Laverne Cox não para. E isso é maravilhoso

Laverne Cox na edição especial “nu”, da revista Allure

Negra, trans* e nua. Mais forte que esta frase, só esta foto de Laverne Cox para a revista Allure, que circulou pela internet nas últimas semanas e empoderou tantas mulheres. Assim como muitas outras atitudes da atriz, que faz de propósito. Ela que militar, e ela não para.

Laverne Cox é uma atriz de 30 anos, que tem o papel incrível de Sophia Burset na série (igualmente incrível) Orange is the New Black, em tempos em que mulheres transgênero perdem o protagonismo e a oportunidade de contarem sua própria história para a heternormatividade de Hollywood. Completamente ciente da fama que a série lhe deu, Laverne usa sua imagem e sua voz para militar.
 
[caption id="attachment_3967" align="aligncenter" width="245"]laverne3 “Quando uma mulher trans* é chamada de homem, isso é um ato de violência”[/caption]

Por ser negra, por ser uma mulher,  por ser transgênero, e porque ela não para de disparar falas e atitudes poderosas, Laverne Cox é uma modelo de representatividade extremamente forte e necessária. E ela sabe, e por isso aceitou posar numa para uma edição especial da revista Allure, mas não sem antes negar duas vezes. Ela disse em entrevista para a publicação:
 
“Eu sou uma mulher negra e transgênero. Eu senti que isto poderia ser empoderador para as comunidades que eu represento. Não se costuma dizer a mulheres negras que elas são lindas, a não ser que nós nos alinhemos a certas normas. Já as mulheres trans* certamente não são ditas que são lindas. Ver uma mulher negra e transgênero aceitando e amando tudo sobre ela mesma pode ser inspirador para algumas outras”.
 
Laverne aceitou posar nua pois sabe da necessidade de representação para mulheres negras e trans*, sendo muito corajosa ao deixar de lado o julgamento da sociedade que ela explica nesta entrevista concedida a Katie Couric, onde, ao lado de outra ativista trans*, Carmen Carreira, explica que a curiosidade sobre o corpo delas, especialmente com relação a “genitalia question” como a entrevistada nomeou, só objetifica, e deixa de lado a questão social que as exclui da sociedade.
 
“Eu acho que esta preocupação com transição e cirurgia objetifica as pessoas trans*, e depois nós não conseguimos lidar com os problemas reais das experiências de vida. A realidade da vida de pessoas trans* é que somos frequentemente vítimas de violência. Nós vivemos discriminação de forma desproporcional ao resto da comunidade”.
 
Como Laverne explicou várias vezes, as mulheres trans* não são aceitas fisicamente, e menos ainda em todos os espaços da sociedade, por isso, logo em seguida da notícia do ensaio, não tem como não comemorar o nome de Laverne na lista de mulheres mais bonitas do mundo da revista People. Sabemos que não é legal ficar classificando mulheres dessa forma, mas quantas negras e trans* já vimos nestas listas?

Recentemente, ela se pronunciou sobre outro caso que mexeu com a comunidade LGBT e reascendeu a discussão sobre representatividade, apoiando Bruce Jenner em sua recente entrevista em que falou sobre sua transição de gênero.

Mas é claro que ela não precisa disso para saber que é linda, menos ainda para assumir seu papel de representação para sua comunidade. Uma olhada rápida em suas redes sociais já nos ajuda a constatar que sua militância é constante, sempre em palestras e em contatos sociais e políticos pelo direitos das mulheres trans*.

Laverne Cox não para. Seja fazendo seu trabalho naturalmente, seja respondendo perguntas preconceituosas em entrevistas, seja educando e militando, seja posando nua, seja apoiando em pequenas palavras, ela não para de de empoderar mulheres negras e trans no mundo inteiro.

E nós estamos muito felizes por isso. Vê se não para, Laverne.

Mais de Karoline Gomes

Carta à minha amiga alisada

Queridx amigx alisadx,

Há muito queria falar com você e gostaria que lesse tudo isso que finalmente consigo colocar em palavras. Sei que você deve estar cansadx de me ouvir falando do meu BC toda hora, e por isso que esta carta não é sobre mim, mas sobre você, sobre nossa amizade, sobre nós duas.

