2015 não foi para iniciantes. Mas, se para muitos 2015 foi um ano ruim, para mim, ele foi todo aprendizagem. De um verão abafado em que precisei confrontar minha falta de saídas até quebrar umas paredes a 40 dias destinados a só ser feliz, não teve tempo para folga. Esse ano me exigiu mudanças, dúvidas e crises. Mas agora que chega ao fim, me encontro comigo mesma em uma versão mais forte e tranquila. Esse ano eu escolhi esperar estar sozinha, uma escolha com muitos momentos de hesitação e carência, evidentemente (já escrevi sobre isso aqui na Ovelha). De início, não pareceu escolha, mas simplesmente falta de tempo, paciência e disposição. Algumas vezes também estive sozinha por total falta de sorte, dedo podre e outros fracassos. No entanto, depois de ter percebido que, se eu quiser, ainda posso me apaixonar – com todos os erros, inseguranças e delícias que isso implica – entendi o que realmente rolou durante esses doze meses.
O primeiro livro de 2015 foi Garota Exemplar, da Gilian Flynn. Essa história que me desestabilizou em janeiro retorna até hoje quando me pego medindo minhas palavras no Whatsapp ou pensando se agora que ele sabe que eu sou insegura vai deixar de me achar tão legal. Garota Exemplar é um livro polêmico e, eu diria, imperfeito, mas, meu deus, que impacto ele pode ter na vida de uma mulher. Durante o período em que trabalhei em uma livraria, chegava a me arrepiar quando o indicava a uma garota de 15 anos ou uma senhora de 50. Porque todas nós passamos anos e anos perdendo nosso tempo, felicidade e potencial enquanto nos regulamos pelo olhar masculino. Esse olhar que não se encontra somente em indivíduos, mas se faz presente em obras culturais, expectativas românticas e superego. Nenhum cara precisa me pressionar para ser uma Garota Legal, porque essa cobrança já está (estava?) internalizada. Essa foi uma das primeiras coisas que entendi esse ano e teve um impacto devastador sobre quem eu fui e quem eu decidi me tornar.
O segundo livro do ano foi o maravilhoso Bad Feminist da Roxane Gay. Essa coletânea de ensaios – que infelizmente ainda não foi traduzido para o português – me fez repensar meu engajamento feminista e, principalmente, entender melhor o impacto da cultura misógina e racista produzida por nossa sociedade ocidental. Meu artigo favorito desse livro é o The trouble with Prine Chaming, or he who trespassed against us (traduzi uma versão resumida desse ensaio para o blog do Livre de Abuso). Se Garota Exemplar me fez questionar os perigos de construir uma persona em busca de validação amorosa, Roxane Gay me fez, enfim, admitir que muitas das minhas expectativas românticas eram, na verdade, abusivas. A estrutura de um conto de fadas é a de uma narrativa na qual uma mulher incrível, praticamente uma heroína (pensa na rebeldia da Ariel, o altruísmo da Branca de Neve e a curiosidade da Bela), aceita sofrer todo tipo de horror (ou castigo) para encontrar seu Príncipe Encantado, seu verdadeiro amor (agora pensa no que você realmente lembra dos príncipes dessas histórias além de serem homens brancos e ricos?). Basicamente, a gente aprende desde pequena a rimar amor e dor, a aceitar que o caminho para ser amada deve ser difícil. Sem contar no quanto é recorrente a ideia de uma mulher ajudar um homem a superar algum tormento até que ele possa se tornar um homem melhor. Sabe aquele ditado machista, “por trás de um grande homem tem uma grande mulher”? Pois é, tatuado no nosso inconsciente.
Para não dizer que essas referências são muito ultrapassadas, vou usar como exemplo meu filme favorito durante a adolescência, Almost Famous. A história desse filme é sobre garotos que querem se tornar grandes homens e, para isso, contam com a ajuda de umas musas. Ajuda que evidentemente está em segundo plano, que serve quase como uma decoração, porque, no fim, o que realmente transforma esses garotos é a eterna conversa que eles mantêm fechada entre eles. Nessa conversa, o papel de uma garota é trazer uma cerveja, mandar um beijo, dançar, ser essa coisa bonita, leve, independente e solitária que é uma Garota Legal. O grande mantra de Penny Lane, a musa do filme, é:
I always tell the girls never take it seriously, if you never take it seriously you never get hurt, if you never get hurt you always have fun, and if you ever get lonely just go to the record store and visit your friends.
(Eu sempre falo para as garotas não levarem á sério, porque se você nunca leva à sério, você nunca se machuca, e, se você nunca se machuca, você sempre se diverte e se eventualmente se sente solitária, apenas vá até uma loja de discos e visite seus amigos).
Um mantra que diz perfeitamente o que o olhar masculino espera de nós. Não é à toa que Almost Famous é do mesmo diretor de Elizabethtown, filme que inspirou o conceito de maniac pixie dream girl (para entender melhor esse termo recomendo esse texto aqui).
O que essas histórias me ensinaram enquanto eu crescia? Me ensinaram a aceitar uma posição limitada. Me ensinaram que para ser amada, era preciso não me levar tão à sério assim. Me ensinaram ouvir o que os garotos diziam, deixar eles conversarem, aprender com eles, jamais ensinar, só inspirar um pouquinho. Me ensinaram a aceitar meu papel secundário, ser uma bengala, uma inspiração, uma referência na grande história que pertencia somente a eles. Me ensinaram a um dia suspirar em paz porque cumpri minha missão na terra e ajudei um garoto a se transformar em um Grande Homem.
Acontece que eu sempre gostei muito de falar e me intrometer e perder o controle. Acontece que, apesar de todos os meus esforços, não conseguia ser uma Garota Legal. Afinal, quem de fato consegue? Fora dos produtos culturais, nós, mulheres, existimos em corpos e desejos reais. Nenhuma de nós se limita a essas personas, ainda assim acreditamos, ratificamos e nos dividimos a partir desses mitos. Como prova, volto a minha adolescência, alguém aí já parou para analisar a letra de Sk8er Boy? Aos 13 anos eu repetia as palavras cantadas por Avril Lavigne com muita convicção:
Sorry girl, but you missed out
Well, tough luck, that boy’s mine now
We are more than just good friends
This is how the story ends
Too bad that you couldn’t see
See the man that boy could be
There is more than meets the eye
I see the soul that has in inside
(Desculpe, garota, mas você saiu perdendo
Bem, foi mal aí, aquele garoto agora é meu
Somos mais do que apenas bons amigos
É assim que a história termina
É uma pena que você não pôde ver
Ver o homem que aquele garoto poderia ser
Há mais do que aquilo que se percebe à primeira vista
Vejo a alma que está por dentro)
Atire a primeira pedra quem nunca se perguntou “por que ele tá com essa garota sem graça/feia/burra?”.
