Meu nome é Cinthia Maria do Carmo Gomes. Nasci no estado do Rio de Janeiro, na cidade de Duque de Caxias, de onde a geração dos meus pais é. Meus avós maternos vieram da Bahia e os paternos, de Minas Gerais. Minha avó paterna também falava de uma bisavó índia. Só sei até aí. Meu avô materno era saxofonista empregado na banda do Corpo de Bombeiros. Meu avô paterno era ferroviário. Minhas avós eram donas de casa (mas minha avó paterna se orgulhava de ter sido telefonista). Minha mãe é professora de matemática. Meu pai é formado em engenharia operacional e trabalhava em uma indústria química. Meu irmão é publicitário. E eu sou eu.
Minha consciência racial se desenvolveu junto com a fala e com as habilidades motoras, eu acho. Não me lembro de uma fase da vida em que eu não soubesse que era negra e em que não observasse e sentisse os impactos disso. Nasci em 1981. Lembro do Sarney e de que morávamos em um subúrbio carioca, Guadalupe, que já era socialmente mais ascendido que onde meus pais moravam quando solteiros. Lembro que havia uma menina loira no jardim de infância que ditava as brincadeiras. Todos a obedeciam e tinham que brincar do jeito que ela queria. As professoras a achavam linda. As professoras não me achavam linda.
Quando eu tinha 6 ou 7 anos, nos mudamos para Jacarepaguá, ainda subúrbio, mas na zona Oeste e longe da Avenida Brasil, mais uma ascensão social. Como minha mãe era professora, ela sabia quais eram as escolas públicas boas, e fomos, meu irmão e eu, estudar no Golda Meir, na emergente Barra da Tijuca. Lembro e quero registrar e agradecer todo sacrifício que meus pais fizeram para que tivéssemos uma boa qualidade de vida e uma boa educação. Meus pais nos levavam para a escola e ficavam lá esperando até a hora da saída, sem voltar pra casa, pra economizar gasolina. Durante as horas de espera, meu pai lia Guimarães Rosa e minha mãe ia à praia. Íamos bastante à praia. Até fizemos um curso de férias com salva-vidas, que ensinava as crianças a não se afogarem, a salvar os outros do afogamento e tinha exercícios e corrida e nado no mar e era legal. Brincávamos bastante com as crianças do prédio. Não foi uma infância ruim. Mas tinha umas coisinhas.
Na escola, eu era bem excluída, embora ainda não conhecesse essa palavra. Só conseguia fazer amizade com outros excluídos: outra rara menina negra, a menina que morava tão longe que já dormia de uniforme e o menino gordo. Não lembro o nome de ninguém. Mas lembro que ninguém conversava muito comigo, que eu não participava muito das brincadeiras e que tinha um menino insuportável que me chamava de petróleo. Quando chegou a idade de ir para as matinês, eu sabia que ninguém ia me chamar pra dançar porque eu era negra e essa categoria não é muito valorizada no mercado amoroso. E era isso que acontecia. Ah, eu só tinha 10 anos.
Minha mãe costumava dizer que “a gente que é mais escurinho, tem que ser o mais inteligente, o mais bem arrumado, o melhor em tudo”. Nunca me livrei do peso disso. Enfim, comecei a fazer coisas estranhas na escola. Comecei a tirar notas altíssimas. Comecei entender e a engendrar sentidos a partir do que os professores falavam. Ganhei concursos de redação e fui aprovada no Colégio Pedro II, uma escola pública federal com grande prestígio até hoje e sempre. Só havia 10 vagas no ano em que fiz a prova. E eu passei. Foi um grande feito. A diretora da escola me exibiu de sala em sala para professores e outros alunos, como um troféu da eficácia de sua administração e qualidade de ensino. Eu não me lembro disso, minha mãe que contou. Minha mãe também contou que havia uma professora negra nessa escola e que as mães dos alunos diziam que ela era burra e que era minha mãe que preparava as aulas dela. Foi dessa escola que saí para receber uma melhor educação formal.
No Pedro II, além das disciplinas habituais, tive aulas de Música, Inglês, Francês, Espanhol e Latim. Também tive Educação Moral e Cívica, mas essa não entrou para a história. Só as músicas cívicas que cantávamos no Fogo Simbólico, uma reunião de todas as unidades – o CPII tem cinco unidades – em que cantávamos “Fibra de Herói” e “Anhangá fugiu” e outras coisas de exaltação ao espírito nacional e havia competições esportivas, das quais obviamente nunca participei. Também não havia muitos negros nessa escola e meio que instintivamente comecei a namorar o Fábio, meu primeiro namorado, por quem nutro profundo carinho e respeito. Hoje ele é rastafári e mora em Cabo Verde, na África. Nossas conversas e convivência foram fundamentais para estabelecer o pensamento racial de cada um, embora tenhamos seguido caminhos diferentes.
