Em um atelier de pintura, em uma casa da década de 1920, em Copenhague, marido e esposa trabalham. A modelo para seu retrato se atrasa e ela pede ao marido que vista meias até o joelho, calce sapatos de salto e coloque um vestido pomposo na frente, para ajudá-la a terminar o trabalho. Enquanto ela pincela na tela, ele amacia o tecido do vestido com as pontas dos dedos e se perde em pensamentos. Concentrado no toque, respira rapidamente, quase que nervoso. Quando a modelo e amiga do casal entra no quarto de repente e vê a cena, vira-se para o homem vestido de mulher e em gargalhadas diz: “Vamos te chamar de Lili.”
Essa não é a primeira cena do filme “A Garota Dinamarquesa” (“The Danish Girl”), do diretor Tom Hooper, mas é com certeza decisiva. O filme se inspira história do livro de ficção, baseado em fatos reais, “A Garota Dinamarquesa” de David Ebershoff, que por sua vez conta parte da vida do pintor dinamarquês Einar Wegener ou Lili Elbe, depois a se submeter a uma cirurgia de mudança de sexo. A cirurgia o primeiro procedimento do tipo documentado na história.
Mais do que uma simples biografia, o filme foca na relação complexa e delicada entre Einar (e depois Lili) e sua mulher Gerda. Os dois eram o casal perfeito, super apaixonados, e Einar dizia só ter olhos para sua linda esposa. Também combinavam em talento: ele, pintor de paisagens do interior da Dinamarca; ela, pintora de retratos de pessoas ricas e famosas. Um dia são convidados a um baile do meio artístico por uma amiga. Como Einar não queria ir, Gerda tem a ideia de vesti-lo como Lili, assim ela e Lili poderiam ir à festa. Ela diria que Lili era a prima de Einar do interior. Tudo começa como uma brincadeira que acaba por despertar outro lado no pintor. O seu lado Lili.
A partir de então é como se ele tivesse duas personalidades. Com o tempo, a personalidade de Lili passa a predominar e Einar se torna seguro de que nunca será feliz em um corpo masculino. Gerda, sua esposa, não faz escândalos ou tem grandes crises (só algumas pequenas). O apoia e decidi leva-lo a Paris, quando os médicos ameaçam interna-lo por loucura. No filme, Einar procura vários médicos em busca de ajuda e muitas vezes recebe o diagnóstico de esquizofrênico ou homossexual (o que na época se acreditava ser algo a ser tratado).
Ainda em Copenhague, Gerda começa a fazer sucesso com os retratos de Lili. Em Paris, ela se foca mais ainda nisso, encorajando Einar a ser cada vez mais Lili. Claro que, com o tempo, a relação de marido e mulher some entre os dois. Até por isso, há momentos muitos difíceis para Gerda. Em uma das cenas que achei bem marcante, ela chega em casa pedindo para falar com seu marido Einar, mas é Lili que está ali. E Lili responde que não pode chama-lo. Ao que Gerda insiste em lágrimas que precisa abraçar seu marido, Einar reaparece brevemente.
A relação dos dois é complexa, mas bela. Gerda claramente era uma mulher à frente de seu tempo, que mesmo com o sofrimento em perder seu marido, esteve todo o tempo ao lado de Einar e Lili. Ela tinha consciência de que iria, de certa forma, perdê-lo, mas quer acabar com sua angústia por estar no corpo de um homem.
Outra cena bastante decisiva no filme é quando Einar e Gerda se encontram com o médico alemão Dr. Warnekros. Em uma mesa de um café, Einar diz acreditar ser, de fato, uma mulher. Gerda concorda: “Eu também acredito que ele seja uma mulher”. Os dois se olham e dão as mãos, enquanto o médico explica como pode ajudar. Graças a uma nova prática cirúrgica, ele seria capaz de fazer Einar se tornar Lili por completo. “É a minha única esperança”, e com isso Einar decide partir para Dresden, no leste da Alemanha, para retornar como Lili.
O filme tem uma fotografia linda e foca bastante em detalhes, como o toque delicado e nervoso de Einar ao passar as mães em roupas femininas ou, com desgosto, por seu próprio corpo. Delicada também é a forma como a história é contada. Acho o filme conseguiu mostrar bem a transformação gradual de Einar em Lili e deixa claro que aquilo não havia começado por culpa de Gerda, que o fez vestir as roupas femininas pela primeira vez. “Lili sempre esteve em mim, você só ajudou a dar vida a ela”, são palavras de Lili à Gerda. Mais tarde, fica claro que desde criança Einar sentia estar no corpo errado.