Terceira aprendizagem do ano: O caminho da segurança e do amor próprio inevitavelmente cruza com o da sororidade.
Mais para o final do ano, li Os Casos de Amor de Nathaniel P. de Adelle Waldman, livro que me deixou perturbada de um jeito perigoso. A história que foca em um preciso exemplo de cara meio intelectual meio de esquerda quase me destruiu, porque enxerguei ali todo o abuso psicológico que sofri nos últimos anos. Nathaniel P. é o nosso #amigo secreto. Ele é aquele cara que é pró feminismo mas que não hesita em ignorar uma mulher em uma conversa. Aquele cara que passa horas debatendo sobre política com um amigo próximo, mas que a gente sabe muito bem que o que está em jogo naquela conversa não é a revolução, mas um duelo de egos. Aquele cara que adora mulheres independentes e confiantes e faz questão de repetir isso sempre. Aquele cara capaz de transformar essas mesmas mulheres em locas, histéricas e inseguras. Todo mundo conhece esses caras. Eles foram meus amigos, confidentes, amores, peguetes e inspiração. Confesso o enjoo que esse livro me provocou foi suficiente para eu acreditar que nunca mais poderia me envolver com outro homem, porque, depois de tantos anos de abusos velados, não sei se aguentaria o risco de me ver novamente nesse tipo de dinâmica.
Então vieram os 40 dias em que minha única meta era aproveitar da melhor forma possível cada hora. Aí, depois de anos julgando quem gostava de uma história tão limitada escrita por uma mulher privilegiada, eu resolvi ler Comer, rezar e amar da Elizabeth Gilbert. Poderia dizer que foi um desses prazeres proibidos, mas se tem algo que esse livro me despertou foi a necessidade de se livrar da culpa. Gilbert falha em muitos aspectos, principalmente em reconhecer seus privilégios, mas em sua incesante necesidade de justificar sua escolha por uma vida mais prazerosa, ela acerta em um de nossos pontos frágeis: Por que, afinal, é tão difícil para uma mulher admitir que só quer fazer algo que lhe dá prazer sem se explicar ou se remoer em culpa? Resolvi tentar, pelo menos por um tempo, desfrutar meus dias livre de argumentos. Nesse momento em que tudo era novo, entendi o que a Babi (Bárbara Carneiro para os não tão íntimos), me disse em um áudio há alguns meses: A performance pode ser escolha. Os flertes, como as máscaras, podem ter a leveza de qualquer criação. Desistir dos roteiros, sim, mas jamais do risco de se abrir. Enfim, me sentia curada e forte o suficiente pra mais do que entender, viver Botar as asinhas de fora, sim.
No avião voltando para casa, assisti o The end of the tour, filme que conta sobre os dias em que o jornalista David Lipsky acompanhou David Foster Wallace na turnê de seu livro Graça Infinita. O primeiro instinto é gostar do filme, porque o tema é interessante, as conversas são boas e o final te deixa com uma sensação de “puxa, como a vida pode ser intensa”. Ainda assim, sei lá, alguma coisa em mim só sentiu um “nhé”. Demorou pra cair a ficha, mas esse filme em sua eterna conversa entre dois caras explica muito bem porque todas essas aprendizagens não são só sobre relacionamentos, mas, principalmente, sobre a mulher que escolhi ser.
Não é questão de falta de representatividade feminina ou teste de Bechdel – e eu sinceramente não aguento mais escrever sobre isso ainda que seja importante. É que eu não quero mais me esforçar para acompanhar uma conversa que em momento algum é sobre mim. Eu não aceito mais o papel que me é possível. Não faz sentido compactuar com um jogo em que as palavras, as peças e a finalidade já estão determinadas. É melhor esquecer isso, virar a mesa, iniciar uma nova partida de um outro ponto. Foi por isso que criei, junto com minha melhor amiga Natasha Ísis, a newsletter Mulheres que escrevem, porque precisava iniciar uma outra conversa.
Gostar de garotos e escrever nunca foi fácil – mesmo que tantas vezes um gesto empurre o outro. Em 2015, ano que a palavra “fácil” foi riscada do nosso vocabulário, aprendi a operar essas ações de outra perspectiva.
A última aprendizagem vem desde o início: Me quebrar toda para sozinha – com o apoio de diversas mulheres – me refazer inteira.
Ilustrações feitas com exclusividade por Janis Souza (Tumblr / Instagram)
2015 não foi para iniciantes. Mas, se para muitos 2015 foi um ano ruim, para mim, ele foi todo aprendizagem. De um verão abafado em que precisei confrontar minha falta de saídas até quebrar umas paredes a 40 dias destinados a só ser feliz, não teve tempo para folga. Esse ano me exigiu mudanças, dúvidas e crises. Mas agora que chega ao fim, me encontro comigo mesma em uma versão mais forte e tranquila. Esse ano eu escolhi esperar estar sozinha, uma escolha com muitos momentos de hesitação e carência, evidentemente (já escrevi sobre isso aqui na Ovelha). De início, não pareceu escolha, mas simplesmente falta de tempo, paciência e disposição. Algumas vezes também estive sozinha por total falta de sorte, dedo podre e outros fracassos. No entanto, depois de ter percebido que, se eu quiser, ainda posso me apaixonar – com todos os erros, inseguranças e delícias que isso implica – entendi o que realmente rolou durante esses doze meses.
