É véspera de Natal e duas melhores amigas se encontram depois de algum tempo sem se ver. Uma delas acabara de sair de uma temporada de 28 dias na cadeia. Na esquina da Santa Monica Boulevard e Highland Avenue, em Los Angeles, elas sentem de frente uma pra outra em uma loja de Donuts. É nessa esquina vista da janela da Donut Time que a história das duas prostitutas transexuais Sin-Dee e Alexandra tem início. Elas se olham como cúmplices e fofocam. Sin-Dee confessa que tem algo para contar sobre seu namorado, o cafetão Chester, ao que Alexandra interrompe: “Ah, eu já sei! Você vai terminar com ele, né? Graças a Deus! Se é pra ele ficar te traindo assim…”. “Wait, wait, wait, WHAT?!”.
O filme do diretor Sean Baker, Tangerine foi o primeiro longa a ser filmado inteiramente com apenas com um iPhone. Graças a um aplicativo, o FiLMiC Pro, a imagem não perdeu quase nada em qualidade. Além disso, a câmara mais versátil do celular dá uma noção de realidade participante, que talvez um grande aparato cinematográfico não tivesse proporcionado.
A temática LGBTQueer do filme é o que faz dele um “must see” pra quem curte cinema alternativo: Alexandra e Sin-Dee (by the way, o nome é uma abreviação de Sin-Dee-Rella) são duas mulheres transexuais negras que se prostituem nas ruas de Los Angeles, por onde toda a trama acontece. Baker conheceu Kitana Kiki Rodriguez (Sin-Dee) e Mya Taylor (Alexandra) em um centro LGBT, enquanto fazia pesquisas para sua nova produção. O primeiro contato foi com Mya, que recebeu o convite para atuar pouco depois de conhecer Baker. O diretor sabia desde o início que queria contar uma história de dentro da comunidade LGBT de Los Angeles e que o seu elenco seria transgender. Mya o apresentou a seu círculo das ruas e assim Baker conheceu Kiki. Um drama real da vida de Kiki, de quando ela foi traída pelo namorado, foi o que inspirou a trama de Tangerine.
Depois da revelação de Alexandra a Sin-Dee, a história se desenrola de forma desenfreada, como a personalidade da protagonista. Pelas ruas de Los Angeles, a personagem vai atrás da tal amante – uma “white fish, com vagina e tudo”, como descreve Alexandra (pelo que pesquisei, “fish” ou “peixe” parece ser um gíria para se referir pejorativamente a mulheres não transexuais. A linguagem cheia de gírias das duas também é algo marcante no filme). Os passos decididos de Sin-Dee e sua melhor amiga são acompanhados por uma trilha eletrônica, por vezes intercalada com música clássica, que dá um ritmo frenético a narrativa.
Uma das cenas mais maravilindas do longo é quando Sin-Dee senta em um ponto de tram (tipo um bonde), nervosa, sem saber o que fazer. Ela morde os lábios e olha para as pessoas saindo e entrando do tram, embalada por uma música clássica. A trilha vai mudando conforme os pensamentos da personagem parecem ficar mais inquietos. Quando atinge o ápice da agitação, Sin-Dee larga um “fuck it!”. Se levanta e vai em direção à estação de metrô, com beats de música eletrônica ao fundo de seus passos largos.
Outros personagens desse submundo de Los Angeles surgem ao longo da trama para lhe dar sustento. Como a própria amante, que também era uma das prostitutas de Chester, e o taxista armênio Razmik, que esconde da família suas relações com prostitutas transexuais.
A comédia dramática que começa despretensiosa vai ganhando ares de análise social, mesmo que não muito aprofundada. Ao longo do super drama de Sin-Dee-Rella, o espectador enxerga sutilmente atos de preconceito e transfobia. Em uma das cenas, Alexandra está brigando com um cliente que se recusava a pagar depois do serviço feito. Uma policial, que já a conhecia, tenta apartar a briga a chamando pelo nome masculino de Alexander. É sutil, mas percebe-se uma negação da imagem dessas mulheres como de fato mulheres. Em entrevista ao The Guardian, Mya conta que em uma discussão com uma conhecida das ruas, a bitch, como ela mesmo descreve, a chamou de Jeremiah, seu nome antes de fazer a transição. Ouvir o nome a deixou furiosa e frustrada, reação diferente da que Alexandra tem no filme. Ao ouvir o nome Alexander saindo da boca da policial, ela apenas a ignora e continua a brigar com o cliente, como se ouvir aquele nome já fosse algo normal em sua vida como trans.
