A Mag Magrela é uma grafiteira, de 30 anos, que nasceu em São Paulo. Para conhecer seus desenhos, é só olhar alguns muros da cidade e você encontrará figuras femininas, alaranjadas, te encarando em posições quase sempre desconfortáveis.
Como a própria Mag define, seu trabalho “faz dos muros poesia”. Neste sábado (8), a artista lança seu primeiro livro pelo selo Monstrobooks, com fotos de grafites e telas de sete anos de trabalho, no Instituto Chão, que fica na Vila Madalena, zona oeste de SP (saiba mais sobre o evento). Leia trechos da nossa conversa sobre sua história:
Ovelha: Mag, você chegou a estudar desenho?
Mag Magrela: Eu sempre desenhei, como toda criança. Lembro da sensação que eu tinha, quando criança, de me realizar com as coisas que eu inventava. Eu pirava. E até hoje eu sou assim com o meu desenho. Só que na minha casa nunca teve essa ideia de ‘ó, você pode ser uma artista’. Aí eu fiz 3 anos de Administração na faculdade que meu pai trabalhava, então não pagava nada, ficava lá moscando até entrar em crise e falar ‘gente, o que eu tô fazendo da minha vida?’. Eu tinha uns 23 anos quando surtei e comecei a questionar ‘o que eu gosto de fazer? o que me realiza? puta, desenhar’. Fiz uma oficina de grafite com o Rui Amaral [um dos pioneiros do movimento do grafite brasileiro] e lá eu conheci uma galera. Com eles, comecei a ir pra rua e não parei mais. Foi autodidata mesmo. Já tentei fazer curso, mas querem me enquadrar e eu não quero desenhar igual a todo mundo.
E o meu desenho muda muito porque eu fui desenhando em casa, buscando movimento porque antes era mais duro. Antes eu fazia só homens, aí comecei a copiar meu corpo, o rosto, e de repente eu estava me fazendo. Eu digo que as mulheres são meu pedacinho. Cada uma me representa de um jeito que eu sou.
Ovelha: Já aconteceu de você se decepcionar com o seu grafite?
Mag: Já me frustrei de querer fazer uma coisa e não conseguir porque eu não tinha ideia de proporção. Daí ou você apaga e começa de novo ou você deixa assim e foda-se. Bem quando eu comecei a grafitar, eu ficava muito tempo no muro tentando entender a personagem. Mas eu sou bem desapegada. Às vezes eu acho que deveria ser mais dedicada.
Ovelha: Como você escolhe o local onde você vai grafitar?
Mag: Eu sempre estou de olho nos muros. Quando frequento algum lugar, daí passo, olho e às vezes tenho que pedir autorização de alguém ou, às vezes, o muro tá lá abandonado. Mas o engraçado é que cada um olha a cidade de um jeito. Os grafiteiros e os fotógrafos, por exemplo, olham a cidade completamente diferente das outras pessoas. Eu olho para o lugar e penso ‘olha esse muro que delícia’ e já imagino o meu trabalho ali.
Ovelha: Você tem algum muro favorito ou já voltou para ver como está um desenho seu?
Mag: Não gosto de voltar pra ver, mas gosto muito de vários. Cada muro tem uma história diferente. Tem muro que passa a polícia, daí você tem que desenrolar e já se torna especial porque foi uma conquista. Tem um na Lapa que eu gostei muito de pintar, embaixo da ponte, perto do trem, que é do lado de uma delegacia de polícia. Quando eu estava terminando, os policiais vieram me rodeando, mas não me abordaram. Eles não sabem muito como agir, é engraçado.
Ovelha: Algum desenho seu já foi apagado ou pichado?
Mag: Muitos grafites meus foram apagados bem na época do [prefeito Gilberto] Kassab por causa da Lei Cidade Limpa. Na verdade, aprendi até a desapegar por conta disso. Mas pichados só uma vez por uma molecada aqui na Vila Madalena. Geralmente tem esse respeito entre grafiteiro e pichador. Ninguém se atropela. É uma lei da rua bacana e a gente se entende dessa forma.
Ovelha: Você se importa mais com o processo da obra ou com o resultado?
Mag: O momento que eu estou ali fazendo é muito foda. A gente não sabe o que vai acontecer. Eu tô de costas para o mundo. Tem que confiar. É uma entrega e você tem tanta liberdade. Você pode fazer sujeira e ninguém vai falar nada. É um momento muito mágico. Só quem está ali pintando entende. E também eu aprendi muito a criar sozinha porque eu pintava muito, no começo, com amigos e isso foi se desfazendo. E aí é outra brisa também porque você entra no seu mundinho.
Ovelha: Você se preocupa com a segurança quando está grafitando?
