Guia Ovelha para negras universitárias

Ilustração feita com exclusividade por lovelove6
Um breve guia para mulheres negras sobre como sobreviver em um ambiente acadêmico majoritariamente branco

Acompanhar os resultados dos vestibulares desse ano foi sensacional. Fiquei bem feliz de ver tanta menina negra entrando na universidade. Essa época do ano, que tradicionalmente é o período de admissão às universidades, sempre me faz pensar em como a exclusão da mulher negra no ambiente acadêmico é sistemática e persistente.

Aos 18 anos entrei em uma universidade pública. Passei em um curso bem concorrido, e igualmente elitizado. Fui a única pessoa negra da minha turma de 60 alunos. Eu me considero razoavelmente sortuda por ter escolhido um curso em que fica MUITO CHATO se uma pessoa é deliberadamente racista. Mas ainda assim esses cinco anos vivendo em um ambiente universitário majoritariamente branco me ensinaram uma coisa: as pessoas fazem cagadas racistas o tempo todo; mesmo quando elas são aparentemente descoladas, desconstruídas, de humanas e fãs da Beyoncé.

Aí esses dias eu vi um vídeo incrível da Sammus. Ela é uma rapper muito legal, talentosa, e bem nerdona (<3). A família dela tem origens na Costa do Marfim e no Congo, e ela se formou na Cornell (que é uma das melhores universidades dos EUA). Depois de passar um tempo trabalhando como professora no Teach for America, ela começou o PhD em Ciência e Tecnologia. Ela descreve a música dela como “rap de menina negra nerd” e sempre fala de temas importantes pra mulheres negras. Na música “1080p” ela fala um pouco sobre como a vida de uma mulher negra na Universidade pode ser desgastante:

I’m kinda scared of the Academy (Tenho um pouco de medo da academia)

I think that my parents are proud of me (Acho que meus pais têm orgulho de mim)

I just wish I knew how to be confortable here (Eu só queria saber como estar confortável aqui)

I never feel like I’m allowed to breathe (Eu nunca sinto como se eu tivesse permissão pra respirar)

 

 
Com tudo isso na cabeça, resolvi escrever esse guiazinho rápido de como navegar as universidades brasileiras sendo uma mulher negra sem se desgastar demais.

Bom, acho que a primeira coisa a saber é que a quantidade de pessoas negras na universidade ainda é super pequena. Nesse universo majoritariamente branco, é bem provável que as pessoas se surpreendam com você. Primeiro com a sua mera presença, e depois com a sua inteligência. Algumas pessoas vão achar divertido estereotipar você. Seus colegas (e às vezes, seus amigos) vão ser meio racistas e machistas. Algumas pessoas vão te fazer perguntas estranhas – o tempo todo (“Bárbara, por que a palavra ‘nigger’ é proibida que nem ‘Voldemort’?”. Sério. Me fizeram essa pergunta na vida real). Vai ter gente de blackface nas festinhas. Vai ter “piada de preto”. Vai ter gente racista ficando CHO-CA-DA quando você apontar o racismo delas. Vai ter gente obviamente racista jurando que não é racista. Vai ter microagressão. E é bem possível que role injúria racial e uns casos de racismo deliberado também.

Ok, sei que talvez o parágrafo acima seja um pouco desesperador, mas não é pra ficar assustada. Eu sinceramente espero que você, caloura negra, escape de todas essas experiências. E caso elas ocorram, espero que você consiga lidar com todas elas. Esse texto não foi escrito para te desencorajar. As universidades têm que ser cada vez mais ocupadas por nós, minas negras. Então aqui embaixo coloco algumas dicas.
 


 

Cara amiga negra universitária:

Dicas de como não surtar nessa grande nhaca que é a universidade brasileira.
 
Procure criar uma rede de apoio <3 As chances de você acabar em uma sala onde você é a única pessoa negra são grandes. Isso aconteceu comigo várias vezes ao longo da minha vida acadêmica. A ausência gritante de mais estudantes negras tem um peso que vai se tornando cada vez mais incômodo. Por isso é super importante conversar com gente que entende o que você tá vivendo. Criar uma rede de apoio de pessoas em quem você confia e com quem você pode falar sobre tudo ajuda muito.