O primeiro livro de 2015 foi Garota Exemplar, da Gilian Flynn. Essa história que me desestabilizou em janeiro retorna até hoje quando me pego medindo minhas palavras no Whatsapp ou pensando se agora que ele sabe que eu sou insegura vai deixar de me achar tão legal. Garota Exemplar é um livro polêmico e, eu diria, imperfeito, mas, meu deus, que impacto ele pode ter na vida de uma mulher. Durante o período em que trabalhei em uma livraria, chegava a me arrepiar quando o indicava a uma garota de 15 anos ou uma senhora de 50. Porque todas nós passamos anos e anos perdendo nosso tempo, felicidade e potencial enquanto nos regulamos pelo olhar masculino. Esse olhar que não se encontra somente em indivíduos, mas se faz presente em obras culturais, expectativas românticas e superego. Nenhum cara precisa me pressionar para ser uma Garota Legal, porque essa cobrança já está (estava?) internalizada. Essa foi uma das primeiras coisas que entendi esse ano e teve um impacto devastador sobre quem eu fui e quem eu decidi me tornar.
O segundo livro do ano foi o maravilhoso Bad Feminist da Roxane Gay. Essa coletânea de ensaios – que infelizmente ainda não foi traduzido para o português – me fez repensar meu engajamento feminista e, principalmente, entender melhor o impacto da cultura misógina e racista produzida por nossa sociedade ocidental. Meu artigo favorito desse livro é o The trouble with Prine Chaming, or he who trespassed against us (traduzi uma versão resumida desse ensaio para o blog do Livre de Abuso). Se Garota Exemplar me fez questionar os perigos de construir uma persona em busca de validação amorosa, Roxane Gay me fez, enfim, admitir que muitas das minhas expectativas românticas eram, na verdade, abusivas. A estrutura de um conto de fadas é a de uma narrativa na qual uma mulher incrível, praticamente uma heroína (pensa na rebeldia da Ariel, o altruísmo da Branca de Neve e a curiosidade da Bela), aceita sofrer todo tipo de horror (ou castigo) para encontrar seu Príncipe Encantado, seu verdadeiro amor (agora pensa no que você realmente lembra dos príncipes dessas histórias além de serem homens brancos e ricos?). Basicamente, a gente aprende desde pequena a rimar amor e dor, a aceitar que o caminho para ser amada deve ser difícil. Sem contar no quanto é recorrente a ideia de uma mulher ajudar um homem a superar algum tormento até que ele possa se tornar um homem melhor. Sabe aquele ditado machista, “por trás de um grande homem tem uma grande mulher”? Pois é, tatuado no nosso inconsciente.
Para não dizer que essas referências são muito ultrapassadas, vou usar como exemplo meu filme favorito durante a adolescência, Almost Famous. A história desse filme é sobre garotos que querem se tornar grandes homens e, para isso, contam com a ajuda de umas musas. Ajuda que evidentemente está em segundo plano, que serve quase como uma decoração, porque, no fim, o que realmente transforma esses garotos é a eterna conversa que eles mantêm fechada entre eles. Nessa conversa, o papel de uma garota é trazer uma cerveja, mandar um beijo, dançar, ser essa coisa bonita, leve, independente e solitária que é uma Garota Legal. O grande mantra de Penny Lane, a musa do filme, é:
I always tell the girls never take it seriously, if you never take it seriously you never get hurt, if you never get hurt you always have fun, and if you ever get lonely just go to the record store and visit your friends.
(Eu sempre falo para as garotas não levarem á sério, porque se você nunca leva à sério, você nunca se machuca, e, se você nunca se machuca, você sempre se diverte e se eventualmente se sente solitária, apenas vá até uma loja de discos e visite seus amigos).
Um mantra que diz perfeitamente o que o olhar masculino espera de nós. Não é à toa que Almost Famous é do mesmo diretor de Elizabethtown, filme que inspirou o conceito de maniac pixie dream girl (para entender melhor esse termo recomendo esse texto aqui).
O que essas histórias me ensinaram enquanto eu crescia? Me ensinaram a aceitar uma posição limitada. Me ensinaram que para ser amada, era preciso não me levar tão à sério assim. Me ensinaram ouvir o que os garotos diziam, deixar eles conversarem, aprender com eles, jamais ensinar, só inspirar um pouquinho. Me ensinaram a aceitar meu papel secundário, ser uma bengala, uma inspiração, uma referência na grande história que pertencia somente a eles. Me ensinaram a um dia suspirar em paz porque cumpri minha missão na terra e ajudei um garoto a se transformar em um Grande Homem.
Acontece que eu sempre gostei muito de falar e me intrometer e perder o controle. Acontece que, apesar de todos os meus esforços, não conseguia ser uma Garota Legal. Afinal, quem de fato consegue? Fora dos produtos culturais, nós, mulheres, existimos em corpos e desejos reais. Nenhuma de nós se limita a essas personas, ainda assim acreditamos, ratificamos e nos dividimos a partir desses mitos. Como prova, volto a minha adolescência, alguém aí já parou para analisar a letra de Sk8er Boy? Aos 13 anos eu repetia as palavras cantadas por Avril Lavigne com muita convicção:
Sorry girl, but you missed out
Well, tough luck, that boy’s mine now
We are more than just good friends
This is how the story ends
Too bad that you couldn’t see
See the man that boy could be
There is more than meets the eye
I see the soul that has in inside
(Desculpe, garota, mas você saiu perdendo
Bem, foi mal aí, aquele garoto agora é meu
Somos mais do que apenas bons amigos
É assim que a história termina
É uma pena que você não pôde ver
Ver o homem que aquele garoto poderia ser
Há mais do que aquilo que se percebe à primeira vista
Vejo a alma que está por dentro)
Atire a primeira pedra quem nunca se perguntou “por que ele tá com essa garota sem graça/feia/burra?”.
Terceira aprendizagem do ano: O caminho da segurança e do amor próprio inevitavelmente cruza com o da sororidade.
