Mulher negra, o cabelo curtinho também é seu

Ilustração feita com exclusividade por Janis Souza
Para se sentir inspirada a cortar o seu black curtinho

Ser mulher é ser cobrada, constantemente, de satisfações quanto a sua própria aparência. Mesmo quando você consegue superar a cobrança estética a qual todas estamos expostas, mesmo quando suas decisões não dependem da opinião alheia, é comum se ver dando satisfação quanto suas escolhas, principalmente quando se trata de cabelo (modo ironia) este ó tão feminino atributo que temos (/modo ironia). Ser mulher negra é encarar tudo isso com o peso do racismo para acompanhar, principalmente quando se trata do seu cabelo crespo, afro.

Talvez por isso eu tenha demorado tanto para finalmente ir ao salão e cortar meu black, assumindo um penteado curtinho. A decisão já estava tomada. Era isso que eu queria. Meu celular estava repleto de fotos de referências. Eu sabia que eu não queria provar feminilidade para ninguém, menos ainda que meu cabelo não seria um determinante disso caso eu quisesse. Mas eu sabia que haveria cobranças, que eu teria que dar satisfação.

Mais especificamente, um tipo de cobrança que se tem quando você é uma garota negra. Uma cobrança que pode ir além do ideal de feminilidade colocado para todas as mulheres. Existe ainda outra cobrança a se lidar: a da representatividade. 

No bairro periférico onde morei, fui uma das primeiras que abriram mão da chapinha e do alisamento químico, e por isso, principalmente agora, com o cabelo natural mais evidente na mídia, sou a fonte de referência mais próxima para que as garotas desse bairro façam o mesmo.

Em tempos em que tanto se fala da importância de representatividade – e eu bem sei disso, pois é algo que cobro e quero  muito – é comum se ver abraçando esta causa, se orgulhando de representar garotas mais jovens e mostrá-las que elas importam, que são belas e capazes de tudo.

Então, percebi que o que me impedia de cortar o cabelo do jeito que eu queria não era o apego com meu black. Depois de 11 meses de transição e quase três anos de cabelo natural, eu já avancei na fase de descobertas e novidades com meu cabelo, que ficou preso ou alisado pelo racismo por boa parte da minha vida. Embora meu cabelo tenha sido, para mim, um símbolo de resistência em suas diversas formas – até trançado! – eu finalmente havia chegado em um momento da minha vida em que podia vê-lo como ele é: só cabelo. Cabelo que pode ser modificado e utilizado como eu bem quiser, para meu único agrado.

O que me prendia mesmo era a ciência de que meu cabelo é “só cabelo” só pra mim. Que meu cabelo seria “só cabelo” somente em um mundo sem racismo. Em um mundo em que mulheres negras não precisam criar escudos e defesas só para serem elas mesmas. Logo, os questionamentos eram muitos e a pressão para ser uma representação era grande.

Mas, se a minha representação para outras mulheres negras era um impedimento, a representação de outras mulheres negras para mim foi a solução. Como na transição capilar, como nos primeiros meses com meu cabelo natural, como na primeira vez que trancei o cabelo, precisei me isolar do mundo julgamentos que eu enfrentaria e focar em outras mulheres negras que tiveram coragem e cortaram.

Aqui estão algumas das que me inspiraram:
 

Amandla Stenberg, atriz e minha friend crush:

Bein' sweet captured by sweety pie @nicholas.claridge

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Zoe Kravitz, atriz, cantora, minha girl crush:

You get me. @markseliger 🕊

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Issa Rae, atriz, produtora e a escritora que quero ser um dia:


Obs.: Ela estrelou a série The Misadventures of An Awkward Black Girl completamente careca e hoje estrela Insecure (HBO) de cabelo curtinho.
 

Janelle Monaé, atriz, cantora e seu falso curto com topete:


 

Janelle e seu pixie hair (porque as negras também podem):

Chopped and screwed.

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Lupita Nyong’o (atriz), sempre Lupita:


 

Lorena, minha amiga da época da escola, porque pessoas reais também inspiram:

[caption id="attachment_15180" align="alignnone" width="694"] Obs.: A conta dela é privada, mas ela deixou eu postar este print aqui. Valeu, Lorena![/caption]  
Depois dessa surra de mulheres lindas, é natural também se sentir inspirada a cortar o seu black curtinho. E se tem uma coisa que posso dizer da minha experiência é que a sensação é maravilhosa. No momento que vi o corte finalizado, todas as minhas dúvidas desapareceram e meu amor pelo meu cabelo natural só ficou ainda mais validado, independente de sua forma.

Aliás, toma aí uma comparaçãozinha:


 
Quando falei aqui sobre minha experiência pós transição capilar ou com o cabelo trançado, escrevi sobre como ambos os tipos de cabelo validaram minha raça e minha posição como mulher negra em uma sociedade racista como a nossa. E tudo isso veio depois das mudanças capilares feitas. Uma forma de embasar como eu acredito no empoderamento estético da mulher negra e também ressaltar a importância de não se banalizar esta questão.

