Quem é Ana Cristina Cesar?

Ana Cristina Cesar, s.l., fev. 1983 (Foto: Acervo Ana Cristina Cesar/IMS)

A Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) homenageia em cada edição um autor brasileiro. Em 14 anos de Flip, apenas duas mulheres foram lembradas: a famosa Clarice Lispector (em 2005) e a não tão famosa Ana Cristina Cesar (agora em 2016).

É inevitável, então, que as pessoas digam “quem é Ana Cristina Cesar?”. E isso não é assim tão fácil de responder.

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Eu soube da existência de Ana C., como ela é conhecida, em 2010. Foi quando estreou em São Paulo a peça de teatro “Um navio no espaço ou Ana Cristina Cesar”, dirigida por Paulo José e estrelada por Ana Kutner.

A sinopse dizia que se tratava de devaneios da poeta carioca antes dela pular do oitavo andar do seu prédio em Copacabana, aos 31 anos.

Essa informação me chocou e, após ver a peça, fui logo procurar livros dela e só achei em sebos “A teus pés”, originalmente publicado pela editora Brasiliense em 1982, um ano antes de seu suicídio.

Procurei mais por ela na internet e foi aí que decorei “Noite carioca”. Esse poema está no livro “Inéditos e dispersos” (1985), organizado pelo poeta Armando Freitas Filho, amigo de Ana C.:

Diálogo de surdos, não: amistoso no frio.
Atravanco na contramão. Suspiros no
contrafluxo. Te apresento a mulher mais discreta
do mundo: essa que não tem nenhum segredo.

Ana Cristina Cruz Cesar estudou Letras na PUC-RJ, de 1971 a 1975, e fez parte do movimento da poesia marginal ou geração mimeógrafo.

Em 1979 lançou, de forma independente, seu 1º livro de poesia, “Cenas de abril”. Seguem-se “Correspondência completa” e “Luvas de pelica”, publicado em 1980.

Ana C. também recebeu o título de Master of Arts em Theory and Practice of Literary Translation, em 1980 na Inglaterra, e traduziu as escritoras Emily Dickinson, Sylvia Plath e Katherine Mansfield.

Em 2013, a Companhia das Letras publicou o volume “Poética” e, por causa da Flip 2016, há vários relançamentos e novos livros em torno da poeta.

Destaco: a fotobiografia “Inconfissões”, organizada por Eucanaã Ferraz.

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O acervo pessoal da autora está sob tutela do Instituto Moreira Salles. No site do IMS, aliás, há muitos textos, fotos e áudios de Ana C., vale a pena dar uma olhada.

E muitas poetas brasileiras parecem guardar um pouco de Ana C. em seus livros. Precisamos saber mais de Alice Sant’Anna, Ana Martins Marques, Annita Costa Malufe, Angélica Freitas, Masé Lemos, Laura Erber, Laura Liuzzi, Marília Garcia…

Ler Ana Cristina Cesar é como ler o diário de uma amiga. É ler provocações e questionamentos sobre o corpo, a alma, a depressão, o sexo, a amizade. Mas quem é Ana Cristina Cesar? Acho que só lendo sua obra é que dá para entender um pouquinho do que ela foi.

Mais de Letícia Mendes

Links da semana

Olá, ovelhitas!

Mais uma semana com um monte de coisas legais, importantes e inspiradoras que vimos e achamos que merecem a atenção de vocês.


// IGNORADAS

Hoje à noite acontece o Oscar, a festa da Academia de Hollywood, cujos membros são 94% brancos, 77% homens, e 86% têm mais de 50 anos. Ou seja, uma ótima ocasião para você ler essa lista com 10 atuações femininas que simplesmente são ignoradas por essas premiações. Tem a Karidja Touré, de “Garotas”, e a Tessa Thompson, de “Creed” (foto acima).

E aqui outra lista, da “Vanity Fair”, com 3o filmes que deixariam o Oscar menos branco.

