Você é como você joga?

Minha personagem em Skyrim

“Espelho, espelho meu…
como você é? Como você joga?”

O ser humano é um ser repleto de narrativas. Nós as construímos enquanto somos também construídas por elas, moldando sonhos, desejos, medos, expectativas. Quem nunca leu um livro ou assistiu a um filme que mudou sua vida? Que produziu um desejo de repensar escolhas ou decisões? Que te ensinou mais sobre você, sobre os outros à sua volta?

Bem, mas e ao jogar videogame?

Eu e meu marido adoramos jogar The Elder Scrolls V: Skyrim, um RPG de mundo aberto, com cenário fantástico-medieval. A maneira com a qual jogamos, porém, é bastante diferente. Eu tenho mais de uma personagem, mas jogo principalmente com aquela que é projeção minha no jogo. Temos aparência semelhante e as decisões dela, ainda que em contexto bastante diferente do meu, refletem meus ideais e princípios. Meu namorado, porém, tem diversos personagens e joga bastante com todos, ainda que vezes mais com um ou outro. Nenhum personagem se assemelha a ele e seu prazer vem, em muito, de tomar caminhos ou decisões que não correspondem àquilo que ele faria. Ele gosta de explorar outros modos de ser, pensar ou viver em seus personagens. Seja através de um Khajiit egoísta e mau-caráter, seja através de uma guerreira nórdica honrada, que não pega itens em tumbas ou de personagens que não a atacaram primeiro.

O jogo, portanto, nos possibilita experiências bastante diferentes, ainda que suas mecânicas não se alterem pra mim ou para meu marido.

Ao jogar Heavy Rain, narração-interativa sobre um pai tentando salvar seu filho de um misterioso serial-killer, costumo conseguir passar por quase todos os desafios impostos pelo assassino com facilidade. Menos um: matar um pai de família. Ainda que eu tenha jogado e terminado o jogo mais de uma vez, para ver diversos finais, não consigo o achievement que esta morte me daria. Por algum motivo, ainda que as crianças não existam no mundo real, não consigo privá-las do pai. Não consigo tirar gratuitamente uma vida, independente de não ser uma vida. A situação sempre me vira o estômago, me faz suar frio. Existem limites que eu não consigo romper nem mesmo na virtualidade.

Heavy Rain

A diversidade de jogadores, porém, significa também uma diversidade de limites. Pode haver outros caminhos que alguns se recusam a traçar. Ou pode, ainda, tudo ser apenas um jogo.

O que nossas formas de jogar dizem sobre nós? Talvez eu seja uma pessoa para quem coerência ética e de princípios são valores máximos. Talvez algumas pessoas que passam por tudo como apenas um jogo sejam mais abertas a novas experiências, a adotarem novos pontos de vista.  Talvez a pergunta: “até onde você iria para salvar alguém que você ama”, feita na campanha publicitária do jogo, realmente possa ser algo que respondemos a nosso respeito ao jogar.

Outra experiência interessante é proporcionada pelo simples, mas intenso Loneliness. Aviso aqui que, se você pretende jogar este jogo, minha descrição poderá arruinar a experiência. Você é um ponto no espaço, repleto ou não de outros pontos e só pode mover-se e avançar nesse espaço, através do uso das setas no teclado. Aproximar-se dos outros pontos possui apenas um resultado, algo que você só tem certeza após o fim do jogo. Como já abordado na série de vídeos sobre games, Extra Credits, que muito recomendo que qualquer mulher aqui confira, a cada vez que decidimos nos aproximar ou não de um ou mais pontos, de insistir ou não na interação, dizemos algo sobre nós e sobre nossa relação com a solidão.

Loneliness

Se ao ler um livro ou assistir a um filme podemos suscitar transformações ou ampliar compreensões a nosso respeito, não seriam os jogos uma mídia privilegiada neste aspecto? Ao nos tirar da posição de expectadores e nos colocar na posição de jogadores, protagonistas, transformadores da narrativa, ao nos colocar em interação com a mecânica, prontos a fazer dela o que desejarmos e nos for possível, será que os jogos não nos colocam também em um espaço de nos evidenciarmos a nós mesmos? E, portanto, nos transformarmos?

Será que, ao ligarmos nossos consoles ou abrirmos o Steam, não estamos também sussurrando: “espelho, espelho meu…”?

