Respira fundo, é ansiedade

Ilustração feita com exclusividade por Thais Erre Felix.

Lá está Valentina deitadinha perto da cerca, que nem uma esfinge, observando Heineken, o labrador do vizinho. E eu fico pensando “que capacidade contemplativa têm os animais!”. Ela pode ficar ali longos minutos só olhando, aparentemente muito serena e tranks. A questão é que, no fundo, esse exercício de contemplação da Vavá na verdade não está isento, nem de uma pitadinha que seja, de angústia. Ela está ali em estado de alerta, esperando o mais sutil movimento do Heineken (esse sim tranquilão) para começar a latir, correr de um lado para outro, chamar o FBI, cavar um túnel para ir lá dar na cara dele, como se ele fosse uma grande ameaça, sabe-se lá para quem.

Assim como a Vá, é natural que nós humanos entremos em estado de alerta também. É uma questão de sobrevivência, é o que nos permite reagir e não ficar apático em situações de risco. O problema é que, diferente do que acontece com a Valentina, nossa mente pode criar falsos prenúncios e o nosso corpo reagir exageradamente a eles. Para a Vá, Heineken é uma ameaça real, externa, ele está ali pronto para atacar, é preciso ter medo. E quando o medo está só dentro de nós?

Esse medo interno, somatizado, foi o que me perturbou algumas vezes nos últimos 3 anos, e me fez descobrir que sou uma pessoa ansiosa. Mas não um tipo de ansiedade daquelas que dá um friozinho na barriga natural em qualquer situação nova, mas sim a ansiedade de uma mente que se coloca em um estado de alerta intenso causado pela torta percepção dos “Heinekens” que a vida nos coloca.

As pessoas que tem transtorno de ansiedade podem ter reações físicas diversas: dor de cabeça, dor nas costas, tontura, insônia, etc. No meu caso, eu fui pega pelo estômago: eu tinha enjoos muito fortes, respiração curta e vontade de vomitar. Tipo aquela agoniazinha de apresentar em público um trabalho na escola multiplicada por 1000.

E tudo podia começar com um medo, com uma situação que não conseguia enfrentar ou algo que me preocupava e que passava a não sair dos meus pensamentos. Quem sofre de ansiedade vive no futuro, com a cabeça a mil fazendo projeções e imaginando cenários (geralmente terríveis) para cada situação e colocando por sua vez uma carga reativa no próprio corpo para dar conta desse futuro. A mente passa a produzir sintomas perturbadores e a preocupação pode até perder o foco e ficar sem conteúdo definido, a pessoa passa a não mais saber o que está causando aquela angústia toda. E assim, acabamos perdendo o fio da meada, o controle das nossas sensações físicas, o que vai agravando a situação.

E essa é a primeira coisa que uma mente ansiosa deve fazer: colocar gotinhas de lógica nos pensamentos rebeldes e nas pressões que a mente cria.

Podemos chegar ao ponto de uma despersonalização ou desrealização, ou seja, perder a noção de quem somos e de onde estamos. Já fiquei longos minutos conversando com a minha irmã que tentava me acalmar na época que fiquei desempregada (o que engatilhou uma crise), até chegar ao ponto de me questionar quem eu era, quem era minha irmã, que história era aquela que eu estava vivendo, como se a vida fosse um filme e eu espectadora, assistindo aquela cena em que o “áudio” do que a minha irmã me falava já tinha descolado do “visual”. Um filme exibido sem sincronia nenhuma.

Sim, os sintomas não só parecem, como são terríveis, mas é algo que se pode controlar. Aprendi depois de umas boas doses de desespero. Talvez a crise que mais me ensinou tenha sido a do mestrado: no último semestre do curso, já escrevendo a dissertação, eis que meu cérebro envia a mensagem “não vai dar tempo de terminar essa porra” e meu corpo entrou em pânico, num enjoo sem fim, sucumbindo, me dando insônia, me fazendo acordar muito antes do despertador com a cabeça já entupida de raciocínios equivocados.