Já com relação ao cabelo curto, as questões vieram antes mesmo que eu o tivesse, justamente pelo tanto que eu e outras mulheres valorizamos a representatividade trazida pela estética. Tanto, a ponto de quase me impedir de fazer o que eu gostaria. Mais uma vez, se o mundo não fosse racista, nem teríamos estas questões.

[caption id="attachment_15208" align="alignnone" width="800"] Ilustração feita com exclusividade por Janis Souza[/caption]  
Claro que tenho muitas histórias sobre como as pessoas reagiram ao meu cabelo curto. Desde as com fundamentos machistas, como “você virou lésbica? Por isso cortou o cabelo?” ou “o seu marido deixou?”, até as racistas, como: “mas não é a mesma coisa que o curtinho e liso, né?” ou “mas ficam melhor em quem tem o rosto mais fino, com traços mais delicados” – um clássico exemplo de como, mesmo sofrendo racismo, o cabelo curto acaba sendo mais aceito em mulheres brancas. E ainda, a campeã: “você cortou porque aquele cabelão dava o maior trabalho, com certeza”.

Esta última, para mim, é a que mais incomoda, pois não costuma vir como uma dúvida, mas sim como uma afirmação. Uma suposição de que os cuidados com cabelo crespos são tão difíceis e tão caros a ponto de me fazer abrir mão do meu volume. Claro que, cortar o cabelo deixou minha vida muito mais prática, pois perco menos tempo com cuidados, mas tenho certeza que seria o mesmo resultado para quem tem cabelo liso natural.

Mas, no fim das contas, me olhar no espelho e me achar bonita com um cabelo que escolhi para mim compensa toda a chateação. E, mais ainda, é ver as respostas positivas, pois sim, elas existem! Ver outras meninas negras descobrindo que o curtinho também pode ser delas, não importa o que terão que enfrentar.


Ilustrações feitas com exclusividade por Janis Souza.

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Um filme para as queridas pessoas brancas

Ainda dá tempo de reclamar da falta de representatividade do Oscar 2015? É incrível como o retrocesso da maior premiação do cinema neste ano, também retrocede o nosso acesso, gosto e consumo por cultura.

No meu desespero para conseguir assistir aos filmes de 2014 que foram indicados antes da premiação ir ao ar, deixei uma lista muito mais interessante de lado. No fim das contas, eu havia assistido filmes bons, mas sem muita novidade, que apesar de diferentes eram iguais nos quesitos: todos sobre homens, com atores brancos como protagonistas (com exceção de Selma, claro). Mal assisti a transmissão na TV, pois já sabia os resultados: homens, homens, homens, homens… Ainda bem que alguns pontos da cerimônia valeram a pena pois serviram como bons protestos.

Valorizar a opinião da Academia e da crítica especializada me fez deixar de assistir o único filme com alta representatividade entre os indicados, e outros filmes mais importantes no ano passado que também cumprem esta proposta, além de expor e problematizar questões sociais, principalmente o racismo.

E se tem um filme também que fez isso em 2014, este é Dear White People, que aparentemente ainda não tem um título oficial em português. Porque Selma recebeu  indicações ao Oscar (poucas, menos do que merecia), e Dear White People foi completamente ignorado pela academia? Não seria por falta de qualidade técnica, pois a fotografia do filme é boa, a edição muito bem alinhada, roteiro bem amarrado e bom ritmo de trama, além de apresentar boas atuações de seus protagonistas. Além disso, ambos os títulos falam de questões sociais, militância negra e representatividade.

Talvez a única diferença entre os dois seja que o primeiro trata de tudo isso em seu roteiro num momento histórico do passado, e o segundo faz uma crítica ao racismo nos dias de hoje nos Estados Unidos, o que o homem branco cisgênero heterossexual e acima de 50 anos residente do pais, acredita não existir mais. E digo isso para pontuar que este é o perfil da maioria que compõe a Academia de avaliação do Oscar.
 

 

Queridas pessoas brancas, assistam este filme!

Passado o momento de desabafo, vamos falar de Dear White People. Ou tentar falar, já que o filme trás tantos conflitos e pautas do movimento negro, que para mim ficou até difícil alinhar tudo para escrever sobre.

O filme é dirigido por Justin Simien, que estava cansado da baixa representatividade negra em Hollywood, como ele disse em seu discurso de aceitação do premiou Best First Screenplay, o que seria “melhor revelação” pelo Film Independent Spirit Awards no ano passado: “Comecei a escrever esse filme há dez anos por um impulso, porque eu não via minha história sendo retratada culturalmente. Eu não me via nos filmes que eu amava e as histórias não ressoavam a mim”.
 

A história gira em torno de quatro jovens negros que conseguem entrar em uma universidade renomada nos EUA e precisam lidar com racismo dentro da instituição, e cada um trás muitas questões a serem debatidas, tais como: a representação das negros na mídia, no mercado de trabalho e nas universidades, a resistência da comunidade negra ao se relacionar com os brancos por medo de racismo, a homofobia dentro da comunidade negra, a ideia de meritocracia que os brancos cultivam, a ideia de vitimização e culpalização que os brancos também cultivam. E os assuntos principais do longa, que podem girar em torno de todos os outros já citados: apropriação cultural e black face.

