A 3ª edição da Berlin Feminist Film Week, semana dedicada ao cinema feminista, começou na terça-feira (8), no Dia Internacional da Mulher. “É sobre chamar a atenção para discussões feministas. Mas claro que deve-se discutir feminismo todos os dias”, diz a sueca Karin Fornander, que idealizou o evento e, desde então, o organiza de forma independente.
No cinema Babylon, no centro de Berlim, pessoas chegam com antecedência em busca dos ingressos restantes para a primeira sessão da mostra. Aos poucos, o saguão começa a lotar com um público bem variado. Nem só mulheres, não só jovens nem só alemães estão presentes. O público é bastante internacional e inclui todo tipo de gente que se encontra nas ruas de Berlim (ou seja, diferentes estilos, gêneros e raças misturados). Isso era exatamente o que Karin imaginava para seu festival.
“Entendo que exista uma ideia separatista no feminismo, que se queira organizar algo só entre mulheres. Às vezes é realmente melhor estar só entre mulheres, sem ter a perspectiva masculina ou argumento masculino. Mas com um festival como esse, podemos chegar a pessoas que ainda não tem muito conhecimento sobre o tema, e por isso quero que ele seja aberto a todos.”
Karin enxerga as produções cinematográficas feministas como um meio mais direto de chegar a um público leigo no assunto. “Acho que filmes são muito bons para pessoas que nunca tiveram a ver com o movimento feminista. Elas podem olhar o filme sem pensar muito e sem saber muito a respeito antes de assisti-lo.”
Ao levar ao público algo que ele não conhece, foram escolhidos para a abertura dois filmes de temáticas que ainda recebem pouca atenção: o movimento feminista negro e filmes feministas de ficção científica.
O primeiro filme exibido foi o documentário “Reflections unheard: Black Women in Civil Rights”, feito pela americana Nevline Nnaji, que conta histórias pessoais de ativistas mulheres do movimento negro dos anos 1960. Os relatos dessas mulheres revelam a luta para participar de um movimento negro dominado por homens e de um movimento feminista liderado por mulheres brancas de classe média.
O segundo foi o longa “Advantageous”, da diretora Jennifer Phang. O filme é um dos poucos trabalhos de ficção científica dirigido, escrito e estrelado por mulheres. Nele, a protagonista se vê prestes a perder o emprego como porta-voz da empresa Center for Advanced Health and Living por ter uma aparência já um pouco velha – mesmo estando entre seus 40 anos. Sem opções para dar uma boa educação para sua filha, ela se desespera e se submete a um procedimento cirúrgico extremo (feito pela mesma empresa), a fim de se tornar mais jovem. Seu objetivo é voltar a trabalhar e, assim, pagar a educação da filha em uma escola particular.
Os dois filmes já deram uma ideia do que se trata o festival: trazer temáticas feministas de perspectivas inesperadas.
Temas e escolha dos filmes
Na programação, estão três curtas brasileiros: “ISTO”, de Mariana Collares; “Bird Skin” (Pele de Pássaro), de Clara Peltier; e “Mother of Pearl” (Madrepérola), de Deise Hauenstein. Os três foram os únicos filmes brasileiros que Karin recebeu nas inscrições para o festival. “São de uma qualidade muito alta, são bonitos e bem produzidos. Não posso falar muito sobre o movimento feminista na América do Sul, porque não sei muito sobre isso. Mas tenho a impressão de que está se formando uma nova onda (feminista) muito forte agora”, opina.
Os filmes são escolhidos pela própria Karin, em um processo de análise do material inscrito e de constante busca por coisas novas. O importante é que as produções tenham mulheres como protagonistas e que suas representações fujam de estereótipos femininos. Elas não precisam ser necessariamente feitas só por mulheres, mas também por diretores, produtores, atores que não se identifiquem com a cultura tradicional de gênero.