Se sim, abre-se uma potencialidade a ser explorada não apenas por desenvolvedores e jogadores, mas também terapeutas e professores.  E, havendo este potencial, podemos pensar na sua relação também na transmissão e construção de cultura, nos aspectos étnicos e de gênero.

Imagens:
1. Minha personagem em Skyrim
2. Heavy Rain
3. Loneliness

Escrito por
Mais de Cacau Birdmad

Terceirização: uma pauta das mulheres

Estamos em uma época de cada vez mais precarização das condições de trabalho. E adivinhem quem são as principais vítimas do trabalho precário? Sim, nós, mulheres. Em especial  mulheres negras, imigrantes e/ou pobres.

O amplo uso da terceirização, que agora estão procurando ampliar mais ainda, é um fator hiper importante nesse jogo de te fazer trabalhar cada vez mais com cada vez menos garantias, proteções ou direitos.

Mas vamos olhar, rapidamente, a história desse problema.

A partir dos anos 1970 deu-se inicio a uma série de mudanças nos modelos de produção, o que se intensificou ainda mais nos anos 1990. Sendo bastante reducionista, os novos modelos perceberam que as pessoas operárias não eram extensões burras das máquinas repetindo movimentos mecânicos eternamente sem pensar, precisando de capatazes para trabalhar direito, mas tinham uma senhora inteligência no seu fazer. Afinal, conhece a produção aquele que produz, conhece o trabalho – verdadeiramente – aquele que o realiza. Decidiu-se, então, envolver mais as pessoas trabalhadoras no processo de trabalho e sua elaboração – desde, é claro, que esse envolvimento fosse a serviço da produção, da empresa.

Percebeu-se, também, que os processos de trabalho não precisavam ser feitos todos num mesmo grande local: você podia montar cada peça em um lugar e depois brincar de quebra-cabeça que estava tudo bem.  Você pode montar sua coleção de roupas e ter cada peça costurada em uma micro-empresa diferente, por exemplo. E, o melhor, você não precisa cuidar dos direitos, da segurança ou da saúde dessas pessoas. Não é tua empresa, não é problema seu!

Além disso, quem está na sua empresa não precisaria desempenhar apenas uma função, mas muitas (lembra de todo aquele saber delas que você não usava antes? Então!) – o que significa, claro, que você não precisa de tantos funcionários: pode demitir uma galera, fazer uma pessoa trabalhar por duas, três, cinco… reduzir custos!  Aumentar, mais ainda, o lucro! Opa, olha que alegria, não?

Com a redução de vagas, tem muita, mas muita gente precisando de emprego e de olho no seu, muitas vezes pronto a se submeter a salários menores e maior número de funções.

Ok, fim da ironia, pra pessoa trabalhadora isso significa que o trabalho dela está SEMPRE em risco. Afinal, com a redução de vagas, tem muita, mas muita gente precisando de emprego e de olho no seu, muitas vezes pronto a se submeter a salários menores e maior número de funções. Isso reduz, em muito, o poder da pessoa que trabalha de se recusar a fazer horas extras, de não aderir a práticas antiéticas, de não se submeter a metas abusivas, etc. Significa que, a qualquer momento, seu trabalho com direitos em uma grande empresa pode ser substituído por um trabalho mais barato, com menos direitos, numa empresa menor ou na garagem de alguém. E que, em algum momento, você pode ser a pessoa trabalhando por menos na garagem de alguém, é claro. Ou não trabalhando em lugar nenhum.

Agora pense essa situação sendo mulher: se você está no emprego, a sua situação é ainda mais instável. Você já recebe menos do que seus colegas homens e seus compromissos de mãe e dona de casa – impostos socialmente a você – produzem uma jornada ainda maior e um aumento de riscos a perda de emprego. Você, uma hora ou outra, por exemplo, pode precisar tomar a decisão de levar seu filho com febre no hospital ou manter seu trabalho.

A maioria das mulheres, porém, não está no emprego qualificado e polivalente das empresas “centrais”, mas está nos pedaços terceirizados e menos cuidados da produção. Ou seja, contam com ainda menos proteções.

Não é à toa, portanto, que vemos de novo e de novo nas notícias costureiras submetidas a situações análogas à escravidão, produzindo peças para grandes empresas, que se protegem sob o argumento do trabalho terceirizado e, portanto, fora de seu controle.

