Mea culpa? Queremos mais

Ilustração feita com exclusividade por Natália Schiavon

Imagine esta cena: você está andando na rua quando um estranho passa, estica a perna e faz você tropeçar. O que você está fazendo, você pergunta. Não é certo fazer as pessoas tropeçarem no meio da rua. Nossa, responde o estranho, percebo que as minhas ações fizeram parecer que sou uma pessoa que tropeça os outros na rua, mas prometo que essa nunca foi minha intenção. Eu sinto muito. Vou refletir a respeito disso, diz o estranho. E então ele vira e vai embora, deixando você estatelada no meio da rua.

Imagine esta cena: uma atriz brasileira extremamente conhecida escreve um texto a respeito de feminismo. Nesse texto, ela põe que a mulher só estará verdadeiramente livre do machismo quando ela mesma chegar ao glorioso nível conhecido como “ser homem”. Além dessa asneira grotesca, ela ainda por cima descreve sua babá negra como uma “mulata mineira que causava furor por onde passasse”, sendo ‘elevada’ pelos homens “uivando, ganindo, gemendo nas obras”. Alguns dias depois a atriz brasileira extremamente conhecida publica um “Mea culpa”, assumindo, mas não explicando, o racismo e machismo de seu texto. Meses antes desse acontecimento, uma campanha de homens assumindo a culpa do machismo deles intitulada “Mea culpa” ganhou espaço na mídia e nas redes sociais.

Imagine esta cena: uma produtora que trabalha para um museu de grande relevância cultural em São Paulo tem seu corpo violado por parte de um dos integrantes do coletivo de fotografia que irá expor no dito museu. Enquanto ela pousava para uma foto, o agressor se sentiu no direito de passar a mão no peito dela. Depois da agressão, o coletivo, o museu e a produtora se reúnem para deliberar a respeito do ocorrido, e chegam ao acordo de que o agressor não poderá atender à abertura da exposição, mas, honrando seu nome de agressor, ele aparece mesmo assim. O coletivo então (só então) publica uma carta aberta onde dizem rechaçar “qualquer atitude preconceituosa, racista, homofóbica e machista”. Não se pronunciam a respeito de terem escolhido manter o fotógrafo no coletivo.

Esse texto não tem como objetivo criticar ainda mais o texto que a Fernanda Torres publicou no espaço #AgoraÉQueSãoElas ou o acontecido com o coletivo de fotografia SelvaSP na ocasião de sua exposição no MIS, ou falar sobre os inúmeros casos públicos de machismo no nosso dia a dia. Alguém percebeu uma semelhança entre os três exemplos acima? Em todos eles, vemos uma situação onde o agressor poderia ter ajudado a vítima, mas escolhe em vez disso “assumir a culpa” e seguir em frente, feliz e satisfeito com o fato de que deixou claro para tudo e todos que rechaça atitudes machistas, racistas e homofóbicas (insira aqui os seus aplausos). A diferença? O primeiro exemplo é inventado, os outros podem ser encontrados facinho facinho a um clique de distância. São só dois exemplos, mas eu poderia ter enchido a tela.

Tenho ficado um pouco preocupada ultimamente. Quando li a respeito do ocorrido entre o coletivo SelvaSP e a produtora do MIS, corri para a página deles para ver se eles tinham se pronunciado. Haviam sim, mas honestamente? Grandes bostas. Somos contra o machismo e homofobia? Que ótimo queridos, fico muito grata. Agora, vocês estão conscientemente escolhendo manter o seu nome afiliado a um fotógrafo acusado de assédio sexual. Vocês têm todo o direito de fazer essa escolha, mas se vocês de fato estão comprometidos a refletir, como dizem em sua carta aberta, convêm explicar o raciocínio por trás dessa escolha. A mesma coisa vale para a carta da Fernanda Torres. Fico muitíssimo feliz que ela se prontificou em colocar o quanto lhe foi elucidado que ela de fato estava sendo machista e racista. Porém. Porém. Não convêm agora usar o amplo espaço de fala dela, não para explicar que ela nunca teve a intenção de ser machista, mas sim para explicar o porquê de sua fala ser considerada machista e racista? De explicar porque você não pode sensualizar o assédio da sua babá negra? Explicar que mulheres negras têm sido sujeitas a objetificação e sexualização em um nível infinitamente maior que mulheres brancas, e que isso data desde a época da colonização quando as mulheres negras eram estupradas pelos colonizadores? O ideal não seria usar esse espaço de fala para ensinar, educar, ajudar aqueles que você expôs ao seu racismo e machismo naturalizado? Usar esse espaço, não para garantir a todos que foi sem querer, mas para mostrar o que você aprendeu quando aprendeu que o que você falou foi errado, e contribuir para que outros não cometam o mesmo erro que você?

