Assista: Cara Gente Branca

Cara gente branca, esta série não é sobre vocês

“Vocês realmente acharam que essa série é sobre vocês?”. Este é um dos slogans de divulgação de Cara Gente Branca, nova série original da Netflix. A julgar pelo nome, é de se esperar que as pessoas brancas acreditem que a história é sobre elas. Muitas na verdade acharam e, antes mesmo da primeira temporada ter sido lançada, a produção já sofria boicote de pessoas que se sentiram ofendidas somente pelo trailer.

Quando assisti ao filme que originou a série, eu não havia percebido isso – talvez por isso, nomeei minha review de “Um filme para as queridas pessoas brancas”, mesmo tendo sentido que a história, principalmente das personagens Sam e Coco falavam diretamente comigo. Mas a profundidade que a trama ganhou nesta nova versão deixa bem claro para qualquer um que Cara Gente Branca é, na verdade sobre pessoas negras.

Se você fizer questão de justificar o título, eu diria que é uma série sobre pessoas negras lutando por educação e qualidade de vida em sistema majoritariamente branco, representado pela universidade de Winchester. Todas as tramas, na série mais desenvolvidas, mostram diferentes camadas provocadas pelo racismo, por sua vez, provocado e mantido por pessoas brancas que têm forte dificuldades de assumir privilégios.

Logo, você pessoa branca deveria assistir essa série do mesmo modo que recomendei assistir ao filme: com um bloco de notas na mão. Reflita internamente, pondere seus próprios privilégios. Cara Gente Branca pode ser muito educativa para quem não tem consciência do quão o racismo é nocivo, até mesmo (ou principalmente) aqui no Brasil, embora a série seja de uma perspectiva african-american.

[caption id="attachment_14645" align="aligncenter" width="1170"] “Vocês realmente acharam que essa série é sobre vocês?”[/caption]

Tendo feito minha recomendação para os brancos, sigo esta resenha para pessoas negras pois, acreditem, esta série é sobre nós. E faço isso com cuidado. Ao longo da temporada, reencontrei a mesma bomba de informações e questões raciais vagando pela minha cabeça que tive após assistir ao filme. Mas muito maior. Por isso, escrevo com calma, um pouco após cada episódio, para tentar não deixar nenhuma pauta trazida por Cara Gente Branca me escapar, pois todas elas merecem um debate profundo.

Assim como no longa, a história é um tapa na cara para quem acredita no fim do racismo. Demonstrando que o problema é real e não somente nos livros de história. Mantém o humor sarcástico e a fotografia impecável, mas, fora isso, acaba se diferenciando em termos de profundidade.

A série da Netflix tem muito mais tempo e espaço para explorar todas as questões dos quatro personagens centrais presentes no filme – Sam, Lionel, Troy e Coco. Se inicialmente eu havia me identificado com Sam e Coco e suas lutas estéticas e políticas para serem aceitas, – Sam como uma mulher negra mestiça e Coco com uma mulher negra de pele escura passando por embranquecimento – a versão em série da história provoca ainda mais identificação pois amplia as jornadas pessoais de cada um.

Pessoalmente, me identifiquei ainda mais com Lionel e sua dificuldade de se encaixar na tanto na comunidade branca quanto na comunidade negra, no caso dele, em função da homossexualidade – outro tópico urgente para uma série sobre pessoas negras. Lionel também trás o esforço para, como jornalista, contar histórias de negros de forma honesta, chamando atenção para questões raciais e, muitas vezes, falhando quando opiniões formadas por anos e anos de desigualdade entram no caminho.

A forma como Troy também precisa se ajustar a estereótipos para ser aceito, tudo sem largar sua negritude, também é mais aprofundada na série, muito embora demonstre os privilégios de quando este problema ocorre com um homem, se compararmos sua história com a de Coco.

