Sobre Barbies e Playboys

Colagem feita com exclusividade por Bárbara Malagoli (Baby C)

Nos últimos dias muito tem se falado da importância dos novos corpos e cores da Barbie. Tradicionalmente retratada como uma jovem completamente dentro de um padrão irreal, inclusive em termos biológicos, a reviravolta no mercado da boneca fez um favor a todas as meninas e trouxe às lojas bonecas pequenas, altas, magras e curvilíneas. Brancas, negras, orientais. Cabelos coloridos, crespos, escuros.

O impacto disso sobre a autoimagem das mulheres é claro: agora é possível se ver de maneira mais fiel no mercado, e como a boneca é referência de beleza, sentir-se bonita pode ter se tornado 1% mais fácil hoje em dia. Pois bem, aqui eu gostaria que ficássemos com uma ideia na cabeça: a representação dos corpos diferentes no mercado é importante, e a pressão dos consumidores foi a grande responsável para essa mudança. Pela primeira vez estamos vendo a representação feminina de forma mais amistosa. Será?

A “Playboy” também sofreu pressão dos seus consumidores e se viu obrigada a reestruturar por completo a ideia da revista: “pouca nudez, mais conteúdo”. A grande variedade de pornôs disponíveis na internet fez com que a nudez explícita da revista se tornasse desnecessária – melhor uma mulher gemendo e sendo penetrada do que uma apenas com “cara de safada”, não é mesmo? A gratuidade do pornô online, portanto, foi a grande ruína da “Playboy”.

Os homens pararam de consumir nudez impressa para consumir violência contra a mulher pela internet. O vídeo é muito mais agressivo e satisfatório do que uma foto inofensiva: o gozo vem mais rápido e de forma mais barata, afinal de contas, tempo é dinheiro, minha gente (até o tempo de se masturbar). Aqui, mais uma ideia: o mercado, assim como vimos no caso da Barbie, se adaptou, e essa cara moderna da revista não veio pela exigência de seus leitores por uma revista mais humana, mas sim porque os mesmos passaram a se entediar com peitos e bucetas que não se mexem, não gritam, não reagem.

Há milhares de problemas em tudo isso, a começar pelas mudanças empregadas pela revista visando o aumento de mercado. Irei começar com esse discurso da necessidade de se modernizar que a “Playboy” vem empregando, principalmente com um falso propósito de se tornar “mais inclusiva às mulheres”. Durante anos, a “Playboy” dá de ombros à dignidade e ao bem estar feminino, propagando apenas conteúdo de natureza masculina e objetificadora da figura feminina (o padrão loira, branca e magra, que vimos na Barbie todo esse tempo, foi a capa da revista por décadas). O que será, então, que fez a revista rever esse processo? Dica: não foram as intensas manifestações que vivemos na “Primavera Feminista”.

[caption id="attachment_9135" align="aligncenter" width="560"]playboy Capa da nova era da ‘Playboy’ (Divulgação)[/caption]

O que fez a revista mudar de visual e foco foi o fato dos homens estarem consumindo pornografia cada vez mais cedo – e apenas na internet. A capa da “nova era” da revista, que simula uma selfie sensual no Snapchat, mostra o esforço desmedido da revista em conquistar o público jovem. Por jovem, entenda-se: pré-adolescentes de 13 anos. Como se não bastasse aos adolescentes estarem expostos a um conteúdo pornográfico altamente violento às mulheres e traumatizante a todos, agora a revista disponibilizará nudez impressa também.

A “Playboy”, portanto, apenas complementa o mercado pornográfico que já é vitimizador da figura feminina, vendendo uma nudez que não será paga, já que as meninas não receberão cachê por posarem nuas. Ou seja, as mulheres são duplamente punidas nesse caso: não recebem pelo próprio trabalho, sob uma perspectiva de que “nudez não se compra” (mas se vende e se consome, editores da “Playboy”?), e ainda têm suas imagens objetificadas – mesmo que sem retoques de Photoshop.