Eu escolhi usar esses dois exemplos mas tenho uma lista infinita de escolhas na ponta dos dedos. Com a popularização e aceitação midiática maior dos movimentos sociais temos observado uma movimentação interessante do mercado, a do abraçar a causa. Temos propagandas abraçando o feminismo, programas de televisão, revistas. Temos pessoas que cobram, e por conta dessas pessoas temos grandes artistas de televisão que se sentem pressionados o suficiente a escrever uma carta de retratação. E é ai que entra a segunda parte do que tem me incomodado.

Ninguém nasceu desconstruído, nem eu nem você, e precisamos ajudar os outros a desconstruir também. Mas isso não significa se contentar com migalhas e bater palmas quando alguém assume o óbvio.

Nos dois casos que eu citei, o que mais me surpreendeu, a razão por eu ter escolhido eles como exemplos, foi a resposta do público após a divulgação dos pedidos de desculpas. Qual foi a minha surpresa em ver comentários na página do coletivo de fotografia exaltando a coragem deles de terem publicado uma retratação. O alívio no suspiro coletivo das pessoas ao lerem a carta de “Mea Culpa” da Fernanda Torres. Ufa, pensamos coletivamente, acho que no fim das contas ela não era racista. Que sorte. Eu gostava tanto dela.

Precisamos exigir mais de nossos ofensores acidentais. Sim, que bom que a Fernanda Torres pediu desculpas. Mas, honestamente? É o mínimo do mínimo. E fazer uma carta falando que sente muito e não parar para levantar a pessoa que derrubou no chão – isso é inaceitável. E está na hora de tomarmos isso como inaceitável. Como preguiçoso, como trabalho dúbio. Sim, precisamos ter flexibilidade, ter paciência, dedicação, vontade de educar. Ninguém nasceu desconstruído, nem eu nem você, e precisamos ajudar os outros a desconstruir também. Mas isso não significa se contentar com migalhas e bater palmas quando alguém assume o óbvio. Significa cobrar mais, significa exigir aquilo que nos é devido: não pedidos-de-desculpas-panos-quentes pra livrar sua barra com as feministas, mas sim ações engajadas, que de fato promovam mudanças nos danos causados pelas suas ações. Não é impossível, tivemos um exemplo muito bom disso com a carta aberta da sorveteria Me Gusta, depois de um caso de homofobia praticado por um funcionário no ano passado. A sorveteria não só assumiu responsabilidade pelo ocorrido, como se responsabilizou por educar os funcionários a respeito de homofobia e promoveu um beijaço LGBT na própria sorveteria. Uma curiosidade importante: o gerente de comunicação da sorveteria é gay. Não é a toa que estavam preparados para remediar o mal que foi causado em seu estabelecimento.

Chega de pedidos meia-boca de desculpa. Chega de falta de comprometimento na hora de remediar o que o seu “acidente” causou. Somos muitas. É não é de migalhas que uma multidão sobrevive.

 
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Ilustração feita com exclusividade por Natália Schiavon.
 

Mais de Barbara Mastrobuono

O dia em que raspei o meu cabelo

Em 2012, eu raspei todo o meu cabelo. O processo foi gradual, não raspei de um dia para o outro. Tudo começou com uma obsessão pelo corte joãozinho da Emma Watson em 2010. Um ano depois juntei coragem para cortar as madeixas (que chegavam na altura do meu peito) a lá Jean Seberg. Mais um ano e consegui raspar tudo usando a máquina de barbear de um amigo.

Ok, passei do primeiro parágrafo. Do jeito que isso está escrito parece que cortar o cabelo é tipo, ALGO MUITO IMPORTANTE. Mas na verdade… será que não é? Eu demorei muito tempo para conseguir cortar meu cabelo, e não foi por medo de não ficar bom. O fato que todas conhecemos é que cabelo comprido é intimamente relacionado, no subconsciente coletivo da nossa sociedade, com feminilidade, com ser mulher.

