Leia: A esposa de Paul Auster

Ilustração feita com exclusividade por Fernanda Garcia (Kissy)

Ao mascarar um machismo e retirar o protagonismo da própria escritora, o título acima reduz Siri Hustvedt à condição de esposa, companheira, coadjuvante. A grosso modo, é sobre essa frase e suas implicações a abordagem do livro O mundo em chamas, lançado em 2014 pela Companhia das Letras.

A autora Siri Hustvedt é filha de imigrantes noruegueses. Nascida em Minnesota, EUA,  mudou-se para Nova Iorque para graduar-se na Universidade de Columbia e saiu de lá com um doutorado em literatura. Multidisciplinar, publicou poesias e romances além de ensaios de filosofia, psicanálise e artigos sobre neurociência. Em 2014, foi nomeada para o Man Booker Prize e ganhou o Prêmio Los Angeles Time Book Award for Fiction no ano seguinte.

O livro O mundo em chamas, tanto o objeto real como o fictício e metalinguístico produzido pelo personagem I.V Hess, é uma coletânea post-mortem de entrevistas, depoimentos e trechos de diários da artista Harriet Burden.

Harriet Burden, ou Harry para os íntimos, é uma mulher mais velha, viúva, intelectual, ávida leitora, veste-se com chapéus e cores vivas, ostenta cabelos longos e cacheados, com a altura de um jogador de basquete. Com personalidade avassaladora, é objeto de repulsa da crítica especializada, chamada de histérica, neurótica, louca e bruxa. Frequentemente lembrada como excelente anfitriã de jantares, mas nunca teve seu trabalho artístico levado a sério, ela percebe cada vez mais o peso (o sobrenome Burden significa fardo em inglês) dos rótulos castradores utilizados para classificar seu trabalho e sua personalidade.

capa_O mundo em chamas

Harriet nunca teve suas obras reconhecidas pela comunidade artística e por anos viveu à sombra de seu marido marchand Felix Lord. Amargurada e impotente, se vê em um meio cada vez mais narcisístico e surdo, no qual é impossível argumentar ou apresentar algum tipo de contraponto. Porém, quando seu marido morre, ela vê a possibilidade de se reinventar, criando uma série de instalações plásticas, mascarando sua identidade atrás do nome de três artistas masculinos relativamente conhecidos.

O projeto, chamado de Mascaramentos, procura não só evidenciar a misoginia no círculo artístico como também discutir os conceitos de apropriação e percepção de gênero, raça e sexualidade, incitando o espectador a refletir sobre sua própria identidade.

Mascaramentos foi a solução encontrada para expressar-se, mas mais do que isso, era uma vingança, um grande tapa na cara do mundo. Burden queria rir de todos ao apontar a mesquinhez e machismo da sociedade e sabia que máscaras frequentemente eram mais reveladoras que a face real.

De fato, o experimento é um grande sucesso, mas começa a apresentar falhas quando o terceiro e último artista-fachada, Rune (sem sobrenome, como a Madonna) nega a autoria real da obra e recebe todos os louros do sucesso da instalação Por baixo. Sua tão desejada vingança não previa as variáveis do ego e as segundas intenções de suas máscaras.

Com isso fica mais claro o motivo da montagem de documentos do livro ficcional O mundo em chamas. I.V Hess tenta dar luz à carreira de Harriet Burden e esclarecer as autorias de Mascaramentos e sua relevância.

Passado e presente entrelaçam além da conjugação de verbos através da narrativa dos diários-alfabéticos da artista, mais temáticos do que cronológicos, remontando suas memórias de infância, traumas e vivências. Além dos diários, há depoimentos de seus filhos, Maisie e Ethan, de seu namorado e alguns de seus principais colaboradores. Os diversos gêneros textuais deixam o quebra-cabeça narrativo mais instigante e sua montagem é processual e prazerosa.

A compilação documental acronológica que traça a trajetória artística de Harriet Bruden deixa claro que O mundo em chamas não é apenas uma fábula feminista, mas também um complexo emaranhado de narrativas que dão corpo a uma personagem aterrorizada por memórias e ranços de seus traumas. A montagem de diversos depoimentos sobre Harry cria uma personagem multifacetada, entendendo a percepção do objeto pelo seu receptor como essencial para sua compreensão e talvez a única possível.