Te escrevo pois percebi que sempre que eu desato a falar da minha experiência de durante, e pós transição capilar, você fica na defensiva, imediatamente começa a explicar porque ainda alisa o seu cabelo, e tenta se justificar como se eu estivesse te oprimindo.

Mas será que não estou?

Como você já ouviu mil vezes, se libertar da chapinha e do alisamento e assumir nossa beleza real é uma experiência maravilhosa. Mas o que quero que você entenda é que isso acaba despertando um senso de sororidade que as vezes fica incontrolável. Eu fico querendo que esse bem atinja a você também, quero que minhxs amigxs alisadxs também tenham essa sensação e aprendam a se amar naturalmente. Quero tanto tudo isso que as vezes exagero.

Exagero e insisto no assunto, quase forçando para que você mude junto comigo, quando sei que esta mudança precisa ser feita de dentro, com muito tempo, e muita coragem. Sei que não é fácil passar a vida acreditando que está fazendo o certo para se sentir bem e bonitx e de repente descobrir que há outros meios.

Você me perguntou uma vez sobre a liberdade feminina que lutamos para conquistar, para que possamos fazer o que quisermos com nosso corpo sem medo de julgamentos, e sobre o quanto eu, como feminista, defendo isso.

Sim amigx, somos livres para fazer o que quisermos com nossos corpos. E quem sou eu indo contra a ideia de beleza da sociedade com meu black power e tatuagens espalhadas pelo corpo para falar sobre a química do seu cabelo? Quem sou eu que já ouvi piadas sobre minha chapinha para falar da sua? Que bom que você está consciente disso, que bom que sabe disso e abre meus olhos.

Não faz sentido saímos de uma opressão de beleza para nos expor a sociedade como realmente somos, e depois apontar o dedo para quem não faz isso. Por isso peço desculpas pelo meu exagero, e obrigada por suas palavras.

Ao mesmo tempo, gostaria de propor uma reflexão, minha queridx amigx. Feche seus olhos e tente descobrir o real motivo pelo qual você alisou seu cabelo pela primeira vez. Hoje temos muitas desculpas ou motivos, já estive nessa situação. “É mais prático”, “é mais fácil de pentear”, “meu cabelo não é bonito igual o seu”, “não saberia lidar com a transição” são os mais ouvidos e impulsores do alisamento hoje em dia.

Mas pare e pense sobre o que é cabelo bonito, sobre quando você alisou, provavelmente ainda muito jovem, e o que tinham te ensinado sobre beleza e cuidados para nosso tipo de cabelo. Nenhum ensinamento além de como alisar o cabelo, e depois como cuidar do cabelo alisado, certo?

Ainda em nossa reflexão amigx, imagine um mundo sem esse tipo de imposição. Será que existiriam tantos produtos químicos para alisarmos? Será que se houvesse algum padrão de beleza a ser seguido nós acharíamos o nosso cabelo feio e iríamos querer modifica-lo?

Amigx, nós podemos fazer o que quisermos com nosso corpo, com nossa aparência. Mas quando é que fazemos isso por nós, e não para agradar o olhar da sociedade? Acho que no fundo eu só queria que você estivesse consciente disso, pois modificar sua aparência ou deixa-la natural deveria depender somente do que você gostaria de fazer dela.

Para mim, se você continuar alisando ou não o seu cabelo, eu irei entender e te apoiar. Farei minha parte quando ela for necessária, até inalar um pouco do cheiro da química no salão do teu lado se você quiser minha companhia. E você nunca precisará se justificar novamente pois saiba que eu te entendo.

Só preciso que você entenda o real motivo de meu entusiasmo pela beleza natural, que foi isso que expliquei nesta carta. Que entenda que nem eu, nem outra cacheada ou crespa que tentarem te incentivar a mudar somos melhores do que você por termos passado pela transição. E que você nos perdoe por as vezes deixar isso subir à cabeça e acabarmos achando isso.