De certa forma, acho que foi isso que me impulsionou a raspar o cabelo. Um cansaço geral de ser mulher, de ter pessoas me agarrando e puxando na rua, assediando no metrô, e tudo o mais que sabemos ser tão real.

Lembro que quando contei para as pessoas que iria cortar meu cabelo tive de ouvir comentários do tipo “Mas como vão saber que você é menina?” (uh, porque eu sou?) ou “Mas o que o seu namorado vai achar?”. Ninguém me perguntava se eu estava preparada para ir todo mês ao salão para manter o corte, ou como eu ia fazer para deixar crescer quando tivesse cansado (perguntas de fato relevantes sobre coisas que de fato são problemas de verdade quando se corta o cabelo curtinho). Todos estavam muito mais preocupados com o quão “mulher” eu ainda seria.

Sem cabelo, não conseguia mais me esconder, seja fisicamente atrás de uma cortina quando não tivesse com coragem de enfrentar o mundo a minha volta, seja emocionalmente atrás de penteados.

De certa forma, acho que foi isso que me impulsionou a raspar o cabelo. Um cansaço geral de ser mulher, de ter pessoas me agarrando e puxando na rua, assediando no metrô, e tudo o mais que sabemos ser tão real. A sensação que me deu é que raspar o cabelo tirou de mim tudo aquilo que fazia as pessoas me identificarem a primeira vista como mulher e me colocarem no espaço designado da mulher – como mulheres “não femininas” (usando mil aspas) dificilmente são consideradas sensuais pela sociedade, raspar o cabelo acaba te tirando da zona de conforto de todo mundo. Para mim, foi como se eu tivesse explodido do molde e colocado a minha cara no mundo. Sem cabelo, não conseguia mais me esconder, seja fisicamente atrás de uma cortina quando não tivesse com coragem de enfrentar o mundo a minha volta, seja emocionalmente atrás de penteados. Pela primeira vez, senti que era eu quem estava ocupando aquele espaço, e não um holograma de estereótipos femininos. E, com a falta de cabelo, veio a minha voz. Me sentindo no meu próprio corpo e ocupando o meu próprio espaço, me sentindo uma presença física no mundo, foi muito mais fácil conseguir ter a força de me posicionar e vocalizar as minhas vontades e minhas lutas.

Isso que eu conto é a minha experiência raspando o cabelo. Não sei se é a mesma para todo mundo, mas pelo que conversei com amigas que também rasparam, sinto que elas passaram por um processo similar. Como se você descascasse sua pele para renascer de maneira mais crua, mais tátil, mais real. Fui feliz sendo a minha própria Dalila. Tirar a minha ‘fonte da minha força’ foi a melhor coisa que já fiz por mim.

(imagens: cabeloscurtos.tumblr.com e baldblackbeauties.tumblr.com)

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criticar ainda mais o texto que a Fernanda Torres publicou no espaço #AgoraÉQueSãoElas ou o acontecido com o coletivo de fotografia SelvaSP na ocasião de sua exposição no MIS, ou falar sobre os inúmeros casos públicos de machismo no nosso dia a dia. Alguém percebeu uma semelhança entre os três exemplos acima? Em todos eles, vemos uma situação onde o agressor poderia ter ajudado a vítima, mas escolhe em vez disso “assumir a culpa” e seguir em frente, feliz e satisfeito com o fato de que deixou claro para tudo e todos que rechaça atitudes machistas, racistas e homofóbicas (insira aqui os seus aplausos). A diferença? O primeiro exemplo é inventado, os outros podem ser encontrados facinho facinho a um clique de distância. São só dois exemplos, mas eu poderia ter enchido a tela.