Parte me deixou bem pra baixo no cinema foi ver a forma como as pessoas tratavam homossexuais e transexuais naquela época. Tá certo que ainda não vencemos todas as barreiras e ainda existem pessoas muito ignorantes quanto a isso (oi, Bolsonaros da vida, estou falando com vocês!), mas ver como era naquela época foi um soco no estômago. Einar passou por tratamentos com radiação, terapias e foi classificado como louco, correndo o risco de ser trancado em um hospício para sempre. Pelo que entendi, havia um grande medo quanto a isso e quem apresentasse um lado considerado “anormal” ou “imoral”, como eles mesmo dizem no filme, era logo classificado como insano.
Apesar das críticas, achei que a atuação do ator britânico Eddie Redmayne como Einar e Lili foi muito boa. Achei que ele conseguiu acompanhar a transformação gradual do seu personagem e também jogar com as duas personalidades que brigam para se tornar predominante. A sua indicação ao Oscar não foi à toa, na minha opinião.
Outra atuação impecável é a da atriz sueca Alicia Vikander (também indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante) no papel de Gerda. Ela consegue passar a leveza e a força da personalidade da pintura, que mostra só lealdade para com Einar e Lili. Uma lealdade incrível que é, na minha opinião, uma das coisas mais surpreendentes no longa.
Enfim, fica aí a recomendação e aguardo ansiosamente por novos comentários sobre filme.
Créditos das imagens: Focus Features/Divulgação
Em um atelier de pintura, em uma casa da década de 1920, em Copenhague, marido e esposa trabalham. A modelo para seu retrato se atrasa e ela pede ao marido que vista meias até o joelho, calce sapatos de salto e coloque um vestido pomposo na frente, para ajudá-la a terminar o trabalho. Enquanto ela pincela na tela, ele amacia o tecido do vestido com as pontas dos dedos e se perde em pensamentos. Concentrado no toque, respira rapidamente, quase que nervoso. Quando a modelo e amiga do casal entra no quarto de repente e vê a cena, vira-se para o homem vestido de mulher e em gargalhadas diz: “Vamos te chamar de Lili.”
Essa não é a primeira cena do filme “A Garota Dinamarquesa” (“The Danish Girl”), do diretor Tom Hooper, mas é com certeza decisiva. O filme se inspira história do livro de ficção, baseado em fatos reais, “A Garota Dinamarquesa” de David Ebershoff, que por sua vez conta parte da vida do pintor dinamarquês Einar Wegener ou Lili Elbe, depois a se submeter a uma cirurgia de mudança de sexo. A cirurgia o primeiro procedimento do tipo documentado na história.
Mais do que uma simples biografia, o filme foca na relação complexa e delicada entre Einar (e depois Lili) e sua mulher Gerda. Os dois eram o casal perfeito, super apaixonados, e Einar dizia só ter olhos para sua linda esposa. Também combinavam em talento: ele, pintor de paisagens do interior da Dinamarca; ela, pintora de retratos de pessoas ricas e famosas. Um dia são convidados a um baile do meio artístico por uma amiga. Como Einar não queria ir, Gerda tem a ideia de vesti-lo como Lili, assim ela e Lili poderiam ir à festa. Ela diria que Lili era a prima de Einar do interior. Tudo começa como uma brincadeira que acaba por despertar outro lado no pintor. O seu lado Lili.
A partir de então é como se ele tivesse duas personalidades. Com o tempo, a personalidade de Lili passa a predominar e Einar se torna seguro de que nunca será feliz em um corpo masculino. Gerda, sua esposa, não faz escândalos ou tem grandes crises (só algumas pequenas). O apoia e decidi leva-lo a Paris, quando os médicos ameaçam interna-lo por loucura. No filme, Einar procura vários médicos em busca de ajuda e muitas vezes recebe o diagnóstico de esquizofrênico ou homossexual (o que na época se acreditava ser algo a ser tratado).