Mais para o final do ano, li Os Casos de Amor de Nathaniel P. de Adelle Waldman, livro que me deixou perturbada de um jeito perigoso. A história que foca em um preciso exemplo de cara meio intelectual meio de esquerda quase me destruiu, porque enxerguei ali todo o abuso psicológico que sofri nos últimos anos. Nathaniel P. é o nosso #amigo secreto. Ele é aquele cara que é pró feminismo mas que não hesita em ignorar uma mulher em uma conversa. Aquele cara que passa horas debatendo sobre política com um amigo próximo, mas que a gente sabe muito bem que o que está em jogo naquela conversa não é a revolução, mas um duelo de egos. Aquele cara que adora mulheres independentes e confiantes e faz questão de repetir isso sempre. Aquele cara capaz de transformar essas mesmas mulheres em locas, histéricas e inseguras. Todo mundo conhece esses caras. Eles foram meus amigos, confidentes, amores, peguetes e inspiração. Confesso o enjoo que esse livro me provocou foi suficiente para eu acreditar que nunca mais poderia me envolver com outro homem, porque, depois de tantos anos de abusos velados, não sei se aguentaria o risco de me ver novamente nesse tipo de dinâmica.
Então vieram os 40 dias em que minha única meta era aproveitar da melhor forma possível cada hora. Aí, depois de anos julgando quem gostava de uma história tão limitada escrita por uma mulher privilegiada, eu resolvi ler Comer, rezar e amar da Elizabeth Gilbert. Poderia dizer que foi um desses prazeres proibidos, mas se tem algo que esse livro me despertou foi a necessidade de se livrar da culpa. Gilbert falha em muitos aspectos, principalmente em reconhecer seus privilégios, mas em sua incesante necesidade de justificar sua escolha por uma vida mais prazerosa, ela acerta em um de nossos pontos frágeis: Por que, afinal, é tão difícil para uma mulher admitir que só quer fazer algo que lhe dá prazer sem se explicar ou se remoer em culpa? Resolvi tentar, pelo menos por um tempo, desfrutar meus dias livre de argumentos. Nesse momento em que tudo era novo, entendi o que a Babi (Bárbara Carneiro para os não tão íntimos), me disse em um áudio há alguns meses: A performance pode ser escolha. Os flertes, como as máscaras, podem ter a leveza de qualquer criação. Desistir dos roteiros, sim, mas jamais do risco de se abrir. Enfim, me sentia curada e forte o suficiente pra mais do que entender, viver Botar as asinhas de fora, sim.
No avião voltando para casa, assisti o The end of the tour, filme que conta sobre os dias em que o jornalista David Lipsky acompanhou David Foster Wallace na turnê de seu livro Graça Infinita. O primeiro instinto é gostar do filme, porque o tema é interessante, as conversas são boas e o final te deixa com uma sensação de “puxa, como a vida pode ser intensa”. Ainda assim, sei lá, alguma coisa em mim só sentiu um “nhé”. Demorou pra cair a ficha, mas esse filme em sua eterna conversa entre dois caras explica muito bem porque todas essas aprendizagens não são só sobre relacionamentos, mas, principalmente, sobre a mulher que escolhi ser.
Não é questão de falta de representatividade feminina ou teste de Bechdel – e eu sinceramente não aguento mais escrever sobre isso ainda que seja importante. É que eu não quero mais me esforçar para acompanhar uma conversa que em momento algum é sobre mim. Eu não aceito mais o papel que me é possível. Não faz sentido compactuar com um jogo em que as palavras, as peças e a finalidade já estão determinadas. É melhor esquecer isso, virar a mesa, iniciar uma nova partida de um outro ponto. Foi por isso que criei, junto com minha melhor amiga Natasha Ísis, a newsletter Mulheres que escrevem, porque precisava iniciar uma outra conversa.
Gostar de garotos e escrever nunca foi fácil – mesmo que tantas vezes um gesto empurre o outro. Em 2015, ano que a palavra “fácil” foi riscada do nosso vocabulário, aprendi a operar essas ações de outra perspectiva.
A última aprendizagem vem desde o início: Me quebrar toda para sozinha – com o apoio de diversas mulheres – me refazer inteira.
Ilustrações feitas com exclusividade por Janis Souza (Tumblr / Instagram)
Ilustração feita com exclusividade por Janis Souza
2015 não foi para iniciantes. Mas, se para muitos 2015 foi um ano ruim, para mim, ele foi todo aprendizagem. De um verão abafado em que precisei confrontar minha falta de saídas até quebrar umas paredes a 40 dias destinados a só ser feliz, não teve tempo para folga. Esse ano me exigiu mudanças, dúvidas e crises. Mas agora que chega ao fim, me encontro comigo mesma em uma versão mais forte e tranquila. Esse ano eu escolhi esperar estar sozinha, uma escolha com muitos momentos de hesitação e carência, evidentemente (já escrevi sobre isso aqui na Ovelha). De início, não pareceu escolha, mas simplesmente falta de tempo, paciência e disposição. Algumas vezes também estive sozinha por total falta de sorte, dedo podre e outros fracassos. No entanto, depois de ter percebido que, se eu quiser, ainda posso me apaixonar – com todos os erros, inseguranças e delícias que isso implica – entendi o que realmente rolou durante esses doze meses.
O primeiro livro de 2015 foi Garota Exemplar, da Gilian Flynn. Essa história que me desestabilizou em janeiro retorna até hoje quando me pego medindo minhas palavras no Whatsapp ou pensando se agora que ele sabe que eu sou insegura vai deixar de me achar tão legal. Garota Exemplar é um livro polêmico e, eu diria, imperfeito, mas, meu deus, que impacto ele pode ter na vida de uma mulher. Durante o período em que trabalhei em uma livraria, chegava a me arrepiar quando o indicava a uma garota de 15 anos ou uma senhora de 50. Porque todas nós passamos anos e anos perdendo nosso tempo, felicidade e potencial enquanto nos regulamos pelo olhar masculino. Esse olhar que não se encontra somente em indivíduos, mas se faz presente em obras culturais, expectativas românticas e superego. Nenhum cara precisa me pressionar para ser uma Garota Legal, porque essa cobrança já está (estava?) internalizada. Essa foi uma das primeiras coisas que entendi esse ano e teve um impacto devastador sobre quem eu fui e quem eu decidi me tornar.
