Diário de Viagem: Célia na Tailândia e Vietnã

Célia e os arrozais em Sa Pa, Vietnã
Um mochilão que começou na Tailândia e passou por Laos, Vietnã e Ha Long Bay. Tudo isso sozinha.

Olá! Me chamo Célia Kano e em dezembro de 2014, agendei minhas férias para dali 30 dias e surpreendi a todos (e a mim mesma!) ao comprar passagens para a Tailândia, o Vietnã e o Laos. Calma hahaha deixa eu explicar melhor isso :) Sempre ao me encontrar, um amigo da faculdade costuma me perguntar “envolvida em um trilhão de coisas como sempre?”. Imprimindo em 2014 o mesmo ritmo da faculdade (onde me dividia entre a empresa junior, grupo de extensão, iniciação científica, grupo de artes, representante de sala, aula de inglês… e ah! as aulas e provas hahaha), me foquei em três metas naquele ano:

(1) me dedicar fortemente e me destacar na consultoria que trabalhava, (2) concluir o mestrado acadêmico e participar dos congressos e (3) realizar algumas corridas de rua.

E foi por esse ritmo frenético e um sentimento de cobrança pessoal de tudo, que no final do ano optei por viajar para um lugar tão longe, sem celular, onde pudesse descansar, meditar, relaxar e ter 20 dias dedicados apenas à conhecer uma cultura e estilo de comida tão diferentes da nossa!… ufa. E foi assim que no início de dezembro, enviei meu passaporte para Brasília, por Sedex, rezando para que voltasse em poucos dias, com o visto necessário e a tempo para a minha viagem!

Foi amor à primeira vista. Quando comprei minha passagem, não sabia como, mas sabia que dormiria uma noite no barco em Ha Long Bay. Em janeiro de 2015, com uma mochila emprestada, empacotei roupas para uma semana e sai de São Paulo com escala em Paris. Iniciei meu mochilão na Tailândia, passei pelo Laos, ingressei no Vietnã pela cidade de Hanói e por fim peguei uma van de 4 horas para Ha Long Bay… Yeah girl, I did it!
 
[caption id="attachment_13814" align="alignnone" width="800"] Ida até o barco[/caption] [caption id="attachment_13812" align="alignnone" width="800"] Primeira foto de Ha Long Bay[/caption]  
Não sou dessas de colecionar check-ins em Patrimônios Mundiais da Unesco, mas juro que depois de Ha Long Bay passei a rever meus roteiros e incluir visitas quando sei que estou perto desses patrimônios mundiais.

Ha Long Bay, segundo a UNESCO, é constituída de 1.600 ilhas e ilhotas de calcário inabitadas e cercadas por águas calmas. Quebrando o silêncio da noite, só ouvia o som dos karaokês nos poucos barcos, estacionados na baia, que abrigavam guias locais e turistas aventureiros de todos os países. Por trás da geologia científica, os vietnamitas ousam contar que em tempos remotos, um dragão foi chamado para salvar o povo de invasores. Quando o dragão apareceu, ateou fogo nos invasores e as esmeraldas da sua boca afundaram os navios inimigos. A paz voltou a reinar, as pilhas de esmeraldas se transformaram nas ilhas, o dragão assumiu sua forma humana e ajudou os vietnamitas na plantação, colheita e recuperação do país.
 
[caption id="attachment_13813" align="alignnone" width="800"] A vista era assim em 360º graus, linda![/caption]  
Entrando no barco, fomos recepcionados pelo guia e o capitão. Fizemos o check-in e cada um foi alocado para no seu quarto. Quartos maiores que imaginava e com banheiro individual! Um luxo! Fomos avisados que o barco ia em direção a uma “Pearl Farm” – sim, uma fazenda flutuante de ostras e pérolas! – e enquanto isso, teríamos uma aula de culinária para aprender a fazer rolinho primavera e teríamos nosso almoço. Tudo isso com a vista paradisíaca das ilhas da baía! :)

Visitamos a fazenda de pérolas, um lugar bem rústico. Parecia que tinha entrado no filme Waterworld e dali a pouco daria “oi” para o astro Kevin Costner! (assistam a esse filme!). Ali, ostras eram grampeadas e afundadas em buracos feitos no chão flutuante que andávamos. Ao final da visita, o instrutor retirou uma ostra, abriu e retirou uma pérola dali.
 

