Cindy Sherman e a subversão da “selfie”

Cindy Sherman é principalmente uma multi-artista. A fotógrafa e diretora nova-iorquina transborda por inúmeras plataformas, e através de um olhar irônico, grotesco e imaginativo diante do cotidiano, utiliza o próprio corpo como base para extravasar e materializar personagens existentes em realidades possíveis porém imaginárias.

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Para personificação de múltiplas personalidades, o processo de Cindy vai desde a experimentação em seu próprio corpo de prostéticos para modificação corporal e maquiagem, até uma pesquisa genuína diante do contexto emocional que circunda tais personas.

Este repertório imagético e psicológico guia a postura, olhar e feições da artista quando está diante das câmeras, o que torna a maioria destes auto-retratos assustadores, na conclusão de que podem ser inúmeras as presenças, porém há apenas uma artista.

Cindy Sherman: Auto-retrato em suas personificações.

Cindy já personificou socialites americanas, divas góticas de Hollywood, palhaços assustadores porém humanos, peruas fashionistas. Ela deixou a mídia e o público horrorizados com seu lado grotesco em uma série de fotografias que apresentavam vômito, secreções corporais e sangue – falsos – em composição plástica.

Se não bastasse, ainda interpretou Maria Callas na ópera “Prima Donna” assinada por Rufus Wainwright, colaborou com marcas como Comme des Garçons, M.A.C e ChanelJohn Waters à entrevistou para o catálogo de sua retrospectiva no MoMA (Museu de Arte Moderna de Nova York – disponível on-line), e em 2011, sua obra “Untitled #96” foi leiloada pelo valor mais alto pago à uma fotografia na história, no valor de $3.89 milhões de dólares. Sendo assim, uma das mais bem pagas artistas mulheres da atualidade.

“Untitled #96” (1981) foi leiloada pelo valor mais alto pago à uma fotografia na história, no valor de $3.89 milhões.

Quanto mais perfeito o artista, maior é a distância entre o indivíduo que sofre e a mente que cria.

Tradução da citação “[…] but, the more perfect the artist, the more completely separate in him will be the man who suffers and the mind which creates”, T.S. Eliot (1888-1965) em “The Sacred Wood” (1921).

No livro “A Vida dos Artistas” (2009), o crítico norte-americano Calvin Tomkis quota o poeta modernista T.S. Eliot para sucintar quão surpreendente é a imensa calma na pessoa da artista, em relação à sua obra subversiva e que causa desconforto para alguns.

Porém, a multiplicidade de Cindy denota uma mente exaustivamente receptiva, que guia a curadoria cuidadosa em seu olhar para compreender e identificar onde está a expressão contemporânea real de sua obra, ainda, como tudo pode ser subjetivo e possível: as ferramentas, as realidades, a criação em si.

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No início de agosto, Cindy Sherman tornou público sua conta no Instagram – até então privada, mesmo existente desde outubro de 2016 – com dezenas de novas imagens representativas ao seu trabalho, ao meio de muitas outras fotografias cotidianas e relacionadas à sua vida pessoal. Assim, o que torna esse repentino “retorno” emocionante, está exatamente no fato das margens diante do que realmente é o lugar da arte e quais suas plataformas ideais estarem novamente borradas.

O digital expandiu as possibilidades de criação da artista que, além da maquiagem e figurino usados normalmente, agora têm aplicado filtros do Instagram e Snapchat, e também utilizado os app’s Facetune e Perfect365 – segundo o jornal The New York Times – para enriquecer suas personificações e modificações corporais com distorções de efeito fish-eye, maquiagens aplicadas digitalmente por facetrack, multiplicadores de faces, e outros efeitos que beiram o bizarro, e com isso demonstram o quanto a própria artista consegue se reinventar.

High on life

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Seja em auto-retrato ou “selfie”, a obra de Cindy é gigantesca, e igualmente importante é sua representatividade criativa como artista mulher na arte contemporânea e mercado de arte, principalmente na vigência da decaída de estruturas patriarcais que ainda inviabilizam a obra de mulheres artistas.

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Ainda, a internet têm sido principal ferramenta de expansão para jovens criadores, e a possibilidade de embasamento desta plataforma por artistas consagrados, permite que cada vez mais as vias de visibilidade e vocalização sejam plurais e dinâmicas.


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