 


// NA TV

Uma lista de séries protagonizadas por mulheres. Para tentar ver em 2016. Clique aqui.

Ilana Glazer, left, and Abbi Jacobson, right,  are stars and writers of the new Comedy Central show, "Broad City." The duo photographed outside Comedy Central offices in Manhattan, NY, on Dec. 16, 2013.  (Photo by Carolyn Cole/Los Angeles Times via Getty Images)

 


// HQ DA CAROLINA

Veja aqui as primeiras páginas da biografia da escritora Carolina Maria de Jesus (1914-77), que será lançada pela editora Veneta em maio. Saiba mais sobre o projeto em carolinaemhq.tumblr.com.

 


// GIRL POWER, O FILME

O documentário “Girl Power” acompanha mulheres grafiteiras de quinze cidades ao redor do mundo e questiona esse universo da arte de rua que ainda é dominado pelos homens. Quero muito ver. O trailer:

 


// CASO DA SEMANA

Todo mundo leu o texto da Fernanda Torres no blog do Agora é que são elas. Todo mundo concordou que ela disse umas coisas bem sujas lá. Daí todo mundo leu o outro texto dela, chamado Mea Culpa.

Então, para finalizar essa “polêmica”, fica um texto definitivo aqui da Stephanie Ribeiro sobre esse caso. LEIA.

 


// ASSÉDIO

Vale ler essa matéria bem interessante sobre o assédio sexual ser “um pesadelo aceito” na música indie. De executivos predatórios da indústria à cobertura sexista da imprensa e fãs sexualmente agressivos.

“Eu me senti tão presa. Eu tinha um trabalho a fazer. E estou sendo seguida por esse cara dizendo coisas inapropriadas”, diz Andi Wilson, gestora de projeto do selo Cascine.

 


// ARTE

O MoMA, Museu de Arte Moderna de Nova York, realiza mais uma edição da campanha Art+Feminism, para incluir verbetes na Wikipedia sobre mulheres, artistas e movimentos feministas.

Leia mais.

 


// SUKEBAN

Conheça uma gangue de colegiais que aterrorizava o Japão nos anos 1970. Aqui.

https://www.youtube.com/watch?v=uCYaQ9Eykdc

 


// HOZIER

O vídeo da música “Cherry Wine”, estrelado pela atriz Saoirse Ronan (indicada ao Oscar por “Brooklyn”), alerta sobre a violência contra as mulheres dentro de suas próprias casas.

 


// MENSTRUAÇÃO

Anhui, uma província da China, instituiu uma nova política para as mulheres. O “paid menstrual leave” (ou licença menstrual paga) garante até dois dias de folga do trabalho, se as cólicas forem insuportáveis.

Leia aqui.

Rupi Kaur - Period. | Ovelha

 


// OPINIÃO

A escritora Caroline Paul publicou uma coluna no “New York Times” chamada “Por que nós ensinamos as meninas que é bonito ter medo?”.

 


// FILMES DE MULHERES

Artistas de diferentes países se uniram na produtora sem fins lucrativos We Do It Together, que tem como foco empoderar as mulheres no cinema, televisão e outras mídias.

Leia aqui.

 


// TROPICÁLIA

A “Dazed” fez uma matéria sobre o “movimento brasileiro que redefiniu a contracultura dos anos 70”, a Tropicália.

Leia aqui.

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// BEATNIKS

Texto da “Another” fala sobre como o estilo beatnik, movimento anti-materialista que começou nos anos 1950, de se vestir se transformou em subversivo e chique. Quando roupas pretas, boinas, e óculos-tartaruga entraram na moda.

Leia aqui.

 


// ALL THE SINGLE LADIES

As mulheres solteiras são agora a mais potente força política dos EUA. Artigo bem extenso da “New York Magazine”.

