Nos últimos dias muito tem se falado da importância dos novos corpos e cores da Barbie. Tradicionalmente retratada como uma jovem completamente dentro de um padrão irreal, inclusive em termos biológicos, a reviravolta no mercado da boneca fez um favor a todas as meninas e trouxe às lojas bonecas pequenas, altas, magras e curvilíneas. Brancas, negras, orientais. Cabelos coloridos, crespos, escuros.
O impacto disso sobre a autoimagem das mulheres é claro: agora é possível se ver de maneira mais fiel no mercado, e como a boneca é referência de beleza, sentir-se bonita pode ter se tornado 1% mais fácil hoje em dia. Pois bem, aqui eu gostaria que ficássemos com uma ideia na cabeça: a representação dos corpos diferentes no mercado é importante, e a pressão dos consumidores foi a grande responsável para essa mudança. Pela primeira vez estamos vendo a representação feminina de forma mais amistosa. Será?
A “Playboy” também sofreu pressão dos seus consumidores e se viu obrigada a reestruturar por completo a ideia da revista: “pouca nudez, mais conteúdo”. A grande variedade de pornôs disponíveis na internet fez com que a nudez explícita da revista se tornasse desnecessária – melhor uma mulher gemendo e sendo penetrada do que uma apenas com “cara de safada”, não é mesmo? A gratuidade do pornô online, portanto, foi a grande ruína da “Playboy”.
Os homens pararam de consumir nudez impressa para consumir violência contra a mulher pela internet. O vídeo é muito mais agressivo e satisfatório do que uma foto inofensiva: o gozo vem mais rápido e de forma mais barata, afinal de contas, tempo é dinheiro, minha gente (até o tempo de se masturbar). Aqui, mais uma ideia: o mercado, assim como vimos no caso da Barbie, se adaptou, e essa cara moderna da revista não veio pela exigência de seus leitores por uma revista mais humana, mas sim porque os mesmos passaram a se entediar com peitos e bucetas que não se mexem, não gritam, não reagem.
Há milhares de problemas em tudo isso, a começar pelas mudanças empregadas pela revista visando o aumento de mercado. Irei começar com esse discurso da necessidade de se modernizar que a “Playboy” vem empregando, principalmente com um falso propósito de se tornar “mais inclusiva às mulheres”. Durante anos, a “Playboy” dá de ombros à dignidade e ao bem estar feminino, propagando apenas conteúdo de natureza masculina e objetificadora da figura feminina (o padrão loira, branca e magra, que vimos na Barbie todo esse tempo, foi a capa da revista por décadas). O que será, então, que fez a revista rever esse processo? Dica: não foram as intensas manifestações que vivemos na “Primavera Feminista”.
O que fez a revista mudar de visual e foco foi o fato dos homens estarem consumindo pornografia cada vez mais cedo – e apenas na internet. A capa da “nova era” da revista, que simula uma selfie sensual no Snapchat, mostra o esforço desmedido da revista em conquistar o público jovem. Por jovem, entenda-se: pré-adolescentes de 13 anos. Como se não bastasse aos adolescentes estarem expostos a um conteúdo pornográfico altamente violento às mulheres e traumatizante a todos, agora a revista disponibilizará nudez impressa também.
A “Playboy”, portanto, apenas complementa o mercado pornográfico que já é vitimizador da figura feminina, vendendo uma nudez que não será paga, já que as meninas não receberão cachê por posarem nuas. Ou seja, as mulheres são duplamente punidas nesse caso: não recebem pelo próprio trabalho, sob uma perspectiva de que “nudez não se compra” (mas se vende e se consome, editores da “Playboy”?), e ainda têm suas imagens objetificadas – mesmo que sem retoques de Photoshop.