O segundo livro do ano foi o maravilhoso Bad Feminist da Roxane Gay. Essa coletânea de ensaios – que infelizmente ainda não foi traduzido para o português – me fez repensar meu engajamento feminista e, principalmente, entender melhor o impacto da cultura misógina e racista produzida por nossa sociedade ocidental. Meu artigo favorito desse livro é o The trouble with Prine Chaming, or he who trespassed against us (traduzi uma versão resumida desse ensaio para o blog do Livre de Abuso). Se Garota Exemplar me fez questionar os perigos de construir uma persona em busca de validação amorosa, Roxane Gay me fez, enfim, admitir que muitas das minhas expectativas românticas eram, na verdade, abusivas. A estrutura de um conto de fadas é a de uma narrativa na qual uma mulher incrível, praticamente uma heroína (pensa na rebeldia da Ariel, o altruísmo da Branca de Neve e a curiosidade da Bela), aceita sofrer todo tipo de horror (ou castigo) para encontrar seu Príncipe Encantado, seu verdadeiro amor (agora pensa no que você realmente lembra dos príncipes dessas histórias além de serem homens brancos e ricos?). Basicamente, a gente aprende desde pequena a rimar amor e dor, a aceitar que o caminho para ser amada deve ser difícil. Sem contar no quanto é recorrente a ideia de uma mulher ajudar um homem a superar algum tormento até que ele possa se tornar um homem melhor. Sabe aquele ditado machista, “por trás de um grande homem tem uma grande mulher”? Pois é, tatuado no nosso inconsciente.
Para não dizer que essas referências são muito ultrapassadas, vou usar como exemplo meu filme favorito durante a adolescência, Almost Famous. A história desse filme é sobre garotos que querem se tornar grandes homens e, para isso, contam com a ajuda de umas musas. Ajuda que evidentemente está em segundo plano, que serve quase como uma decoração, porque, no fim, o que realmente transforma esses garotos é a eterna conversa que eles mantêm fechada entre eles. Nessa conversa, o papel de uma garota é trazer uma cerveja, mandar um beijo, dançar, ser essa coisa bonita, leve, independente e solitária que é uma Garota Legal. O grande mantra de Penny Lane, a musa do filme, é:
I always tell the girls never take it seriously, if you never take it seriously you never get hurt, if you never get hurt you always have fun, and if you ever get lonely just go to the record store and visit your friends.
(Eu sempre falo para as garotas não levarem á sério, porque se você nunca leva à sério, você nunca se machuca, e, se você nunca se machuca, você sempre se diverte e se eventualmente se sente solitária, apenas vá até uma loja de discos e visite seus amigos).
Um mantra que diz perfeitamente o que o olhar masculino espera de nós. Não é à toa que Almost Famous é do mesmo diretor de Elizabethtown, filme que inspirou o conceito de maniac pixie dream girl (para entender melhor esse termo recomendo esse texto aqui).
O que essas histórias me ensinaram enquanto eu crescia? Me ensinaram a aceitar uma posição limitada. Me ensinaram que para ser amada, era preciso não me levar tão à sério assim. Me ensinaram ouvir o que os garotos diziam, deixar eles conversarem, aprender com eles, jamais ensinar, só inspirar um pouquinho. Me ensinaram a aceitar meu papel secundário, ser uma bengala, uma inspiração, uma referência na grande história que pertencia somente a eles. Me ensinaram a um dia suspirar em paz porque cumpri minha missão na terra e ajudei um garoto a se transformar em um Grande Homem.
Acontece que eu sempre gostei muito de falar e me intrometer e perder o controle. Acontece que, apesar de todos os meus esforços, não conseguia ser uma Garota Legal. Afinal, quem de fato consegue? Fora dos produtos culturais, nós, mulheres, existimos em corpos e desejos reais. Nenhuma de nós se limita a essas personas, ainda assim acreditamos, ratificamos e nos dividimos a partir desses mitos. Como prova, volto a minha adolescência, alguém aí já parou para analisar a letra de Sk8er Boy? Aos 13 anos eu repetia as palavras cantadas por Avril Lavigne com muita convicção:
Sorry girl, but you missed out
Well, tough luck, that boy’s mine now
We are more than just good friends
This is how the story ends
Too bad that you couldn’t see
See the man that boy could be
There is more than meets the eye
I see the soul that has in inside
(Desculpe, garota, mas você saiu perdendo
Bem, foi mal aí, aquele garoto agora é meu
Somos mais do que apenas bons amigos
É assim que a história termina
É uma pena que você não pôde ver
Ver o homem que aquele garoto poderia ser
Há mais do que aquilo que se percebe à primeira vista
Vejo a alma que está por dentro)
Atire a primeira pedra quem nunca se perguntou “por que ele tá com essa garota sem graça/feia/burra?”.
[caption id="attachment_8258" align="aligncenter" width="1024"] Ilustração feita com exclusividade por Janis Souza[/caption]
Terceira aprendizagem do ano: O caminho da segurança e do amor próprio inevitavelmente cruza com o da sororidade.
Mais para o final do ano, li Os Casos de Amor de Nathaniel P. de Adelle Waldman, livro que me deixou perturbada de um jeito perigoso. A história que foca em um preciso exemplo de cara meio intelectual meio de esquerda quase me destruiu, porque enxerguei ali todo o abuso psicológico que sofri nos últimos anos. Nathaniel P. é o nosso #amigo secreto. Ele é aquele cara que é pró feminismo mas que não hesita em ignorar uma mulher em uma conversa. Aquele cara que passa horas debatendo sobre política com um amigo próximo, mas que a gente sabe muito bem que o que está em jogo naquela conversa não é a revolução, mas um duelo de egos. Aquele cara que adora mulheres independentes e confiantes e faz questão de repetir isso sempre. Aquele cara capaz de transformar essas mesmas mulheres em locas, histéricas e inseguras. Todo mundo conhece esses caras. Eles foram meus amigos, confidentes, amores, peguetes e inspiração. Confesso o enjoo que esse livro me provocou foi suficiente para eu acreditar que nunca mais poderia me envolver com outro homem, porque, depois de tantos anos de abusos velados, não sei se aguentaria o risco de me ver novamente nesse tipo de dinâmica.