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// AMBER ROSE

A modelo, cantora, atriz Amber Rose arrasou ao declarar na TV americana que não importa o que uma mulher esteja vestindo quando se trata de consentir, mesmo se ela não estiver usando nada. Aqui.

 


// AFEGANISTÃO

Shamsia Hassani é a primeira artista de rua a levar hijabs e feminismo aos muros de Cabul. Nascida em 1988 em Teerã, ela é mestre em artes visuais.

Leia aqui.

 


// SÃO PAULO

Os estudantes que protestaram contra a reorganização das escolas de SP são tema de um documentário, chamado “We rule the school” (dá pra assistir abaixo), e ganharam espaço na revista “Dazed”. Leia aqui.

 


// ESPORTE

Aos 14 anos, Ashima Shiraishi é uma das melhores montanhistas do mundo. Leia aqui.

 


// MÚSICA

Para fechar, clipe novo da FKA twigs!

 


Até a próxima semana, ovelhitas! Força \o/

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Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) homenageia em cada edição um autor brasileiro. Em 14 anos de Flip, apenas duas mulheres foram lembradas: a famosa Clarice Lispector (em 2005) e a não tão famosa Ana Cristina Cesar (agora em 2016).

É inevitável, então, que as pessoas digam “quem é Ana Cristina Cesar?”. E isso não é assim tão fácil de responder.

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Eu soube da existência de Ana C., como ela é conhecida, em 2010. Foi quando estreou em São Paulo a peça de teatro “Um navio no espaço ou Ana Cristina Cesar”, dirigida por Paulo José e estrelada por Ana Kutner.

A sinopse dizia que se tratava de devaneios da poeta carioca antes dela pular do oitavo andar do seu prédio em Copacabana, aos 31 anos.

Essa informação me chocou e, após ver a peça, fui logo procurar livros dela e só achei em sebos “A teus pés”, originalmente publicado pela editora Brasiliense em 1982, um ano antes de seu suicídio.

Procurei mais por ela na internet e foi aí que decorei “Noite carioca”. Esse poema está no livro “Inéditos e dispersos” (1985), organizado pelo poeta Armando Freitas Filho, amigo de Ana C.:

Diálogo de surdos, não: amistoso no frio.
Atravanco na contramão. Suspiros no
contrafluxo. Te apresento a mulher mais discreta
do mundo: essa que não tem nenhum segredo.

Ana Cristina Cruz Cesar estudou Letras na PUC-RJ, de 1971 a 1975, e fez parte do movimento da poesia marginal ou geração mimeógrafo.

Em 1979 lançou, de forma independente, seu 1º livro de poesia, “Cenas de abril”. Seguem-se “Correspondência completa” e “Luvas de pelica”, publicado em 1980.

Ana C. também recebeu o título de Master of Arts em Theory and Practice of Literary Translation, em 1980 na Inglaterra, e traduziu as escritoras Emily Dickinson, Sylvia Plath e Katherine Mansfield.

Em 2013, a Companhia das Letras publicou o volume “Poética” e, por causa da Flip 2016, há vários relançamentos e novos livros em torno da poeta.

Destaco: a fotobiografia “Inconfissões”, organizada por Eucanaã Ferraz.

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O acervo pessoal da autora está sob tutela do Instituto Moreira Salles. No site do IMS, aliás, há muitos textos, fotos e áudios de Ana C., vale a pena dar uma olhada.

E muitas poetas brasileiras parecem guardar um pouco de Ana C. em seus livros. Precisamos saber mais de Alice Sant’Anna, Ana Martins Marques, Annita Costa Malufe, Angélica Freitas, Masé Lemos, Laura Erber, Laura Liuzzi, Marília Garcia…

Ler Ana Cristina Cesar é como ler o diário de uma amiga. É ler provocações e questionamentos sobre o corpo, a alma, a depressão, o sexo, a amizade. Mas quem é Ana Cristina Cesar? Acho que só lendo sua obra é que dá para entender um pouquinho do que ela foi.

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