Eu tinha pensamentos em looping de como o prazo era curto, que me levavam a considerações mais distantes do tipo “está tudo uma bosta, o que você tá fazendo?” e uma sequência de pensamentos ruins que se repetiam obsessivamente na minha cabeça. Essa foi a única vez que achei que seria melhor procurar um psiquiatra, com o consentimento da minha psicóloga (que já tinha me alertado de um princípio de síndrome do pânico de outra vez).

Chegando na emergência, fiquei conversando pelo Whatsapp com um amigo que também tem ansiedade (tamo junto), controlando minha respiração para ver o médico. Ele me receitou Rivotril, que me fez sentir como se estivesse no céu. E vai ver é por isso que esse negócio é tão perigoso e vicia (cuidado!). Assim, acalmando os sintomas físicos, eu pude ver com mais clareza que eu não estava indo para forca, mas simplesmente tinha 5 meses para escrever um texto (um pouco longo, ok, mas não precisa chorar e vomitar para ler e entender Wittgenstein).

E antes que eu me perca nessas memórias, por que falar de tudo isso? Eu me exponho um pouco aqui, porque conversando com amigos reparei que isso é mais comum do que eu imaginava. E, pelo menos para mim, saber que eu não estava ficando louca, mas que muita gente passava por isso me ajudou. As pessoas ficam nervosas – muito ansiosas mesmo, fora de um “nervoso” padrão de sobrevivência como o da Valentina – para entrevistas de emprego, para sair em dates, quando imaginam o futuro e acham que deveriam estar fazendo outra coisa aos 25, 26, aos 30 anos. Exigem demais de si mesmas e incorporam projeções sociais nas suas vidas. Você não deveria estar casando? Você não deveria estar num emprego melhor? Você não vai ter filho? Não, calma, feras. Está tudo bem.

O importante é não morder a isca da crise.

E essa é a primeira coisa que uma mente ansiosa deve fazer: colocar gotinhas de lógica nos pensamentos rebeldes e nas pressões que a mente cria. Esse medo não é uma ameaça real, está dentro de você, é só parar para pensar um pouco. Se precisar, escreva, fale sozinha, conte para você que você pode ficar tranquila, de modo que você consiga ver o real cenário em que você está inserida.

Outro ponto importante é entender que mente e corpo estão muito ligados e isso não é só um papo zen. Eu me dei conta disso tomando Rivotril rs, mas tem uma explicação muito boa que Scott Stossel dá em seu livro “Meus Tempos de Ansiedade”, lendo sobre a fisiologia do transtorno da ansiedade enquanto ele mesmo passava por uma crise de pânico por estar no avião:

“Então é apenas um surto de atividade das minhas amígdalas cerebelales que produz aquela sensação forte e horrível que às vezes toma conta de mim? Aquelas sensações de perdição e terror não passam da corrida de neurotransmissores em meu cérebro? Isso não parece tão intimidador […]. Eu posso, portanto, impor minha vontade sobre a matéria e reduzir os sintomas físicos da ansiedade ao que eles de fato são – simples atividades fisiológicas – e viver com mais calma. Aqui estou, voando a 11500 metros de altitude, e não estou nada nervoso.” *

Beleza, não é tão fácil assim. Depois de pensar tudo isso, Scott ficou no cagaço na primeira turbulência que aconteceu. Porém, se dar conta de que aquela sensação ruim é um processo físico, ligado ao mental, também nos permite entender que uma interferência física pode acabar com uma situação momentânea de transtorno. Assim como alguns medicamentos vão lá e ~fisiologicamente falando~ potencializam uns neurotransmissores depressores do sistema nervoso central, a gente pode provocar a produção de alguns hormônios (ou até mesmo tirar o foco da atenção dos pensamentos e trazer para o corpo), por exemplo, disciplinando a respiração, meditando, praticando uma atividade física, nem que seja até mesmo sair correndo num momento de transtorno, só para movimentar esqueleto (ajuda, juro). O importante é não morder a isca da crise.

O que meus enjoos me ensinaram é que ansiedade não é frescura, é um transtorno mental que pode acometer qualquer um, a qualquer momento, e cuidar da saúde mental é tão importante quanto ir a um ginecologista.