A vida foi seguindo, cursei segundo grau técnico em Meteorologia no Cefet, o que me proporcionou ser aprovada em um concurso da Infraero e, assim, conseguir meu primeiro emprego. Para isso, tive de sair da casa dos meus pais e me mudar para São Paulo, o que fiz com a inocência de quem tem 20 anos e absolutamente não tem capacidade de prever consequências. Mas foi bom. Estou aqui até hoje, 13 anos depois. Ah, esqueci de citar que já cursava Letras na UFRJ, habilitação em Português-Literaturas, e estava no terceiro semestre quando tive que decidir sobre a mudança. Paradoxalmente, tive mais colegas negras na faculdade do que havia tido até então na vida escolar. Mas não se empolguem, eram a Tatiana e a Helena, só duas.
Em São Paulo, a questão racial ficou mais escancarada. A geografia da cidade é segregada e segregatória. Negros na periferia e brancos no centro expandido. Alguns brancos e muitos nordestinos na periferia e raramente nas mansões do Jardim Europa. E agora, bolivianos, haitianos e várias nacionalidades de africanos no centrão. Decidi mudar de curso e fazer Jornalismo porque achei que minhas perspectivas de intervenção no mundo por meio do adjunto adnominal eram bastante reduzidas. Estudei na Faculdade Cásper Líbero. Demorei um pouco para perceber que isso era uma coisa boa pois tinha um ranço carioca que dizia que só as universidades públicas prestavam. Ainda no primeiro ano, uma garota de quem eu nem era amiga disse que achava que se eu usasse meu cabelo crespo, ficaria muito mais bonita. Eu ainda alisava – alisava desde os seis anos, acho, a meu próprio pedido, pois queria ficar igual à Xuxa. Aliás, tive até festa de aniversário da Xuxa, aos 7 anos. Esqueci de citar também que eu era constantemente atormentada na infância por um sonho ou pesadelo, no qual descia um anjo do céu, com asa e tudo, e me dava uma bênção mágica e meu cabelo virava liso, no pátio da escola, diante de dezenas de crianças estupefatas.
Voltando à faculdade, um dia resolvi experimentar. Não escovei nem enrolei bobs no cabelo, lavei e o deixei secar naturalmente. Ele enrolou. Pus uma faixa pra fazer um penteado e fui pra aula. Entrei na sala e o professor interrompeu a fala por uns cinco segundos, olhou e analisou o novo look. Ele também era mestiço. E finalizou com um olhar de aprovação. A partir daquele dia, fui deixando a química sair e a negritude entrar.
Na Cásper encontrei a mesma escassez de negros a qual já estava acostumada em toda minha vida escolar. Mas houve uma conjuntura astral, um plano espiritual ou um odu dos orixás que fizeram com que, nessas condições, eu organizasse meu pensamento e minha primeira ação de militância racial. Constituímos um grupo chamado Dandaras, que editava fanzines, produzia debates e palestras e produzia um programa de rádio, tudo sobre questão racial, negritude, cultura negra. Isso foi em 2005. Foi fantástico. Não deveríamos perder nunca essa sensação de que se pode mudar o mundo. Éramos Gabi, Paola, Thaís, Karina, Lucas e os professores Chico Nunes e Pedro Vaz. Conheci muita gente, transitei por vários ambientes, ouvia era ouvida. Produzi muitas coisas das quais me orgulho e que fizeram sentido para muita gente. Contei a história dos bailes black da capital, conheci os batuques do interior, o hip-hop de Diadema, sacerdotes do candomblé e da umbanda, quilombolas, perfilei guerreiros contemporâneos e artistas, cobrei políticas públicas de ministros, secretários, deputados, senadores e vereadores. Me formei, constituí a Afroeducação com Paola Prandini, e continuamos a trabalhar na questão.
Depois de alguns anos, comecei a me sentir muito divida e a questionar meu caminho. Em todo esse tempo, tive a honra de conviver e continuar convivendo com militantes históricos, amigos e referências, como Oswaldo Faustino e Flavio Carrança, na Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial. Nunca parei. Nunca deixei de ser. Mas percebi que se eu optasse exclusivamente pela militância, eu deixaria muitas coisas de fora da minha trajetória profissional. E eu não tinha feito todo aquele sacríficio de trabalhar e estudar pra não ser repórter. Assim como em toda a minha vida escolar, também não há muitos negros nas redações, menos ainda apresentando programas ou reportagens de TV. Decidi como estratégia pessoal ocupar esse espaço. Como não seria produtivo ocupar o espaço só com a beleza negra, durante algum tempo, tive que me abster de ações sistemáticas de militância para investir na imersão no jornalismo – diário, impressionante, desbravador e cruel. Me desestruturei e me reestruturei. Hoje percebo meu desenvolvimento profissional e minhas convicções, caminhando paralelamente, como linhas que não se cruzam ou se encontram no infinito, mas me guiando na mesma direção.
Em 2015, celebro 10 anos de militância antirracista. É uma caminhada e um caminho. Axé.
**Este texto é dedica do à memória de minha querida avó Leonor Dultra do Carmo, que não gostava de negros, dizia que o marido era mulato e adorava macumba. E de meu avô José Gomes, que não conheci mas de quem sempre tive saudades, e que era um líder trabalhista e desconfiava que seus filhos haviam sido expulsos de um colégio particular e católico porque era eram negros.