Então vieram os 40 dias em que minha única meta era aproveitar da melhor forma possível cada hora. Aí, depois de anos julgando quem gostava de uma história tão limitada escrita por uma mulher privilegiada, eu resolvi ler Comer, rezar e amar da Elizabeth Gilbert. Poderia dizer que foi um desses prazeres proibidos, mas se tem algo que esse livro me despertou foi a necessidade de se livrar da culpa. Gilbert falha em muitos aspectos, principalmente em reconhecer seus privilégios, mas em sua incesante necesidade de justificar sua escolha por uma vida mais prazerosa, ela acerta em um de nossos pontos frágeis: Por que, afinal, é tão difícil para uma mulher admitir que só quer fazer algo que lhe dá prazer sem se explicar ou se remoer em culpa? Resolvi tentar, pelo menos por um tempo, desfrutar meus dias livre de argumentos. Nesse momento em que tudo era novo, entendi o que a Babi (Bárbara Carneiro para os não tão íntimos), me disse em um áudio há alguns meses: A performance pode ser escolha. Os flertes, como as máscaras, podem ter a leveza de qualquer criação. Desistir dos roteiros, sim, mas jamais do risco de se abrir. Enfim, me sentia curada e forte o suficiente pra mais do que entender, viver Botar as asinhas de fora, sim.
No avião voltando para casa, assisti o The end of the tour, filme que conta sobre os dias em que o jornalista David Lipsky acompanhou David Foster Wallace na turnê de seu livro Graça Infinita. O primeiro instinto é gostar do filme, porque o tema é interessante, as conversas são boas e o final te deixa com uma sensação de “puxa, como a vida pode ser intensa”. Ainda assim, sei lá, alguma coisa em mim só sentiu um “nhé”. Demorou pra cair a ficha, mas esse filme em sua eterna conversa entre dois caras explica muito bem porque todas essas aprendizagens não são só sobre relacionamentos, mas, principalmente, sobre a mulher que escolhi ser.
Não é questão de falta de representatividade feminina ou teste de Bechdel – e eu sinceramente não aguento mais escrever sobre isso ainda que seja importante. É que eu não quero mais me esforçar para acompanhar uma conversa que em momento algum é sobre mim. Eu não aceito mais o papel que me é possível. Não faz sentido compactuar com um jogo em que as palavras, as peças e a finalidade já estão determinadas. É melhor esquecer isso, virar a mesa, iniciar uma nova partida de um outro ponto. Foi por isso que criei, junto com minha melhor amiga Natasha Ísis, a newsletter Mulheres que escrevem, porque precisava iniciar uma outra conversa.
Gostar de garotos e escrever nunca foi fácil – mesmo que tantas vezes um gesto empurre o outro. Em 2015, ano que a palavra “fácil” foi riscada do nosso vocabulário, aprendi a operar essas ações de outra perspectiva.
A última aprendizagem vem desde o início: Me quebrar toda para sozinha – com o apoio de diversas mulheres – me refazer inteira.
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Ilustrações feitas com exclusividade por Janis Souza (Tumblr / Instagram)
No fim de fevereiro, duas jovens argentinas Marina Menegazzo e María José Coni desapareceram enquanto faziam uma viagem pelo Equador. Marina e Maíra eram duas amigas que viajavam juntas. Elas foram assassinadas por dois homens (já falamos sobre esse triste caso de feminicídio aqui). A mídia cobriu o caso como a terrível história de duas mulheres que se exporam ao risco de viajar sozinhas. Sim, eram duas amigas, mas, no mundo misógino, uma mulher desacompanhada de um homem ainda é um ser vulnerável e sozinha .
Na minha vida tive a sorte de poder viajar. Desde a adolescência sonhava em viajar sozinha e fiz isso assim que consegui economizar meu dinheiro. As pessoas não entendiam porque eu escolhi viajar sozinha. Meus pais ficaram desesperados. Minhas amigas perguntavam se eu não ia ficar entediada. Diante dessas reações, sempre pensava como seria se eu fosse um homem. Quando voltei, meus pais falavam para seus amigos como tinham uma filha corajosa que saía pelo mundo sozinha, sem medo. De novo me perguntei se um homem ganharia esse elogio. Aventureiro talvez, mas corajoso? Um homem precisa de coragem para fazer o que deseja? Eu não me acho corajosa e eu tenho, sim, medo. É assim que me chamam quando volto, com fotos e lembrancinhas. Mas se eu não voltasse, seria esse o termo? Não seria essa coragem uma ousadia descabida? Não seria uma imprudência?
Todas as minhas viagens foram sozinha ou acompanhadas de amigas. Em alguns lugares andar com quatro amigas parecia mesmo andar só. Éramos quatro dentro de um táxi com um homem e, no entanto, a cada curva desconhecida, nos sentíamos minoria.
Ser mulher é ainda estar em uma posição vulnerável. Na minha última viagem, senti que minha pele, meu corpo inteiro, eram sexualizados de uma nova forma. Mulher da América Latina em terra de colonizador deve estar querendo: um passaporte, um emprego, um velho escroto pra te perturbar quando você está de boa lendo um livro. Fui abordada algumas vezes de modos muito invasivos. Mas continuei viajando sozinha, de ônibus, no meio da madrugada. Usava o que chamo de “a cara de bolada” e mantinha minha cabeça muito erguida. Uma posição que me não me protegia, mas me salvava de desistir. É preciso forjar algum controle para driblar a vulnerabilidade imposta.
Mas escolher viajar sozinha – até se você é um homem – é escolher uma posição vulnerável. Porque estar sozinha em um lugar desconhecido é, sim, algum tipo de radicalidade. Isso te abre de um modo novo. Você é obrigada a reparar mais nas pessoas, nas ruas e em que você é nesse espaço – mas, olha a diferença, reparar aí é por querer prestar atenção e não por medo. O tempo então corre em um ritmo inédito. Os dez dias em que viajei sozinha foram maiores do que meses.
Eu gosto da vulnerabilidade quando ela é uma escolha. Quando eu escolho me colocar nessa posição, escolho um risco que não é mortal. Estar vulnerável, nesse contexto, é livrar-se das certezas para descobrir novas possibilidades. Eu gosto disso, na verdade, eu preciso disso.
É muito diferente da vulnerabilidade que é imposto ao nosso gênero. Estar atenta ao mundo porque se está em busca é muito diferente de estar atenta por medo, até porque essa atenação não garante segurança alguma.