Uma coisa que eu super recomendo é achar coletivos! Coletivos de estudantes negras e negros, coletivos de minas negras, coletivos feministas. Esses espaços tendem a ser mais compreensivos com as nossas vivências e nossas pautas! E se na sua universidade ainda não existe nenhum grupo desse tipo, ou se você não se sente confortável nos grupos que existem, comece um!

Milite por mais pessoas negras na universidade! Ocupar a universidade sendo uma mulher negra é em si só um ato político. E lutar para que cada vez mais pessoas negras cheguem a esse espaço é uma coisa que vai dar muito mais sentido à sua vida universitária. Sério.

Vai ter muito babacão? Vai. Mas vai ter gente legal e do bem, que tá disposta a ser menos toscona e se desconstruir? Vai também! :) Então esteja aberta a conhecer pessoas e se divertir. (Ok, essa última frase tá meio auto-ajuda, mas é verdade).

Você não é obrigada a desconstruir todo mundo ou ser tipo um guru em tudo que envolve questões raciais. Você pode e deve se posicionar sempre que quiser e achar necessário. Mas isso não significa que as pessoas podem exigir que você tenha um posicionamento sobre absolutamente tudo que envolve negritude e racismo.

Não se desgaste em discussões que não valem a pena! Sei que às vezes as tretas são irresistíveis, às vezes não tem como ignorar as palhaçadas que uns brancos fazem; mas depois de uns anos, ficar debatendo e tentando desconstruir pessoas brancas pode ser cansativo. O acervo de textos e artigos bacanas sobre temas como negritude, racismo e feminismo negro é IN-FI-NI-TO. Então, não gaste sua didática. Ao invés de passar horas e horas discutindo com gente que não merece, mande links! :)

Se sofrer racismo e/ou machismo, procure ajuda. Essa ajuda pode ser institucional da universidade, pode ser apoio de coletivos estudantis, pode ser acompanhamento psicológico, pode ser uma conversa com as suas amigas ou com sua família. A verdade é que nem sempre a instituição de ensino vai estar do seu lado, mas se você passar por alguma experiência de racismo ou machismo, denunciar formalmente pode ser uma boa! Dá pra recorrer às ouvidorias das universidades para denúncias que não precisam ser publicizadas. Muitas vezes essas denúncias podem ser feitas anonimamente. Obviamente cada caso é um caso, e muitas vezes temos que medir se denunciar é a melhor escolha para nosso contexto emocional e para nossa segurança física.  Também sei que nem sempre é fácil expor o que aconteceu para muita gente, então pense direitinho na melhor forma de lidar com a situação. Independentemente do caminho que escolher, não guarde tudo pra você! Converse com alguém!

Se em algum momento você estiver insegura com suas habilidades, FICA CALMA. Às vezes bate um desespero mesmo. Parece que você não tá indo bem nas matérias, parece que todo mundo manja muito mais de todos os assuntos. Mas não deixa essa síndrome de impostora te derrubar, dá uma respirada! Você provavelmente tá mandando bem e toda essa insegurança é resultado dos constantes ataques que são feitos ao nosso intelecto ao longo da nossa vida.

 


Gente pra seguir, coisa pra ler, filme pra ver:

Djamila Ribeiro

Stephanie Ribeiro

Jarid Arraes

Preta & Acadêmica

Blogueiras Negras

Frida Diria

Que nega é essa

Black Girl Dangerous

Black Girl Brainstorm

Black Girl Long Hair

Leia mulheres negras

Nós, Mulheres da Periferia

Feministing

Dear White People

Ah, branco dá um tempo

Mapa de Intolerância nas Universidades

Última dica: lembrar sempre que você é foda e que a universidade é sua também. Vai lá e seja maravilhosa, acadêmica, linda, inteligente, empoderada. <3 E aqui vai a Hermione negra pra te incentivar: 

baaaovelha

E pra finalizar esse clipe lindo da Alicia Keys com uma vibe toda universitária:


Ilustração feita com exclusividade por lovelove6

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  • barbarrá

    ai xará, maravilhoso o texto e o guia! <3