Ainda em Copenhague, Gerda começa a fazer sucesso com os retratos de Lili. Em Paris, ela se foca mais ainda nisso, encorajando Einar a ser cada vez mais Lili. Claro que, com o tempo, a relação de marido e mulher some entre os dois. Até por isso, há momentos muitos difíceis para Gerda. Em uma das cenas que achei bem marcante, ela chega em casa pedindo para falar com seu marido Einar, mas é Lili que está ali. E Lili responde que não pode chama-lo. Ao que Gerda insiste em lágrimas que precisa abraçar seu marido, Einar reaparece brevemente.
A relação dos dois é complexa, mas bela. Gerda claramente era uma mulher à frente de seu tempo, que mesmo com o sofrimento em perder seu marido, esteve todo o tempo ao lado de Einar e Lili. Ela tinha consciência de que iria, de certa forma, perdê-lo, mas quer acabar com sua angústia por estar no corpo de um homem.
Outra cena bastante decisiva no filme é quando Einar e Gerda se encontram com o médico alemão Dr. Warnekros. Em uma mesa de um café, Einar diz acreditar ser, de fato, uma mulher. Gerda concorda: “Eu também acredito que ele seja uma mulher”. Os dois se olham e dão as mãos, enquanto o médico explica como pode ajudar. Graças a uma nova prática cirúrgica, ele seria capaz de fazer Einar se tornar Lili por completo. “É a minha única esperança”, e com isso Einar decide partir para Dresden, no leste da Alemanha, para retornar como Lili.
O filme tem uma fotografia linda e foca bastante em detalhes, como o toque delicado e nervoso de Einar ao passar as mães em roupas femininas ou, com desgosto, por seu próprio corpo. Delicada também é a forma como a história é contada. Acho o filme conseguiu mostrar bem a transformação gradual de Einar em Lili e deixa claro que aquilo não havia começado por culpa de Gerda, que o fez vestir as roupas femininas pela primeira vez. “Lili sempre esteve em mim, você só ajudou a dar vida a ela”, são palavras de Lili à Gerda. Mais tarde, fica claro que desde criança Einar sentia estar no corpo errado.
Parte me deixou bem pra baixo no cinema foi ver a forma como as pessoas tratavam homossexuais e transexuais naquela época. Tá certo que ainda não vencemos todas as barreiras e ainda existem pessoas muito ignorantes quanto a isso (oi, Bolsonaros da vida, estou falando com vocês!), mas ver como era naquela época foi um soco no estômago. Einar passou por tratamentos com radiação, terapias e foi classificado como louco, correndo o risco de ser trancado em um hospício para sempre. Pelo que entendi, havia um grande medo quanto a isso e quem apresentasse um lado considerado “anormal” ou “imoral”, como eles mesmo dizem no filme, era logo classificado como insano.
Apesar das críticas, achei que a atuação do ator britânico Eddie Redmayne como Einar e Lili foi muito boa. Achei que ele conseguiu acompanhar a transformação gradual do seu personagem e também jogar com as duas personalidades que brigam para se tornar predominante. A sua indicação ao Oscar não foi à toa, na minha opinião.
Outra atuação impecável é a da atriz sueca Alicia Vikander (também indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante) no papel de Gerda. Ela consegue passar a leveza e a força da personalidade da pintura, que mostra só lealdade para com Einar e Lili. Uma lealdade incrível que é, na minha opinião, uma das coisas mais surpreendentes no longa.
Enfim, fica aí a recomendação e aguardo ansiosamente por novos comentários sobre filme.
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Em um atelier de pintura, em uma casa da década de 1920, em Copenhague, marido e esposa trabalham. A modelo para seu retrato se atrasa e ela pede ao marido que vista meias até o joelho, calce sapatos de salto e coloque um vestido pomposo na frente, para ajudá-la a terminar o trabalho. Enquanto ela pincela na tela, ele amacia o tecido do vestido com as pontas dos dedos e se perde em pensamentos. Concentrado no toque, respira rapidamente, quase que nervoso. Quando a modelo e amiga do casal entra no quarto de repente e vê a cena, vira-se para o homem vestido de mulher e em gargalhadas diz: “Vamos te chamar de Lili.”
Essa não é a primeira cena do filme “A Garota Dinamarquesa” (“The Danish Girl”), do diretor Tom Hooper, mas é com certeza decisiva. O filme se inspira história do livro de ficção, baseado em fatos reais, “A Garota Dinamarquesa” de David Ebershoff, que por sua vez conta parte da vida do pintor dinamarquês Einar Wegener ou Lili Elbe, depois a se submeter a uma cirurgia de mudança de sexo. A cirurgia o primeiro procedimento do tipo documentado na história.