Meu nome é Cinthia Maria do Carmo Gomes. Nasci no estado do Rio de Janeiro, na cidade de Duque de Caxias, de onde a geração dos meus pais é. Meus avós maternos vieram da Bahia e os paternos, de Minas Gerais. Minha avó paterna também falava de uma bisavó índia. Só sei até aí. Meu avô materno era saxofonista empregado na banda do Corpo de Bombeiros. Meu avô paterno era ferroviário. Minhas avós eram donas de casa (mas minha avó paterna se orgulhava de ter sido telefonista). Minha mãe é professora de matemática. Meu pai é formado em engenharia operacional e trabalhava em uma indústria química. Meu irmão é publicitário. E eu sou eu.
Minha consciência racial se desenvolveu junto com a fala e com as habilidades motoras, eu acho. Não me lembro de uma fase da vida em que eu não soubesse que era negra e em que não observasse e sentisse os impactos disso. Nasci em 1981. Lembro do Sarney e de que morávamos em um subúrbio carioca, Guadalupe, que já era socialmente mais ascendido que onde meus pais moravam quando solteiros. Lembro que havia uma menina loira no jardim de infância que ditava as brincadeiras. Todos a obedeciam e tinham que brincar do jeito que ela queria. As professoras a achavam linda. As professoras não me achavam linda.
Quando eu tinha 6 ou 7 anos, nos mudamos para Jacarepaguá, ainda subúrbio, mas na zona Oeste e longe da Avenida Brasil, mais uma ascensão social. Como minha mãe era professora, ela sabia quais eram as escolas públicas boas, e fomos, meu irmão e eu, estudar no Golda Meir, na emergente Barra da Tijuca. Lembro e quero registrar e agradecer todo sacrifício que meus pais fizeram para que tivéssemos uma boa qualidade de vida e uma boa educação. Meus pais nos levavam para a escola e ficavam lá esperando até a hora da saída, sem voltar pra casa, pra economizar gasolina. Durante as horas de espera, meu pai lia Guimarães Rosa e minha mãe ia à praia. Íamos bastante à praia. Até fizemos um curso de férias com salva-vidas, que ensinava as crianças a não se afogarem, a salvar os outros do afogamento e tinha exercícios e corrida e nado no mar e era legal. Brincávamos bastante com as crianças do prédio. Não foi uma infância ruim. Mas tinha umas coisinhas.
Na escola, eu era bem excluída, embora ainda não conhecesse essa palavra. Só conseguia fazer amizade com outros excluídos: outra rara menina negra, a menina que morava tão longe que já dormia de uniforme e o menino gordo. Não lembro o nome de ninguém. Mas lembro que ninguém conversava muito comigo, que eu não participava muito das brincadeiras e que tinha um menino insuportável que me chamava de petróleo. Quando chegou a idade de ir para as matinês, eu sabia que ninguém ia me chamar pra dançar porque eu era negra e essa categoria não é muito valorizada no mercado amoroso. E era isso que acontecia. Ah, eu só tinha 10 anos.
Minha mãe costumava dizer que “a gente que é mais escurinho, tem que ser o mais inteligente, o mais bem arrumado, o melhor em tudo”. Nunca me livrei do peso disso. Enfim, comecei a fazer coisas estranhas na escola. Comecei a tirar notas altíssimas. Comecei entender e a engendrar sentidos a partir do que os professores falavam. Ganhei concursos de redação e fui aprovada no Colégio Pedro II, uma escola pública federal com grande prestígio até hoje e sempre. Só havia 10 vagas no ano em que fiz a prova. E eu passei. Foi um grande feito. A diretora da escola me exibiu de sala em sala para professores e outros alunos, como um troféu da eficácia de sua administração e qualidade de ensino. Eu não me lembro disso, minha mãe que contou. Minha mãe também contou que havia uma professora negra nessa escola e que as mães dos alunos diziam que ela era burra e que era minha mãe que preparava as aulas dela. Foi dessa escola que saí para receber uma melhor educação formal.
No Pedro II, além das disciplinas habituais, tive aulas de Música, Inglês, Francês, Espanhol e Latim. Também tive Educação Moral e Cívica, mas essa não entrou para a história. Só as músicas cívicas que cantávamos no Fogo Simbólico, uma reunião de todas as unidades – o CPII tem cinco unidades – em que cantávamos “Fibra de Herói” e “Anhangá fugiu” e outras coisas de exaltação ao espírito nacional e havia competições esportivas, das quais obviamente nunca participei. Também não havia muitos negros nessa escola e meio que instintivamente comecei a namorar o Fábio, meu primeiro namorado, por quem nutro profundo carinho e respeito. Hoje ele é rastafári e mora em Cabo Verde, na África. Nossas conversas e convivência foram fundamentais para estabelecer o pensamento racial de cada um, embora tenhamos seguido caminhos diferentes.