Quanto ao conteúdo, ele deve se encaixar às ideias feministas. Relacionado a isso, as temáticas podem ser variadas. “Quando se tem um tema específico, a gente acaba se limitando para escolher os filmes e eu acho legal ter diferentes temáticas dentro do festival. Assim, todo ano tem coisas novas, eu aprendo coisas novas e outras perspectivas conseguem ser apresentadas”, explica Karin. Neste ano, alguns dos assuntos presentes na Berlin Feminist Film Week são Body Positive (sobre o empoderamento das mulheres através do corpo), representatividade negra e lésbica, filmes de comédia e filmes feministas de ficção científica.
Criação do evento
A Berlin Feminist Film Week teve sua primeira edição em 2014. Karin trabalhava na companhia de cinema Mobile Kino, que promove sessões de cinema temporárias em diferentes locais de Berlim, e teve a ideia de organizar um programa com curtas-metragens feministas. Conversando com amigos sobre a organização, eles descobriram que em Londres existia o London Feminist Film Festival. “Vimos que não havia até então nenhum festival do tipo em Berlim e tínhamos aí um espaço para fazer alguma coisa semelhante ao de Londres”. Para a primeira edição, a organizadora tinha poucas expectativas e achava que só seus amigos e conhecidos viriam ao festival.
Para sua surpresa, desde 2014, o evento chamou atenção de mais pessoas além do círculo de amizade de Karin. Sorte para os que moram em Berlim. Baseado no saguão cheio do cinema Babylon no dia da abertura, a Berlin Feminist Film Week ainda terá muitas edições.
A 3ª edição da Berlin Feminist Film Week, semana dedicada ao cinema feminista, começou na terça-feira (8), no Dia Internacional da Mulher. “É sobre chamar a atenção para discussões feministas. Mas claro que deve-se discutir feminismo todos os dias”, diz a sueca Karin Fornander, que idealizou o evento e, desde então, o organiza de forma independente.
No cinema Babylon, no centro de Berlim, pessoas chegam com antecedência em busca dos ingressos restantes para a primeira sessão da mostra. Aos poucos, o saguão começa a lotar com um público bem variado. Nem só mulheres, não só jovens nem só alemães estão presentes. O público é bastante internacional e inclui todo tipo de gente que se encontra nas ruas de Berlim (ou seja, diferentes estilos, gêneros e raças misturados). Isso era exatamente o que Karin imaginava para seu festival.
“Entendo que exista uma ideia separatista no feminismo, que se queira organizar algo só entre mulheres. Às vezes é realmente melhor estar só entre mulheres, sem ter a perspectiva masculina ou argumento masculino. Mas com um festival como esse, podemos chegar a pessoas que ainda não tem muito conhecimento sobre o tema, e por isso quero que ele seja aberto a todos.”
Karin enxerga as produções cinematográficas feministas como um meio mais direto de chegar a um público leigo no assunto. “Acho que filmes são muito bons para pessoas que nunca tiveram a ver com o movimento feminista. Elas podem olhar o filme sem pensar muito e sem saber muito a respeito antes de assisti-lo.”
Ao levar ao público algo que ele não conhece, foram escolhidos para a abertura dois filmes de temáticas que ainda recebem pouca atenção: o movimento feminista negro e filmes feministas de ficção científica.
O primeiro filme exibido foi o documentário “Reflections unheard: Black Women in Civil Rights”, feito pela americana Nevline Nnaji, que conta histórias pessoais de ativistas mulheres do movimento negro dos anos 1960. Os relatos dessas mulheres revelam a luta para participar de um movimento negro dominado por homens e de um movimento feminista liderado por mulheres brancas de classe média.