Em uma cena de preconceito mais explícita, Sin-Dee se aproxima do carro de um suposto cliente. Para sua amarga surpresa, o carro estava cheio de jovens babacas que jogam um copo de xixi em sua cara. Além da humilhação, ela fica abalada em ter que ser vista em público sem sua peruca e outfit feminino, que precisa tirar para se limpar. Mas ela e a amiga tratam tudo de forma normal. Não choram nem demonstram grande indignação. Apenas tentam ajudar uma a outra em uma situação, na qual qualquer outro tipo de reação parece ser perda de tempo….
Não diria que o filme se centra em uma crítica social. Mas é nas sutilidades que ele traz essas temáticas, como a gritante normalidade que esses tipos de preconceitos tomaram. Interessante também é ver outra faceta da vida dessas personagens. Tangerine não é um filme que vai mostrar como é triste ser uma prostituta transexual em LA. Tampouco vai mostrar como é trabalhar nesse meio, lidando com drogas, violência, preconceito etc.
O longa não pretende ser documental, mesmo mantendo a fidelidade às histórias reais. Ele foca nos dramas de relacionamentos, amorosos ou de amizade, que podem ser comuns a nós (o namorado que traí, a amante, a melhor amiga que tenta te dissuadir de causar um grande drama). Essa similaridade e estranhamente com o drama alheio é talvez o que traz para o filme o ar de comédia.
Das ruas pro cinema
Depois que vi o filme fiquei curiosa para saber mais sobre a produção. Descobri que, incrivelmente, muitas das histórias no Tangerine são reais. Não só os preconceitos, a história com o namorado de Kiki que inspirou o filme, mas a vida das personagens.
Mya Taylor contou em entrevista para o The Guardian que, de fato, teve que se prostituir nas ruas de LA para sobreviver. Nascida no Texas e criada como Jeremiah, Mya foi obrigada a sair de casa depois de se declarar gay para a família. Ela se mudou com uma parente que, com problemas financeiros, fez a jovem ir para as ruas trabalhar. Isso a levou à prostituição.
Quando chegou em LA, Mya era moradora de rua e buscou ajuda no centro LGBT, onde conheceu o diretor Sean Baker. Depois de ter vários empregos rejeitados, provavelmente por preconceito a transexuais, o filme Tangerine deu à Mya a vida normal que ela desejava.
A amizade de Alexandra e Sin-Dee também é outra coisa real no longa. Mya e Kiki já eram grandes amigas quando estavam nas ruas de Los Angeles. Por isso, em frente às câmaras, não foi tão difícil fingir cumplicidade de best friends.
Assim como Mya, Kiki também mudou de vida com o sucesso do filme. Mesmo não conseguindo tirar um passaporte para divulgar Tangerine mundo a fora, ela saiu das ruas e já mora em um apartamento próprio. “Não estamos ricas, mas já estamos muito melhor que antes. Antes nós não tínhamos nada e agora sabemos como sobreviver. Mesmo tendo alguma coisa ou nada”, disse Mya ao The Guardian.
Crédito das imagens: Magnolia Pictures
É véspera de Natal e duas melhores amigas se encontram depois de algum tempo sem se ver. Uma delas acabara de sair de uma temporada de 28 dias na cadeia. Na esquina da Santa Monica Boulevard e Highland Avenue, em Los Angeles, elas sentem de frente uma pra outra em uma loja de Donuts. É nessa esquina vista da janela da Donut Time que a história das duas prostitutas transexuais Sin-Dee e Alexandra tem início. Elas se olham como cúmplices e fofocam. Sin-Dee confessa que tem algo para contar sobre seu namorado, o cafetão Chester, ao que Alexandra interrompe: “Ah, eu já sei! Você vai terminar com ele, né? Graças a Deus! Se é pra ele ficar te traindo assim…”. “Wait, wait, wait, WHAT?!”.
O filme do diretor Sean Baker, Tangerine foi o primeiro longa a ser filmado inteiramente com apenas com um iPhone. Graças a um aplicativo, o FiLMiC Pro, a imagem não perdeu quase nada em qualidade. Além disso, a câmara mais versátil do celular dá uma noção de realidade participante, que talvez um grande aparato cinematográfico não tivesse proporcionado.