Mais do que uma simples biografia, o filme foca na relação complexa e delicada entre Einar (e depois Lili) e sua mulher Gerda. Os dois eram o casal perfeito, super apaixonados, e Einar dizia só ter olhos para sua linda esposa. Também combinavam em talento: ele, pintor de paisagens do interior da Dinamarca; ela, pintora de retratos de pessoas ricas e famosas. Um dia são convidados a um baile do meio artístico por uma amiga. Como Einar não queria ir, Gerda tem a ideia de vesti-lo como Lili, assim ela e Lili poderiam ir à festa. Ela diria que Lili era a prima de Einar do interior. Tudo começa como uma brincadeira que acaba por despertar outro lado no pintor. O seu lado Lili.
A partir de então é como se ele tivesse duas personalidades. Com o tempo, a personalidade de Lili passa a predominar e Einar se torna seguro de que nunca será feliz em um corpo masculino. Gerda, sua esposa, não faz escândalos ou tem grandes crises (só algumas pequenas). O apoia e decidi leva-lo a Paris, quando os médicos ameaçam interna-lo por loucura. No filme, Einar procura vários médicos em busca de ajuda e muitas vezes recebe o diagnóstico de esquizofrênico ou homossexual (o que na época se acreditava ser algo a ser tratado).
Ainda em Copenhague, Gerda começa a fazer sucesso com os retratos de Lili. Em Paris, ela se foca mais ainda nisso, encorajando Einar a ser cada vez mais Lili. Claro que, com o tempo, a relação de marido e mulher some entre os dois. Até por isso, há momentos muitos difíceis para Gerda. Em uma das cenas que achei bem marcante, ela chega em casa pedindo para falar com seu marido Einar, mas é Lili que está ali. E Lili responde que não pode chama-lo. Ao que Gerda insiste em lágrimas que precisa abraçar seu marido, Einar reaparece brevemente.
A relação dos dois é complexa, mas bela. Gerda claramente era uma mulher à frente de seu tempo, que mesmo com o sofrimento em perder seu marido, esteve todo o tempo ao lado de Einar e Lili. Ela tinha consciência de que iria, de certa forma, perdê-lo, mas quer acabar com sua angústia por estar no corpo de um homem.
Outra cena bastante decisiva no filme é quando Einar e Gerda se encontram com o médico alemão Dr. Warnekros. Em uma mesa de um café, Einar diz acreditar ser, de fato, uma mulher. Gerda concorda: “Eu também acredito que ele seja uma mulher”. Os dois se olham e dão as mãos, enquanto o médico explica como pode ajudar. Graças a uma nova prática cirúrgica, ele seria capaz de fazer Einar se tornar Lili por completo. “É a minha única esperança”, e com isso Einar decide partir para Dresden, no leste da Alemanha, para retornar como Lili.
O filme tem uma fotografia linda e foca bastante em detalhes, como o toque delicado e nervoso de Einar ao passar as mães em roupas femininas ou, com desgosto, por seu próprio corpo. Delicada também é a forma como a história é contada. Acho o filme conseguiu mostrar bem a transformação gradual de Einar em Lili e deixa claro que aquilo não havia começado por culpa de Gerda, que o fez vestir as roupas femininas pela primeira vez. “Lili sempre esteve em mim, você só ajudou a dar vida a ela”, são palavras de Lili à Gerda. Mais tarde, fica claro que desde criança Einar sentia estar no corpo errado.
Parte me deixou bem pra baixo no cinema foi ver a forma como as pessoas tratavam homossexuais e transexuais naquela época. Tá certo que ainda não vencemos todas as barreiras e ainda existem pessoas muito ignorantes quanto a isso (oi, Bolsonaros da vida, estou falando com vocês!), mas ver como era naquela época foi um soco no estômago. Einar passou por tratamentos com radiação, terapias e foi classificado como louco, correndo o risco de ser trancado em um hospício para sempre. Pelo que entendi, havia um grande medo quanto a isso e quem apresentasse um lado considerado “anormal” ou “imoral”, como eles mesmo dizem no filme, era logo classificado como insano.