O segundo foi o longa “Advantageous”, da diretora Jennifer Phang. O filme é um dos poucos trabalhos de ficção científica dirigido, escrito e estrelado por mulheres. Nele, a protagonista se vê prestes a perder o emprego como porta-voz da empresa Center for Advanced Health and Living por ter uma aparência já um pouco velha – mesmo estando entre seus 40 anos. Sem opções para dar uma boa educação para sua filha, ela se desespera e se submete a um procedimento cirúrgico extremo (feito pela mesma empresa), a fim de se tornar mais jovem. Seu objetivo é voltar a trabalhar e, assim, pagar a educação da filha em uma escola particular.
Os dois filmes já deram uma ideia do que se trata o festival: trazer temáticas feministas de perspectivas inesperadas.
Temas e escolha dos filmes
Na programação, estão três curtas brasileiros: “ISTO”, de Mariana Collares; “Bird Skin” (Pele de Pássaro), de Clara Peltier; e “Mother of Pearl” (Madrepérola), de Deise Hauenstein. Os três foram os únicos filmes brasileiros que Karin recebeu nas inscrições para o festival. “São de uma qualidade muito alta, são bonitos e bem produzidos. Não posso falar muito sobre o movimento feminista na América do Sul, porque não sei muito sobre isso. Mas tenho a impressão de que está se formando uma nova onda (feminista) muito forte agora”, opina.
Os filmes são escolhidos pela própria Karin, em um processo de análise do material inscrito e de constante busca por coisas novas. O importante é que as produções tenham mulheres como protagonistas e que suas representações fujam de estereótipos femininos. Elas não precisam ser necessariamente feitas só por mulheres, mas também por diretores, produtores, atores que não se identifiquem com a cultura tradicional de gênero.
Quanto ao conteúdo, ele deve se encaixar às ideias feministas. Relacionado a isso, as temáticas podem ser variadas. “Quando se tem um tema específico, a gente acaba se limitando para escolher os filmes e eu acho legal ter diferentes temáticas dentro do festival. Assim, todo ano tem coisas novas, eu aprendo coisas novas e outras perspectivas conseguem ser apresentadas”, explica Karin. Neste ano, alguns dos assuntos presentes na Berlin Feminist Film Week são Body Positive (sobre o empoderamento das mulheres através do corpo), representatividade negra e lésbica, filmes de comédia e filmes feministas de ficção científica.
Criação do evento
A Berlin Feminist Film Week teve sua primeira edição em 2014. Karin trabalhava na companhia de cinema Mobile Kino, que promove sessões de cinema temporárias em diferentes locais de Berlim, e teve a ideia de organizar um programa com curtas-metragens feministas. Conversando com amigos sobre a organização, eles descobriram que em Londres existia o London Feminist Film Festival. “Vimos que não havia até então nenhum festival do tipo em Berlim e tínhamos aí um espaço para fazer alguma coisa semelhante ao de Londres”. Para a primeira edição, a organizadora tinha poucas expectativas e achava que só seus amigos e conhecidos viriam ao festival.
Para sua surpresa, desde 2014, o evento chamou atenção de mais pessoas além do círculo de amizade de Karin. Sorte para os que moram em Berlim. Baseado no saguão cheio do cinema Babylon no dia da abertura, a Berlin Feminist Film Week ainda terá muitas edições.
A 3ª edição da Berlin Feminist Film Week, semana dedicada ao cinema feminista, começou na terça-feira (8), no Dia Internacional da Mulher. “É sobre chamar a atenção para discussões feministas. Mas claro que deve-se discutir feminismo todos os dias”, diz a sueca Karin Fornander, que idealizou o evento e, desde então, o organiza de forma independente.
No cinema Babylon, no centro de Berlim, pessoas chegam com antecedência em busca dos ingressos restantes para a primeira sessão da mostra. Aos poucos, o saguão começa a lotar com um público bem variado. Nem só mulheres, não só jovens nem só alemães estão presentes. O público é bastante internacional e inclui todo tipo de gente que se encontra nas ruas de Berlim (ou seja, diferentes estilos, gêneros e raças misturados). Isso era exatamente o que Karin imaginava para seu festival.