A temática LGBTQueer do filme é o que faz dele um “must see” pra quem curte cinema alternativo: Alexandra e Sin-Dee (by the way, o nome é uma abreviação de Sin-Dee-Rella) são duas mulheres transexuais negras que se prostituem nas ruas de Los Angeles, por onde toda a trama acontece. Baker conheceu Kitana Kiki Rodriguez (Sin-Dee) e Mya Taylor (Alexandra) em um centro LGBT, enquanto fazia pesquisas para sua nova produção. O primeiro contato foi com Mya, que recebeu o convite para atuar pouco depois de conhecer Baker. O diretor sabia desde o início que queria contar uma história de dentro da comunidade LGBT de Los Angeles e que o seu elenco seria transgender. Mya o apresentou a seu círculo das ruas e assim Baker conheceu Kiki. Um drama real da vida de Kiki, de quando ela foi traída pelo namorado, foi o que inspirou a trama de Tangerine.
Depois da revelação de Alexandra a Sin-Dee, a história se desenrola de forma desenfreada, como a personalidade da protagonista. Pelas ruas de Los Angeles, a personagem vai atrás da tal amante – uma “white fish, com vagina e tudo”, como descreve Alexandra (pelo que pesquisei, “fish” ou “peixe” parece ser um gíria para se referir pejorativamente a mulheres não transexuais. A linguagem cheia de gírias das duas também é algo marcante no filme). Os passos decididos de Sin-Dee e sua melhor amiga são acompanhados por uma trilha eletrônica, por vezes intercalada com música clássica, que dá um ritmo frenético a narrativa.
Uma das cenas mais maravilindas do longo é quando Sin-Dee senta em um ponto de tram (tipo um bonde), nervosa, sem saber o que fazer. Ela morde os lábios e olha para as pessoas saindo e entrando do tram, embalada por uma música clássica. A trilha vai mudando conforme os pensamentos da personagem parecem ficar mais inquietos. Quando atinge o ápice da agitação, Sin-Dee larga um “fuck it!”. Se levanta e vai em direção à estação de metrô, com beats de música eletrônica ao fundo de seus passos largos.
Outros personagens desse submundo de Los Angeles surgem ao longo da trama para lhe dar sustento. Como a própria amante, que também era uma das prostitutas de Chester, e o taxista armênio Razmik, que esconde da família suas relações com prostitutas transexuais.
A comédia dramática que começa despretensiosa vai ganhando ares de análise social, mesmo que não muito aprofundada. Ao longo do super drama de Sin-Dee-Rella, o espectador enxerga sutilmente atos de preconceito e transfobia. Em uma das cenas, Alexandra está brigando com um cliente que se recusava a pagar depois do serviço feito. Uma policial, que já a conhecia, tenta apartar a briga a chamando pelo nome masculino de Alexander. É sutil, mas percebe-se uma negação da imagem dessas mulheres como de fato mulheres. Em entrevista ao The Guardian, Mya conta que em uma discussão com uma conhecida das ruas, a bitch, como ela mesmo descreve, a chamou de Jeremiah, seu nome antes de fazer a transição. Ouvir o nome a deixou furiosa e frustrada, reação diferente da que Alexandra tem no filme. Ao ouvir o nome Alexander saindo da boca da policial, ela apenas a ignora e continua a brigar com o cliente, como se ouvir aquele nome já fosse algo normal em sua vida como trans.
Em uma cena de preconceito mais explícita, Sin-Dee se aproxima do carro de um suposto cliente. Para sua amarga surpresa, o carro estava cheio de jovens babacas que jogam um copo de xixi em sua cara. Além da humilhação, ela fica abalada em ter que ser vista em público sem sua peruca e outfit feminino, que precisa tirar para se limpar. Mas ela e a amiga tratam tudo de forma normal. Não choram nem demonstram grande indignação. Apenas tentam ajudar uma a outra em uma situação, na qual qualquer outro tipo de reação parece ser perda de tempo….
Não diria que o filme se centra em uma crítica social. Mas é nas sutilidades que ele traz essas temáticas, como a gritante normalidade que esses tipos de preconceitos tomaram. Interessante também é ver outra faceta da vida dessas personagens. Tangerine não é um filme que vai mostrar como é triste ser uma prostituta transexual em LA. Tampouco vai mostrar como é trabalhar nesse meio, lidando com drogas, violência, preconceito etc.
