Chega de silêncio

Ilustração feita com exclusividade por Janis Souza.

Esse texto ia começar como um texto sobre #meuamigosecreto. Eu ainda não participei da campanha, inicialmente porque sei que as pessoas para quem eu mandaria isso nunca iriam ler já que não as tenho na minha timeline faz tempo, mas provavelmente também por receio de abrir a caixinha chamada LEMBRANÇAS REPRIMIDAS QUE EU AINDA NÃO DIGERI que ocupa um espaço bem confortável na prateleira infinita chamada minha memória. Estou achando um movimento lindo, como acho lindos todos os movimentos que mostram que unidasvenceremos. O silêncio não reina mais entre as mulheres.

Lembro quando eu era nova, quando comecei a ser assediada na rua. O que mais me choca, mais do que os assédios terem acontecido, é o silencio que os rodeava/rodeia. Se você tem quatorze anos, passa na rua e um homem te chama de gostosa, você obviamente não é a única pessoa que ouviu. Mas ninguém fala nada. Pelo menos, era assim quando eu era mais nova. E não é só esse silêncio. Era o silêncio na minha casa também. Em casa somos eu e minha irmã, mas ninguém nunca veio falar a respeito de assédio com a gente (tirando um episódio infortúnio onde eu, já com vinte anos, fui censurada por usar um shorts na rua à noite já que “você não é mais criança”. Como se ser criança defendesse alguém de alguma coisa). Minha mãe nunca nos preparou para o que estava vindo da rua, do mesmo jeito que tenho certeza de que ela nunca foi preparada, e a minha vó, antes dela, também não. Eu e minha irmã nunca falamos entre nós sobre o que passamos nas calçadas, nas salas de aula, na aula de violino, no táxi. Eu tinha apenas uma amiga que falava sobre isso, uma menina que eu admiro muito e que era considerada uma vadia por todos ao nosso redor, inclusive pela família dela, por ser a única corajosa o suficiente para encarnar sua sexualidade. O silêncio nos cobre feito um manto, criando um arquipélago de mulheres, separadas por litros e litros de tudo aquilo que não dissemos. Que não dissemos uma para a outra, que não dissemos para o nosso agressor.

A primeira vez que me ocorreu que eu não precisava ficar em silêncio foi quando tinha vinte e dois anos e conheci uma das minhas heroínas da vida real, uma mulher que tenho a honra de chamar de amiga. A gente havia marcado de se encontrar em pinheiros, e quando eu cheguei no lugar marcado telefonei para ela para perguntar se ela estava chegando. Sua voz flutuou para mim do outro lado da linha “To chegan… QUE FOI?? QUE FOI??!!”. Me pediu licença e desligou o telefone. Quando ela chegou, fui correndo ver o que era, achava que ela tinha sido atropelada. Lembro até hoje o sorriso leve que ela me deu, como se estivesse falando sobre qualquer outra coisa, “Ah, nada, era só uns caras que tavam olhando para mim”.

Eu nunca vi uma mulher gritando com um tarado machista na rua – mas sei de muitas que o fazem. Inclusive, atualmente sou uma delas. Toda vez que meu coração pesa na hora de gritar, lembro da Barbara de quatorze anos, e como a vida dela teria sido diferente se um dia, voltando para a casa da escola, ela tivesse ouvindo uma mulher gritando com um tarado, mostrando para ele que quem estava errado era ele, não ela, não ela por estar na rua, por ser mulher e estar na rua. Talvez um dia uma menina de quatorze anos me veja gritando e saiba que ela não precisa ficar em silêncio.

Tenho muito orgulho das meninas de hoje em dia. São meninas de dezenove, quatorze, doze anos que não estão mais aqui para ser saco de pancadas. Elas gritam mesmo, elas apontam mesmo. Vi menina nova questionando imposição da ditadura de beleza branca, restrições de roupa, machismo na sala de aula, tudo. Meninas que gritam mesmo, não só com tarado na rua, mas com o patriarcado. Meninas liderando ocupações nas escolas paulistanas. Meninas cantando que duro é o seu racismo, não o cabelo delas. Meninas que andam na rua de mãos dadas com a namorada. O orgulho é tanto, nem cabe no peito. As coisas estão mudando. Estamos lentamente secando a água a nossa volta, construindo pontes entre nossas ilhas, entendendo que na verdade não somos ilhas porcaria nenhuma, somos é um continente inteiro, os homens que nos aguardem. Somos muitas e viemos armadas, e não vamos mais pedir o que é nosso por direito, vamos tomar das suas mãos com tudo que temos. Antes eu estava sozinha mas agora encontro voz nas minhas irmãs, e espero com todo o meu coração que algumas delas consigam encontrar voz em mim.