Nem o tom “jovem” da revista deve ser visto como uma grande novidade. Além de continuar sendo uma engrenagem do mercado pornográfico, a revista ajuda a perpetuar a pedofilia e a “cultura da novinha”. Essa nova capa remete ao Snapchat, campo digital largamente utilizado por adolescentes para sua comunicação. O que antes era uma maneira interessante de transmitir ao amigo como havia sido seu dia se tornou na mais nova ferramenta de pornografia do mercado. Além disso, as mulheres com caras inocentes, completamente depiladas, sempre existiram nas capas e spreads da revista, a diferença é que agora ela conseguiu voltar ao mundo digital. O visual jovem da “Playboy” não é novidade nenhuma: ele sempre esteve lá, transformando mulheres maduras em bonecas púberes como a própria Barbie aqui citada. Em outras palavras: a “Playboy” nunca esteve tão pedófila.

O ponto principal é: as indústrias fazem o possível e o impossível para se readequarem constantemente ao mercado. A Barbie e a “Playboy” estão inclusas nessa história. Ainda que de maneiras diferentes, ambas lucram (e muito) com a objetificação feminina (no caso da Barbie, um objeto literal). Além dos diferentes impactos que bonecas e revistas pornográficas podem causar nas mulheres (que, de fato, são incomparáveis), ambas não fizeram mais do que sua função: se adequar ao seu novo mercado. A diferença, é que a função da “Playboy” continua a mesma, que é promover prazer masculino heterossexual e lucrar em cima das mulheres. Só que agora o lucro será muito maior, já que a revista não dará um centavo de cachê às moças que mostram seus corpos nus nas capas.

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Escrito por
Mais de Júlia Rocha

Amor próprio não se impõe

Durante toda a minha vida eu sempre tive que lidar com um problema muito incômodo: amigas magras que faziam comentários depreciantes sobre o próprio corpo para mim, a única gorda do grupo. Eu sempre achei que isso acabaria com a adolescência e/ou com o envolvimento dessas minhas amigas com o feminismo, mas não. A falta de sensibilidade e empatia com as gordas ainda é algo muito forte dentro do movimento, o que o torna cada vez menos inclusivo a essas meninas acima do peso considerado ideal.

Não estou negando a ideia de que o patriarcado faz com que nós odiemos nossos corpos. Pelo contrário, eu reconheço e vivo isso diariamente na minha vida, mas é muito insensível generalizar o ódio à própria silhueta para meninas magras e gordas. Por exemplo, eu relutei muito participar da campanha #meuprimeiroassedio porque ele havia sido, no meu caso, um xingo. “Se coloca no seu lugar, sua gorda”, disse um playboy de dentro de um carro caro qualquer quando eu tinha 13 anos. Minhas memórias de homens me xingando são muito mais vivas do que homens me assediando da maneira que as meninas relataram.

Isso significa que meninas gordas sofrem mais quando assediadas? De jeito nenhum. Só quem já sofreu assédio sexual sabe o quanto isso danifica a auto-estima e a confiança de uma moça, principalmente tratando-se de meninas tão jovens. Meu ponto aqui é que meninas magras e gordas sofrem de maneira diferente com o patriarcado – mas não melhor ou pior – quando se trata da construção de sua autoimagem.

Pois bem, já não bastasse termos que lidar diariamente com a insensibilidade de meninas magras que custam reconhecer o privilégio (porque ser branca, cis e dentro do padrão é sim um privilégio), ainda temos que lidar com a imposição do amor ao próprio corpo. Explico: não é raro encontrar textos, frequentemente escritos por feministas magras e brancas, que a maior arma que temos contra o machismo é nos amar. A linha do texto geralmente é “se eu que sou mulher consigo amar meu corpo apesar de tudo, por que você não consegue?”. E aí temos de novo aquela velha generalização de que minas magras e gordas sofrem com o mesmo tipo de opressão estética.