O enredo – familiar demais para Siri Hustvedt, “esposa do escritor Paul Auster” – é o retrato de diversas artistas e escritoras de nossa realidade, como a artista Margaret Keane, a escritora italiana Elena Ferrante (Letícia Mendes escreveu sobre o assunto aqui), a escultora Camille Claudel e Gerda Taro, fotógrafa que criou o personagem de Robert Capa junto com Andre Friedmann.

Porém, diversos críticos literários não captaram a ironia do romance e insiste em elogios condescendentes como “Harriet Burden parece um herói vindo dos romances de Phillip Roth ou Saul Bellow” ou “Siri Hustvedt parece se valer dos artísticos narrativos usados pelo marido para criar a tênue linha entre o concreto e o delírio”. É evidente que Harriet Burden ainda é necessária, essencial para reivindicarmos nossa própria autoria.

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Mais de Fabi Oda

Ouça: Tank and the Bangas

Tank and the Bangas combinam a potência poética da palavra cantada (spoken word) com a combinação inusitada de gêneros musicais e a extroversão de sua vocalista Tarriona “Tank” Ball.

A cantora, que já era famosa dentro do spoken word – gênero que é tanto uma performance artística quanto literária, já que alia a oralidade de letras, poesias e histórias faladas ou invés de serem cantadas – canta sobre situações cotidianas como trabalhar no Wall Mart assim como foi sua experiência com o furacão Katrina, que devastou sua cidade em 2005.

Em uma entrevista para o site Essence, Tank fala:

Você pode encontrar beleza em algo como um desastre no momento em que você se inspira em criar algo novo de peças que sobraram. Para nós, música é o que fazemos desses pedaços que sobraram

A banda é de New Orleans e carrega a tradição do jazz misturada com soul, gospel, funk e hip hop. De fato, suas apresentações ao vivo são tão únicas que é difícil reconhecer quais eram as músicas originalmente gravadas.

Se você é de Nova Orleans, você saberá todos os ingredientes para fazer um bom gumbo. Seus temperos devem harmonizar bem, seu roux tem que ser grosso e sua carne deve ser cortada perfeitamente. Tank and the Bangas são o que você chama de um ótimo gumbo

O estilo de Tarriona e seu range vocal diverso se misturam em uma performance maravilhosa e imprevisível, com inserções bem-humoradas e declamações fortes e poderosas. A interação da vocalista com a backing vocal Anjelika “Jelly” Joseph é algo à parte para ser apreciado, de tão sintonizadas e familiarizadas com as possibilidades de suas performances.

Em 2017, a banda enviou um vídeo de uma de suas performances para participar do Tiny Desk Contest, um concurso realizado desde 2008 pela NPR – National Public Radio. A vitória unânime gerou um dos show mais divertidos do Tiny Desk, uma série de shows realizados no escritório do Tiny Desk, e uma turnê de invejar pelos EUA e Canadá.
 


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Ao mascarar um machismo e retirar o protagonismo da própria escritora, o título acima reduz Siri Hustvedt à condição de esposa, companheira, coadjuvante. A grosso modo, é sobre essa frase e suas implicações a abordagem do livro O mundo em chamas, lançado em 2014 pela Companhia das Letras.

A autora Siri Hustvedt é filha de imigrantes noruegueses. Nascida em Minnesota, EUA,  mudou-se para Nova Iorque para graduar-se na Universidade de Columbia e saiu de lá com um doutorado em literatura. Multidisciplinar, publicou poesias e romances além de ensaios de filosofia, psicanálise e artigos sobre neurociência. Em 2014, foi nomeada para o Man Booker Prize e ganhou o Prêmio Los Angeles Time Book Award for Fiction no ano seguinte.

O livro O mundo em chamas, tanto o objeto real como o fictício e metalinguístico produzido pelo personagem I.V Hess, é uma coletânea post-mortem de entrevistas, depoimentos e trechos de diários da artista Harriet Burden.