Nem o tom “jovem” da revista deve ser visto como uma grande novidade. Além de continuar sendo uma engrenagem do mercado pornográfico, a revista ajuda a perpetuar a pedofilia e a “cultura da novinha”. Essa nova capa remete ao Snapchat, campo digital largamente utilizado por adolescentes para sua comunicação. O que antes era uma maneira interessante de transmitir ao amigo como havia sido seu dia se tornou na mais nova ferramenta de pornografia do mercado. Além disso, as mulheres com caras inocentes, completamente depiladas, sempre existiram nas capas e spreads da revista, a diferença é que agora ela conseguiu voltar ao mundo digital. O visual jovem da “Playboy” não é novidade nenhuma: ele sempre esteve lá, transformando mulheres maduras em bonecas púberes como a própria Barbie aqui citada. Em outras palavras: a “Playboy” nunca esteve tão pedófila.
O ponto principal é: as indústrias fazem o possível e o impossível para se readequarem constantemente ao mercado. A Barbie e a “Playboy” estão inclusas nessa história. Ainda que de maneiras diferentes, ambas lucram (e muito) com a objetificação feminina (no caso da Barbie, um objeto literal). Além dos diferentes impactos que bonecas e revistas pornográficas podem causar nas mulheres (que, de fato, são incomparáveis), ambas não fizeram mais do que sua função: se adequar ao seu novo mercado. A diferença, é que a função da “Playboy” continua a mesma, que é promover prazer masculino heterossexual e lucrar em cima das mulheres. Só que agora o lucro será muito maior, já que a revista não dará um centavo de cachê às moças que mostram seus corpos nus nas capas.
Nos últimos dias muito tem se falado da importância dos novos corpos e cores da Barbie. Tradicionalmente retratada como uma jovem completamente dentro de um padrão irreal, inclusive em termos biológicos, a reviravolta no mercado da boneca fez um favor a todas as meninas e trouxe às lojas bonecas pequenas, altas, magras e curvilíneas. Brancas, negras, orientais. Cabelos coloridos, crespos, escuros.
O impacto disso sobre a autoimagem das mulheres é claro: agora é possível se ver de maneira mais fiel no mercado, e como a boneca é referência de beleza, sentir-se bonita pode ter se tornado 1% mais fácil hoje em dia. Pois bem, aqui eu gostaria que ficássemos com uma ideia na cabeça: a representação dos corpos diferentes no mercado é importante, e a pressão dos consumidores foi a grande responsável para essa mudança. Pela primeira vez estamos vendo a representação feminina de forma mais amistosa. Será?
A “Playboy” também sofreu pressão dos seus consumidores e se viu obrigada a reestruturar por completo a ideia da revista: “pouca nudez, mais conteúdo”. A grande variedade de pornôs disponíveis na internet fez com que a nudez explícita da revista se tornasse desnecessária – melhor uma mulher gemendo e sendo penetrada do que uma apenas com “cara de safada”, não é mesmo? A gratuidade do pornô online, portanto, foi a grande ruína da “Playboy”.
Os homens pararam de consumir nudez impressa para consumir violência contra a mulher pela internet. O vídeo é muito mais agressivo e satisfatório do que uma foto inofensiva: o gozo vem mais rápido e de forma mais barata, afinal de contas, tempo é dinheiro, minha gente (até o tempo de se masturbar). Aqui, mais uma ideia: o mercado, assim como vimos no caso da Barbie, se adaptou, e essa cara moderna da revista não veio pela exigência de seus leitores por uma revista mais humana, mas sim porque os mesmos passaram a se entediar com peitos e bucetas que não se mexem, não gritam, não reagem.
Há milhares de problemas em tudo isso, a começar pelas mudanças empregadas pela revista visando o aumento de mercado. Irei começar com esse discurso da necessidade de se modernizar que a “Playboy” vem empregando, principalmente com um falso propósito de se tornar “mais inclusiva às mulheres”. Durante anos, a “Playboy” dá de ombros à dignidade e ao bem estar feminino, propagando apenas conteúdo de natureza masculina e objetificadora da figura feminina (o padrão loira, branca e magra, que vimos na Barbie todo esse tempo, foi a capa da revista por décadas). O que será, então, que fez a revista rever esse processo? Dica: não foram as intensas manifestações que vivemos na “Primavera Feminista”.