O longa não pretende ser documental, mesmo mantendo a fidelidade às histórias reais. Ele foca nos dramas de relacionamentos, amorosos ou de amizade, que podem ser comuns a nós (o namorado que traí, a amante, a melhor amiga que tenta te dissuadir de causar um grande drama). Essa similaridade e estranhamente com o drama alheio é talvez o que traz para o filme o ar de comédia.
Das ruas pro cinema
Depois que vi o filme fiquei curiosa para saber mais sobre a produção. Descobri que, incrivelmente, muitas das histórias no Tangerine são reais. Não só os preconceitos, a história com o namorado de Kiki que inspirou o filme, mas a vida das personagens.
Mya Taylor contou em entrevista para o The Guardian que, de fato, teve que se prostituir nas ruas de LA para sobreviver. Nascida no Texas e criada como Jeremiah, Mya foi obrigada a sair de casa depois de se declarar gay para a família. Ela se mudou com uma parente que, com problemas financeiros, fez a jovem ir para as ruas trabalhar. Isso a levou à prostituição.
Quando chegou em LA, Mya era moradora de rua e buscou ajuda no centro LGBT, onde conheceu o diretor Sean Baker. Depois de ter vários empregos rejeitados, provavelmente por preconceito a transexuais, o filme Tangerine deu à Mya a vida normal que ela desejava.
A amizade de Alexandra e Sin-Dee também é outra coisa real no longa. Mya e Kiki já eram grandes amigas quando estavam nas ruas de Los Angeles. Por isso, em frente às câmaras, não foi tão difícil fingir cumplicidade de best friends.
Assim como Mya, Kiki também mudou de vida com o sucesso do filme. Mesmo não conseguindo tirar um passaporte para divulgar Tangerine mundo a fora, ela saiu das ruas e já mora em um apartamento próprio. “Não estamos ricas, mas já estamos muito melhor que antes. Antes nós não tínhamos nada e agora sabemos como sobreviver. Mesmo tendo alguma coisa ou nada”, disse Mya ao The Guardian.
É véspera de Natal e duas melhores amigas se encontram depois de algum tempo sem se ver. Uma delas acabara de sair de uma temporada de 28 dias na cadeia. Na esquina da Santa Monica Boulevard e Highland Avenue, em Los Angeles, elas sentem de frente uma pra outra em uma loja de Donuts. É nessa esquina vista da janela da Donut Time que a história das duas prostitutas transexuais Sin-Dee e Alexandra tem início. Elas se olham como cúmplices e fofocam. Sin-Dee confessa que tem algo para contar sobre seu namorado, o cafetão Chester, ao que Alexandra interrompe: “Ah, eu já sei! Você vai terminar com ele, né? Graças a Deus! Se é pra ele ficar te traindo assim…”. “Wait, wait, wait, WHAT?!”.
O filme do diretor Sean Baker, Tangerine foi o primeiro longa a ser filmado inteiramente com apenas com um iPhone. Graças a um aplicativo, o FiLMiC Pro, a imagem não perdeu quase nada em qualidade. Além disso, a câmara mais versátil do celular dá uma noção de realidade participante, que talvez um grande aparato cinematográfico não tivesse proporcionado.
A temática LGBTQueer do filme é o que faz dele um “must see” pra quem curte cinema alternativo: Alexandra e Sin-Dee (by the way, o nome é uma abreviação de Sin-Dee-Rella) são duas mulheres transexuais negras que se prostituem nas ruas de Los Angeles, por onde toda a trama acontece. Baker conheceu Kitana Kiki Rodriguez (Sin-Dee) e Mya Taylor (Alexandra) em um centro LGBT, enquanto fazia pesquisas para sua nova produção. O primeiro contato foi com Mya, que recebeu o convite para atuar pouco depois de conhecer Baker. O diretor sabia desde o início que queria contar uma história de dentro da comunidade LGBT de Los Angeles e que o seu elenco seria transgender. Mya o apresentou a seu círculo das ruas e assim Baker conheceu Kiki. Um drama real da vida de Kiki, de quando ela foi traída pelo namorado, foi o que inspirou a trama de Tangerine.
Depois da revelação de Alexandra a Sin-Dee, a história se desenrola de forma desenfreada, como a personalidade da protagonista. Pelas ruas de Los Angeles, a personagem vai atrás da tal amante – uma “white fish, com vagina e tudo”, como descreve Alexandra (pelo que pesquisei, “fish” ou “peixe” parece ser um gíria para se referir pejorativamente a mulheres não transexuais. A linguagem cheia de gírias das duas também é algo marcante no filme). Os passos decididos de Sin-Dee e sua melhor amiga são acompanhados por uma trilha eletrônica, por vezes intercalada com música clássica, que dá um ritmo frenético a narrativa.