“Entendo que exista uma ideia separatista no feminismo, que se queira organizar algo só entre mulheres. Às vezes é realmente melhor estar só entre mulheres, sem ter a perspectiva masculina ou argumento masculino. Mas com um festival como esse, podemos chegar a pessoas que ainda não tem muito conhecimento sobre o tema, e por isso quero que ele seja aberto a todos.”
Karin enxerga as produções cinematográficas feministas como um meio mais direto de chegar a um público leigo no assunto. “Acho que filmes são muito bons para pessoas que nunca tiveram a ver com o movimento feminista. Elas podem olhar o filme sem pensar muito e sem saber muito a respeito antes de assisti-lo.”
Ao levar ao público algo que ele não conhece, foram escolhidos para a abertura dois filmes de temáticas que ainda recebem pouca atenção: o movimento feminista negro e filmes feministas de ficção científica.
O primeiro filme exibido foi o documentário “Reflections unheard: Black Women in Civil Rights”, feito pela americana Nevline Nnaji, que conta histórias pessoais de ativistas mulheres do movimento negro dos anos 1960. Os relatos dessas mulheres revelam a luta para participar de um movimento negro dominado por homens e de um movimento feminista liderado por mulheres brancas de classe média.
O segundo foi o longa “Advantageous”, da diretora Jennifer Phang. O filme é um dos poucos trabalhos de ficção científica dirigido, escrito e estrelado por mulheres. Nele, a protagonista se vê prestes a perder o emprego como porta-voz da empresa Center for Advanced Health and Living por ter uma aparência já um pouco velha – mesmo estando entre seus 40 anos. Sem opções para dar uma boa educação para sua filha, ela se desespera e se submete a um procedimento cirúrgico extremo (feito pela mesma empresa), a fim de se tornar mais jovem. Seu objetivo é voltar a trabalhar e, assim, pagar a educação da filha em uma escola particular.
Os dois filmes já deram uma ideia do que se trata o festival: trazer temáticas feministas de perspectivas inesperadas.
Temas e escolha dos filmes
Na programação, estão três curtas brasileiros: “ISTO”, de Mariana Collares; “Bird Skin” (Pele de Pássaro), de Clara Peltier; e “Mother of Pearl” (Madrepérola), de Deise Hauenstein. Os três foram os únicos filmes brasileiros que Karin recebeu nas inscrições para o festival. “São de uma qualidade muito alta, são bonitos e bem produzidos. Não posso falar muito sobre o movimento feminista na América do Sul, porque não sei muito sobre isso. Mas tenho a impressão de que está se formando uma nova onda (feminista) muito forte agora”, opina.
Os filmes são escolhidos pela própria Karin, em um processo de análise do material inscrito e de constante busca por coisas novas. O importante é que as produções tenham mulheres como protagonistas e que suas representações fujam de estereótipos femininos. Elas não precisam ser necessariamente feitas só por mulheres, mas também por diretores, produtores, atores que não se identifiquem com a cultura tradicional de gênero.
[caption id="attachment_9767" align="aligncenter" width="700"] Karin Fornander fala sobre a criação da Semana de Cinema Feminista de Berlim[/caption]
Quanto ao conteúdo, ele deve se encaixar às ideias feministas. Relacionado a isso, as temáticas podem ser variadas. “Quando se tem um tema específico, a gente acaba se limitando para escolher os filmes e eu acho legal ter diferentes temáticas dentro do festival. Assim, todo ano tem coisas novas, eu aprendo coisas novas e outras perspectivas conseguem ser apresentadas”, explica Karin. Neste ano, alguns dos assuntos presentes na Berlin Feminist Film Week são Body Positive (sobre o empoderamento das mulheres através do corpo), representatividade negra e lésbica, filmes de comédia e filmes feministas de ficção científica.