O que fez a revista mudar de visual e foco foi o fato dos homens estarem consumindo pornografia cada vez mais cedo – e apenas na internet. A capa da “nova era” da revista, que simula uma selfie sensual no Snapchat, mostra o esforço desmedido da revista em conquistar o público jovem. Por jovem, entenda-se: pré-adolescentes de 13 anos. Como se não bastasse aos adolescentes estarem expostos a um conteúdo pornográfico altamente violento às mulheres e traumatizante a todos, agora a revista disponibilizará nudez impressa também.
A “Playboy”, portanto, apenas complementa o mercado pornográfico que já é vitimizador da figura feminina, vendendo uma nudez que não será paga, já que as meninas não receberão cachê por posarem nuas. Ou seja, as mulheres são duplamente punidas nesse caso: não recebem pelo próprio trabalho, sob uma perspectiva de que “nudez não se compra” (mas se vende e se consome, editores da “Playboy”?), e ainda têm suas imagens objetificadas – mesmo que sem retoques de Photoshop.
Nem o tom “jovem” da revista deve ser visto como uma grande novidade. Além de continuar sendo uma engrenagem do mercado pornográfico, a revista ajuda a perpetuar a pedofilia e a “cultura da novinha”. Essa nova capa remete ao Snapchat, campo digital largamente utilizado por adolescentes para sua comunicação. O que antes era uma maneira interessante de transmitir ao amigo como havia sido seu dia se tornou na mais nova ferramenta de pornografia do mercado. Além disso, as mulheres com caras inocentes, completamente depiladas, sempre existiram nas capas e spreads da revista, a diferença é que agora ela conseguiu voltar ao mundo digital. O visual jovem da “Playboy” não é novidade nenhuma: ele sempre esteve lá, transformando mulheres maduras em bonecas púberes como a própria Barbie aqui citada. Em outras palavras: a “Playboy” nunca esteve tão pedófila.
O ponto principal é: as indústrias fazem o possível e o impossível para se readequarem constantemente ao mercado. A Barbie e a “Playboy” estão inclusas nessa história. Ainda que de maneiras diferentes, ambas lucram (e muito) com a objetificação feminina (no caso da Barbie, um objeto literal). Além dos diferentes impactos que bonecas e revistas pornográficas podem causar nas mulheres (que, de fato, são incomparáveis), ambas não fizeram mais do que sua função: se adequar ao seu novo mercado. A diferença, é que a função da “Playboy” continua a mesma, que é promover prazer masculino heterossexual e lucrar em cima das mulheres. Só que agora o lucro será muito maior, já que a revista não dará um centavo de cachê às moças que mostram seus corpos nus nas capas.
Colagem feita com exclusividade por Bárbara Malagoli (Baby C)
Nos últimos dias muito tem se falado da importância dos novos corpos e cores da Barbie. Tradicionalmente retratada como uma jovem completamente dentro de um padrão irreal, inclusive em termos biológicos, a reviravolta no mercado da boneca fez um favor a todas as meninas e trouxe às lojas bonecas pequenas, altas, magras e curvilíneas. Brancas, negras, orientais. Cabelos coloridos, crespos, escuros.
O impacto disso sobre a autoimagem das mulheres é claro: agora é possível se ver de maneira mais fiel no mercado, e como a boneca é referência de beleza, sentir-se bonita pode ter se tornado 1% mais fácil hoje em dia. Pois bem, aqui eu gostaria que ficássemos com uma ideia na cabeça: a representação dos corpos diferentes no mercado é importante, e a pressão dos consumidores foi a grande responsável para essa mudança. Pela primeira vez estamos vendo a representação feminina de forma mais amistosa. Será?
A “Playboy” também sofreu pressão dos seus consumidores e se viu obrigada a reestruturar por completo a ideia da revista: “pouca nudez, mais conteúdo”. A grande variedade de pornôs disponíveis na internet fez com que a nudez explícita da revista se tornasse desnecessária – melhor uma mulher gemendo e sendo penetrada do que uma apenas com “cara de safada”, não é mesmo? A gratuidade do pornô online, portanto, foi a grande ruína da “Playboy”.