A vida foi seguindo, cursei segundo grau técnico em Meteorologia no Cefet, o que me proporcionou ser aprovada em um concurso da Infraero e, assim, conseguir meu primeiro emprego. Para isso, tive de sair da casa dos meus pais e me mudar para São Paulo, o que fiz com a inocência de quem tem 20 anos e absolutamente não tem capacidade de prever consequências. Mas foi bom. Estou aqui até hoje, 13 anos depois. Ah, esqueci de citar que já cursava Letras na UFRJ, habilitação em Português-Literaturas, e estava no terceiro semestre quando tive que decidir sobre a mudança. Paradoxalmente, tive mais colegas negras na faculdade do que havia tido até então na vida escolar. Mas não se empolguem, eram a Tatiana e a Helena, só duas.
Em São Paulo, a questão racial ficou mais escancarada. A geografia da cidade é segregada e segregatória. Negros na periferia e brancos no centro expandido. Alguns brancos e muitos nordestinos na periferia e raramente nas mansões do Jardim Europa. E agora, bolivianos, haitianos e várias nacionalidades de africanos no centrão. Decidi mudar de curso e fazer Jornalismo porque achei que minhas perspectivas de intervenção no mundo por meio do adjunto adnominal eram bastante reduzidas. Estudei na Faculdade Cásper Líbero. Demorei um pouco para perceber que isso era uma coisa boa pois tinha um ranço carioca que dizia que só as universidades públicas prestavam. Ainda no primeiro ano, uma garota de quem eu nem era amiga disse que achava que se eu usasse meu cabelo crespo, ficaria muito mais bonita. Eu ainda alisava – alisava desde os seis anos, acho, a meu próprio pedido, pois queria ficar igual à Xuxa. Aliás, tive até festa de aniversário da Xuxa, aos 7 anos. Esqueci de citar também que eu era constantemente atormentada na infância por um sonho ou pesadelo, no qual descia um anjo do céu, com asa e tudo, e me dava uma bênção mágica e meu cabelo virava liso, no pátio da escola, diante de dezenas de crianças estupefatas.
Voltando à faculdade, um dia resolvi experimentar. Não escovei nem enrolei bobs no cabelo, lavei e o deixei secar naturalmente. Ele enrolou. Pus uma faixa pra fazer um penteado e fui pra aula. Entrei na sala e o professor interrompeu a fala por uns cinco segundos, olhou e analisou o novo look. Ele também era mestiço. E finalizou com um olhar de aprovação. A partir daquele dia, fui deixando a química sair e a negritude entrar.
Na Cásper encontrei a mesma escassez de negros a qual já estava acostumada em toda minha vida escolar. Mas houve uma conjuntura astral, um plano espiritual ou um odu dos orixás que fizeram com que, nessas condições, eu organizasse meu pensamento e minha primeira ação de militância racial. Constituímos um grupo chamado Dandaras, que editava fanzines, produzia debates e palestras e produzia um programa de rádio, tudo sobre questão racial, negritude, cultura negra. Isso foi em 2005. Foi fantástico. Não deveríamos perder nunca essa sensação de que se pode mudar o mundo. Éramos Gabi, Paola, Thaís, Karina, Lucas e os professores Chico Nunes e Pedro Vaz. Conheci muita gente, transitei por vários ambientes, ouvia era ouvida. Produzi muitas coisas das quais me orgulho e que fizeram sentido para muita gente. Contei a história dos bailes black da capital, conheci os batuques do interior, o hip-hop de Diadema, sacerdotes do candomblé e da umbanda, quilombolas, perfilei guerreiros contemporâneos e artistas, cobrei políticas públicas de ministros, secretários, deputados, senadores e vereadores. Me formei, constituí a Afroeducação com Paola Prandini, e continuamos a trabalhar na questão.
Depois de alguns anos, comecei a me sentir muito divida e a questionar meu caminho. Em todo esse tempo, tive a honra de conviver e continuar convivendo com militantes históricos, amigos e referências, como Oswaldo Faustino e Flavio Carrança, na Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial. Nunca parei. Nunca deixei de ser. Mas percebi que se eu optasse exclusivamente pela militância, eu deixaria muitas coisas de fora da minha trajetória profissional. E eu não tinha feito todo aquele sacríficio de trabalhar e estudar pra não ser repórter. Assim como em toda a minha vida escolar, também não há muitos negros nas redações, menos ainda apresentando programas ou reportagens de TV. Decidi como estratégia pessoal ocupar esse espaço. Como não seria produtivo ocupar o espaço só com a beleza negra, durante algum tempo, tive que me abster de ações sistemáticas de militância para investir na imersão no jornalismo – diário, impressionante, desbravador e cruel. Me desestruturei e me reestruturei. Hoje percebo meu desenvolvimento profissional e minhas convicções, caminhando paralelamente, como linhas que não se cruzam ou se encontram no infinito, mas me guiando na mesma direção.
Em 2015, celebro 10 anos de militância antirracista. É uma caminhada e um caminho. Axé.
**Este texto é dedica do à memória de minha querida avó Leonor Dultra do Carmo, que não gostava de negros, dizia que o marido era mulato e adorava macumba. E de meu avô José Gomes, que não conheci mas de quem sempre tive saudades, e que era um líder trabalhista e desconfiava que seus filhos haviam sido expulsos de um colégio particular e católico porque era eram negros.