Mag: Você tem que saber onde está indo pintar. A gente que é mulher, quando está quente, infelizmente não posso ir com um shortinho e uma blusinha porque eu sei que vou sofrer, então vou com uma roupa mais larga para não chamar a atenção. Vou na Cracolândia e fico com um pouco de receio porque a galera tá muito louca. Mesmo assim eles piram no grafite. Nunca sofri nada porque estava pintando. Gente louca ou bandido da área ou polícia ou mauricinho, todo mundo chega e troca ideia na boa. Eu me sinto muito segura quando vou grafitar, como se estivesse com uma armadura porque sinto que a arte faz isso: conecta as pessoas.
Ovelha: Como o grafite influencia sua relação com a cidade?
Mag: Minha vida sempre foi voltada pro centro da cidade, que era onde eu estudava e onde moravam minhas amigas, e Vila Madalena, que é onde eu moro. O grafite me fez conhecer todos os lugares da cidade. Ia pra zona leste, zona sul, ia pra favela, pros granfinos. Fui pra todo canto, pra fora do país, viajei. O grafite é aceito cada vez mais em todos os lugares e isso é do caralho pra mim.
Ovelha: Quando você percebeu que estava desenhando mulheres mais que qualquer outra coisa?
Mag: É maluco isso porque, quando comecei, eu não queria fazer mulheres por não saber o que fazer com isso mesmo. Aí desenhando muito você vai se copiando, tendo seu corpo como referência, e acaba fazendo o que você mais vê na vida, que é você mesmo. Mas não sei exatamente quando foi isso. Talvez de 2009 para 2010. E elas começaram a ir para uma figura meio pesada, escura, meio retangular, mas meu trabalho muda o tempo inteiro.
Ovelha: E elas parecem meio frágeis, tensas, muitas vezes sangrando.
Mag: É muito como eu me sinto. Às vezes eu estou muito encolhida, às vezes mais relaxada, então depende muito. Elas são como eu estou me sentindo naquele momento. Quando comecei a fazer ioga, faz pouco tempo, pirei tanto que comecei a fazer umas mulheres contorcidas. É muito reflexo de mim. O lance do sangue também é legal. Antes, eu fazia uns buraquinhos de bala de tiro nelas, mas não tinha sangue. Passei por um momento de separação, de relacionamento, e foi bem maluco pra minha cabeça. Aí eu fiz uma tela e sangrei nela. Aquilo foi um alívio pra mim, como se eu estivesse há muito tempo querendo pôr pra fora aquilo. Parecia que era eu sangrando.
Ovelha: E algumas têm vaginas disfarçadas, outras não.
Mag: Muitas pessoas acham que são flores e não deixam de ser, né. Em 2010, eu estava fazendo uma tela gigante e senti uma energia feminina que veio em mim, que eu comecei a me sentir mulher. Foi muito louco e pirei na tela. Desenhei dois planetas de bucetas, aí tem uma mulher em cima de um planetinha e um homem no outro. Aí pronto. As bucetas começaram a aparecer sempre no meu trabalho. Começou bem agressivo. Fiz uma tela que chama ‘cara de buceta’, que é uma mulher com uma buceta na cara, que era o jeito que eu estava me sentindo na época no meu relacionamento e achava que o cara só queria isso comigo. Comecei a questionar várias coisas de relação entre homem e mulher. Hoje em dia acho que ela vem com mais sutileza, para carimbar essa energia feminina, esse poder da libido, e de manipular os homens com o sexo. Quem já não fez isso?
Ovelha: Por que você usa azulejo no grafite?
Mag: Logo que eu voltei de Portugal, tive a brisa de usar esses caquinhos quebrados de azulejo na parede. Fui em 2012 pra lá e busquei a história dos meus avós. Meu vô era pedreiro e usava muito isso. Aí eu pirei e acho que ninguém tinha feito isso antes no grafite. Também fiz três telas com fundo de azulejo. Quero usar mais essa técnica porque fica muito elegante. É a mesma coisa da buceta que é sutil. A pessoa acha aquilo lindo, mas tem uma puta mensagem pesada ali. É uma coisa que eu saquei. Meu trabalho era muito bruto, agressivo. Hoje as pessoas gostam mais.
Ovelha: E a relação da poesia com o seu desenho?
Mag: A palavra sempre foi muito forte pra mim. Quando eu tinha uns 13 anos, já gostava muito de escrever uns contos, e eu escrevia umas coisas tão pesadas na época. Mas não teve uma frequência. Parei de escrever e voltei há alguns anos em um blog, só pra mim. Mas eu gosto de dar um título pro desenho que não seja óbvio e tenha uma poesia nele e, às vezes, a poesia me traz o desenho.