Uma das cenas mais maravilindas do longo é quando Sin-Dee senta em um ponto de tram (tipo um bonde), nervosa, sem saber o que fazer. Ela morde os lábios e olha para as pessoas saindo e entrando do tram, embalada por uma música clássica. A trilha vai mudando conforme os pensamentos da personagem parecem ficar mais inquietos. Quando atinge o ápice da agitação, Sin-Dee larga um “fuck it!”. Se levanta e vai em direção à estação de metrô, com beats de música eletrônica ao fundo de seus passos largos.
Outros personagens desse submundo de Los Angeles surgem ao longo da trama para lhe dar sustento. Como a própria amante, que também era uma das prostitutas de Chester, e o taxista armênio Razmik, que esconde da família suas relações com prostitutas transexuais.
A comédia dramática que começa despretensiosa vai ganhando ares de análise social, mesmo que não muito aprofundada. Ao longo do super drama de Sin-Dee-Rella, o espectador enxerga sutilmente atos de preconceito e transfobia. Em uma das cenas, Alexandra está brigando com um cliente que se recusava a pagar depois do serviço feito. Uma policial, que já a conhecia, tenta apartar a briga a chamando pelo nome masculino de Alexander. É sutil, mas percebe-se uma negação da imagem dessas mulheres como de fato mulheres. Em entrevista ao The Guardian, Mya conta que em uma discussão com uma conhecida das ruas, a bitch, como ela mesmo descreve, a chamou de Jeremiah, seu nome antes de fazer a transição. Ouvir o nome a deixou furiosa e frustrada, reação diferente da que Alexandra tem no filme. Ao ouvir o nome Alexander saindo da boca da policial, ela apenas a ignora e continua a brigar com o cliente, como se ouvir aquele nome já fosse algo normal em sua vida como trans.
Em uma cena de preconceito mais explícita, Sin-Dee se aproxima do carro de um suposto cliente. Para sua amarga surpresa, o carro estava cheio de jovens babacas que jogam um copo de xixi em sua cara. Além da humilhação, ela fica abalada em ter que ser vista em público sem sua peruca e outfit feminino, que precisa tirar para se limpar. Mas ela e a amiga tratam tudo de forma normal. Não choram nem demonstram grande indignação. Apenas tentam ajudar uma a outra em uma situação, na qual qualquer outro tipo de reação parece ser perda de tempo….
Não diria que o filme se centra em uma crítica social. Mas é nas sutilidades que ele traz essas temáticas, como a gritante normalidade que esses tipos de preconceitos tomaram. Interessante também é ver outra faceta da vida dessas personagens. Tangerine não é um filme que vai mostrar como é triste ser uma prostituta transexual em LA. Tampouco vai mostrar como é trabalhar nesse meio, lidando com drogas, violência, preconceito etc.
O longa não pretende ser documental, mesmo mantendo a fidelidade às histórias reais. Ele foca nos dramas de relacionamentos, amorosos ou de amizade, que podem ser comuns a nós (o namorado que traí, a amante, a melhor amiga que tenta te dissuadir de causar um grande drama). Essa similaridade e estranhamente com o drama alheio é talvez o que traz para o filme o ar de comédia.
Das ruas pro cinema
Depois que vi o filme fiquei curiosa para saber mais sobre a produção. Descobri que, incrivelmente, muitas das histórias no Tangerine são reais. Não só os preconceitos, a história com o namorado de Kiki que inspirou o filme, mas a vida das personagens.
Mya Taylor contou em entrevista para o The Guardian que, de fato, teve que se prostituir nas ruas de LA para sobreviver. Nascida no Texas e criada como Jeremiah, Mya foi obrigada a sair de casa depois de se declarar gay para a família. Ela se mudou com uma parente que, com problemas financeiros, fez a jovem ir para as ruas trabalhar. Isso a levou à prostituição.
Quando chegou em LA, Mya era moradora de rua e buscou ajuda no centro LGBT, onde conheceu o diretor Sean Baker. Depois de ter vários empregos rejeitados, provavelmente por preconceito a transexuais, o filme Tangerine deu à Mya a vida normal que ela desejava.