Ilustração feita com exclusividade por Fernanda Garcia (a.k.a. Kissy)
Meu nome é Cinthia Maria do Carmo Gomes. Nasci no estado do Rio de Janeiro, na cidade de Duque de Caxias, de onde a geração dos meus pais é. Meus avós maternos vieram da Bahia e os paternos, de Minas Gerais. Minha avó paterna também falava de uma bisavó índia. Só sei até aí. Meu avô materno era saxofonista empregado na banda do Corpo de Bombeiros. Meu avô paterno era ferroviário. Minhas avós eram donas de casa (mas minha avó paterna se orgulhava de ter sido telefonista). Minha mãe é professora de matemática. Meu pai é formado em engenharia operacional e trabalhava em uma indústria química. Meu irmão é publicitário. E eu sou eu.
Minha consciência racial se desenvolveu junto com a fala e com as habilidades motoras, eu acho. Não me lembro de uma fase da vida em que eu não soubesse que era negra e em que não observasse e sentisse os impactos disso. Nasci em 1981. Lembro do Sarney e de que morávamos em um subúrbio carioca, Guadalupe, que já era socialmente mais ascendido que onde meus pais moravam quando solteiros. Lembro que havia uma menina loira no jardim de infância que ditava as brincadeiras. Todos a obedeciam e tinham que brincar do jeito que ela queria. As professoras a achavam linda. As professoras não me achavam linda.
Quando eu tinha 6 ou 7 anos, nos mudamos para Jacarepaguá, ainda subúrbio, mas na zona Oeste e longe da Avenida Brasil, mais uma ascensão social. Como minha mãe era professora, ela sabia quais eram as escolas públicas boas, e fomos, meu irmão e eu, estudar no Golda Meir, na emergente Barra da Tijuca. Lembro e quero registrar e agradecer todo sacrifício que meus pais fizeram para que tivéssemos uma boa qualidade de vida e uma boa educação. Meus pais nos levavam para a escola e ficavam lá esperando até a hora da saída, sem voltar pra casa, pra economizar gasolina. Durante as horas de espera, meu pai lia Guimarães Rosa e minha mãe ia à praia. Íamos bastante à praia. Até fizemos um curso de férias com salva-vidas, que ensinava as crianças a não se afogarem, a salvar os outros do afogamento e tinha exercícios e corrida e nado no mar e era legal. Brincávamos bastante com as crianças do prédio. Não foi uma infância ruim. Mas tinha umas coisinhas.
Na escola, eu era bem excluída, embora ainda não conhecesse essa palavra. Só conseguia fazer amizade com outros excluídos: outra rara menina negra, a menina que morava tão longe que já dormia de uniforme e o menino gordo. Não lembro o nome de ninguém. Mas lembro que ninguém conversava muito comigo, que eu não participava muito das brincadeiras e que tinha um menino insuportável que me chamava de petróleo. Quando chegou a idade de ir para as matinês, eu sabia que ninguém ia me chamar pra dançar porque eu era negra e essa categoria não é muito valorizada no mercado amoroso. E era isso que acontecia. Ah, eu só tinha 10 anos.
Minha mãe costumava dizer que “a gente que é mais escurinho, tem que ser o mais inteligente, o mais bem arrumado, o melhor em tudo”. Nunca me livrei do peso disso. Enfim, comecei a fazer coisas estranhas na escola. Comecei a tirar notas altíssimas. Comecei entender e a engendrar sentidos a partir do que os professores falavam. Ganhei concursos de redação e fui aprovada no Colégio Pedro II, uma escola pública federal com grande prestígio até hoje e sempre. Só havia 10 vagas no ano em que fiz a prova. E eu passei. Foi um grande feito. A diretora da escola me exibiu de sala em sala para professores e outros alunos, como um troféu da eficácia de sua administração e qualidade de ensino. Eu não me lembro disso, minha mãe que contou. Minha mãe também contou que havia uma professora negra nessa escola e que as mães dos alunos diziam que ela era burra e que era minha mãe que preparava as aulas dela. Foi dessa escola que saí para receber uma melhor educação formal.
No Pedro II, além das disciplinas habituais, tive aulas de Música, Inglês, Francês, Espanhol e Latim. Também tive Educação Moral e Cívica, mas essa não entrou para a história. Só as músicas cívicas que cantávamos no Fogo Simbólico, uma reunião de todas as unidades – o CPII tem cinco unidades – em que cantávamos “Fibra de Herói” e “Anhangá fugiu” e outras coisas de exaltação ao espírito nacional e havia competições esportivas, das quais obviamente nunca participei. Também não havia muitos negros nessa escola e meio que instintivamente comecei a namorar o Fábio, meu primeiro namorado, por quem nutro profundo carinho e respeito. Hoje ele é rastafári e mora em Cabo Verde, na África. Nossas conversas e convivência foram fundamentais para estabelecer o pensamento racial de cada um, embora tenhamos seguido caminhos diferentes.