Criação do evento
A Berlin Feminist Film Week teve sua primeira edição em 2014. Karin trabalhava na companhia de cinema Mobile Kino, que promove sessões de cinema temporárias em diferentes locais de Berlim, e teve a ideia de organizar um programa com curtas-metragens feministas. Conversando com amigos sobre a organização, eles descobriram que em Londres existia o London Feminist Film Festival. “Vimos que não havia até então nenhum festival do tipo em Berlim e tínhamos aí um espaço para fazer alguma coisa semelhante ao de Londres”. Para a primeira edição, a organizadora tinha poucas expectativas e achava que só seus amigos e conhecidos viriam ao festival.
Para sua surpresa, desde 2014, o evento chamou atenção de mais pessoas além do círculo de amizade de Karin. Sorte para os que moram em Berlim. Baseado no saguão cheio do cinema Babylon no dia da abertura, a Berlin Feminist Film Week ainda terá muitas edições.
“Passing” de Nella Larsen é uma novela sobre identidade. Sobre conhecer e desconhecer uma identidade. Sobre o jogo entre possibilidades de se ter diferentes identidades em uma pessoa só.
Na década de 1920 nos Estados Unidos, a “color line”, linha de limite entre negros e brancos, era um tema bastante delicado. Nesse contexto, negros de pele mais clara e de descendência mista praticavam algo chamado “passing”. Em uma sociedade, em que raça determinava quem podia ou não frequentar certos lugares, ter determinados empregos e morar em um bairro lá ou aqui, “passing” era quase como uma forma de sobrevivência. Como é o caso de uma das principais personagens da novela.
O livro de Nella Larsen, publicado em 1929, conta a história das amigas de infância Irene Redfield e Claire Kendry. Duas mulheres com passados iguais e um presente muito parecido, tirando alguns detalhes. As duas foram criadas no bairro de maioria afro-americana Harlem, em Nova York. Até que a morte do pai de Claire fez com que ela desaparecesse da vizinhança, o que despertou fofocas dos moradores. A novela é toda narrada em terceira pessoa pela visão de Irene, que na primeira página do livro, se mostra nervosa ao receber uma carta. O envelope com a mensagem de Claire a lembra de um encontro, por acaso, anos atrás, em Chicago. As duas estavam no terraço do Hotel Drayton, em um dia quente de verão. Era um lugar onde ambas não poderiam estar, mas estavam. A pela mais clara das duas mulheres afro-americanos as faziam passar por mulheres brancas. Ninguém mais ali sabia que elas estavam “passing”, apenas as duas. Ambas tinham conhecimento da origem uma da outra. A possibilidade de “pass” por uma pessoa de outra raça não era conhecida pelos brancos – e, só por isso, ela era possível.
Para quem lê a novela e não conhece o conceito de “passing”, a identidade racial de Irene não fica clara nas primeiras páginas. É somente no segundo capítulo que Nella Larsen revela que Irene é uma mulher negra de pele mais clara. A novela em si está “passing”, de certa forma. E é isso que a faz tão interessante.
Mesmo que ambas possam passar por mulheres brancas, apenas Claire precisa disso para sobreviver. Irene mora em Harlem, onde é bastante ativa dentro da comunidade negra. Ela é casada com o médico Brian, também afro-americano, e tem dois filhos. Irene vive sua identidade racial em sua casa, em seu bairro, em sua comunidade. Já Claire é casada com John Bellew, um homem branco bastante racista e que não faz ideia de que sua esposa tenha descendências afro-americanas. Claire esconde sua identidade racial e ignora os discursos preconceituosos do marido. Mesmo assim, ela não tem medo de ser descoberta.
Esse é outro ponto importante na novela. As duas amigas têm personalidades muito diferentes. Irene é séria, contida, controlada. Tive uma matéria sobre Leituras Feministas e Queer na minha faculdade e discutimos semanas sobre Passing e suas personagens. A professora observou que Irene tenta constantemente passar a ideia de uma mulher respeitável, séria, de classe média, também numa tentativa de ir contra aquele estereótipo da mulher negra super sexualizada – na época, havia essa ideia de que a mulher negra era sensual, selvagem sexualmente e objeto de desejo dos homens brancos. Por isso, para se aproximar do conceito de “mulher branca”, Irene tinha que mostrar um comportamento contrário a essa ideia de o que era ser uma mulher negra.