Os homens pararam de consumir nudez impressa para consumir violência contra a mulher pela internet. O vídeo é muito mais agressivo e satisfatório do que uma foto inofensiva: o gozo vem mais rápido e de forma mais barata, afinal de contas, tempo é dinheiro, minha gente (até o tempo de se masturbar). Aqui, mais uma ideia: o mercado, assim como vimos no caso da Barbie, se adaptou, e essa cara moderna da revista não veio pela exigência de seus leitores por uma revista mais humana, mas sim porque os mesmos passaram a se entediar com peitos e bucetas que não se mexem, não gritam, não reagem.
Há milhares de problemas em tudo isso, a começar pelas mudanças empregadas pela revista visando o aumento de mercado. Irei começar com esse discurso da necessidade de se modernizar que a “Playboy” vem empregando, principalmente com um falso propósito de se tornar “mais inclusiva às mulheres”. Durante anos, a “Playboy” dá de ombros à dignidade e ao bem estar feminino, propagando apenas conteúdo de natureza masculina e objetificadora da figura feminina (o padrão loira, branca e magra, que vimos na Barbie todo esse tempo, foi a capa da revista por décadas). O que será, então, que fez a revista rever esse processo? Dica: não foram as intensas manifestações que vivemos na “Primavera Feminista”.
[caption id="attachment_9135" align="aligncenter" width="560"] Capa da nova era da ‘Playboy’ (Divulgação)[/caption]
O que fez a revista mudar de visual e foco foi o fato dos homens estarem consumindo pornografia cada vez mais cedo – e apenas na internet. A capa da “nova era” da revista, que simula uma selfie sensual no Snapchat, mostra o esforço desmedido da revista em conquistar o público jovem. Por jovem, entenda-se: pré-adolescentes de 13 anos. Como se não bastasse aos adolescentes estarem expostos a um conteúdo pornográfico altamente violento às mulheres e traumatizante a todos, agora a revista disponibilizará nudez impressa também.
A “Playboy”, portanto, apenas complementa o mercado pornográfico que já é vitimizador da figura feminina, vendendo uma nudez que não será paga, já que as meninas não receberão cachê por posarem nuas. Ou seja, as mulheres são duplamente punidas nesse caso: não recebem pelo próprio trabalho, sob uma perspectiva de que “nudez não se compra” (mas se vende e se consome, editores da “Playboy”?), e ainda têm suas imagens objetificadas – mesmo que sem retoques de Photoshop.
Nem o tom “jovem” da revista deve ser visto como uma grande novidade. Além de continuar sendo uma engrenagem do mercado pornográfico, a revista ajuda a perpetuar a pedofilia e a “cultura da novinha”. Essa nova capa remete ao Snapchat, campo digital largamente utilizado por adolescentes para sua comunicação. O que antes era uma maneira interessante de transmitir ao amigo como havia sido seu dia se tornou na mais nova ferramenta de pornografia do mercado. Além disso, as mulheres com caras inocentes, completamente depiladas, sempre existiram nas capas e spreads da revista, a diferença é que agora ela conseguiu voltar ao mundo digital. O visual jovem da “Playboy” não é novidade nenhuma: ele sempre esteve lá, transformando mulheres maduras em bonecas púberes como a própria Barbie aqui citada. Em outras palavras: a “Playboy” nunca esteve tão pedófila.
O ponto principal é: as indústrias fazem o possível e o impossível para se readequarem constantemente ao mercado. A Barbie e a “Playboy” estão inclusas nessa história. Ainda que de maneiras diferentes, ambas lucram (e muito) com a objetificação feminina (no caso da Barbie, um objeto literal). Além dos diferentes impactos que bonecas e revistas pornográficas podem causar nas mulheres (que, de fato, são incomparáveis), ambas não fizeram mais do que sua função: se adequar ao seu novo mercado. A diferença, é que a função da “Playboy” continua a mesma, que é promover prazer masculino heterossexual e lucrar em cima das mulheres. Só que agora o lucro será muito maior, já que a revista não dará um centavo de cachê às moças que mostram seus corpos nus nas capas.
Pela primeira vez eu comecei a assistir a uma temporada de Girls e não tive vontade de gritar. Parece que a Lena Dunham está aprendendo aos pouquinhos a ser menos feminista branca e focando mais no potencial dramático e na capacidade de gerar empatia da série.