A vida foi seguindo, cursei segundo grau técnico em Meteorologia no Cefet, o que me proporcionou ser aprovada em um concurso da Infraero e, assim, conseguir meu primeiro emprego. Para isso, tive de sair da casa dos meus pais e me mudar para São Paulo, o que fiz com a inocência de quem tem 20 anos e absolutamente não tem capacidade de prever consequências. Mas foi bom. Estou aqui até hoje, 13 anos depois. Ah, esqueci de citar que já cursava Letras na UFRJ, habilitação em Português-Literaturas, e estava no terceiro semestre quando tive que decidir sobre a mudança. Paradoxalmente, tive mais colegas negras na faculdade do que havia tido até então na vida escolar. Mas não se empolguem, eram a Tatiana e a Helena, só duas.
Em São Paulo, a questão racial ficou mais escancarada. A geografia da cidade é segregada e segregatória. Negros na periferia e brancos no centro expandido. Alguns brancos e muitos nordestinos na periferia e raramente nas mansões do Jardim Europa. E agora, bolivianos, haitianos e várias nacionalidades de africanos no centrão. Decidi mudar de curso e fazer Jornalismo porque achei que minhas perspectivas de intervenção no mundo por meio do adjunto adnominal eram bastante reduzidas. Estudei na Faculdade Cásper Líbero. Demorei um pouco para perceber que isso era uma coisa boa pois tinha um ranço carioca que dizia que só as universidades públicas prestavam. Ainda no primeiro ano, uma garota de quem eu nem era amiga disse que achava que se eu usasse meu cabelo crespo, ficaria muito mais bonita. Eu ainda alisava – alisava desde os seis anos, acho, a meu próprio pedido, pois queria ficar igual à Xuxa. Aliás, tive até festa de aniversário da Xuxa, aos 7 anos. Esqueci de citar também que eu era constantemente atormentada na infância por um sonho ou pesadelo, no qual descia um anjo do céu, com asa e tudo, e me dava uma bênção mágica e meu cabelo virava liso, no pátio da escola, diante de dezenas de crianças estupefatas.
Voltando à faculdade, um dia resolvi experimentar. Não escovei nem enrolei bobs no cabelo, lavei e o deixei secar naturalmente. Ele enrolou. Pus uma faixa pra fazer um penteado e fui pra aula. Entrei na sala e o professor interrompeu a fala por uns cinco segundos, olhou e analisou o novo look. Ele também era mestiço. E finalizou com um olhar de aprovação. A partir daquele dia, fui deixando a química sair e a negritude entrar.
Na Cásper encontrei a mesma escassez de negros a qual já estava acostumada em toda minha vida escolar. Mas houve uma conjuntura astral, um plano espiritual ou um odu dos orixás que fizeram com que, nessas condições, eu organizasse meu pensamento e minha primeira ação de militância racial. Constituímos um grupo chamado Dandaras, que editava fanzines, produzia debates e palestras e produzia um programa de rádio, tudo sobre questão racial, negritude, cultura negra. Isso foi em 2005. Foi fantástico. Não deveríamos perder nunca essa sensação de que se pode mudar o mundo. Éramos Gabi, Paola, Thaís, Karina, Lucas e os professores Chico Nunes e Pedro Vaz. Conheci muita gente, transitei por vários ambientes, ouvia era ouvida. Produzi muitas coisas das quais me orgulho e que fizeram sentido para muita gente. Contei a história dos bailes black da capital, conheci os batuques do interior, o hip-hop de Diadema, sacerdotes do candomblé e da umbanda, quilombolas, perfilei guerreiros contemporâneos e artistas, cobrei políticas públicas de ministros, secretários, deputados, senadores e vereadores. Me formei, constituí a Afroeducação com Paola Prandini, e continuamos a trabalhar na questão.
Depois de alguns anos, comecei a me sentir muito divida e a questionar meu caminho. Em todo esse tempo, tive a honra de conviver e continuar convivendo com militantes históricos, amigos e referências, como Oswaldo Faustino e Flavio Carrança, na Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial. Nunca parei. Nunca deixei de ser. Mas percebi que se eu optasse exclusivamente pela militância, eu deixaria muitas coisas de fora da minha trajetória profissional. E eu não tinha feito todo aquele sacríficio de trabalhar e estudar pra não ser repórter. Assim como em toda a minha vida escolar, também não há muitos negros nas redações, menos ainda apresentando programas ou reportagens de TV. Decidi como estratégia pessoal ocupar esse espaço. Como não seria produtivo ocupar o espaço só com a beleza negra, durante algum tempo, tive que me abster de ações sistemáticas de militância para investir na imersão no jornalismo – diário, impressionante, desbravador e cruel. Me desestruturei e me reestruturei. Hoje percebo meu desenvolvimento profissional e minhas convicções, caminhando paralelamente, como linhas que não se cruzam ou se encontram no infinito, mas me guiando na mesma direção.
Em 2015, celebro 10 anos de militância antirracista. É uma caminhada e um caminho. Axé.
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**Este texto é dedica do à memória de minha querida avó Leonor Dultra do Carmo, que não gostava de negros, dizia que o marido era mulato e adorava macumba. E de meu avô José Gomes, que não conheci mas de quem sempre tive saudades, e que era um líder trabalhista e desconfiava que seus filhos haviam sido expulsos de um colégio particular e católico porque era eram negros.