A amizade de Alexandra e Sin-Dee também é outra coisa real no longa. Mya e Kiki já eram grandes amigas quando estavam nas ruas de Los Angeles. Por isso, em frente às câmaras, não foi tão difícil fingir cumplicidade de best friends.
Assim como Mya, Kiki também mudou de vida com o sucesso do filme. Mesmo não conseguindo tirar um passaporte para divulgar Tangerine mundo a fora, ela saiu das ruas e já mora em um apartamento próprio. “Não estamos ricas, mas já estamos muito melhor que antes. Antes nós não tínhamos nada e agora sabemos como sobreviver. Mesmo tendo alguma coisa ou nada”, disse Mya ao The Guardian.
A Normal Lost Phone é um jogo em que você pode colocar pra fora todo aquele seu talento reprimido de stalker.
Alguém perdeu um celular, aparentemente novo, e você teve a sorte (ou o azar…) de encontrá-lo. O telefone está desbloqueado e você pode fuçar livremente para descobrir o paradeiro do dono – ou simplesmente pelo prazer de stalkear a vida alheia.
O jogo foi criado pelo grupo europeu de animadores e desenvolvedores de games Accidental Queens e exibido durante o 5º Festival Internacional de VideoGames Independentes em Berlim, o A MAZE 2016.
Além do design bonitinho e até que bastante realista, o game tem a temática LGBT e queer como pano de fundo (Elizabeth Maler, uma das designers do jogo, me explicou o porquê da problemática de gênero em uma curta conversa que você lê no fim desse texto). Achei muito válida a ideia de trazer o tema à tona através do game, para que se possa refletir sobre o assunto de forma mais descontraída e natural. Foi uma bela sacada!
Joguei A Normal Lost Phone por alguns minutos no A MAZE, mas confesso que não consegui terminar tão rápido quanto imaginava. O objetivo do jogo é descobrir duas senhas necessárias para acessar o perfil do usuário no Love Birds, um dating app (tipo Tinder, Happn, Grindr). No celular, você pode acessar a lista de contatos, últimas mensagens (inclusive receber e enviar mensagens), galeria de fotos e calendário… Com eles, aos poucos, o jogador descobre que o telefone pertence a um garoto chamado Sam e, mais além, consegue saber o que foi acontecendo na vida de Sam desde que ele ganhou seu novo smartphone. Mas isso eu não vou contar!! Hihihi
O jogo é bem divertido e mexe com a curiosidade (ainda mais se você é uma curiosa de carteirinha como eu). Eu cheguei a um ponto em que não queria mais largar o tal game porque queria muito saber o que tinha acontecido com o Sam. E foi realmente interessante perceber como um simples celular pode dizer tanto sobre a vida de alguém… Portanto, cuidem bem de seus telefones!
O Accidental Queens está planejando uma nova versão do jogo com algumas novidades: mais aplicativos, códigos para desvendar, músicas e mais sobre a história de Sam. E possivelmente uma versão em português! Elizabeth me contou que a versão teste teve boa receptividade no Brasil e, por isso, eles pretendem fazer uma tradução – até agora, A Normal Lost Phone está disponível em inglês, espanhol e francês.
No dia 17 de maio, dia internacional contra a homofobia, o grupo lançará uma campanha de financiamento coletivo. Para isso, eles estão fazendo uma pesquisa sobre o que as pessoas gostariam de ganhar como recompensa em troca da contribuição. O questionário online também é uma forma de saber qual a receptividade do jogo no Brasil, para saber se vale a pena traduzi-lo para o português. Então, vamos ajudar e mostrar que queremos uma versão A Normal Lost Phone em nosso lindo idioma!
Segue a conversa que tive com Elizabeth Maler sobre a criação do jogo e do Accidental Queens:
Ovelha: Por que vocês decidiram trabalhar a temática LBGTQ no game A Normal Lost Phone?
Elizabeth: O projeto foi criado durante o Global Game Jam, um evento em que desenvolvedores se encontram e tentam montar o protótipo de um jogo em 48 horas. Depois que o tema “ritual” foi anunciado, nós (Elizabeth e outras duas meninas) começamos a pensar em um jogo com um celular perdido, em que você poderia explorar a identidade da pessoa. Nós queríamos fazer algo feminista. Queríamos também poder trabalhar por nossa conta, sem ter que lidar com algum troll, o que pode ser muito exaustivo para mulheres na área de games. Não é que haja muitas pessoas assim na indústria, mas há algumas… Então quando apresentamos a ideia para todo mundo no Game Jam para formar os times, decidimos dizer que iríamos fazer um game sobre a problemática de gênero. Nós achamos que seria uma boa maneira de ter certeza que não teríamos nenhum homofóbico ou misógino no grupo.