Também faço um desabafo lembrando que não é para ter pena ou ficar cheio de dedos com receio de provocar uma crise numa pessoa ansiosa. É um distúrbio, mas a gente é capaz de controlar, migas. Apesar de que o medo de sentir medo, esse sim é muito real e exige da gente um esforço diário para não deixar as sensações ruins voltarem.

Em alguns casos, não basta que esse esforço tenha bases psicoterápicas, ou seja, não adianta só contar para seu cérebro que está tudo bem – às vezes, é preciso partir para um tratamento com remédios mesmo. Mas, para manter a paz de espírito, ainda que momentaneamente, podemos sempre segurar alguns de nossos pensamentos e não deixá-los irem tão longe.

Afinal, faz parte da nossa experiência, do nosso estar-no-mundo, a forma que compreendemos as coisas que nele se encontram (as pessoas, as situações, nossos dramas). O nosso entendimento, do que quer que seja, está cheio de sentidos possíveis (“toda compreensão está prenhe de resposta”, dizia Bakhtin). Por que então não se empenhar para entender as coisas de um jeito mais simples? É, eu sei que não é tão fácil. Mas do mesmo jeito que a Valentina fica grudada na cerca à espreita do Heineken e, do nada, pode se distrair com um calango ou deitar e dormir, a gente tem a capacidade de domar a ansiedade, de não ver o mundo só pelas lentes da tragédia e focar nos pensamentos que realmente importam.

*”Meus Tempos de Ansiedade”, Scott Stossel, página 47.
 
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Ilustração feita com exclusividade por Thais Erre Felix.

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8 de março e a agência de publicidade

8 de março e a pior época para estar em uma agência de publicidade.

Sim, mais um texto sobre o 8 de março. E talvez muita gente tenha escrito melhor que eu sobre essa relação complicada e cheia de tapas e beijos da publicidade com o Dia da Mulher. “Mais um texto sobre o 8 de março”, é o que eu sempre lamentava mentalmente e ainda lamento quando chega uma demanda para essa data na agência de publicidade. Porque campanha para o Dia da Mulher sempre foi o que eu menos gostei de fazer nesses 7 anos como redatora e eu nunca soube muito bem o porquê. A gente poderia pensar que é só mais uma data, e esse é o erro. Nenhuma data é só mais uma data. E assim, pouco a pouco, fui percebendo que esse era o (meu) incômodo com o Dia.

Um trabalho da criação quase sempre começa com a busca de referências, isto é, procurar na internet outras peças que tenham sido feitas sobre o assunto, ver imagens e, como último recurso, até dar uma olhadinha em frases do Pensador Uol sobre o assunto (quem nunca?). E aí chega final de fevereiro, tem uma dupla de criação lá pensando no Dia da Mulher e se deparando com uma penca de anúncios cor de rosa, promoções de produtos de beleza, flores e mais flores, a exaltação da beleza feminina, a delicadeza, a força da guerreira, mas que sempre vem com um sorriso, porque afinal de contas, a mulher embeleza, surpreende, encanta, traz leveza a qualquer lugar que ela está. Tudo isso seguido de um “parabéns”, que eu nunca entendi muito bem, “parabéns, você é mulher”, é isso?

Em meio a essa confusão de referências, você, que é a ~mente criativa~ da agência, tem que prestar essa homenagem, vendendo um sapato, fazer um post de Facebook relacionando o dia a compra de um carro, ou a comer sanduíche ou a uma classe de profissionais e coisas que, até você pensar muito, parecem não ter nada a ver com o que você precisa falar. Enfim. A publicidade vive dessas relações esdrúxulas, que fazem dela algo fascinante, desafiador e, às vezes também bastante problemático. Nesse sentido, cabe à criação o esforço de sempre colocar o Dia da Mulher em relação a uma marca e ao posicionamento de uma instituição. E, por vezes, o processo da agência faz o trabalho da redação parecer ser o mais árduo. Sem desmerecer o dizer da imagem, o dizer do verbo me parece muito mais difícil de ser construído nessa data. O que falar para as mulheres (e para a sociedade) nesse dia? Um parabéns basta? Trata-se mesmo de uma homenagem? Sem contar com aquele velho hábito na criação das agências, especialmente para esses jobs que a gente faz “sem amor” para ficar livre logo, em que o diretor de arte já cumpriu a parte dele de achar uma foto bonita de uma mulher sorridente, e aí cai no seu colo a seguinte demanda: “escreve um título legal que vai resolver a peça”. É só escrever. Ou seja, “é só fazer uma foto que não diz nada a você ter algum sentido”.