Somos ambas igualmente vítimas desse sistema que tanto valoriza a estética, amigx. Você por se submeter ao processo químico para ser aceita, e eu por ouvir discursos e receber olhares racistas por não mais querer me submeter a isso.

Somente quando houver igualdade e real liberdade de ser quem quisermos é que não seremos mais vítimas. É que cabelos serão só cabelos, e que todas nós entenderemos que alisado, natural ou até carecas, nada disso determina nossa personalidade, mas sim como nos sentimentos com nós mesmxs e como nos sentimos confortáveis no nosso próprio corpo.

Por isso, ao invés de debatermos que experiência é mais valiosa ou o que é certo se fazer ou não com nossa aparência e nosso corpo, e principalmente ao invés de ficarmos apontando o cabelo uma da outra, devemos debater com a mídia e a sociedade que ainda nos cobra tanto, defender umas às outras, e fazer a sororidade funcionar como ela deveria.

Conte comigo para isso. Beijos e abraços de sua amiga cacheada.

Ilustração por Marcella Tamayo.

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em tempos em que mulheres transgênero perdem o protagonismo e a oportunidade de contarem sua própria história para a heternormatividade de Hollywood. Completamente ciente da fama que a série lhe deu, Laverne usa sua imagem e sua voz para militar.
 

Por ser negra, por ser uma mulher,  por ser transgênero, e porque ela não para de disparar falas e atitudes poderosas, Laverne Cox é uma modelo de representatividade extremamente forte e necessária. E ela sabe, e por isso aceitou posar numa para uma edição especial da revista Allure, mas não sem antes negar duas vezes. Ela disse em entrevista para a publicação:
 
“Eu sou uma mulher negra e transgênero. Eu senti que isto poderia ser empoderador para as comunidades que eu represento. Não se costuma dizer a mulheres negras que elas são lindas, a não ser que nós nos alinhemos a certas normas. Já as mulheres trans* certamente não são ditas que são lindas. Ver uma mulher negra e transgênero aceitando e amando tudo sobre ela mesma pode ser inspirador para algumas outras”.
 
Laverne aceitou posar nua pois sabe da necessidade de representação para mulheres negras e trans*, sendo muito corajosa ao deixar de lado o julgamento da sociedade que ela explica nesta entrevista concedida a Katie Couric, onde, ao lado de outra ativista trans*, Carmen Carreira, explica que a curiosidade sobre o corpo delas, especialmente com relação a “genitalia question” como a entrevistada nomeou, só objetifica, e deixa de lado a questão social que as exclui da sociedade.
 
“Eu acho que esta preocupação com transição e cirurgia objetifica as pessoas trans*, e depois nós não conseguimos lidar com os problemas reais das experiências de vida. A realidade da vida de pessoas trans* é que somos frequentemente vítimas de violência. Nós vivemos discriminação de forma desproporcional ao resto da comunidade”.
 
Como Laverne explicou várias vezes, as mulheres trans* não são aceitas fisicamente, e menos ainda em todos os espaços da sociedade, por isso, logo em seguida da notícia do ensaio, não tem como não comemorar o nome de Laverne na lista de mulheres mais bonitas do mundo da revista People. Sabemos que não é legal ficar classificando mulheres dessa forma, mas quantas negras e trans* já vimos nestas listas?

Recentemente, ela se pronunciou sobre outro caso que mexeu com a comunidade LGBT e reascendeu a discussão sobre representatividade, apoiando Bruce Jenner em sua recente entrevista em que falou sobre sua transição de gênero.

Mas é claro que ela não precisa disso para saber que é linda, menos ainda para assumir seu papel de representação para sua comunidade. Uma olhada rápida em suas redes sociais já nos ajuda a constatar que sua militância é constante, sempre em palestras e em contatos sociais e políticos pelo direitos das mulheres trans*.

Laverne Cox não para. Seja fazendo seu trabalho naturalmente, seja respondendo perguntas preconceituosas em entrevistas, seja educando e militando, seja posando nua, seja apoiando em pequenas palavras, ela não para de de empoderar mulheres negras e trans no mundo inteiro.

E nós estamos muito felizes por isso. Vê se não para, Laverne.

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