Quero ser: Jarid Arraes

Em junho deste ano inauguramos a série “Quero Ser” com a Luciana Brito. A série surgiu com a seguinte inquietação: falamos pouco sobre as carreiras e as trajetórias profissionais de mulheres negras. E esse silêncio acaba contribuindo para a noção de que nós, mulheres negras, devemos almejar apenas alguns tipos de emprego. A ideia dessa série de entrevistas é visibilizar a carreira de mulheres negras, conhecer e conversar sobre as nossas trajetórias e mostrar que temos um grande leque de opções e de caminhos possíveis.

E hoje entrevistamos a genial Jarid Arraes! Para quem ainda não conhece, a Jarid é escritora, autora do livro “As Lendas de Dandara” e criadora do Clube da Escrita Para Mulheres. Além disso tudo, ela também é cordelista e publicou uma série de cordéis biográficos sobre de grandes heroínas negras na História do Brasil!

Nessa entrevista ela conta pra gente um pouquinho sobre todos esses projetos! Leiam <3

Ovelha: Será que você pode me contar um pouco da sua história? Quem você é, de onde veio, o que faz?
Jarid Arraes: Sou Jarid Arraes, escritora, cordelista e agora xilogravadora. Eu nasci no interior do Ceará, na cidade de Juazeiro do Norte que fica na região do Cariri. Vim morar em São Paulo há mais ou menos dois anos, porque as oportunidades por lá são praticamente inexistentes pra quem vive de escrita, até mesmo pra quem faz cordel. Trabalho com oficinas de escrita dentro do meu projeto Terapia Escrita e recentemente estou abrindo uma editora voltada só para a publicação de mulheres junto com minha amiga e parceira Vanessa Rodrigues.

 

Ovelha: Li que seu pai é cordelista e que isso te influenciou muito. Me conta sobre quando você começou a escrever, como foi esse processo? Mais especificamente, por quê é importante pra você usar esse formato literário?

Jarid Arraes: Meu avô e meu pai são cordelistas e também xilogravadores. Foi com eles que tive meu primeiro contato com a literatura de cordel e com as xilogravuras e eu sempre fui encantada por essas artes. Lembro de momentos muito marcantes em que li cordéis do meu avô e do meu pai e senti algo incrível com as rimas e o ritmo que eles criavam; um dos casos mais especiais para mim foi o primeiro cordel que me lembro de ter lido, escrito por meu pai, que falava sobre “Os 500 anos que invadiram o Brasil”; lembro da raiva dele, de como falava da escravidão, do genocídio contra os indígenas e acho que isso me influenciou muito e surgiu mais na frente na minha escrita e na minha visão de mundo. (Meu avô é Abraão Batista e meu pai é Hamurabi Batista).

Só que eu não achava que tinha talento pra escrita, embora na minha infância eu tenha escrito muito e tenha até ganhado alguns concursos nas escolas onde estudei, mas com o tempo fui deixando esse sonho adormecer, porque eu não tinha sequer uma referência de uma escritora como eu entre as coisas que eu lia e tinha acesso. Foi só adulta que comecei a encontrar mulheres negras que escreveram, publicaram e fizeram história de muitas outras formas e foi somente então que entendi que o racismo estava agindo contra minha autoestima e minha coragem para escrever. Eu também passei a me preocupar com a continuidade da tradição do cordel na minha família e no mundo como um todo, porque as novas gerações não se interessam por cordel e até mesmo no nordeste o cordel ‘é preterido, então conversei com meu pai e compartilhei meu desejo de escrever. Achei que não ia conseguir, mas logo aprendi que talento não é dom, é prática e intimidade com aquela arte, e eu tinha isso de sobra com a minha história. Saiu fácil e rápido e nunca mais parei. São quase 5 anos que publico cordéis, até o momento tenho 60 títulos, e por causa do cordel tive coragem de dar mais um passo na literatura e começar a escrever prosa. Foi aí que nasceu o meu livro As Lendas de Dandara.

Foi só adulta que comecei a encontrar mulheres negras que escreveram, publicaram e fizeram história de muitas outras formas e foi somente então que entendi que o racismo estava agindo contra minha autoestima e minha coragem para escrever.

 

As Lendas de Dandara foi publicado de forma independente em julho de 2015 e contou com a Aline Valek como ilustradora. Esgotou completamente, foi um sucesso muito grande, utilizado em escolas, inspirou coleções de roupas e virou até tema de quadrilha junina. Foi uma experiência incrível, cansativa, que peitei sozinha e sem grana, mas o livro foi extremamente bem recebido pelo público, que fez resenhas lindas, indicou e me ajudou a fazê-lo conhecido. Agora ele está saindo pela Editora de Cultura, no início de outubro, e estará em todas as livrarias. Considero isso uma vitória que não é apenas minha, mas de outras escritoras negras e nordestinas como eu, porque enfrentar as barreiras do mercado e da sociedade não é tarefa fácil, mas o sucesso de “As Lendas de Dandara” prova que as pessoas querem ler coisas diferentes do “mais do mesmo” que domina as livrarias e editoras. Assim como os meus cordéis, que hoje são minha principal fonte de renda. Perde quem desvaloriza porque está cego pelo preconceito. Mas pretendo continuar enfrentando e publicando, estou só começando.