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No começo do ano ganhei um Kindle de aniversário e parti praquela loucura de baixar livros e mais livros e, dentro desse cenário, resolvi ler alguns livros que ganharam prêmios importantes em décadas passadas. Escolhi de cara “How to kill a mockingbird”, vencedor do Pulitzer em 1960, um livro que fala sobre o fim da segregação racial visto pelo olhar de uma menininha, escrito por Harper Lee.
Comecei a ler o livro sem muito procurar saber dele porque sou dessas que foge de spoiler de tudo, dessas que morre de medo de se decepcionar com o escritor ao buscar saber mais sobre ele. Fui lendo e me apaixonando, me envolvendo, até que não deu mais e resolvi procurar saber mais sobre o livro. E foi então que descobri: Harper Lee é uma mulher, uma incrível mulher.
Confesso que fiquei com vergonha, constrangida comigo mesma por ser alguém formada em Letras que nunca tinha ouvido falar nela. Mas conforme comentava sobre o livro (lembre-se que ele foi super premiado e aclamado pela crítica), percebia que meus amigos também não a conheciam.
Eu, recém-convertida ao feminismo, nunca havia parado para pensar de verdade nas escritoras mulheres. Sempre fui louca por elas, principalmente as brasileiras, tive professoras que deram cursos inteiros sobre mulheres brasileiras autoras. Lá conheci Marina Colassanti, Livia Garcia-Roza, Angélica Freitas, Beatriz Bracher, Marília Garcia, me aprofundei em Clarice Lispector, amei Lygia Fagundes Telles e Adélia Prado, acreditava que meu conhecimento sobre autoras mulheres era grande, mas inocentemente não pensava no mundo que ainda me aguardava.
Depois desse baque de ver que Harper Lee era uma mulher, que por sinal assinava assim para disfarçar ser mulher, minha cabeça explodiu. Decidi passar todo o ano de 2015 lendo autoras mulheres, consumindo mulheres, divulgando mulheres, elogiando mulheres. Nesse tempo, li mais dois livros da Angélica Freitas, um da Verônica Stigger, li muito quadrinho feminino, como o Batoquim, de Thais Ueda e Yumi Takatsuka, conheci a Alison Bechdel e surtei de amor, li Amanda Palmer, Brené Brown. Nesse tempo, descobri autoras fantásticas que, se não fosse por essa dedicação, eu jamais conheceria.
Digo tudo isso para incentivar vocês, moças e moços, a darem uma chance para essa luta de divulgar nossas escritoras brasileiras além da Clarice Lispector! Vamos buscar saber mais sobre autoras negras, como a lindíssima Chimamanda, vamos sair do eixo Europa-Estados Unidos e descobrir outras realidades. Vamos nos dedicar a divulgar esse universo incrível de autoras que batalham diariamente para serem reconhecidas no mundo literário que, ainda que não pareça, é extremamente machista e patriarcal.
Vamos consumir, devorar, mastigar, engolir tudo o que for feito por mulheres. Eu continuo firme nessa empreitada e acho que ela ainda vai se estender por anos. Não sinto como se estivesse abrindo mão de nada ao fazer essa escolha, a verdade é que expandi meu olhar e sinto a sororidade brotar a cada nova palavra. E que venham mais mulheres!
Lista de livros lidos
Angélica Freitas – Um útero é do tamanho de um punho
Amanda Palmer – A arte de pedir
Brené Brown – A coragem de ser imperfeito
Harper Lee – O sol é para todos
Thais Ueda e Yumi Takatsuka – Batoquim
Verônica Stigger – Opisanie Swiata
Chimamanda Ngozi Adichie – Americanah
Inês Pedrosa – Fazes-me falta
Angélica Freitas e Odyr – Guadalupe (HQ)
Alison Bechdel – Você é minha mãe? (HQ)
Vanessa Barbara e Fido Nesti – A máquina de Goldberg (HQ)
PS: Aceitamos sugestões e indicações. <3
*Estela Rosa é crazy cat lady, meio piadista meio poeta, ama chuva&vento e, como boa caipira, curte ouvir e contar histórias. É redatora na Cyan Design e produz conteúdo para o blog Casar é um barato.
**Ilustrações feitas com exclusividade por Fernanda Garcia
No Pedro II, além das disciplinas habituais, tive aulas de Música, Inglês, Francês, Espanhol e Latim. Também tive Educação Moral e Cívica, mas essa não entrou para a história. Só as músicas cívicas que cantávamos no Fogo Simbólico, uma reunião de todas as unidades – o CPII tem cinco unidades – em que cantávamos “Fibra de Herói” e “Anhangá fugiu” e outras coisas de exaltação ao espírito nacional e havia competições esportivas, das quais obviamente nunca participei. Também não havia muitos negros nessa escola e meio que instintivamente comecei a namorar o Fábio, meu primeiro namorado, por quem nutro profundo carinho e respeito. Hoje ele é rastafári e mora em Cabo Verde, na África. Nossas conversas e convivência foram fundamentais para estabelecer o pensamento racial de cada um, embora tenhamos seguido caminhos diferentes.
