”* [direita-alternativa] é uma expressão benigna. “White-supremacist right” [direita supremacista-branca] é um termo mais preciso.

Agora é a hora de falar sobre o que estamos realmente falando. “Contrários à mudança climática” ofusca. “Negadores da mudança climática” não. E já que a mudança climática é um fato científico, e não uma opinião, isto importa.

Agora é a hora de descartar esse cuidado que se assemelha demais à falta de convicção. A eleição não é uma “história de racismo simples”, porque nenhuma história de racismo é uma história de racismo “simples”, na qual pessoas malvadas vestindo branco e sorrindo queimam cruzes em estaleiros. Uma história de racismo é complicada, mas ainda é uma história de racismo, e vale a pena analisar. Agora não é o momento de ficar circulando nas pontas dos pés em torno de referências históricas. Remeter ao nazismo não é extremo; é a resposta astuta daqueles que sabem que a história dá contexto e advertência.

Agora é a hora de recalibrar as suposições padrão do discurso político americano. A política de identidade não é reservada somente aos eleitores minoritários. Esta eleição é um lembrete de que a política de identidade nos Estados Unidos é uma invenção branca: era a base da segregação. A negação dos direitos civis aos norte-americanos negros tinha em seu núcleo a ideia de que um negro americano não deveria ter autorização a votar porque esse negro americano não era branco. O interminável questionamento, antes da eleição de Obama, sobre o país estar “pronto” para um presidente negro foi uma reação à política de identidade branca. No entanto, as “políticas de identidade” passaram a ser associadas às minorias e, muitas vezes, a uma tendência condescendente, como se referissem a pessoas não-brancas motivadas por um irracional instinto de rebanho. Os americanos brancos têm praticado a política de identidade desde o início da América mas, agora que ela foi descoberta, é impossível evadir.

Agora é a hora da mídia, de esquerda e de direita, de educar e informar. Hora de ser ágil e alerta, de olhos abertos e cética, ativa em vez de reativa. Hora de fazer escolhas claras sobre o que realmente importa.

Agora é a hora de colocar a ideia de “bolha liberal” para descansar. A realidade do tribalismo americano é que diferentes grupos vivem em bolhas. Agora é a hora de reconhecer as maneiras que os democratas foram condescendentes à classe operária branca – e reconhecer que Trump é condescendente vendendo fantasias a essa classe. Agora é a hora de lembrar que há americanos de classe trabalhadora que não são brancos e que sofreram as mesmas privações e são igualmente dignos de notícias. Agora é o momento de lembrar que “mulheres” não quer dizer só mulheres brancas. “Mulheres” deve significar todas as mulheres.

Agora é a hora de aprimorar a arte de questionar. O único ressentimento válido na América é o dos homens brancos? Se quisermos simpatizar com a ideia de que as ansiedades econômicas levam a decisões questionáveis, isso se aplica a todos os grupos? Quem são exatamente os membros da elite?

Agora é a hora de enquadrar as perguntas de forma diferente. Se todo o resto permanecesse o mesmo, e Hillary Clinton fosse um homem, ela ainda lidaria com uma hostilidade superaquecida e exagerada? Será que se uma mulher se comportasse exatamente como Trump, ela seria eleita? Agora é a hora de parar de sugerir que o machismo estava ausente na eleição porque as mulheres brancas não votaram esmagadoramente para Clinton. A misoginia não está unicamente reservada aos homens.

Agora é o momento de lembrar que ‘mulheres’ não quer dizer só mulheres brancas. ‘Mulheres’ deve significar todas as mulheres

A questão não é que as mulheres sejam inerentemente melhores ou mais morais. É que elas são metade da humanidade e devem ter as mesmas oportunidades – e o direito de serem julgadas de acordo com os mesmos padrões – como a outra metade. Era esperado que Clinton fosse perfeita, de acordo com padrões contraditórios, em uma eleição que se tornou um referendo sobre sua popularidade.

Agora é a hora de perguntar por que os Estados Unidos estão muito atrás de muitos outros países (como Ruanda) quando o assunto é participação das mulheres na política. Agora é o momento de explorar as atitudes predominantes relacionadas à ambição das mulheres, ponderar em que medida os cálculos políticos comuns que todos os políticos fazem se traduzem como falhas morais quando vemos mulheres os fazendo. A cuidadosa calibragem de Clinton foi lida como furtividade ou desonestidade. Mas um político homem que é cuidadosamente calibrado – Mitt Romney, por exemplo – seria lido meramente como cuidadosamente calibrado?

Agora é a hora de ter precisão sobre o significado das palavras. Ao dizer “elas te deixam fazer isso”, enquanto está falando sobre assediar mulheres, Trump não está insinuando que houve consentimento, porque consentimento é algo que acontece antes de um ato.

Agora é a hora de lembrar que, mesmo em uma onda de populismo obscuro varrendo o Ocidente, existem saídas alternativas. A mensagem de Bernie Sanders não serviu de bode expiatório para os vulneráveis. Obama atravessou uma onda populista antes de sua primeira eleição, uma onda marcada por notável inclusividade. Agora é a hora de rebater mentiras com fatos, repetidamente e incansavelmente, ao mesmo tempo em que proclamamos as verdades maiores: de nossa humanidade, de decência, de compaixão. Cada ideal precioso deve ser reiterado, cada argumento óbvio deve ser feito, porque uma ideia feia não contestada começa a assumir a cor de algo normal. E as coisas não têm que ser assim.


*Alt-right é um termo que a direita conservadora racista vem usando como eufemismo para não se chamar abertamente do que eles são: racistas. Saiba mais aqui

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