As Lendas de Dandara

Saiba mais

 

Ovelha: A maioria dos cordelistas é homem, certo? Como é escrever cordéis sendo mulher, especificamente, mulher negra?

Jarid Arraes: A maioria dos cordelistas que eu conheço e que recebem alguma notoriedade é de homens sim. Encaro isso como mais um reflexo da nossa cultura, porque homens recebem muito mais reconhecimento e credibilidade em qualquer área, a literatura não é diferente e a literatura de cordel também não. Ás vezes isso é muito frustrante, porque os nomes acabam se repetindo, com os mesmos temas de cordel, a mesma reprodução de machismo, racismo e homofobia nas histórias… Eu espero que isso comece a mudar. Tenho consciência de que meu trabalho tem repercutido e que muita gente agora lê cordel porque sou um outro tipo de cordelista, porque minhas histórias retratam mulheres, pessoas negras, gays, travestis, como seres humanos que devem ser respeitados, representados e lidos. Eu espero que as editoras, as feiras e eventos acompanhem isso, que procurem incluir pessoas mais jovens no meio do cordel, que se lembre de que cordelista não é só homem e que cordel também deve continuar nos folhetos.

Cordéis da Jarid ;)

Ovelha: A sua obra fala muito de sexualidade, de questões identitárias, de questões raciais. Como você resolveu pautar esses assuntos? Por que esses eram temas importantes pra você?

Jarid Arraes: Resolvi começar a pautar esses assuntos porque eles não estavam presentes e algo precisava mudar. Eu queria juntar a tradição do cordel com uma proposta transformadora, porque não sou apegada a tradição só pela tradição, o que deve ser preservado é o que faz sentido para o mundo de hoje, o que vai frutificar coisas boas. Mesmo quando o que escrevo não é abertamente ativista, só o fato de existir uma protagonista negra, ou uma protagonista trans, e elas serem escritas e criadas com complexidade, sem clichês, isso já causa impacto, já faz diferença. Acho que será sempre assim. Numa sociedade em que poucos livros contam com protagonistas negras, o que eu escrevo sempré será um enfrentamento.

Ovelha: Você tem feito um resgate muito importante do papel das mulheres negras na história do Brasil. Como eu te disse quando propus a entrevista, nesses cordéis biográficos você escreve o que eu gostaria de ter lido quando criança. Como você teve essa ideia? Como você faz a pesquisa para a produção desses cordéis?

Jarid Arraes: Eu tive a ideia da coleção das Heroínas Negras na História do Brasil porque eu nunca ouvi falar de sequer uma mulher negra na escola ou na faculdade. Nenhuma, em nenhuma área. Eu simplesmente cresci pensando que mulheres negras nunca fizeram nada pelo Brasil e pelo mundo, cresci achando que as pessoas negras não lutavam contra a escravidão, e isso se enraizou na minha mente de uma forma que nem sempre era explícita, eu apenas sentia que pessoas negras não tinham o mesmo valor que as brancas. E eu tenho certeza que muita gente sente isso e pensa isso, mesmo que de maneira muito disfarçada, porque nós não aprendemos a história das pessoas negras, do continente Africano, dos muitos países que existem na ;África. Como podemos destruir o racismo se crescemos com nosso inconsciente contaminado pela ideia de que negros nunca fizeram nada de bom, nunca descobriram nada, nunca construíram nada? Foi adulta que descobri essas mulheres negras que fizeram grandes coisas, mas só porque fui pesquisar sozinha. Então achei que era minha obrigação criar uma material que pudesse ser usado em escolas, que fosse acessível, que provocasse transformação. Eu esperava que meus cordéis fizessem a diferença, mas o que aconteceu está muito além dos meus sonhos. Eu não seria capaz de contar quantas pessoas entram em contato comigo, quantos professores usam esses cordéis, é gente demais. É lindo demais receber fotos e depoimentos das experiências em sala de aula. Muitas vezes me emociono, choro, imagino como teria sido se eu fosse uma dessas crianças e tivesse ouvido falar de Tereza de Benguela ou de Maria Firmina dos Reis. Sou grata porque hoje posso contribuir para que isso seja realidade pra outras crianças e adultos.

Para pesquisar, busco trabalhos acadêmicos e estudo a história de cada estado brasileiro. Em cada um deles existem figuras histórias que fizeram coisas impressionantes e importantes, meu trabalho é cavar bem fundo e encontrar as mulheres negras, porque elas são pouco mencionadas, mas estiveram lá. Muitas vezes eu recebo sugestões das pessoas que leem meus cordéis e falam que na cidade delas ou no estado delas existiu Fulana, que fez tal coisa, lutou contra a escravidão, foi a primeira deputada negra, foi fundadora do primeiro sindicato de empregadas domésticas e assim por diante. Hoje tenho 20 biografias publicadas em cordel e a lista de nomes na espera para serem escritos é bem grande. Isso é maravilhoso. Tenho tanto orgulho desse trabalho!