Viajar sozinha não é o problema. O problema é viver em um mundo misógino em que o feminicídio é uma realidade ignorada. O risco não está em ser mulher em um lugar desconhecido. O risco está em ser mulher. Porque, na verdade, em nossas vidas, a violência mais provável não vem de desconhecidos, mas daqueles que confiamos como íntimos. Os casos de feminicídio mais recorrentes envolvem pais, padrastos, maridos, namorados e supostos companheiros – para ter acesso a esses dados, vale consultar essa reportagem.
Dizer as mulheres que o risco está em sair para o mundo faz parte de um discurso político que nos quer encurraladas, longe das ruas, longe da vida. Um discurso que isenta os homens de responsabilidade e joga toda culpa sobre os ombros das mulheres. Um discurso que impõe a vulnerabilidade como uma fragilidade essencial ao nosso gênero. E nós não escolhemos esse risco.
Eu não estou aqui para negar os perigos, mas para pedir que o medo não nos sufoque.
Na minha última viagem, vi muitas mulheres viajando, os grupos de amigas nas rodoviárias eram muito maiores do que os grupos de homens; entrei em um banheiro feminino que ficava na fronteira entre dois países e encontrei nas portas cor de rosa várias mensagens de felicidade, imaginei cada uma dessas garotas alegremente explorando o mundo; fui acolhida por mulheres em cada lugar que passei; bebi com garotas que provavelmente nunca mais vou ver na vida e que nunca esquecerei; fiz amigas, troquei confissões, dividi garrafas de vinho e um tanto de força.
Se você deseja viajar, viaje. Nem sempre é fácil, nem sempre é bom, mas essa vulnerabilidade escolhida sempre te dá algo novo. E às vezes é justamente o que você precisa para sobreviver em mundo que nos coloca em papéis claustrofóbicos.
Ilustração feita com exclusividade por Thais Cortez (a.k.a. Emily).
esperar estar sozinha, uma escolha com muitos momentos de hesitação e carência, evidentemente (já escrevi sobre isso aqui na Ovelha). De início, não pareceu escolha, mas simplesmente falta de tempo, paciência e disposição. Algumas vezes também estive sozinha por total falta de sorte, dedo podre e outros fracassos. No entanto, depois de ter percebido que, se eu quiser, ainda posso me apaixonar – com todos os erros, inseguranças e delícias que isso implica – entendi o que realmente rolou durante esses doze meses.
O primeiro livro de 2015 foi Garota Exemplar, da Gilian Flynn. Essa história que me desestabilizou em janeiro retorna até hoje quando me pego medindo minhas palavras no Whatsapp ou pensando se agora que ele sabe que eu sou insegura vai deixar de me achar tão legal. Garota Exemplar é um livro polêmico e, eu diria, imperfeito, mas, meu deus, que impacto ele pode ter na vida de uma mulher. Durante o período em que trabalhei em uma livraria, chegava a me arrepiar quando o indicava a uma garota de 15 anos ou uma senhora de 50. Porque todas nós passamos anos e anos perdendo nosso tempo, felicidade e potencial enquanto nos regulamos pelo olhar masculino. Esse olhar que não se encontra somente em indivíduos, mas se faz presente em obras culturais, expectativas românticas e superego. Nenhum cara precisa me pressionar para ser uma Garota Legal, porque essa cobrança já está (estava?) internalizada. Essa foi uma das primeiras coisas que entendi esse ano e teve um impacto devastador sobre quem eu fui e quem eu decidi me tornar.
O segundo livro do ano foi o maravilhoso Bad Feminist da Roxane Gay. Essa coletânea de ensaios – que infelizmente ainda não foi traduzido para o português – me fez repensar meu engajamento feminista e, principalmente, entender melhor o impacto da cultura misógina e racista produzida por nossa sociedade ocidental. Meu artigo favorito desse livro é o The trouble with Prine Chaming, or he who trespassed against us (traduzi uma versão resumida desse ensaio para o blog do Livre de Abuso). Se Garota Exemplar me fez questionar os perigos de construir uma persona em busca de validação amorosa, Roxane Gay me fez, enfim, admitir que muitas das minhas expectativas românticas eram, na verdade, abusivas. A estrutura de um conto de fadas é a de uma narrativa na qual uma mulher incrível, praticamente uma heroína (pensa na rebeldia da Ariel, o altruísmo da Branca de Neve e a curiosidade da Bela), aceita sofrer todo tipo de horror (ou castigo) para encontrar seu Príncipe Encantado, seu verdadeiro amor (agora pensa no que você realmente lembra dos príncipes dessas histórias além de serem homens brancos e ricos?). Basicamente, a gente aprende desde pequena a rimar amor e dor, a aceitar que o caminho para ser amada deve ser difícil. Sem contar no quanto é recorrente a ideia de uma mulher ajudar um homem a superar algum tormento até que ele possa se tornar um homem melhor. Sabe aquele ditado machista, “por trás de um grande homem tem uma grande mulher”? Pois é, tatuado no nosso inconsciente.
Para não dizer que essas referências são muito ultrapassadas, vou usar como exemplo meu filme favorito durante a adolescência, Almost Famous. A história desse filme é sobre garotos que querem se tornar grandes homens e, para isso, contam com a ajuda de umas musas. Ajuda que evidentemente está em segundo plano, que serve quase como uma decoração, porque, no fim, o que realmente transforma esses garotos é a eterna conversa que eles mantêm fechada entre eles. Nessa conversa, o papel de uma garota é trazer uma cerveja, mandar um beijo, dançar, ser essa coisa bonita, leve, independente e solitária que é uma Garota Legal. O grande mantra de Penny Lane, a musa do filme, é:
I always tell the girls never take it seriously, if you never take it seriously you never get hurt, if you never get hurt you always have fun, and if you ever get lonely just go to the record store and visit your friends.
(Eu sempre falo para as garotas não levarem á sério, porque se você nunca leva à sério, você nunca se machuca, e, se você nunca se machuca, você sempre se diverte e se eventualmente se sente solitária, apenas vá até uma loja de discos e visite seus amigos).
Um mantra que diz perfeitamente o que o olhar masculino espera de nós. Não é à toa que Almost Famous é do mesmo diretor de Elizabethtown, filme que inspirou o conceito de maniac pixie dream girl (para entender melhor esse termo recomendo esse texto aqui).