No terceiro episódio dessa sexta temporada (American Bitch), Hannah visita um autor chamado Chuck Palmer, famoso tanto por seus livros quanto por sua capacidade de se envolver sexualmente com as fãs. Depois de um escândalo no qual ele foi acusado de estupro, Hannah escreveu um texto sobre isso em seu blog apoiando a vítima. Chuck teria, então, convidado Hannah para ir em sua casa confrontá-lo.
Mas o gancho que eu gostaria de aproveitar aqui nem tem tanto a ver com a trama principal (vou retomar o desfecho do episódio mais ao final do texto), mas com um relato de Hannah sobre um abuso sofrido em sua infância. A garota recorda, durante uma conversa com Palmer, de um professor que, quando ela tinha 11 anos, gostava de fazer massagens em seus ombros. Quando, anos mais tarde, ela acusa o professor de assédio para um de seus antigos colegas, ela é taxada de exagerada. E é isso que eu gostaria de discutir aqui: quais os limites da relação professor-aluna e por que é tão difícil denunciar o assédio sofrido de algum professor, instrutor, orientador ou qualquer outra figura que exerça alguma influência sobre nós num nível pedagógico.
Quando eu estava no colégio e quando trabalhava em cursinho, a tensão existente entre alunas e professores era tão presente que dava pra cortar ela com uma faca. De lembranças que me vêm à cabeça agora, me lembro de uma amiga que desistiu de cursar medicina na faculdade que ela queria porque um professor disse que “não respeitava” a instituição. A admiração dela por ele era tão grande que ela desistiu de fazer o curso que ela mais queria por causa dele. Na época era muito fácil falar que ela era trouxa e que estava se deixando levar pela opinião de um cara que ela nunca mais ia ver na vida. Hoje eu olho pra trás e percebo como a influência dos professores pode ser tão grande na gente por dois motivos: (1) eles seduzem sim as alunas, seja de maneira sutil ou não e (2) no ambiente competitivo de um colégio, principalmente às vésperas do vestibular, a aprovação de um professor faz parecer que você está no caminho exato do sucesso acadêmico, além de dar um conforto para alguém que tem que passar sozinha por um período super estressante.
O problema é o seguinte: se os professores não se preocupassem tanto em querer a nossa admiração e não recorressem ao abuso da autoridade que eles têm sobre a gente, nós aprenderíamos muito mais – e ficaríamos mais confiantes com o nosso desempenho acadêmico. Não é possível absorver informação se você tem que constantemente se proteger do abuso de um professor, seja em forma de humilhação ou de apelos sexuais. Trabalhar com ex-professor meu foi tão estressante que eu tive que largar o emprego – ele me xingava constantemente na frente dos alunos, o que ele também fazia na sala de aula quando ainda não era meu colega de profissão. Por outro lado, um professor meu também já me pediu pra tirar a roupa na frente da turma quando soube que eu estava vestindo só o blusão da escola (eu jamais soube como ele ficou sabendo disso, inclusive).
O que eu estou tentando pontuar é que não importa qual tipo de abuso soframos daqueles aos quais, em teoria, devemos respeito, o objetivo é sempre nos colocar pra baixo – mesmo ex-professores continuam agindo como seu professor, mesmo que ele só seja agora um cara xis que vai na mesma padaria que você. Ora, você já é uma mulher adolescente/jovem, que passa o dia inteiro ouvindo cantada na rua, é subestimada intelectualmente por “piadas” feitas na sala de aula e fora dela, não tem como você se sentir confiante nesse espaço. Quando você é educada a acreditar que qualquer forma de cortejo deva ser encarada como carinho, é lógico que se torna difícil identificar e denunciar o assédio, principalmente se você acreditar que fazer isso é desrespeitar a autoridade de alguém – afinal de contas, é a palavra dele, professor letrado, contra a sua, estudante do segundo grau. Pior ainda: de estudante estressada e preocupada com notas e vestibular, tirar você de louca será mais fácil do que tirar doce de criança.