Enquanto isso, enquanto ouço as mulheres acordando à minha volta, milhares de pequenas vozes que se juntam e crescem e urram, que hoje começam delatando pelo #meuamigosecreto e amanhã estarão dando nome aos bois e arrastando para praça pública, entendo também que é só com o canto delas que consigo rasgar o silêncio que ainda reina em mim. Porque ele ainda reina, e reina soberbo… Talvez a razão principal pela qual não tenha conseguido participar do #meuamigosecreto seja que eu sei muito bem quem é o meu…
 

#Meuamigosecreto sou eu.

Sou eu toda vez que me calo perante um agressor.

Sou eu toda vez que deixo o medo do estupro me impedir de lutar pelo que eu acredito.

Sou eu toda vez que deixo o medo de estupro impedir uma amiga corajosa de lutar pelo que ela acredita.

Sou eu toda vez que deixo passar porque estou cansada de lutar.

Sou eu toda vez que esqueço uma irmã, quando me deixo cair nas picuinhas do dia a dia.

Sou eu toda vez que deixo o patriarcado vencer, quando deixo ele me convencer de que eu não tenho força, quando deixo ele me convencer de que eu nunca, nunca, nunca serei o suficiente.

Agora chega de silêncio.

 
E você, homem, que achou que a gente ia passar o resto das nossas vidas olhando para o chão enquanto você abusa da gente, é pra ficar com medo sim. Somos muitas, e nosso grito vai rasgar a sua carne.
 
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Ilustração feita com exclusividade por Janis Souza.

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Lady sings the blues

Hoje comemoramos o centenário de Billie Holiday, nossa querida Lady Day. A moça foi uma das cantoras de jazz mais talentosas da história da música, cantando ao lado de nomes como Louis Armstrong e Artie Shaw. Holiday foi uma das primeiras cantoras negras a trabalhar com uma orquestra branca, e na década de 30 ela deu voz ao nascente movimento pela igualdade racial estadounidense com a canção Strange Fruit.

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Trata-se de uma versão musical do poema homônimo de Abel Meerpol, escritor judeu que criou Strange Fruit após ver uma foto de dois jovens negros linchados em Marion, Indiana. A foto aterrorizadora mostra Thomas Shipp e Abram Smith pendendo de uma árvore como um grotesco evento de entretenimento local, os espectadores brancos causalmente espalhando pela relva, olhando para a câmera com olhos perturbadoramente descompromissados. Na época Billie Holiday trabalhava para a Columbia Records. O selo proibiu-a de gravar a canção, mas Holiday não desistiu e liberou a música pelo selo alternativo Commodore. Strange Fruit foi a primeira canção a chamar atenção ao problema dos linchamentos nos Estados Unidos. David Margolick, autor de Strange Fruit, livro que descreve a trajetória da canção, descreve bem a sensação causada pela canção na época: “Por todo o país, adolescentes tocavam ‘Strange Fruit’ uns para os outros com uma sensação furtiva, como se o fruto em questão não fosse estranho, mas proibido”.

Qualquer um que já ouviu Billie Holiday cantando sabe que não existem palavras para descrever a emoção visceral que ela injeta em suas canções. Por isso não vou nem tentar. Deixo vocês com Strange Fruit, e com uma sensação de gratidão – pela força, pela luta e pela dor, tão necessária, para não esquecer.

 

 

Strange Fruit

Southern trees bear a strange fruit

Blood on the leaves and blood at the root

Black bodies swinging in the southern breeze

Strange fruit hanging from the poplar trees

 

Pastoral scene of the gallant south

The bulging eyes and the twisted mouth

Scent of magnolias, sweet and fresh

Then the sudden smell of burning flesh

 

Here is fruit for the crows to pluck

For the rain to gather, for the wind to suck

For the sun to rot, for the trees to drop

Here is a strange and bitter crop

 

Fruta Estranha

Árvores do sul produzem uma fruta estranha

Sangue nas folhas e sangue nas raízes

Corpos negros balançando na brisa do sul

Fruta estranha penduradas nos álamos

 

Pastoril cena do valente sul

Os olhos inchados e a boca torcida

Perfume de magnólias, doce e fresca

Depois o repentino cheiro de carne queimada

 

Aqui está a fruta para os corvos arrancarem

Para a chuva recolher, para o vento sugar

Para o sol apodrecer, para as árvores deixarem cair

Aqui está a estranha e amarga colheita

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