A principal questão é: ler um texto desses não faz você se sentir melhor, mas um lixo. Se tem algo que cinco anos de terapia me ensinaram é que auto-aceitação é um longo processo, sobretudo individual. Ou seja, não é um texto escrito por uma mina privilegiada que vai fazer com que eu me desconstrua por completo e passe a me sentir confortável em usar biquíni perto das minhas amigas mais magras, por exemplo. Também não é uma mina magra apontando pra uma mina gorda desconstruída falando “se ela é gorda e você também, por que você não faz que nem ela?” que vai fazer com que eu só use minissaia e cropped. E se eu chego ao final do texto sem esse questionamento e não me deparo com uma vontade enorme de usar top de academia pra correr na rua, eu me sinto um fracasso gigantesco. Parece que uma voz de lá do fundo me avisa “não basta ser gorda, tem que ter baixa auto-estima também”.

Contudo, isso também não significa que eu me odeie. Meus problemas relacionados à minha vida sexual, por exemplo, vêm diminuindo cada vez que eu me desconstruo um pouquinho, eu tenho conseguido comprar biquínis que eu considero mais bonitos sem me preocupar se eles estão cobrindo todas as minhas celulites, etc. Eu só não me amo o suficiente para sair sambando na cara de todo mundo com meus quilos a mais ou ficar confortável com uma roupa que mostre mais minha barriga, por exemplo. E eu acho que não há nada de errado com isso: a mudança chega, ainda que a passos de tartaruga.

Assim, acho que falta um pouco (ou muita) sororidade de meninas padrão para com as fora do padrão. As opressões que sofremos são muito diferentes, e não é com um texto dando um ultimato (“ou você se aceita ou você está deixando o patriarcado dominar sua vida”) que eu vou desconstruir e superar a relação que tive com meu corpo a vida toda. Eu acho maravilhoso que movimentos que incentivem uma auto-imagem corporal positiva estejam ganhando força entre as meninas gordas – e para as meninas gordas. Aí sim o movimento ganha legitimidade: eu sua auto-organização, feito por e para aquelas precisam dele. Mas respeitar o tempo de cada uma é fundamental para se acabar com a opressão estética patriarcal. Minas magras podem escrever o texto que quiserem sobre auto-imagem que eu vou achar o máximo, desde que ele não seja endereçado a mim – e o mesmo vale para meninas brancas falando para meninas negras amarem seus cabelos e pele sem nunca terem sido vítimas do racismo.

Portanto, não existe problema nenhum em você ser confiante, desde que você respeite que nem todas nós amamos nosso corpo tanto assim.

 


Ilustração feita com exclusividade por Malu Risi.

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novos corpos e cores da Barbie. Tradicionalmente retratada como uma jovem completamente dentro de um padrão irreal, inclusive em termos biológicos, a reviravolta no mercado da boneca fez um favor a todas as meninas e trouxe às lojas bonecas pequenas, altas, magras e curvilíneas. Brancas, negras, orientais. Cabelos coloridos, crespos, escuros.

O impacto disso sobre a autoimagem das mulheres é claro: agora é possível se ver de maneira mais fiel no mercado, e como a boneca é referência de beleza, sentir-se bonita pode ter se tornado 1% mais fácil hoje em dia. Pois bem, aqui eu gostaria que ficássemos com uma ideia na cabeça: a representação dos corpos diferentes no mercado é importante, e a pressão dos consumidores foi a grande responsável para essa mudança. Pela primeira vez estamos vendo a representação feminina de forma mais amistosa. Será?

A “Playboy” também sofreu pressão dos seus consumidores e se viu obrigada a reestruturar por completo a ideia da revista: “pouca nudez, mais conteúdo”. A grande variedade de pornôs disponíveis na internet fez com que a nudez explícita da revista se tornasse desnecessária – melhor uma mulher gemendo e sendo penetrada do que uma apenas com “cara de safada”, não é mesmo? A gratuidade do pornô online, portanto, foi a grande ruína da “Playboy”.