Mas o que pra mim é ainda mais nocivo, e é aqui que eu retomo o final do episódio (que ficou lá em cima, eu sei, mas vai fazer sentido). Já pro final da trama, Chuck se defende com unhas e dentes, explicando como ele jamais poderia ter abusado sexualmente de sua fã e de como ele era a verdadeira vítima na situação – afinal de contas como seria se sua filha descobrisse que na verdade ele é um lixo humano? Pois bem, quando a narrativa está construída pra que você entre na dele (até porque a Hannah também entra) ele dá a sua cartada final: tira seu pinto pra fora e coloca no colo da Hannah pra ela o masturbar.
Além de nojento, esse episódio lança luz sobre uma coisa muito verdadeira: homens brilhantes não podem ser estupradores e nem abusar sexualmente de mulheres. Ora, é muito fácil seduzir uma mulher quando tudo ao nosso redor destrói a nossa auto-estima (afinal de contas, tudo o que a Hannah quer é ser uma boa escritora, e ele pontua constantemente o quão inteligente e engraçada ela é, principalmente na escrita). Pois bem, isso acontece fora das telas também. Apesar de ser visto como um homem desconstruído e arrependido de seus pecados, um ex-professor meu acaba de se casar com uma ex-aluna quase quinze anos mais nova. Veja, o problema aqui não é o relacionamento deles por si só, eles podem se amar muito e serem feitos um para o outro, mas eu acho suspeito que um professor se aproxime dessa forma de sua aluna do cursinho (repito: aluna, não ex-aluna). O professor que me abusou de todas as formas possíveis e imagináveis foi absolvido de tudo por ter respeitado a próxima aluna da qual ele foi atrás.
Eu não acho que seja impossível manter relações saudáveis com professores, orientadores e mestres no geral. Amo meu ex-orientador e queria que ele fosse meu tio, sei lá. Também não estou falando que toda e qualquer menina seja seduzida por professores dessa forma. Estou querendo criticar a forma com a qual professores usam de sua autoridade para assediar e abusar de suas alunas. Criticar como o tom professoral e aquele jeito de só-quero-o-seu-bem-linda pode ser nocivo para o aprendizado das alunas – tanto ou mais do que ser xingada de imbecil em voz alta na frente dos colegas. O ideal seria uma relação de respeito mútuo, que a aluna seja capaz de aprender em um ambiente livre de objetificações e medo – senão sua cabeça, que já tem um milhão de coisas, terá mais uma: o desconforto ou a aparente obrigação de agradar o mestre a qualquer custo.
Esse episódio de Girls ensina como devemos olhar com cautela para os homens que admiramos, e que não devemos nos deixar levar pelo efeito que esses homens podem ter sobre nós. Não precisamos da massagem nos nossos ombros, nem do carinho na perna feito pelo instrutor da auto-escola, nem do professor que chega perto demais pra tirar suas dúvidas. Precisamos menos ainda sermos xingadas a plenos pulmões na sala de aula, ou silenciadas e intelectualmente desmerecidas por um orientador. Precisamos de respeito à nossa condição de estudante – mas principalmente à nossa condição de mulher.
novos corpos e cores da Barbie. Tradicionalmente retratada como uma jovem completamente dentro de um padrão irreal, inclusive em termos biológicos, a reviravolta no mercado da boneca fez um favor a todas as meninas e trouxe às lojas bonecas pequenas, altas, magras e curvilíneas. Brancas, negras, orientais. Cabelos coloridos, crespos, escuros.
O impacto disso sobre a autoimagem das mulheres é claro: agora é possível se ver de maneira mais fiel no mercado, e como a boneca é referência de beleza, sentir-se bonita pode ter se tornado 1% mais fácil hoje em dia. Pois bem, aqui eu gostaria que ficássemos com uma ideia na cabeça: a representação dos corpos diferentes no mercado é importante, e a pressão dos consumidores foi a grande responsável para essa mudança. Pela primeira vez estamos vendo a representação feminina de forma mais amistosa. Será?
A “Playboy” também sofreu pressão dos seus consumidores e se viu obrigada a reestruturar por completo a ideia da revista: “pouca nudez, mais conteúdo”. A grande variedade de pornôs disponíveis na internet fez com que a nudez explícita da revista se tornasse desnecessária – melhor uma mulher gemendo e sendo penetrada do que uma apenas com “cara de safada”, não é mesmo? A gratuidade do pornô online, portanto, foi a grande ruína da “Playboy”.
