Assédio, mulheres trans e travestis

Ilustração feita com exclusividade por Janis Souza.

A primeira vez que eu fui assediada eu jamais vou me esquecer. Era aniversário da minha melhor amiga, eu tinha transicionado há 2 meses. Estávamos voltando da festa de aniversário dela e eu lembro nitidamente do caminhão que passou gritando “gostosa” em minha direção. Ali foi quando eu percebi que aquilo seria pra sempre, e que ficaria cada vez pior.

Com o passar do tempo, os assédios foram piorando. Um dia fui participar de um debate numa escola no centro da cidade e em um curto período de tempo eu tinha recebido mais de 4 cantadas, na rua e no metrô. Eu estava sozinha e aquilo foi me deixando cada vez mais assustada.

Algo relacionado aos assédios que eu percebi é que sempre que eu estou acompanhada de um homem, os assédios parecem desaparecer, como se ao estar na presença de um homem ele se torna “meu dono”, e eu uma propriedade dele. Diversas vezes saí com caras e o máximo que recebo são olhares que me seguem, mas não escuto absolutamente nada. E isso me incomoda. Me incomoda pelo fato de que minha segurança só está garantida se eu estou acompanhada de um homem, e tudo o que eu quero é andar na rua, tranquilamente, sem que eu fique ouvindo coisas de diversos tipos, ou que eu não tenha que passar por situações desagradáveis.

Em julho, fui com amigos pra um evento (o qual fui fantasiada de gata) e durante todo o trajeto até o evento eu ouvi miados vindo em minha direção. Uma das situações mais constrangedoras aconteceu no metrô, onde um grupo de 10 caras ficaram reunidos todos em volta de mim. Haviam outras portas, mas todos queriam ficar próximos onde eu estava, porque queriam ficar olhando para os meus peitos e minhas pernas. Resolvi então ficar mais próxima dos meus amigos, pois estava sentada de um lado e eles do outro. Quando fui para perto deles, um dos caras sentou onde eu estava, e decidiu que seria uma boa ideia tentar fotografar minhas pernas e fotografar embaixo do meu vestido. Só fiquei sabendo dessa situação quando já havia saído do metrô, quando meus amigos me contaram. Confesso que fiquei bem irritada, com muita vontade de tirar uma satisfação do porque diabos ele tirou uma foto minha, se ele havia conseguido, e o que ele iria fazer com aquela foto.

O que mais me deixa entristecida é que em nenhum caso de assédio eu posso responder. Enquanto mulher trans, as questões de assédio são bem diferentes, mesmo que sejam iguais. Quando um cara nos assedia na rua, ele nos assedia achando que somos mulheres cis, como se mulheres – independente de serem cis ou trans – pudessem ser assediadas, e quando eles notam ou percebem que não somos mulheres cisgêneras, que somos mulheres trans ou travestis, eles ficam irritados, porque “como diabos eu pude mexer com isso?”, como se a masculinidade deles fosse fragilizada ao assediarem uma mulher trans ou uma travesti.
Em alguns casos, quando respondemos, os rapazes que nos assediaram respondem “vixe, é homem” ou “sai pra lá, sou hetero”, e há diversas problemáticas nisso. Uma delas é que sim, somos mulheres. Um homem hetero que se envolve com mulheres trans ainda sim é hetero. Ele sentir atração por uma mulher trans não faz dele “menos hetero”, e é claro que ele não deve demonstrar esse interesse, essa atração, em forma de assédio, pois não merecemos ser assediadas, sejamos cis, trans ou travestis.

Em casos mais extremos, quando respondemos à assédios e cantadas, somos agredidas. Ali, diante daqueles homens que sentem repulsa de terem cantado uma mulher trans ou travesti, somos homens. Somos vistas como homens, e isso faz com que eles queiram descontar a raiva dele em nós. “São homens mesmo”, então podem apanhar, são homens batendo em “homens”, quando na verdade só estamos nos defendendo de assédios. Em muitos casos quando acontece a agressão física, não há quem nos ampare, não há quem nos defenda. Somos bichos, seres TRANSparentes, que se está apanhando é porque fez algo, porque merece.

Somos mulheres trans, somos travestis, e não merecemos ser assediadas. Merecemos respeito, merecemos que nosso gênero, nossa identidade de gênero, seja respeitada sempre.

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  • Grasshop Per

    Belo post, Ariel, obrigada pelo relato. Achei super interessante voce explorar/expor o que acontece depois de uma possível reacao: “e se eu respondo? e se eles notaram que nao sou cis?” que é que muitas vezes desandar pra violencia. Na minha experiencia de mulher cis e bem menor que a grande maioria dos homens também já vi cair pra violencia inúmeras vezes. Já recebi agressoes, ameacas de agressoes físicas e agressoes verbais por recusar, ignorar ou responder a um assédio. A outra opcao, claro é o agressor rir e ridicularizar “ficou nervosinha, é?”. Todas as opcoes humilhantes. Até hoje nao sei qual é o melhor jeito de reagir sem perder os dentes mas mostrar claramente que isso nao esta certo.