Os homens pararam de consumir nudez impressa para consumir violência contra a mulher pela internet. O vídeo é muito mais agressivo e satisfatório do que uma foto inofensiva: o gozo vem mais rápido e de forma mais barata, afinal de contas, tempo é dinheiro, minha gente (até o tempo de se masturbar). Aqui, mais uma ideia: o mercado, assim como vimos no caso da Barbie, se adaptou, e essa cara moderna da revista não veio pela exigência de seus leitores por uma revista mais humana, mas sim porque os mesmos passaram a se entediar com peitos e bucetas que não se mexem, não gritam, não reagem.

Há milhares de problemas em tudo isso, a começar pelas mudanças empregadas pela revista visando o aumento de mercado. Irei começar com esse discurso da necessidade de se modernizar que a “Playboy” vem empregando, principalmente com um falso propósito de se tornar “mais inclusiva às mulheres”. Durante anos, a “Playboy” dá de ombros à dignidade e ao bem estar feminino, propagando apenas conteúdo de natureza masculina e objetificadora da figura feminina (o padrão loira, branca e magra, que vimos na Barbie todo esse tempo, foi a capa da revista por décadas). O que será, então, que fez a revista rever esse processo? Dica: não foram as intensas manifestações que vivemos na “Primavera Feminista”.

O que fez a revista mudar de visual e foco foi o fato dos homens estarem consumindo pornografia cada vez mais cedo – e apenas na internet. A capa da “nova era” da revista, que simula uma selfie sensual no Snapchat, mostra o esforço desmedido da revista em conquistar o público jovem. Por jovem, entenda-se: pré-adolescentes de 13 anos. Como se não bastasse aos adolescentes estarem expostos a um conteúdo pornográfico altamente violento às mulheres e traumatizante a todos, agora a revista disponibilizará nudez impressa também.

A “Playboy”, portanto, apenas complementa o mercado pornográfico que já é vitimizador da figura feminina, vendendo uma nudez que não será paga, já que as meninas não receberão cachê por posarem nuas. Ou seja, as mulheres são duplamente punidas nesse caso: não recebem pelo próprio trabalho, sob uma perspectiva de que “nudez não se compra” (mas se vende e se consome, editores da “Playboy”?), e ainda têm suas imagens objetificadas – mesmo que sem retoques de Photoshop.

Nem o tom “jovem” da revista deve ser visto como uma grande novidade. Além de continuar sendo uma engrenagem do mercado pornográfico, a revista ajuda a perpetuar a pedofilia e a “cultura da novinha”. Essa nova capa remete ao Snapchat, campo digital largamente utilizado por adolescentes para sua comunicação. O que antes era uma maneira interessante de transmitir ao amigo como havia sido seu dia se tornou na mais nova ferramenta de pornografia do mercado. Além disso, as mulheres com caras inocentes, completamente depiladas, sempre existiram nas capas e spreads da revista, a diferença é que agora ela conseguiu voltar ao mundo digital. O visual jovem da “Playboy” não é novidade nenhuma: ele sempre esteve lá, transformando mulheres maduras em bonecas púberes como a própria Barbie aqui citada. Em outras palavras: a “Playboy” nunca esteve tão pedófila.

O ponto principal é: as indústrias fazem o possível e o impossível para se readequarem constantemente ao mercado. A Barbie e a “Playboy” estão inclusas nessa história. Ainda que de maneiras diferentes, ambas lucram (e muito) com a objetificação feminina (no caso da Barbie, um objeto literal). Além dos diferentes impactos que bonecas e revistas pornográficas podem causar nas mulheres (que, de fato, são incomparáveis), ambas não fizeram mais do que sua função: se adequar ao seu novo mercado. A diferença, é que a função da “Playboy” continua a mesma, que é promover prazer masculino heterossexual e lucrar em cima das mulheres. Só que agora o lucro será muito maior, já que a revista não dará um centavo de cachê às moças que mostram seus corpos nus nas capas.

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