A vida foi seguindo, cursei segundo grau técnico em Meteorologia no Cefet, o que me proporcionou ser aprovada em um concurso da Infraero e, assim, conseguir meu primeiro emprego. Para isso, tive de sair da casa dos meus pais e me mudar para São Paulo, o que fiz com a inocência de quem tem 20 anos e absolutamente não tem capacidade de prever consequências. Mas foi bom. Estou aqui até hoje, 13 anos depois. Ah, esqueci de citar que já cursava Letras na UFRJ, habilitação em Português-Literaturas, e estava no terceiro semestre quando tive que decidir sobre a mudança. Paradoxalmente, tive mais colegas negras na faculdade do que havia tido até então na vida escolar. Mas não se empolguem, eram a Tatiana e a Helena, só duas.
Em São Paulo, a questão racial ficou mais escancarada. A geografia da cidade é segregada e segregatória. Negros na periferia e brancos no centro expandido. Alguns brancos e muitos nordestinos na periferia e raramente nas mansões do Jardim Europa. E agora, bolivianos, haitianos e várias nacionalidades de africanos no centrão. Decidi mudar de curso e fazer Jornalismo porque achei que minhas perspectivas de intervenção no mundo por meio do adjunto adnominal eram bastante reduzidas. Estudei na Faculdade Cásper Líbero. Demorei um pouco para perceber que isso era uma coisa boa pois tinha um ranço carioca que dizia que só as universidades públicas prestavam. Ainda no primeiro ano, uma garota de quem eu nem era amiga disse que achava que se eu usasse meu cabelo crespo, ficaria muito mais bonita. Eu ainda alisava – alisava desde os seis anos, acho, a meu próprio pedido, pois queria ficar igual à Xuxa. Aliás, tive até festa de aniversário da Xuxa, aos 7 anos. Esqueci de citar também que eu era constantemente atormentada na infância por um sonho ou pesadelo, no qual descia um anjo do céu, com asa e tudo, e me dava uma bênção mágica e meu cabelo virava liso, no pátio da escola, diante de dezenas de crianças estupefatas.
Voltando à faculdade, um dia resolvi experimentar. Não escovei nem enrolei bobs no cabelo, lavei e o deixei secar naturalmente. Ele enrolou. Pus uma faixa pra fazer um penteado e fui pra aula. Entrei na sala e o professor interrompeu a fala por uns cinco segundos, olhou e analisou o novo look. Ele também era mestiço. E finalizou com um olhar de aprovação. A partir daquele dia, fui deixando a química sair e a negritude entrar.
Na Cásper encontrei a mesma escassez de negros a qual já estava acostumada em toda minha vida escolar. Mas houve uma conjuntura astral, um plano espiritual ou um odu dos orixás que fizeram com que, nessas condições, eu organizasse meu pensamento e minha primeira ação de militância racial. Constituímos um grupo chamado Dandaras, que editava fanzines, produzia debates e palestras e produzia um programa de rádio, tudo sobre questão racial, negritude, cultura negra. Isso foi em 2005. Foi fantástico. Não deveríamos perder nunca essa sensação de que se pode mudar o mundo. Éramos Gabi, Paola, Thaís, Karina, Lucas e os professores Chico Nunes e Pedro Vaz. Conheci muita gente, transitei por vários ambientes, ouvia era ouvida. Produzi muitas coisas das quais me orgulho e que fizeram sentido para muita gente. Contei a história dos bailes black da capital, conheci os batuques do interior, o hip-hop de Diadema, sacerdotes do candomblé e da umbanda, quilombolas, perfilei guerreiros contemporâneos e artistas, cobrei políticas públicas de ministros, secretários, deputados, senadores e vereadores. Me formei, constituí a Afroeducação com Paola Prandini, e continuamos a trabalhar na questão.
Depois de alguns anos, comecei a me sentir muito divida e a questionar meu caminho. Em todo esse tempo, tive a honra de conviver e continuar convivendo com militantes históricos, amigos e referências, como Oswaldo Faustino e Flavio Carrança, na Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial. Nunca parei. Nunca deixei de ser. Mas percebi que se eu optasse exclusivamente pela militância, eu deixaria muitas coisas de fora da minha trajetória profissional. E eu não tinha feito todo aquele sacríficio de trabalhar e estudar pra não ser repórter. Assim como em toda a minha vida escolar, também não há muitos negros nas redações, menos ainda apresentando programas ou reportagens de TV. Decidi como estratégia pessoal ocupar esse espaço. Como não seria produtivo ocupar o espaço só com a beleza negra, durante algum tempo, tive que me abster de ações sistemáticas de militância para investir na imersão no jornalismo – diário, impressionante, desbravador e cruel. Me desestruturei e me reestruturei. Hoje percebo meu desenvolvimento profissional e minhas convicções, caminhando paralelamente, como linhas que não se cruzam ou se encontram no infinito, mas me guiando na mesma direção.
Em 2015, celebro 10 anos de militância antirracista. É uma caminhada e um caminho. Axé.
**Este texto é dedica do à memória de minha querida avó Leonor Dultra do Carmo, que não gostava de negros, dizia que o marido era mulato e adorava macumba. E de meu avô José Gomes, que não conheci mas de quem sempre tive saudades, e que era um líder trabalhista e desconfiava que seus filhos haviam sido expulsos de um colégio particular e católico porque era eram negros.