Claire, diferente da amiga, é uma mulher solta, simpática, sexy, sempre animada e que gosta de se aventurar sem pensar nos riscos. O mais interessante é que Irene parece ter mais liberdade em sua vida do que Claire, pois não tem segredos a guardar. Mas ela não vive essa liberdade plenamente. Já Claire, mesmo correndo riscos de que o Mrs. Bellew descubra suas origens, vai a eventos e bailes da comunidade negra e anseia por viver essa identidade “blackness” que lhe foi limitada.
A história gira em torno dessa relação de amizade entre as duas mulheres. Mas muitas questões ficam no ar o tempo todo. Alguns enxergam uma atração física de Irene por Claire, pela forma como a descreve – como uma mulher linda e sensual – e fica obcecada pela amiga. Também tem uma questão de traição no meio da trama. Irene começa a suspeitar de que Brian a está traindo com Claire, já que os dois passam muito tempo juntos. Mas nada disso é esclarecido em nenhum momento do romance.
Roubando mais uma vez a fala da minha professora, dá pra dizer a obra de Nella Larsen é uma novela sobre knowing and not-knowing. E é exatamente isso que faz a prática do passing possível. O saber mas não saber exatamente, como no caso de John Bellew, que acreditava saber tudo sobre sua esposa, mas que não conhece seu passado. É um livro que coloca o tempo todo a questão do que é afinal blackness and whitness – o que são essas identidade? O que significa ser negro ou branco? O que é afinal essa “color line”? Isso não é respondido no livro, mas fica nas nossas cabecinhas pensantes.
Acredito também que Nella Larsen colocou muito de sua experiência de vida na novela. Nascida em Chicago, a autora também tinha descendência mista: afro-caribenha e dinamarquesa. Larsen morou em Nova York e, por um tempo, no bairro de suas protagonistas, o Harlem.
Infelizmente, não encontrei o livro em português, somente em inglês. Talvez ainda não tenha sido traduzido… Mas a linguagem em inglês até que é bem fácil e o livro não é longo. Ou seja, super recomendável pra quem gosta de novelas feministas mais clássicas (e quer treinar seu inglês!).
Berlin Feminist Film Week, semana dedicada ao cinema feminista, começou na terça-feira (8), no Dia Internacional da Mulher. “É sobre chamar a atenção para discussões feministas. Mas claro que deve-se discutir feminismo todos os dias”, diz a sueca Karin Fornander, que idealizou o evento e, desde então, o organiza de forma independente.
No cinema Babylon, no centro de Berlim, pessoas chegam com antecedência em busca dos ingressos restantes para a primeira sessão da mostra. Aos poucos, o saguão começa a lotar com um público bem variado. Nem só mulheres, não só jovens nem só alemães estão presentes. O público é bastante internacional e inclui todo tipo de gente que se encontra nas ruas de Berlim (ou seja, diferentes estilos, gêneros e raças misturados). Isso era exatamente o que Karin imaginava para seu festival.
“Entendo que exista uma ideia separatista no feminismo, que se queira organizar algo só entre mulheres. Às vezes é realmente melhor estar só entre mulheres, sem ter a perspectiva masculina ou argumento masculino. Mas com um festival como esse, podemos chegar a pessoas que ainda não tem muito conhecimento sobre o tema, e por isso quero que ele seja aberto a todos.”
Karin enxerga as produções cinematográficas feministas como um meio mais direto de chegar a um público leigo no assunto. “Acho que filmes são muito bons para pessoas que nunca tiveram a ver com o movimento feminista. Elas podem olhar o filme sem pensar muito e sem saber muito a respeito antes de assisti-lo.”