Ovelha: De onde vocês tiveram as ideias para montar a personalidade de Sam e sua história?
Elizabeth: Um amigo meu tinha acabado de me contar que era gay e que estava com medo de contar isso pros pais, que eram abertamente homofóbicos, e eu queria escrever algo sobre esse medo. Mas esse medo é a única ligação entre esse meu amigo e Sam. Outras partes da história de Sam e de sua personalidade foram inspiradas em outros amigos ou em pessoas da equipe de criação.
Ovelha: E por que vocês escolheram o nome Accidental Queens para o grupo desenvolvedor do jogo?
Elizabeth: O grupo é composto majoritariamente por mulheres, mas em francês, temos essa regra gramatical estúpida que diz que mesmo se o grupo for composto por 10 mil mulheres e apenas um homem, o adjetivo que se refere a esse grupo deve concordar com o gênero masculino… Acredito que seja o mesmo em português, como “são muito bonitos”, mesmo que seja um grupo 99% feminino. Bom, nós somos um grupo de maioria feminina e isso é raro na indústria de videogames. Por isso decidimos usar a palavra “queens” (rainhas, em inglês). Os meninos do grupo também gostaram da ideia de não ter um nome masculino e agora são eles que têm que se adaptar com isso (o nome feminino). Accidental é principalmente pelo fato do protótipo que fizemos ter se tornado um grande sucesso. Isso não foi planejado. Nós não tínhamos a pretensão de ficar famosas com o jogo, foi apenas um feliz acidente!
The Guardian, Mya conta que em uma discussão com uma conhecida das ruas, a bitch, como ela mesmo descreve, a chamou de Jeremiah, seu nome antes de fazer a transição. Ouvir o nome a deixou furiosa e frustrada, reação diferente da que Alexandra tem no filme. Ao ouvir o nome Alexander saindo da boca da policial, ela apenas a ignora e continua a brigar com o cliente, como se ouvir aquele nome já fosse algo normal em sua vida como trans.
Em uma cena de preconceito mais explícita, Sin-Dee se aproxima do carro de um suposto cliente. Para sua amarga surpresa, o carro estava cheio de jovens babacas que jogam um copo de xixi em sua cara. Além da humilhação, ela fica abalada em ter que ser vista em público sem sua peruca e outfit feminino, que precisa tirar para se limpar. Mas ela e a amiga tratam tudo de forma normal. Não choram nem demonstram grande indignação. Apenas tentam ajudar uma a outra em uma situação, na qual qualquer outro tipo de reação parece ser perda de tempo….
Não diria que o filme se centra em uma crítica social. Mas é nas sutilidades que ele traz essas temáticas, como a gritante normalidade que esses tipos de preconceitos tomaram. Interessante também é ver outra faceta da vida dessas personagens. Tangerine não é um filme que vai mostrar como é triste ser uma prostituta transexual em LA. Tampouco vai mostrar como é trabalhar nesse meio, lidando com drogas, violência, preconceito etc.
O longa não pretende ser documental, mesmo mantendo a fidelidade às histórias reais. Ele foca nos dramas de relacionamentos, amorosos ou de amizade, que podem ser comuns a nós (o namorado que traí, a amante, a melhor amiga que tenta te dissuadir de causar um grande drama). Essa similaridade e estranhamente com o drama alheio é talvez o que traz para o filme o ar de comédia.
Das ruas pro cinema
Depois que vi o filme fiquei curiosa para saber mais sobre a produção. Descobri que, incrivelmente, muitas das histórias no Tangerine são reais. Não só os preconceitos, a história com o namorado de Kiki que inspirou o filme, mas a vida das personagens.
Mya Taylor contou em entrevista para o The Guardian que, de fato, teve que se prostituir nas ruas de LA para sobreviver. Nascida no Texas e criada como Jeremiah, Mya foi obrigada a sair de casa depois de se declarar gay para a família. Ela se mudou com uma parente que, com problemas financeiros, fez a jovem ir para as ruas trabalhar. Isso a levou à prostituição.