O que essas histórias me ensinaram enquanto eu crescia? Me ensinaram a aceitar uma posição limitada. Me ensinaram que para ser amada, era preciso não me levar tão à sério assim. Me ensinaram ouvir o que os garotos diziam, deixar eles conversarem, aprender com eles, jamais ensinar, só inspirar um pouquinho. Me ensinaram a aceitar meu papel secundário, ser uma bengala, uma inspiração, uma referência na grande história que pertencia somente a eles. Me ensinaram a um dia suspirar em paz porque cumpri minha missão na terra e ajudei um garoto a se transformar em um Grande Homem.
Acontece que eu sempre gostei muito de falar e me intrometer e perder o controle. Acontece que, apesar de todos os meus esforços, não conseguia ser uma Garota Legal. Afinal, quem de fato consegue? Fora dos produtos culturais, nós, mulheres, existimos em corpos e desejos reais. Nenhuma de nós se limita a essas personas, ainda assim acreditamos, ratificamos e nos dividimos a partir desses mitos. Como prova, volto a minha adolescência, alguém aí já parou para analisar a letra de Sk8er Boy? Aos 13 anos eu repetia as palavras cantadas por Avril Lavigne com muita convicção:
Sorry girl, but you missed out
Well, tough luck, that boy’s mine now
We are more than just good friends
This is how the story ends
Too bad that you couldn’t see
See the man that boy could be
There is more than meets the eye
I see the soul that has in inside
(Desculpe, garota, mas você saiu perdendo
Bem, foi mal aí, aquele garoto agora é meu
Somos mais do que apenas bons amigos
É assim que a história termina
É uma pena que você não pôde ver
Ver o homem que aquele garoto poderia ser
Há mais do que aquilo que se percebe à primeira vista
Vejo a alma que está por dentro)
Atire a primeira pedra quem nunca se perguntou “por que ele tá com essa garota sem graça/feia/burra?”.
Terceira aprendizagem do ano: O caminho da segurança e do amor próprio inevitavelmente cruza com o da sororidade.
Mais para o final do ano, li Os Casos de Amor de Nathaniel P. de Adelle Waldman, livro que me deixou perturbada de um jeito perigoso. A história que foca em um preciso exemplo de cara meio intelectual meio de esquerda quase me destruiu, porque enxerguei ali todo o abuso psicológico que sofri nos últimos anos. Nathaniel P. é o nosso #amigo secreto. Ele é aquele cara que é pró feminismo mas que não hesita em ignorar uma mulher em uma conversa. Aquele cara que passa horas debatendo sobre política com um amigo próximo, mas que a gente sabe muito bem que o que está em jogo naquela conversa não é a revolução, mas um duelo de egos. Aquele cara que adora mulheres independentes e confiantes e faz questão de repetir isso sempre. Aquele cara capaz de transformar essas mesmas mulheres em locas, histéricas e inseguras. Todo mundo conhece esses caras. Eles foram meus amigos, confidentes, amores, peguetes e inspiração. Confesso o enjoo que esse livro me provocou foi suficiente para eu acreditar que nunca mais poderia me envolver com outro homem, porque, depois de tantos anos de abusos velados, não sei se aguentaria o risco de me ver novamente nesse tipo de dinâmica.
Então vieram os 40 dias em que minha única meta era aproveitar da melhor forma possível cada hora. Aí, depois de anos julgando quem gostava de uma história tão limitada escrita por uma mulher privilegiada, eu resolvi ler Comer, rezar e amar da Elizabeth Gilbert. Poderia dizer que foi um desses prazeres proibidos, mas se tem algo que esse livro me despertou foi a necessidade de se livrar da culpa. Gilbert falha em muitos aspectos, principalmente em reconhecer seus privilégios, mas em sua incesante necesidade de justificar sua escolha por uma vida mais prazerosa, ela acerta em um de nossos pontos frágeis: Por que, afinal, é tão difícil para uma mulher admitir que só quer fazer algo que lhe dá prazer sem se explicar ou se remoer em culpa? Resolvi tentar, pelo menos por um tempo, desfrutar meus dias livre de argumentos. Nesse momento em que tudo era novo, entendi o que a Babi (Bárbara Carneiro para os não tão íntimos), me disse em um áudio há alguns meses: A performance pode ser escolha. Os flertes, como as máscaras, podem ter a leveza de qualquer criação. Desistir dos roteiros, sim, mas jamais do risco de se abrir. Enfim, me sentia curada e forte o suficiente pra mais do que entender, viver Botar as asinhas de fora, sim.
No avião voltando para casa, assisti o The end of the tour, filme que conta sobre os dias em que o jornalista David Lipsky acompanhou David Foster Wallace na turnê de seu livro Graça Infinita. O primeiro instinto é gostar do filme, porque o tema é interessante, as conversas são boas e o final te deixa com uma sensação de “puxa, como a vida pode ser intensa”. Ainda assim, sei lá, alguma coisa em mim só sentiu um “nhé”. Demorou pra cair a ficha, mas esse filme em sua eterna conversa entre dois caras explica muito bem porque todas essas aprendizagens não são só sobre relacionamentos, mas, principalmente, sobre a mulher que escolhi ser.
Não é questão de falta de representatividade feminina ou teste de Bechdel – e eu sinceramente não aguento mais escrever sobre isso ainda que seja importante. É que eu não quero mais me esforçar para acompanhar uma conversa que em momento algum é sobre mim. Eu não aceito mais o papel que me é possível. Não faz sentido compactuar com um jogo em que as palavras, as peças e a finalidade já estão determinadas. É melhor esquecer isso, virar a mesa, iniciar uma nova partida de um outro ponto. Foi por isso que criei, junto com minha melhor amiga Natasha Ísis, a newsletter Mulheres que escrevem, porque precisava iniciar uma outra conversa.
Gostar de garotos e escrever nunca foi fácil – mesmo que tantas vezes um gesto empurre o outro. Em 2015, ano que a palavra “fácil” foi riscada do nosso vocabulário, aprendi a operar essas ações de outra perspectiva.
A última aprendizagem vem desde o início: Me quebrar toda para sozinha – com o apoio de diversas mulheres – me refazer inteira.
Ilustrações feitas com exclusividade por Janis Souza (Tumblr / Instagram)