É doloroso ver as lutas pessoais de Coco pois elas são as lutas de muitas mulheres negras. Sua procura por homens em meio a sua construção profissional na faculdade pode parecer uma pauta problemática para feministas brancas. Uma garota inteligente como ela deveria estar pensando no futuro sozinha. Ela não precisa de um homem, certo? Certo. Ela não precisa.

Mas, ao falar de solidão da mulher negra, é preciso ter em mente que muitas vezes não houveram relacionamentos sólidos, tampouco saudáveis, para construir um entendimento de que se pode viver bem sozinha. Além disso, é uma uma mulher negra bem educada nessa jornada pelo homem perfeito, logo, podemos acreditar que ela tem o poder de escolha de fazer esta procura, algo tão facilmente adaptado a narrativas com mulheres brancas como protagonistas – ou não estávamos todas querendo saber com quem Rory Gilmore ia ficar no final de Gilmore Girls, por exemplo?  

Se Cara Gente Branca fosse uma comédia romântica, Coco seria branca e seria normal vê-la buscando pelo cara perfeito. Mas Coco é uma mulher negra que é vista como fetiche para os homens, sejam eles brancos ou negros. Logo, sua vida amorosa não é nada fácil de ser contada.  

A série tem ainda mais dois personagens de destaque, um deles, um homem branco: Gabe. Quando notei que o namorado branco de Sam estaria mais presente na versão da Netflix, fiquei com um pé atrás: mais uma história sobre racismo que trás um homem branco como herói? Mas eis que o episódio sete provou que Gabe não estava ali para isto. Sua adição a história foi necessária para mostrar que amar uma pessoa negra não lhe dá conhecimento sobre nossas vivências, tampouco o imune de cometer racismo. Logo, a questão de relacionamentos interraciais está de volta na versão da série, porém, melhor explorada.

Por fim, mas não menos importante, Reggie cresceu do filme para a série para ser o centro da pauta “vidas negras importam”. O quinto episódio, do seu ponto de vista, expõe todas as camadas de medo, humilhação, dor e tristeza que o racismo pode provocar em uma pessoa negra. Tudo isso simbolizado por violência policial, já que não há maneira mais forte de expor tudo isso.

Reggie também pauta o cansaço físico e mental que o racismo provoca, principalmente para quem se propõe a lutar contra ele, mas, de modo geral, o quão é cansativo ter que viver pensando em cada passo que se dá em um ambiente racista.

[caption id="attachment_14642" align="aligncenter" width="539"] Joelle para Reggie em Cara Gente Branca, da Netflix[/caption]

A militância contra o racismo também é protagonista da série, pois todas estas questões pessoais e coletivas são estouradas em função de uma festa blackface, promovida pelos alunos brancos de Winchester, provocando diferentes grupos, coletivos e ativistas negros dentro da universidade a se unirem no máximo que puderem, apesar de suas diferentes visões, diferentes abordagens e maneiras de se manifestar contra o racismo no campus. Estas diferentes perspectivas demonstra que nenhuma militância é perfeita, que as pessoas negras merecem e precisam liderar debates e a própria luta. Que precisam de proteção, pois esta liderança e esta luta podem, literalmente, acabar com suas vidas.

Mas demonstra, principalmente, como, independente de suas origens (embora hajam privilégios em diferentes vivências, é claro) jovens negros ainda têm sua educação, progresso e até mesmo voz de fala nas mãos de superiores brancos. Não, isso não simboliza um final feliz. Mas, diferentemente do filme, a série pode ter mais temporadas de uma história que conta, além de nossos sofrimentos, nossas diferentes lutas, algo que precisa ser jogado para o mundo e discutido. 

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Bota esse cabelo pra cima!

Todos os dias mulheres negras passam por situações humilhantes e constrangedoras que partem de atitudes que não são nada mais do que racistas e ignorantes, de pessoas que não nos aceitam do jeito que nos aceitamos. Mas no caso de Gabriela Monteiro, ela teve a coragem que poucas de nós temos – e eu sei que é difícil ter – ela denunciou.