Apesar das críticas, achei que a atuação do ator britânico Eddie Redmayne como Einar e Lili foi muito boa. Achei que ele conseguiu acompanhar a transformação gradual do seu personagem e também jogar com as duas personalidades que brigam para se tornar predominante. A sua indicação ao Oscar não foi à toa, na minha opinião.
Outra atuação impecável é a da atriz sueca Alicia Vikander (também indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante) no papel de Gerda. Ela consegue passar a leveza e a força da personalidade da pintura, que mostra só lealdade para com Einar e Lili. Uma lealdade incrível que é, na minha opinião, uma das coisas mais surpreendentes no longa.
Enfim, fica aí a recomendação e aguardo ansiosamente por novos comentários sobre filme.
Enquanto escolas de princesas se preocupam em ensinar meninas a serem belas, recatadas e do lar, em um reino longuínquo o verdadeiro conto de fadas feminista acontece. Em escolas islandesas, garotinhas de apenas três anos aprendem que “ser uma princesa” pode ser o mesmo que ter força e coragem.
É por essas e outras que a Islândia é hoje em dia o melhor lugar para se ser mulher, segundo o relatório Global Gender Gap feito pelo World Economic Forum. Ele avalia as disparidades de gênero, como em níveis de educação, participação na economia, representação política, e seus progressos para mostrar os países com os melhores e piores índices de igualdade de gênero. O Brasil ficou, infelizmente, em 85º lugar nesse ranking.
Em reportagem publicada em outubro de 2016, o The Guardian expõe algumas razões para o exemplar nível de igualdade entre homens e mulheres na Islândia. Em um país com uma população de 330 mil, existem 19 creches e escolas primárias que ensinam meninas a serem empoderadas. Uma delas é a creche Reykjavik, em que bonecas não fazem parte da decoração. “Nós treinamos [nossas meninas] para usar suas vozes. Estamos treinando a sua força física. Estamos treinando elas para serem corajosas”, diz a fundadora da escola, Margrét Pála Ólafsdóttir, ao The Guardian.
Mas as pré-escolas feministas não podem ser o único motivo pelo sucesso da Islândia em se tornar o melhor país do mundo para se ser mulher. Redes de escolas como a Reykjavik começaram a aparecer há menos de 20 anos. Todos os bons resultados em igualdade de gêneros vêm de um longo passado de lutas.
Durante séculos, mulheres islandesas ficaram em casa enquanto seus maridos navegavam oceanos. Sem os homens em casa, elas aprenderam a fazer todas as tarefas antes designadas a eles. Viraram fanzendeiras e aprenderam a caçar, além de dar contas das finanças domésticas e, por fim, das do país.
1975 foi um ano decisivo para as mulheres na Islândia. Depois de anos sendo grandes reponsáveis pelo progresso do país, elas se cansaram de receber pouco reconhecimento pelo trabalho pesado e de não ter suficiente representatividade política – até então, somente nove mulheres preenchiam cadeiras no parlamento. Acompanhando a onda de protestos feministas pelo mundo, as islandesas organizaram um ato no dia 24 de outubro de 1975. Mas não foi só o impacto das 25 mil mulheres reunidas na rua que fez o país parar e prestar atenção nas vozes feministas. Além disso, 90% da população feminina parou seus trabalhos, domésticos e profissionais, pelo dia inteiro. Tudo isso provou o quão indispensável elas eram – e ainda são – para o funcionamento do país.
Cinco anos depois, a Islândia teve sua primeira presidente mulher eleita democraticamente. Vigdis Finnbogadottir governou de 1980 até 1996. Nos anos seguintes, outras mudanças significativas aconteceram. O partido Women’s Alliance (Aliança das Mulheres) foi criado e mulheres ganharam mais representatividade parlamentar. Em 2000, as leis de licença maternidade (ou licença paternal, como é chamada em inglês) ganhou uma versão mais igualitária vigente até hoje. Atualmente, cada um dos pais recebe uma licença remunerada de três meses que não pode ser transferida. Depois desse tempo, eles ganham três meses adicionais para dividir entre eles como quiserem.