[caption id="attachment_13811" align="alignnone" width="606"] Demonstração do instrutor da fazenda de pérolas[/caption]  
Voltamos para o barco, subimos no terraço, deitei em uma poltrona e fiquei algumas horas ali olhando as ilhas, conversando com os demais tripulantes e sentindo a brisa do inverno vietnamita. Um casal de indianos aposentados, uma chinesa com seus pais, um francês e sua noiva americana e um canadense. Que sensação e quantos assuntos! – Pausa: sim, eu fui viajar sozinha. Claro, morri de medo! Mas logo percebi que quando viajamos sozinhos é quando nos permitimos conhecer mais pessoas e com tanta novidade ao redor para visitar, é difícil se lembrar que não tem uma companhia fixa com você. Por isso mulherada: me façam um favor e não deixem de viajar, mesmo sozinhas! Não se privem de ver e conhecer tantos lugares e pessoas maravilhosas desse mundo!
 
[caption id="attachment_13808" align="alignnone" width="800"] Barcos se posicionando para a noite[/caption]  
No dia seguinte, fomos para uma praia, visitamos cavernas, escalamos uma pedra para visualizar a baia do alto e andamos de caiaque!

Às vezes, no dia a dia, somos sugados pela rotina e questões, que podem se transformar aos nossos olhos em grandes problemas sem fim no túnel, não é mesmo? Viajar me ensinou a ver mais perspectivas nesses momentos, lembrando que o mundo possui complexidades e indivíduos que passam por culturas, crenças e pressões sociais diferentes de nós, mas que superam os desafios de múltiplas maneiras. Já ouvi que não “precisava ter viajado tão longe para aprender isso”. Talvez sim. Mas preferi não esperar para descobrir isso. Aprender isso naquele momento, com certeza me fez uma pessoa mais forte hoje!

E para você que não se apaixonou (ainda) pelo sudeste asiático com a minha descrição de Ha Long Bay, cito outros 5 interessantes motivos para eu ter amado esses 20 dias de mochilão:
 

  1. Assistir ao Tak Bat, em Luang Prabang (Laos): Em países budistas como o Laos, ser um noviço, abdicar-se de bens materiais e dedicar-se ao estudo religioso é considerado um estágio quase obrigatório para os homens, que trará também honra para a família. Esta fase pode durar a vida inteira ou um período, sendo normal alguns deixarem o posto para trabalhar, casar e ter filhos depois. Diariamente, no tak bat, monges saem descalços pela avenida principal de Luang Prabang “em busca das almas”, recolhendo as oferendas da população local – comida e utensílios. Uma cerimônia muito curiosa!
  2.  

  3. Comer Tom Kha Kai, Pad Thai e Khao Phad Kai, na Tailândia: Na ordem, sopa com leite de coco e camarões (apimentada!), macarrão de arroz e arroz frito com frango. No café da manhã, almoço ou janta! – Lembra a comida japonesa, mas muito mais condimentada, hummm.
     
    [caption id="attachment_13809" align="alignnone" width="800"] Tom Kha Kai que comi em Chiang Mai[/caption] [caption id="attachment_13806" align="alignnone" width="800"] Muito comum ver pessoas fazendo comida na rua![/caption] [caption id="attachment_13807" align="alignnone" width="800"] … e grupos se reunindo para comer ali mesmo também![/caption]  

  4. Trekking pelas plantações de arroz, em Sa Pa (Vietnã): Fazer uma caminhada por essas plantações de arroz a 5 graus foi realmente um desafio (combatido com a compra às pressas de um agasalho à preço “25 de março” de uma revendedora vietnamita da americana North Face). Encapuzada, conheci as lindas plantações e as tribos locais.
     
    [caption id="attachment_13803" align="alignnone" width="800"] Os arrozais são verdadeiras obras de arte[/caption] [caption id="attachment_13805" align="alignnone" width="800"] Mulheres artesãs da tribo Red Dao[/caption] [caption id="attachment_13804" align="alignnone" width="800"] FO-FA![/caption]
  5.  

  6. Pausas para massagens: Na Tailândia, principalmente, as casas de massagem são populares e estão em toda esquina. Massagem é uma commodity, preço todo regulado entre as casas, mas muito mais barato, nada comparado aos spas de São Paulo.
     
    [caption id="attachment_13802" align="alignnone" width="800"] Foot massage everywhere![/caption]
  7.  

  8. Experiências inusitadas que vi na Tailândia: Falar das coisas estranhas daria totalmente um capítulo à parte! Listando as mais curiosas: ver a comercialização descarada de documentos falsos e a venda de insetos para comer na Khaosan Road, entrada frenética de pessoas nas casas de shows eróticos em Patpong e visitar um campo de elefantes em Chiang Mai!