Estamos submetidas a jornadas exaustivas, sob o medo constante de perdermos o emprego.

Numa pesquisa com mulheres trabalhadoras na produção de sapatos em Franca, por Taísa Junqueira Prazeres, orientada por Vera Navarro, aquelas que trabalhavam terceirizadas, seja em bancas ou em seus domicílios, se encontravam em situações muito mais negligenciadas: tinham acesso apenas a equipamentos mais baratos, antigos e de menor qualidade e, portanto, menos seguros, trabalhando também sob condições mais insalubres, com ambientes de trabalho improvisados, e por muito mais horas que suas companheiras nas fábricas, ainda que todas vivessem condições de trabalho produtoras de sofrimento.

Helena Hirata, socióloga, traz em um de seus artigos que “há uma marcada divisão sexual da precariedade do trabalho, visto que as mulheres são mais numerosas do que os homens tanto no trabalho informal quanto no trabalho em tempo parcial, com um número inferior de horas trabalhadas e também níveis mais baixos na escala de qualificação formal”, além disso a autora coloca que “na evolução paradoxal do trabalho, as mulheres são mais atingidas pela tendência à precariedade e à imposição das tarefas, e menos pela tendência ao investimento e à iniciativa”.

É fundamental lembrar, ainda, que trabalhos precários e intensificados significam trabalhos mais adoecedores, afinal, além de contarem com menos proteções –como por exemplo menor ventilação, equipamentos antigos ou impróprios, maior dificuldade de fiscalização, etc.– são trabalhos  mais intensos, com menor possibilidade do descanso necessário à sua realização, e com muito mais pressão.

Não é à toa que, cada vez mais, os adoecimentos mentais relacionados ao trabalho têm afastado tantas trabalhadoras de seus postos. Estamos submetidas a jornadas exaustivas, sob o medo constante de perdermos o emprego – nosso meio de sobrevivência e fator importante à nossa identidade-, exigindo cada vez mais de nós mesmas a partir de múltiplas funções e tarefas, submetidas a metas de produção, de venda ou de atendimento cada vez maiores e fora do nosso controle – o que exige que façamos tudo também em uma velocidade muito maior, tentando manter a qualidade que exigiria prazos maiores.  Competimos cada vez mais com as pessoas que são nossas colegas, dificultando o estabelecimento de relações saudáveis e de confiança com as mesmas, tornando-nos cada vez mais solitárias.

… saber para que seu trabalho serve, ver utilidade no mesmo, trabalhar em um lugar do qual você se orgulha, ter seu trabalho reconhecido (…) isso tudo é importante pra sua saúde mental.

Muitos trabalhos, ainda, perdem cada vez mais seu sentido, como atendentes de telemarketing que, terceirizadas, tentam resolver problemas a cuja solução elas não tem acesso, para empresas das quais não fazem parte e que muitas vezes precisam defender. Ou mesmo as próprias costureiras, que ao invés de dizerem orgulhosas que trabalham para uma empresa de nome, reconhecida, são reduzidas a algumas costuras para uma empresa desconhecida, num trabalho completamente desvalorizado, ainda que vá ser, no fim, dinheiro no bolso da empresa final, valorizada. Esse é o sonho de muitas trabalhadoras terceirizadas: serem trabalhadoras das empresas para as quais, no fim das contas, já trabalham. Porque saber para que seu trabalho serve, ver utilidade no mesmo, trabalhar em um lugar do qual você se orgulha, ter seu trabalho reconhecido – por pessoas da chefia, colegas, por sua família e pela sociedade – isso tudo é importante pra sua saúde mental. Trabalho é onde muitas passamos a maior parte da nossa vida e, portanto, super importante pra nossa identidade – especialmente em uma sociedade que super-valoriza estas questões.

É por isso que a luta contra a terceirização e contra a precarização do trabalho é uma pauta das mulheres e uma pauta feminista. Porque somos nós as principais esmagadas por suas consequências – e estamos adoecendo por elas, vivendo depressões, estresses pós-traumáticos, doenças osteoarticulares, cânceres e acidentes.  Além disso, as mulheres mais vulneráveis a esse processo são aquelas que já lutam contra diversas dificuldade de serem absorvidas pelo mercado de trabalho formal: mulheres negras, mulheres trans, mulheres pobres e/ou com pouco acesso à escolaridade.