Os homens pararam de consumir nudez impressa para consumir violência contra a mulher pela internet. O vídeo é muito mais agressivo e satisfatório do que uma foto inofensiva: o gozo vem mais rápido e de forma mais barata, afinal de contas, tempo é dinheiro, minha gente (até o tempo de se masturbar). Aqui, mais uma ideia: o mercado, assim como vimos no caso da Barbie, se adaptou, e essa cara moderna da revista não veio pela exigência de seus leitores por uma revista mais humana, mas sim porque os mesmos passaram a se entediar com peitos e bucetas que não se mexem, não gritam, não reagem.
Há milhares de problemas em tudo isso, a começar pelas mudanças empregadas pela revista visando o aumento de mercado. Irei começar com esse discurso da necessidade de se modernizar que a “Playboy” vem empregando, principalmente com um falso propósito de se tornar “mais inclusiva às mulheres”. Durante anos, a “Playboy” dá de ombros à dignidade e ao bem estar feminino, propagando apenas conteúdo de natureza masculina e objetificadora da figura feminina (o padrão loira, branca e magra, que vimos na Barbie todo esse tempo, foi a capa da revista por décadas). O que será, então, que fez a revista rever esse processo? Dica: não foram as intensas manifestações que vivemos na “Primavera Feminista”.
O que fez a revista mudar de visual e foco foi o fato dos homens estarem consumindo pornografia cada vez mais cedo – e apenas na internet. A capa da “nova era” da revista, que simula uma selfie sensual no Snapchat, mostra o esforço desmedido da revista em conquistar o público jovem. Por jovem, entenda-se: pré-adolescentes de 13 anos. Como se não bastasse aos adolescentes estarem expostos a um conteúdo pornográfico altamente violento às mulheres e traumatizante a todos, agora a revista disponibilizará nudez impressa também.
A “Playboy”, portanto, apenas complementa o mercado pornográfico que já é vitimizador da figura feminina, vendendo uma nudez que não será paga, já que as meninas não receberão cachê por posarem nuas. Ou seja, as mulheres são duplamente punidas nesse caso: não recebem pelo próprio trabalho, sob uma perspectiva de que “nudez não se compra” (mas se vende e se consome, editores da “Playboy”?), e ainda têm suas imagens objetificadas – mesmo que sem retoques de Photoshop.
Nem o tom “jovem” da revista deve ser visto como uma grande novidade. Além de continuar sendo uma engrenagem do mercado pornográfico, a revista ajuda a perpetuar a pedofilia e a “cultura da novinha”. Essa nova capa remete ao Snapchat, campo digital largamente utilizado por adolescentes para sua comunicação. O que antes era uma maneira interessante de transmitir ao amigo como havia sido seu dia se tornou na mais nova ferramenta de pornografia do mercado. Além disso, as mulheres com caras inocentes, completamente depiladas, sempre existiram nas capas e spreads da revista, a diferença é que agora ela conseguiu voltar ao mundo digital. O visual jovem da “Playboy” não é novidade nenhuma: ele sempre esteve lá, transformando mulheres maduras em bonecas púberes como a própria Barbie aqui citada. Em outras palavras: a “Playboy” nunca esteve tão pedófila.
O ponto principal é: as indústrias fazem o possível e o impossível para se readequarem constantemente ao mercado. A Barbie e a “Playboy” estão inclusas nessa história. Ainda que de maneiras diferentes, ambas lucram (e muito) com a objetificação feminina (no caso da Barbie, um objeto literal). Além dos diferentes impactos que bonecas e revistas pornográficas podem causar nas mulheres (que, de fato, são incomparáveis), ambas não fizeram mais do que sua função: se adequar ao seu novo mercado. A diferença, é que a função da “Playboy” continua a mesma, que é promover prazer masculino heterossexual e lucrar em cima das mulheres. Só que agora o lucro será muito maior, já que a revista não dará um centavo de cachê às moças que mostram seus corpos nus nas capas.