Por causa do adicional significativo oferecido pela licença, 90 % dos pais islandeses aceitam tirá-la. Isso mudou a vida em família no país. Assim, não só as mulheres voltam mais rápido para o trabalho depois do parto, mas conseguem retomar seu ritmo normal de trabalho – que tinham antes do nascimento – mais rápido também. Além disso, estudos mostram que mesmo depois dos três meses de licença, pais seguem envolvidos nos cuidados das crianças e da casa.
Mesmo assim, nenhuma terra de contos de fadas é totalmente perfeita. Talvez muito menos as de contos de fadas feministas. A luta contra desigualdade de gêneros continua mesmo em países tão bem avaliados nesse tópico, como a Islândia. Mulheres continuam ganhando 14% menos que os homens e ocupam apenas 22% dos cargos de gerência.
As rappers do coletivo de rap feminista Reykjavíkurdætur (também conhecido como Daughters of Reykjavik), Steiney Skuladottir e Bloer Johanusdottir, têm explicações para as desigualdades em um país em que 80% das mulheres trabalham e são 65% da população universitária. As colegas de coletivo acreditam que ainda há muita relutância por parte das mulheres em pedir por salários mais justos. “É como se não quisessemos parecer convencidas. Como se tivessemos que parecer modestas”, diz Bloer.
A experiência na Islândia é um exemplo de como a pressão da população aliada a esforços do governo podem promover mudanças. Entretanto, não pude deixar de me perguntar se as mudanças positivas que levam mulheres na Islândia a terem as mesmas oportunidades que os homens chegam até as mulheres imigrantes.
A organização Multicultural Center (Centro Multicultural), que dá auxílio na integração de imigrantes na Islândia, publicou um estudo em 2014 sobre as discriminações sofridas por imigrantes, em sua grande parte vindos da Polônia e Tailândia. Segundo estátisticas oficiais de 2014, havia até então 732 mulheres e 203 homens de origem tailandesas vivendo na Islândia, e 4462 mulheres e 4909 homens de origem polonesa. O estudo do Centro Multicultural com questionários não foi feito, porém, com essa totalidade dos imigrantes.
Apesar de a Islândia ser um país com baixas taxas de desemprego, o número de imigrantes desempregados por mais de um ano é significativo (o estudo não especificou quantos). 26% dos entrevistados pelo Centro Multicultural apontaram o preconceito étnico como uma das causas para não conseguir emprego. No geral, 61% das mulheres entrevistadas dizem já ter vivido experiências negativas (não só no ambiente de trabalho) na Islândia devido a sua origem étnica.
Apenas 20% das mulheres entrevistadas disseram estar em empregos condizentes com sua educação profissional, enquanto 35% dos homens disseram o mesmo. Algumas das razões para que imigrantes tenham posições inferiores em empresas islandesas ou estejam desempregados são a falta de conhecimento da língua islandesa e a falta de reconhecimento de suas qualificações adquiridas no exterior.
Esses poucos dados já mostram algo que não é relevante só na Islândia, mas em todos os lugares em que se discute feminismo. Feminismo pra quem? Tem que ser pra todas nós. Países desenvolvidos no tema, como a Islândia, tem que levar em consideração cidadãs que não são necessarimente islandesas e as incluir em sua luta. Creio que isso foi o ponto mais difícil do feminismo das décadas passadas e, surpreendetemente, ainda é. E é por essas e outras que não se pode glorificar países europeus achando que o feminismo já obteve seu sucesso pleno aí. Ainda há muito a ser feito por todas nós…
Essa não é a primeira cena do filme “A Garota Dinamarquesa” (“The Danish Girl”), do diretor Tom Hooper, mas é com certeza decisiva. O filme se inspira história do livro de ficção, baseado em fatos reais, “A Garota Dinamarquesa” de David Ebershoff, que por sua vez conta parte da vida do pintor dinamarquês Einar Wegener ou Lili Elbe, depois a se submeter a uma cirurgia de mudança de sexo. A cirurgia o primeiro procedimento do tipo documentado na história.
Mais do que uma simples biografia, o filme foca na relação complexa e delicada entre Einar (e depois Lili) e sua mulher Gerda. Os dois eram o casal perfeito, super apaixonados, e Einar dizia só ter olhos para sua linda esposa. Também combinavam em talento: ele, pintor de paisagens do interior da Dinamarca; ela, pintora de retratos de pessoas ricas e famosas. Um dia são convidados a um baile do meio artístico por uma amiga. Como Einar não queria ir, Gerda tem a ideia de vesti-lo como Lili, assim ela e Lili poderiam ir à festa. Ela diria que Lili era a prima de Einar do interior. Tudo começa como uma brincadeira que acaba por despertar outro lado no pintor. O seu lado Lili.