Tenho ficado um pouco preocupada ultimamente. Quando li a respeito do ocorrido entre o coletivo SelvaSP e a produtora do MIS, corri para a página deles para ver se eles tinham se pronunciado. Haviam sim, mas honestamente? Grandes bostas. Somos contra o machismo e homofobia? Que ótimo queridos, fico muito grata. Agora, vocês estão conscientemente escolhendo manter o seu nome afiliado a um fotógrafo acusado de assédio sexual. Vocês têm todo o direito de fazer essa escolha, mas se vocês de fato estão comprometidos a refletir, como dizem em sua carta aberta, convêm explicar o raciocínio por trás dessa escolha. A mesma coisa vale para a carta da Fernanda Torres. Fico muitíssimo feliz que ela se prontificou em colocar o quanto lhe foi elucidado que ela de fato estava sendo machista e racista. Porém. Porém. Não convêm agora usar o amplo espaço de fala dela, não para explicar que ela nunca teve a intenção de ser machista, mas sim para explicar o porquê de sua fala ser considerada machista e racista? De explicar porque você não pode sensualizar o assédio da sua babá negra? Explicar que mulheres negras têm sido sujeitas a objetificação e sexualização em um nível infinitamente maior que mulheres brancas, e que isso data desde a época da colonização quando as mulheres negras eram estupradas pelos colonizadores? O ideal não seria usar esse espaço de fala para ensinar, educar, ajudar aqueles que você expôs ao seu racismo e machismo naturalizado? Usar esse espaço, não para garantir a todos que foi sem querer, mas para mostrar o que você aprendeu quando aprendeu que o que você falou foi errado, e contribuir para que outros não cometam o mesmo erro que você?

Eu escolhi usar esses dois exemplos mas tenho uma lista infinita de escolhas na ponta dos dedos. Com a popularização e aceitação midiática maior dos movimentos sociais temos observado uma movimentação interessante do mercado, a do abraçar a causa. Temos propagandas abraçando o feminismo, programas de televisão, revistas. Temos pessoas que cobram, e por conta dessas pessoas temos grandes artistas de televisão que se sentem pressionados o suficiente a escrever uma carta de retratação. E é ai que entra a segunda parte do que tem me incomodado.

Ninguém nasceu desconstruído, nem eu nem você, e precisamos ajudar os outros a desconstruir também. Mas isso não significa se contentar com migalhas e bater palmas quando alguém assume o óbvio.

Nos dois casos que eu citei, o que mais me surpreendeu, a razão por eu ter escolhido eles como exemplos, foi a resposta do público após a divulgação dos pedidos de desculpas. Qual foi a minha surpresa em ver comentários na página do coletivo de fotografia exaltando a coragem deles de terem publicado uma retratação. O alívio no suspiro coletivo das pessoas ao lerem a carta de “Mea Culpa” da Fernanda Torres. Ufa, pensamos coletivamente, acho que no fim das contas ela não era racista. Que sorte. Eu gostava tanto dela.

Precisamos exigir mais de nossos ofensores acidentais. Sim, que bom que a Fernanda Torres pediu desculpas. Mas, honestamente? É o mínimo do mínimo. E fazer uma carta falando que sente muito e não parar para levantar a pessoa que derrubou no chão – isso é inaceitável. E está na hora de tomarmos isso como inaceitável. Como preguiçoso, como trabalho dúbio. Sim, precisamos ter flexibilidade, ter paciência, dedicação, vontade de educar. Ninguém nasceu desconstruído, nem eu nem você, e precisamos ajudar os outros a desconstruir também. Mas isso não significa se contentar com migalhas e bater palmas quando alguém assume o óbvio. Significa cobrar mais, significa exigir aquilo que nos é devido: não pedidos-de-desculpas-panos-quentes pra livrar sua barra com as feministas, mas sim ações engajadas, que de fato promovam mudanças nos danos causados pelas suas ações. Não é impossível, tivemos um exemplo muito bom disso com a carta aberta da sorveteria Me Gusta, depois de um caso de homofobia praticado por um funcionário no ano passado. A sorveteria não só assumiu responsabilidade pelo ocorrido, como se responsabilizou por educar os funcionários a respeito de homofobia e promoveu um beijaço LGBT na própria sorveteria. Uma curiosidade importante: o gerente de comunicação da sorveteria é gay. Não é a toa que estavam preparados para remediar o mal que foi causado em seu estabelecimento.

Chega de pedidos meia-boca de desculpa. Chega de falta de comprometimento na hora de remediar o que o seu “acidente” causou. Somos muitas. É não é de migalhas que uma multidão sobrevive.

 

Ilustração feita com exclusividade por Natália Schiavon.
 

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