E é engano achar que toda criação publicitária tem glamour. Não, issaqui é varejo, mano! Talvez você tenha que anunciar umas ofertas junto, talvez passe na TV local, talvez vire só um post mesmo, talvez seja só um e-mail marketing que o “cliente machista não vai nem ler” (foi o que eu ouvi uma vez). Não estamos falando de grandes marcas ou campanhas internacionais que a gente vê em Cannes. Mas tudo bem, esse não é ponto. Não interessa o tamanho do cliente, nem o tamanho da campanha, pois isso não apaga a complicação que é criar para esse dia. Aliás, se a gente não levar a sério nossos clientes, que merda de trabalho estaríamos fazendo, né? Já que não é para ninguém ler, ver ou dar importância, para que se dedicar? Por isso, tamanho não é documento, e nada isenta a nossa responsabilidade como comunicadores, cujo trabalho molda e é moldado dialogicamente numa relação estabelecida com a sociedade. (Aliás, não foi essa mesma publicidade que hoje disfarça o consumismo e até mesmo o machismo em suas homenagens, que corroborou para colocar a mulher na cozinha nos anos 50?)

 
ladyketchup
 
E aí chega o Dia das Mulheres, como tantos outros “Dias de”, e o que a gente vê é um “esvaziamento” do significado da data.  As pessoas gostam de fazer críticas usando esse termo, “esvaziamento”… Mas acredito que o que está em questão é justamente o crescimento desse significado. Não se esvaziou nada. O significado transbordou, e continuará transbordando. Esse é o ponto.

O dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher, foi proposto na 2ª Conferência Internacional de Mulheres Socialistas em Copenhagen, em 1910, organizada por Clara Zétkin e Rosa de Luxemburgo. O objetivo da criação da data era reafirmar as resoluções da mesma conferência, realizada 7 anos antes, para debater igualdade de oportunidades para as mulheres no trabalho e na vida social e política, igualdade salarial pelo mesmo trabalho realizado, ajuda social para operárias e crianças; e a intensificação pelo voto feminino. Uma data com um objetivo muito claro, racional e político: reforçar a luta pelos direitos e a defesa da igualdade. Simples assim de entender. E dificílimo de por em prática. Tanto é que muitas das propostas não se realizaram até hoje.

Com o passar do tempo e o avançar do capitalismo, temos uma apropriação desse dia com fins de promoção do consumo, às vezes disfarçado de homenagem, às vezes só uma mensagem sem valor que reforça estereótipos mesmo. Assim, em termos de uma “compreensão coletiva” (comunitária) da data, o entendimento do Dia da Mulher passa a ser o das flores, dos presentinhos que toda mulher gosta, o dia de aproveitar uma promoção na loja, o dia de ressaltar a beleza feminina, coisa que a publicidade vem empurrando goela abaixo há anos.  A questão é que esse dia, enquanto signo (algo que não representa apenas si mesmo), não deixou de ser um dia de luta pela igualdade. Por isso, acredito que a banalização do Dia da Mulher não deva ser chamada de “esvaziamento”, pois o que se passa é justamente um crescimento semiótico, isto é, novos entendimentos do que seja o dia 8 de março são agregados a um significado inicial. E esse crescimento não para e nem apaga o “sentido original” da data. Nisso reside o incômodo: um contraste de significados. É homenagem ou é resistência? Tornou-se as duas coisas, pelo bem ou pelo mal. É uma data que permite as interpretações que nós, por nossa vez, compreendemos como machistas e banais, sem deixar de ser a data de luta.

Alguns publicitários, entretanto, preferiram empacar na homenagem mal feita. O que eles ainda não perceberam, porém e digo pela experiência em agências de pequeno e médio porte, mas acredito que o tamanho da agência não é limitante é que, aos poucos, a publicidade está mudando, porque seu público também não está pensando mais da mesma forma (ou talvez está sendo mais ouvido). O femvertising está aí, isso a gente vê nos festivais, a gente vê na TV e deveríamos estar vendo em instâncias menores e mais próximas da gente: em clientes locais, no post de facebook de um barzinho da sua cidade e mesmo no email marketing “que ninguém vai ler”. Por que não? Será que assim ele não seria lido?