Gabi não só denunciou os atos racistas que sofreu de professoras no curso de Design de Moda da Universidade da Puc – Rio de Janeiro, prestando queixas de racismo na 12ª DP em Copacabana, como também expôs o caso no seu Facebook – o que exige muita coragem – e deixou claro para todo mundo que não importa o quanto falassem, ela vai continuar sempre botando seu cabelo para cima.

 

Gabi por si só, já é um modelo de empoderamento. No oitavo ano do curso, é a única negra da sala dela, o que demonstra a falta de oportunidade para jovens negros nas universidades do Brasil, mesmo com programas sociais que tentam facilitar o aumento de participação. Ao denunciar o racismo que sofreu na instituição, ela também fez um ato empoderador e emocionante.

Em seu Facebook ela escreveu:
 

“O nó e a angustia que me referi no início do texto é por conta da decisão de tomar uma atitude, não apenas ficar reclamando pro vento, mas buscar meus direitos juridicamente! Primeiro refleti sobre as possíveis retalhações que posso sofrer na própria universidade, já que não existem outras opões de professores para essa matéria, depois veio a dificuldade de encontrar um advogado que estivesse disposto a me orientar, e por último o constrangimento de registrar o caso na delegacia, que definitivamente não está preparada para receber pessoas que sofrem preconceito, eu e minha mãe fomos tratadas de forma grosseira, com descaso por parte do policial que me recebeu.”

 
Foi possível ver minha história em cada linha dos textos de Gabi no Facebook, e tenho certeza de que muitas outras mulheres também se viram ali, mesmo que nossas histórias não sejam exatamente iguais. Foi possível se identificar quando ela fala da dificuldade de se reconhecer negra em função de tantas imposições e padrões vindos da sociedade e a nossa necessidade de se adequar a eles para sobreviver. É possível se identificar quando ela fala da importância do nosso cabelo nesse processo de reconhecimento.

E mais importante: Gabi é um exemplo público de que as premissas de que o crespo ou cacheado são tipos de “cabelo ruim”, e que de por algum motivo é feio diante dos olhos das pessoas, são racistas sim. E parte da ideia de que temos que nos esconder atrás de alisamentos que embranquecem nossa aparência para agradar as outras pessoas. Mostra o quanto isso incomoda quando não deveria, quando estamos sendo apenas nós mesmas em nosso estado natural. E como as pessoas se acham no direito de interferir em nossa aparência só por causa desse incomodo.

Durante meus quatro anos de faculdade, eu ainda usei chapinha, e imaginar que poderia ter passado pelo mesmo que Gabi passou se eu já tivesse meu cabelo assumido foi fácil, mais ainda foi perceber que eu e outras passamos por isso todos os dias em outras situações na vida: Na rua, no trabalho, ou mesmo em casa.

O que foi dito a Gabi foi relatado em seu post no Facebook, e não vale a pena repetir neste texto, pois as falas ofensivas já foram suficientemente repetidas em outras mídias e quem é negra e crespa ou cacheada acaba ouvindo estas repetições por demais também.

Além disso, a intenção aqui – além de pensar no futuro ao apoiar Gabi nessa luta que ainda não terminou, sabendo que ela ainda enfrentará a negação das pessoas que a atingiram e a ignorância de quem não entende a importância de uma denúncia como esta – é também mostrar a força dessa mulher e tê-la como exemplo.

Toda vez que você se sentir para baixo com comentários negativos, não se deixe abater, não obedeça as imposições de esconder o volume e as formas do seu cabelo. Quanto mais comentários racistas e opressores de pessoas que estiverem incomodadas com seu cabelo, mais significa que precisamos continuar mostrando o poder de nossas coroas. Sempre que isso te afetar, responda como a Gabi. Bote seu cabelo pra cima.

Bota seu cabelo pra cima para mostrar que ele é assim e que você o ama. Bota seu cabelo pra cima para ir a delegacia denunciar e saber exigir um bom tratamento. Bota o cabelo pra cima pra lutar contra o racismo.
 

BOTA ESSE CABELO PRA CIMA!

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