Ao levar ao público algo que ele não conhece, foram escolhidos para a abertura dois filmes de temáticas que ainda recebem pouca atenção: o movimento feminista negro e filmes feministas de ficção científica.
O primeiro filme exibido foi o documentário “Reflections unheard: Black Women in Civil Rights”, feito pela americana Nevline Nnaji, que conta histórias pessoais de ativistas mulheres do movimento negro dos anos 1960. Os relatos dessas mulheres revelam a luta para participar de um movimento negro dominado por homens e de um movimento feminista liderado por mulheres brancas de classe média.
O segundo foi o longa “Advantageous”, da diretora Jennifer Phang. O filme é um dos poucos trabalhos de ficção científica dirigido, escrito e estrelado por mulheres. Nele, a protagonista se vê prestes a perder o emprego como porta-voz da empresa Center for Advanced Health and Living por ter uma aparência já um pouco velha – mesmo estando entre seus 40 anos. Sem opções para dar uma boa educação para sua filha, ela se desespera e se submete a um procedimento cirúrgico extremo (feito pela mesma empresa), a fim de se tornar mais jovem. Seu objetivo é voltar a trabalhar e, assim, pagar a educação da filha em uma escola particular.
Os dois filmes já deram uma ideia do que se trata o festival: trazer temáticas feministas de perspectivas inesperadas.
Temas e escolha dos filmes
Na programação, estão três curtas brasileiros: “ISTO”, de Mariana Collares; “Bird Skin” (Pele de Pássaro), de Clara Peltier; e “Mother of Pearl” (Madrepérola), de Deise Hauenstein. Os três foram os únicos filmes brasileiros que Karin recebeu nas inscrições para o festival. “São de uma qualidade muito alta, são bonitos e bem produzidos. Não posso falar muito sobre o movimento feminista na América do Sul, porque não sei muito sobre isso. Mas tenho a impressão de que está se formando uma nova onda (feminista) muito forte agora”, opina.
Os filmes são escolhidos pela própria Karin, em um processo de análise do material inscrito e de constante busca por coisas novas. O importante é que as produções tenham mulheres como protagonistas e que suas representações fujam de estereótipos femininos. Elas não precisam ser necessariamente feitas só por mulheres, mas também por diretores, produtores, atores que não se identifiquem com a cultura tradicional de gênero.
Quanto ao conteúdo, ele deve se encaixar às ideias feministas. Relacionado a isso, as temáticas podem ser variadas. “Quando se tem um tema específico, a gente acaba se limitando para escolher os filmes e eu acho legal ter diferentes temáticas dentro do festival. Assim, todo ano tem coisas novas, eu aprendo coisas novas e outras perspectivas conseguem ser apresentadas”, explica Karin. Neste ano, alguns dos assuntos presentes na Berlin Feminist Film Week são Body Positive (sobre o empoderamento das mulheres através do corpo), representatividade negra e lésbica, filmes de comédia e filmes feministas de ficção científica.
Criação do evento
A Berlin Feminist Film Week teve sua primeira edição em 2014. Karin trabalhava na companhia de cinema Mobile Kino, que promove sessões de cinema temporárias em diferentes locais de Berlim, e teve a ideia de organizar um programa com curtas-metragens feministas. Conversando com amigos sobre a organização, eles descobriram que em Londres existia o London Feminist Film Festival. “Vimos que não havia até então nenhum festival do tipo em Berlim e tínhamos aí um espaço para fazer alguma coisa semelhante ao de Londres”. Para a primeira edição, a organizadora tinha poucas expectativas e achava que só seus amigos e conhecidos viriam ao festival.
Para sua surpresa, desde 2014, o evento chamou atenção de mais pessoas além do círculo de amizade de Karin. Sorte para os que moram em Berlim. Baseado no saguão cheio do cinema Babylon no dia da abertura, a Berlin Feminist Film Week ainda terá muitas edições.