As mulheres movimentam R$ 1 trilhão no mercado e 65% delas não se identificam com a maneira que são retratadas. Mas ainda assim, insistimos em pregar padrões de beleza fora da realidade, em objetificar, em ressaltar qualidades que muitos entendem como feminina, “a delicadeza”, “o encanto”, “a fragilidade”, mesmo que se fale de força, não pode faltar esse “toque feminino”, imprescindível quando se fala de mulher, não é mesmo?

E por trás disso temos o machismo arraigado nas agências de publicidade, simplesmente porque ele está fora dela também: está na vida, na nossa experiência. Não é um ~privilégio~ da nossa categoria. Mas é delicado estar dentro das agências, pelo papel que a gente cumpre, pelo imaginário que a gente alimenta, pelas possíveis formas de se entender e entender o próximo e a nossa relação com ele que também é construída por anúncios, vídeos, spots, o e-mail marketing relegado e o post de Facebook que quase ninguém viu.

Então você é mulher e está lá fazendo seu trabalho nessa agência. Aí sendo mulher, você só pode ser a atendimento gostosona que só se deu bem porque conquistou os clientes com a sua beleza (competência está fora de questão). Mas aí você resolve ser da criação, como poucas resolvem ser. Então pode ter certeza que vai ouvir muita merda. Se descobrirem que você se identifica com ideias feministas, vai ouvir piadinhas machistas em dobro, porque vão querer irritar você a qualquer custo. Vão falar tanta coisa. Vão querer que você fique tão casca grossa a ponto de sair menino de uma reunião, como já me disseram (porque, vocês sabem, né? Mulher não fala palavrão e nem fala de sexo).

 

 
E aí voltamos mais uma vez ao Dia da Mulher e, às vezes, é um diretor de criação que pensa assim que vai aprovar sua ideia e talvez, aquele texto “de luta” que você escreveu não vai nem sair da agência para passar nas vistas do cliente, porque parou nesse diretor. Mas , às vezes você vai contar com a sorte de ter um diretor que respeita a sua opinião. E com mais sorte ainda, você vai ter um diretor que vai deixar você livre para falar desta data porque você, como mulher, talvez seja a pessoa mais indicada e de total confiança para falar o que outras mulheres querem ouvir (ainda que seja muito difícil). E olha, se você gastar toda a sorte da sua vida, você vai ter uma diretora de criação, o que infelizmente é raro, mas não por falta de capacidade, talvez por falta de oportunidade mesmo.

Nesse sentido, é preciso que o “semancol” venha de dentro da agência. Tanto em um movimento de confiar na competência e respeitar as mina que estão lá dentro criando, atendendo, fazendo plano de mídia, recepcionando ou o que for, quanto no sentido de propor aos clientes que peguem mais leve com as homenagens e compreendam que trata-se de amplificar vozes silenciadas cotidianamente. É um dia para reforçar uma luta que se dá nos outros 364 dias do ano. Estamos falando de igualdade salarial, de representatividade na política, no setor privado, no cinema,  de mulheres que morrem pela violência doméstica, de estupro e fazendo aborto clandestino. A lista é enorme e já ajudaria se o seu cliente desse visibilidade aos diversos grupos de mulheres (negras, trans, lésbicas, idosas, só para citar algumas) que a sociedade mal vê, pelo menos um diazinho no ano.

Redatoras e diretoras de arte, uni-vos. Não deixem de tentar virar o jogo, ressignificar. Não temos que tornar a mensagem sensível não: ela é racional, política, objetiva. Se isso for passado de uma forma interessante e convincente, melhor, afinal, esse é nosso trabalho. O 8 de março pode ser um dia menos sofrido para quem cria nesse conflito de valores e sentidos e, quem sabe,  a mensagem de luta pode se tornar popular e relevante novamente.

 
Ilustração feita com exclusividade por Fernanda Garcia (a.k.a. Kissy)
 

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