Quando chegou em LA, Mya era moradora de rua e buscou ajuda no centro LGBT, onde conheceu o diretor Sean Baker. Depois de ter vários empregos rejeitados, provavelmente por preconceito a transexuais, o filme Tangerine deu à Mya a vida normal que ela desejava.
A amizade de Alexandra e Sin-Dee também é outra coisa real no longa. Mya e Kiki já eram grandes amigas quando estavam nas ruas de Los Angeles. Por isso, em frente às câmaras, não foi tão difícil fingir cumplicidade de best friends.
Assim como Mya, Kiki também mudou de vida com o sucesso do filme. Mesmo não conseguindo tirar um passaporte para divulgar Tangerine mundo a fora, ela saiu das ruas e já mora em um apartamento próprio. “Não estamos ricas, mas já estamos muito melhor que antes. Antes nós não tínhamos nada e agora sabemos como sobreviver. Mesmo tendo alguma coisa ou nada”, disse Mya ao The Guardian.
Crédito das imagens: Magnolia Pictures
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The Guardian, Mya conta que em uma discussão com uma conhecida das ruas, a bitch, como ela mesmo descreve, a chamou de Jeremiah, seu nome antes de fazer a transição. Ouvir o nome a deixou furiosa e frustrada, reação diferente da que Alexandra tem no filme. Ao ouvir o nome Alexander saindo da boca da policial, ela apenas a ignora e continua a brigar com o cliente, como se ouvir aquele nome já fosse algo normal em sua vida como trans.
Em uma cena de preconceito mais explícita, Sin-Dee se aproxima do carro de um suposto cliente. Para sua amarga surpresa, o carro estava cheio de jovens babacas que jogam um copo de xixi em sua cara. Além da humilhação, ela fica abalada em ter que ser vista em público sem sua peruca e outfit feminino, que precisa tirar para se limpar. Mas ela e a amiga tratam tudo de forma normal. Não choram nem demonstram grande indignação. Apenas tentam ajudar uma a outra em uma situação, na qual qualquer outro tipo de reação parece ser perda de tempo….
Não diria que o filme se centra em uma crítica social. Mas é nas sutilidades que ele traz essas temáticas, como a gritante normalidade que esses tipos de preconceitos tomaram. Interessante também é ver outra faceta da vida dessas personagens. Tangerine não é um filme que vai mostrar como é triste ser uma prostituta transexual em LA. Tampouco vai mostrar como é trabalhar nesse meio, lidando com drogas, violência, preconceito etc.
O longa não pretende ser documental, mesmo mantendo a fidelidade às histórias reais. Ele foca nos dramas de relacionamentos, amorosos ou de amizade, que podem ser comuns a nós (o namorado que traí, a amante, a melhor amiga que tenta te dissuadir de causar um grande drama). Essa similaridade e estranhamente com o drama alheio é talvez o que traz para o filme o ar de comédia.
Das ruas pro cinema
Depois que vi o filme fiquei curiosa para saber mais sobre a produção. Descobri que, incrivelmente, muitas das histórias no Tangerine são reais. Não só os preconceitos, a história com o namorado de Kiki que inspirou o filme, mas a vida das personagens.
Mya Taylor contou em entrevista para o The Guardian que, de fato, teve que se prostituir nas ruas de LA para sobreviver. Nascida no Texas e criada como Jeremiah, Mya foi obrigada a sair de casa depois de se declarar gay para a família. Ela se mudou com uma parente que, com problemas financeiros, fez a jovem ir para as ruas trabalhar. Isso a levou à prostituição.
Quando chegou em LA, Mya era moradora de rua e buscou ajuda no centro LGBT, onde conheceu o diretor Sean Baker. Depois de ter vários empregos rejeitados, provavelmente por preconceito a transexuais, o filme Tangerine deu à Mya a vida normal que ela desejava.
A amizade de Alexandra e Sin-Dee também é outra coisa real no longa. Mya e Kiki já eram grandes amigas quando estavam nas ruas de Los Angeles. Por isso, em frente às câmaras, não foi tão difícil fingir cumplicidade de best friends.
Assim como Mya, Kiki também mudou de vida com o sucesso do filme. Mesmo não conseguindo tirar um passaporte para divulgar Tangerine mundo a fora, ela saiu das ruas e já mora em um apartamento próprio. “Não estamos ricas, mas já estamos muito melhor que antes. Antes nós não tínhamos nada e agora sabemos como sobreviver. Mesmo tendo alguma coisa ou nada”, disse Mya ao The Guardian.