O termo black face é usado nos EUA para descrever o comportamento de pessoas brancas agindo como negros de forma preconceituosa e/ou literalmente pintando a pele de marrom para fazer comédia. Em Dear White People, os personagens começar a interagir por causa da organização, e depois execução, de uma festa com este tema, que é muito comum nas universidades americanas, onde os estudantes vão “fantasiados” de estereótipos de pessoas negras, como gangsters, rappers, atletas ou simplesmente em seu cotidiano nas periferias americanas. Ao assistir a cena, não pude deixar de me lembrar de como isso acontece no Brasil durante o Carnaval, ou até em programas de “humor”, principalmente com a imagem da mulher negra.

Com o título e todas essas pautas, o longa pode assustar um pouco. Mas tudo é ditado de forma sarcástica, com um tom de humor leve, muito embora o emocional ainda esteja presente. Talvez mais presente para quem é negro.

Este e todos os outros temas poderiam ser facilmente trazidos para a comunidade negra vivendo em sociedade aqui no Brasil, e serem traduzidos e discutimos da forma que os vivenciamos aqui. Por isso, tratar de cada assunto separadamente me levaria a escrever um livro, e não somente um post, e já que você está lendo a Ovelha Mag, vamos falar sobre as mulheres do filme, que surpreendentemente eu consigo relacionar com transição capilar, pelo menos com a minha.

 

A negra que eu fui e a negra que eu sou

Assistindo ao longa, eu imediatamente me identifiquei com Colandrea ‘Coco’ Conners (Teyonah Parris) e Sam White (Tessa Thompson) as duas mulheres entre os quatro personagens principais na trama.

Coco é a mulher negra que uma vez eu fui, mas nunca quis ser de verdade. É a mulher negra embranquecida pelo alisamento do cabelo, ou no caso dela pelas perucas de cabelo indiano, tão comuns nos Estados Unidos.
 
dear+white+people+3
 
Ela se veste e se comporta como, assim dizem os americanos, uma patricinha branca. Não que uma mulher negra tenha que sempre vestir estereótipos ou não tenha liberdade de usar o que quiser e alisar o seu cabelo, Coco está na trama justamente para questionar tudo isso. Mas digo que nunca quis ser como Coco pois é ela quem recebe as críticas a sua beleza natural para depois ouvir acusações de racismo ao tentar parecer mais branca. Been there, did that, Coco.

É possível ver o incomodo de Coco com relação a como as pessoas julgam sua aparência. A curiosidade sobre a raiz do cabelo, sobre as lentes de contato, sobre o modo de se vestir, e o fato de que, quando uma mulher branca faz bronzeamento artificial, preenchimento nos lábios, ou quaisquer coisas que a façam adquirir a beleza que é naturalmente negra, ela não só não passa por críticas, como também é muito mais aceita do que a mulher negra.

Coco sabe da existência do racismo e o quanto isso a prejudica, a fere e a incomoda, ela se defende do racismo com relação a sua aparência, mas ao mesmo tempo sente a necessidade de se enturmar na universidade, fingindo que tal problema não existe para ela, caminho tomado muitas vezes pela falta de coragem de se impor diante da opressão, por questão de sobrevivência, ou pela simples vontade de caminhar em um lugar público sem ser julgada.

Já Sam White, seria a mulher negra que eu sou agora. O filme não especifica o seu passado, mas para mim a identificação foi maior com ela pois parecia que ela também tinha acabado de descobrir sua identidade, e estava no auge do seu engajamento.
 
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Sam é a personagem principal do filme, e é ela quem comanda o programa de rádio na universidade, além de um canal de vídeos na internet chamados Dear White People, e começa todos os programas com esta frase, seguida de um sincerão para pessoas brancas que pensam que não são racistas. Logo ela se torna uma representante da comunidade negra na universidade e sofre pressão de liderança.
 

O principal conflito de Sam é com relação ao seu lugar de militância, pois quando ela deixa de fazer isso de forma criativa e traduzindo seus sentimentos sobre o racismo artisticamente como sempre fez, ela não consegue estar tão presente e aprende a valorizar mais os companheiros que lideravam movimentos, além de demonstrar que é possível protestar de diversas formas.

Embora não explícito no filme, o questionamento e a pressão sobre o poder da militância de Sam, quando vindo de homens, soava machista, a inferiorizando como líder, talvez não tenha sido a intenção do diretor, ali pode ter surgido uma nova problemática a ser debatida. Não sei se coincidentemente, não se tem essa impressão quando Coco faz o mesmo, embora hajam poucas interações entre elas (o que é uma pena).

Sam também levanta o debate sobre o relacionamento de mulheres negras com homens brancos, e sobre ser miscigenada numa comunidade negra que tanto se defende contra os brancos a ponto de repeli-los de seu convívio, como acontece nos Estados Unidos.

No geral, esse filme é pra gente assistir com um bloquinho de anotações na mão, depois sentar e debater. Se for sentar e debater na internet, conta pra gente o que achou ;)
 

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