A partir de então é como se ele tivesse duas personalidades. Com o tempo, a personalidade de Lili passa a predominar e Einar se torna seguro de que nunca será feliz em um corpo masculino. Gerda, sua esposa, não faz escândalos ou tem grandes crises (só algumas pequenas). O apoia e decidi leva-lo a Paris, quando os médicos ameaçam interna-lo por loucura. No filme, Einar procura vários médicos em busca de ajuda e muitas vezes recebe o diagnóstico de esquizofrênico ou homossexual (o que na época se acreditava ser algo a ser tratado).
Ainda em Copenhague, Gerda começa a fazer sucesso com os retratos de Lili. Em Paris, ela se foca mais ainda nisso, encorajando Einar a ser cada vez mais Lili. Claro que, com o tempo, a relação de marido e mulher some entre os dois. Até por isso, há momentos muitos difíceis para Gerda. Em uma das cenas que achei bem marcante, ela chega em casa pedindo para falar com seu marido Einar, mas é Lili que está ali. E Lili responde que não pode chama-lo. Ao que Gerda insiste em lágrimas que precisa abraçar seu marido, Einar reaparece brevemente.
A relação dos dois é complexa, mas bela. Gerda claramente era uma mulher à frente de seu tempo, que mesmo com o sofrimento em perder seu marido, esteve todo o tempo ao lado de Einar e Lili. Ela tinha consciência de que iria, de certa forma, perdê-lo, mas quer acabar com sua angústia por estar no corpo de um homem.
Outra cena bastante decisiva no filme é quando Einar e Gerda se encontram com o médico alemão Dr. Warnekros. Em uma mesa de um café, Einar diz acreditar ser, de fato, uma mulher. Gerda concorda: “Eu também acredito que ele seja uma mulher”. Os dois se olham e dão as mãos, enquanto o médico explica como pode ajudar. Graças a uma nova prática cirúrgica, ele seria capaz de fazer Einar se tornar Lili por completo. “É a minha única esperança”, e com isso Einar decide partir para Dresden, no leste da Alemanha, para retornar como Lili.
O filme tem uma fotografia linda e foca bastante em detalhes, como o toque delicado e nervoso de Einar ao passar as mães em roupas femininas ou, com desgosto, por seu próprio corpo. Delicada também é a forma como a história é contada. Acho o filme conseguiu mostrar bem a transformação gradual de Einar em Lili e deixa claro que aquilo não havia começado por culpa de Gerda, que o fez vestir as roupas femininas pela primeira vez. “Lili sempre esteve em mim, você só ajudou a dar vida a ela”, são palavras de Lili à Gerda. Mais tarde, fica claro que desde criança Einar sentia estar no corpo errado.
Parte me deixou bem pra baixo no cinema foi ver a forma como as pessoas tratavam homossexuais e transexuais naquela época. Tá certo que ainda não vencemos todas as barreiras e ainda existem pessoas muito ignorantes quanto a isso (oi, Bolsonaros da vida, estou falando com vocês!), mas ver como era naquela época foi um soco no estômago. Einar passou por tratamentos com radiação, terapias e foi classificado como louco, correndo o risco de ser trancado em um hospício para sempre. Pelo que entendi, havia um grande medo quanto a isso e quem apresentasse um lado considerado “anormal” ou “imoral”, como eles mesmo dizem no filme, era logo classificado como insano.
Apesar das críticas, achei que a atuação do ator britânico Eddie Redmayne como Einar e Lili foi muito boa. Achei que ele conseguiu acompanhar a transformação gradual do seu personagem e também jogar com as duas personalidades que brigam para se tornar predominante. A sua indicação ao Oscar não foi à toa, na minha opinião.
Outra atuação impecável é a da atriz sueca Alicia Vikander (também indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante) no papel de Gerda. Ela consegue passar a leveza e a força da personalidade da pintura, que mostra só lealdade para com Einar e Lili. Uma lealdade incrível que é, na minha opinião, uma das coisas mais surpreendentes no longa.
Enfim, fica aí a recomendação e aguardo ansiosamente por novos comentários sobre filme.