Ovelha: Ainda hoje temos um número super pequeno de mulheres sendo publicadas por grandes editoras. E pra além disso, são poucas as mulheres que contemplam escrever como profissão. Quando pensamos em mulheres negras, os números são ainda menores. Como você acha que podemos quebrar esse ciclo? Que oportunidades fizeram a diferença pra você?

Jarid Arraes: Para quebrar isso precisamos insistir em denunciar o problema. Precisamos chamar atenção para o fato de que a Flip, por exemplo, não convida e não reconhece escritoras negras. Precisamos deixar claro que não aceitamos esse racismo e que não adianta dar desculpinha imbecil para disfarçar a curadoria ridícula que é feita. Precisamos promover o trabalho de autoras negras, comprar, apoiar, divulgar, recomendar e ler. A maioria das autoras negras que conheço não está nas livrarias. O racismo e o machismo estão tão enraizados que é difícil demais enfrentar esse quadro, mas nossa insistência e resiliência provoca mudanças.

O que fez diferença para “As Lendas de Dandara”, por exemplo, foi contar com a ajuda de outras pessoas para promovê-lo. Eu não tenho dinheiro para investir em propaganda, então a publicidade do meu livro foi feita por quem leu, gostou muito e recomendou nas redes sociais e entre amigos. Tive que lutar muito para ser lida e continuo lutando, os desafios não acabaram, o racismo não acabou, ainda enfrento silenciamento, ainda sou mulher preta do interior do Ceará, mas insisto.

Por isso que peço: leiam e recomendem autoras negras. Se você tem um blog, faça uma resenha, uma entrevista, publique em seu site, sugira a pauta na redação, convença a chefia de um fato inegável: as pessoas estão sedentas por mudança, por histórias que fujam da repetição.

Ovelha: Conta pra gente um pouco do seu projeto Terapia Escrita e do Clube da Escrita Para Mulheres?

Jarid Arraes: A Terapia Escrita surgiu porque eu queria utilizar minha graduação em Psicologia de uma forma diferente, queria juntá-la com a escrita, que é uma ferramenta terapêutica incrível. Então desenvolvi alguns modelos de oficinas de escritas e de terapia em grupo que tem dado muito certo. Uma delas é a oficina de escrita erótica que faço com a Vanessa Rodrigues, nós juntamos a parte técnica da escrita e conhecimento literário com a proposta de falar sobre sexualidade e enfrentar traumas, tabus, repressões, etc., sobretudo entre mulheres. O mais legal é que a Terapia Escrita surgiu como ideia depois que eu já fazia o Clube da Escrita Para Mulheres e percebi como os nossos encontros eram curativos e importantes em todos os sentidos, não apenas no sentido  literário. O Clube é maravilhoso, a gente se encontra quinzenalmente para escrever juntas, fazer exercícios livres e direcionados, trocamos dicas e apoio, tudo gratuito e aberto para mulheres de qualquer idade. Vai completar 1 ano de Clube e dele já saíram tantos frutos lindos: uma das escritoras que participa desde o primeiro dia, a Dani Costa Russa, publica agora em setembro seu primeiro romance, o Beijos no Chão. Independente, com todas as etapas da publicação feitas por ela. E vale salientar que quando ela chegou no clube, o livro estava esquecido no fundo de uma gaveta do computador e só depois de alguns meses ela me pediu para ler e dizer o que eu achava. E eu amei, fiquei impressionada e encantada. É esse tipo de tesouro que existe no Clube da Escrita Para Mulheres. Outro fruto do Clube é a Revoada Editora, que estou começando com a Vanessa Rodrigues e que tem a proposta de publicar apenas escritoras. São muitos projetos que crescem e se multiplicam e é maravilhoso estar entre autoras.

Ovelha: Jarid, pra finalizar, conta pras nossas leitoras o que você têm lido nos últimos tempos? 

Jarid Arraes: Comecei um projeto pessoal de ler e ter literatura africana, então estou cheia de livros de autoras e autores dos vários países da África. Para quem curte HQ, recomendo a série Aya de Yopougon, da autora Marguerite Abouet; recomendo todos os livros da Paulina Chiziane e da Chimammanda Achicie. Também estou apaixonada pelas obras do autor Chinua Achebe, especialmente o livro “A flecha de deus”. Recentemente também consegui um exemplar do livro Úrsula, da Maria Firmina dos Reis (que virou cordel na minha série de heroínas negras), esse romance foi o primeiro romance abolicionista publicado no Brasil e só é encontrado em sebos, mas seu conto “A Escrava” pode ser achado em pdf. De modo geral, recomendo que leiam mulheres negras, que leiam mulheres, procurem autoras independentes, porque tem muita coisa linda que precisa ser lida com urgência.

Gente, depois dessa entrevista maravilhosa, super recomendo que vocês corram para encomendar cordéis da Jarid! Tá tudo aqui. :) E fiquem de olho que a nova edição do “As Lendas de Dandara” sairá em outubro!

Quero ser!

Quero ser é uma série de entrevistas feita com mulheres poderosas que se destacaram em suas profissões ou em suas empreitadas como empreendedoras, cientistas ou acadêmicas. Precisamos de mais referências para meninas e mulheres!
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