 
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Anota aí!

 
Onde fiquei: Lub D Silom e Rambuttri Village (Bangkok), Julie GuestHouse (Chiang Mai), Kounsavan Guest House (Luang Prabang) e Hanói Backpackers (Hanói)

Quanto tempo: 20 dias

Com quem: Sozinha :)

Quanto gastei: Aproximadamente R$ 8 mil (fiz todos os translados de avião, porque tinha só 20 dias, mas se fizer de ônibus e trem, deve baratear bastante!).

Conclusão: Uma experiência para os olhos, alma e coração!

Blogs que me inspirei: Ásia de Mochila (da Nã, lembram dela?) e Viaggiando.
 

Mais de Ovelha

Engravidar, pode?

“Bom dia, um teste de gravidez, por favor.”

Uma pergunta simples e concisa. Nada que não pudesse ser respondido com um “R$ 15”. Fui atendida por dois vendedores, homens. O primeiro me ofereceu três modelos, do menos ao mais confiável, menos e mais caros. Escolhi o intermediário. Ao colocar o produto em um cesto, ele não conseguiu conter mais o olhar preocupado que assumiu desde que eu passei do pedido de um remédio para o teste: “Nossa, boa sorte, tomara que não dê nada”.

Incrédula, dei um meio sorriso, peguei meu cesto e fui para o caixa. Um remédio, dois remédios, uma pastilha Valda. “Esses dias passei pelo mesmo perrengue, graças a Deus deu negativo”, disse o segundo. Comentários feitos a uma cliente que, até ali, poderia estar grávida. Quase que por reflexo, fiz questão de dizer que queria que desse positivo. O primeiro, que continuava por perto, me olhou estranho. O outro, constrangido, desandou num discurso de ser contra o aborto. Melhor ainda. Quer dizer que ficar grávida era ruim, mas se eu estivesse grávida, aborto também seria algo péssimo. Eu que lidasse com essa má sorte que Deus não me deu a graça de me livrar.

Dessa vez, fazia a compra como um favor. Era desses favores que se faz e que se pede – aí também está um problema. Por que, afinal, não podemos consumir sozinhas e seguras esse produto? A resposta é evidenciada nos relatos dos primeiros parágrafos. Somos, sim, julgadas. E nos importamos mais ou menos com isso. Não consegui deixar de pensar: será que alguém faria algum comentário se eu estivesse acompanhada por um homem?

O julgamento aconteceu numa situação de consumo, regida pela famosa frase “o cliente tem sempre razão”. Pode até ser, mas clientes específicos, mulheres aparentemente fragilizadas [e também pobres, negros, moradores de periferia], não podem consumir sem receber um olhar torto, sem um pitaco não pedido.

Os atendentes eram homens. E isso significa que eles nunca passarão pela sensação de ter uma criança crescendo dentro de si, nem serão capazes de entender as questões psicológicas e físicas que isso envolve. O assunto é simplesmente complicado demais para ser reduzido a frases de abominação. Ainda mais vindo de profissionais que estão prestando um serviço.
 

 
A gravidez sempre tem um peso e só parece ser aceitável no caso de um casal heterossexual, estável. Caso contrário, a gravidez tem sempre um culpado. Aquelas que carregam “o fardo”, no caso, nós mulheres. Fomos nós mulheres que não tomamos o anticoncepcional. Fomos nós que não tomamos a pílula do dia seguinte.

O corpo é nosso. O que passa na cabeça dessas pessoas? Posso querer e posso não querer estar grávida. Isso é da conta de quem? Aparentemente tenho muito que dar satisfação.

Ao compartilhar a história, ouvi de amigos que os vendedores ali só estavam sendo simpáticos, que eles sabem que quem procura esses testes geralmente está desesperada, e que jovens não costumam querer engravidar. Mas, calma, simpáticos a uma situação que nunca viverão? Isso me soa um pouco superior, não? Que peso esse comentário teria feito a alguém de fato jovem e desesperada?

Saí da farmácia aliviada por ter sido eu e não a pessoa que fez o teste quem passou por esse constrangimento. Qualquer hora volto na farmácia para anunciar que deu negativo e aí sim ganhar o direito de andar de cabeça erguida e poder me dizer digna da graça de Deus. Não é preciso muito esforço para perceber que tem algo errado.
 

Texto pela colaboradora convidada Mariana Tokarnia.
Ilustração exclusiva por Marcella Tamayo.

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