Harriet Burden, ou Harry para os íntimos, é uma mulher mais velha, viúva, intelectual, ávida leitora, veste-se com chapéus e cores vivas, ostenta cabelos longos e cacheados, com a altura de um jogador de basquete. Com personalidade avassaladora, é objeto de repulsa da crítica especializada, chamada de histérica, neurótica, louca e bruxa. Frequentemente lembrada como excelente anfitriã de jantares, mas nunca teve seu trabalho artístico levado a sério, ela percebe cada vez mais o peso (o sobrenome Burden significa fardo em inglês) dos rótulos castradores utilizados para classificar seu trabalho e sua personalidade.

capa_O mundo em chamas

Harriet nunca teve suas obras reconhecidas pela comunidade artística e por anos viveu à sombra de seu marido marchand Felix Lord. Amargurada e impotente, se vê em um meio cada vez mais narcisístico e surdo, no qual é impossível argumentar ou apresentar algum tipo de contraponto. Porém, quando seu marido morre, ela vê a possibilidade de se reinventar, criando uma série de instalações plásticas, mascarando sua identidade atrás do nome de três artistas masculinos relativamente conhecidos.

O projeto, chamado de Mascaramentos, procura não só evidenciar a misoginia no círculo artístico como também discutir os conceitos de apropriação e percepção de gênero, raça e sexualidade, incitando o espectador a refletir sobre sua própria identidade.

Mascaramentos foi a solução encontrada para expressar-se, mas mais do que isso, era uma vingança, um grande tapa na cara do mundo. Burden queria rir de todos ao apontar a mesquinhez e machismo da sociedade e sabia que máscaras frequentemente eram mais reveladoras que a face real.

De fato, o experimento é um grande sucesso, mas começa a apresentar falhas quando o terceiro e último artista-fachada, Rune (sem sobrenome, como a Madonna) nega a autoria real da obra e recebe todos os louros do sucesso da instalação Por baixo. Sua tão desejada vingança não previa as variáveis do ego e as segundas intenções de suas máscaras.

Com isso fica mais claro o motivo da montagem de documentos do livro ficcional O mundo em chamas. I.V Hess tenta dar luz à carreira de Harriet Burden e esclarecer as autorias de Mascaramentos e sua relevância.

Passado e presente entrelaçam além da conjugação de verbos através da narrativa dos diários-alfabéticos da artista, mais temáticos do que cronológicos, remontando suas memórias de infância, traumas e vivências. Além dos diários, há depoimentos de seus filhos, Maisie e Ethan, de seu namorado e alguns de seus principais colaboradores. Os diversos gêneros textuais deixam o quebra-cabeça narrativo mais instigante e sua montagem é processual e prazerosa.

A compilação documental acronológica que traça a trajetória artística de Harriet Bruden deixa claro que O mundo em chamas não é apenas uma fábula feminista, mas também um complexo emaranhado de narrativas que dão corpo a uma personagem aterrorizada por memórias e ranços de seus traumas. A montagem de diversos depoimentos sobre Harry cria uma personagem multifacetada, entendendo a percepção do objeto pelo seu receptor como essencial para sua compreensão e talvez a única possível.

O enredo – familiar demais para Siri Hustvedt, “esposa do escritor Paul Auster” – é o retrato de diversas artistas e escritoras de nossa realidade, como a artista Margaret Keane, a escritora italiana Elena Ferrante (Letícia Mendes escreveu sobre o assunto aqui), a escultora Camille Claudel e Gerda Taro, fotógrafa que criou o personagem de Robert Capa junto com Andre Friedmann.

Porém, diversos críticos literários não captaram a ironia do romance e insiste em elogios condescendentes como “Harriet Burden parece um herói vindo dos romances de Phillip Roth ou Saul Bellow” ou “Siri Hustvedt parece se valer dos artísticos narrativos usados pelo marido para criar a tênue linha entre o concreto e o delírio”. É evidente que Harriet Burden ainda é necessária, essencial para reivindicarmos nossa própria autoria.

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