Queremos trabalho para todas as pessoas, mas trabalho digno, seguro e saudável, no qual nosso potencial criativo e produtivo não seja utilizado para nos massacrar, mas para produzir mudanças positivas no mundo.

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“Espelho, espelho meu…
como você é? Como você joga?”

O ser humano é um ser repleto de narrativas. Nós as construímos enquanto somos também construídas por elas, moldando sonhos, desejos, medos, expectativas. Quem nunca leu um livro ou assistiu a um filme que mudou sua vida? Que produziu um desejo de repensar escolhas ou decisões? Que te ensinou mais sobre você, sobre os outros à sua volta?

Bem, mas e ao jogar videogame?

Eu e meu marido adoramos jogar The Elder Scrolls V: Skyrim, um RPG de mundo aberto, com cenário fantástico-medieval. A maneira com a qual jogamos, porém, é bastante diferente. Eu tenho mais de uma personagem, mas jogo principalmente com aquela que é projeção minha no jogo. Temos aparência semelhante e as decisões dela, ainda que em contexto bastante diferente do meu, refletem meus ideais e princípios. Meu namorado, porém, tem diversos personagens e joga bastante com todos, ainda que vezes mais com um ou outro. Nenhum personagem se assemelha a ele e seu prazer vem, em muito, de tomar caminhos ou decisões que não correspondem àquilo que ele faria. Ele gosta de explorar outros modos de ser, pensar ou viver em seus personagens. Seja através de um Khajiit egoísta e mau-caráter, seja através de uma guerreira nórdica honrada, que não pega itens em tumbas ou de personagens que não a atacaram primeiro.

O jogo, portanto, nos possibilita experiências bastante diferentes, ainda que suas mecânicas não se alterem pra mim ou para meu marido.

Ao jogar Heavy Rain, narração-interativa sobre um pai tentando salvar seu filho de um misterioso serial-killer, costumo conseguir passar por quase todos os desafios impostos pelo assassino com facilidade. Menos um: matar um pai de família. Ainda que eu tenha jogado e terminado o jogo mais de uma vez, para ver diversos finais, não consigo o achievement que esta morte me daria. Por algum motivo, ainda que as crianças não existam no mundo real, não consigo privá-las do pai. Não consigo tirar gratuitamente uma vida, independente de não ser uma vida. A situação sempre me vira o estômago, me faz suar frio. Existem limites que eu não consigo romper nem mesmo na virtualidade.

Heavy Rain

A diversidade de jogadores, porém, significa também uma diversidade de limites. Pode haver outros caminhos que alguns se recusam a traçar. Ou pode, ainda, tudo ser apenas um jogo.

O que nossas formas de jogar dizem sobre nós? Talvez eu seja uma pessoa para quem coerência ética e de princípios são valores máximos. Talvez algumas pessoas que passam por tudo como apenas um jogo sejam mais abertas a novas experiências, a adotarem novos pontos de vista.  Talvez a pergunta: “até onde você iria para salvar alguém que você ama”, feita na campanha publicitária do jogo, realmente possa ser algo que respondemos a nosso respeito ao jogar.

Outra experiência interessante é proporcionada pelo simples, mas intenso Loneliness. Aviso aqui que, se você pretende jogar este jogo, minha descrição poderá arruinar a experiência. Você é um ponto no espaço, repleto ou não de outros pontos e só pode mover-se e avançar nesse espaço, através do uso das setas no teclado. Aproximar-se dos outros pontos possui apenas um resultado, algo que você só tem certeza após o fim do jogo. Como já abordado na série de vídeos sobre games, Extra Credits, que muito recomendo que qualquer mulher aqui confira, a cada vez que decidimos nos aproximar ou não de um ou mais pontos, de insistir ou não na interação, dizemos algo sobre nós e sobre nossa relação com a solidão.

Loneliness

Se ao ler um livro ou assistir a um filme podemos suscitar transformações ou ampliar compreensões a nosso respeito, não seriam os jogos uma mídia privilegiada neste aspecto? Ao nos tirar da posição de expectadores e nos colocar na posição de jogadores, protagonistas, transformadores da narrativa, ao nos colocar em interação com a mecânica, prontos a fazer dela o que desejarmos e nos for possível, será que os jogos não nos colocam também em um espaço de nos evidenciarmos a nós mesmos? E, portanto, nos transformarmos?

Será que, ao ligarmos nossos consoles ou abrirmos o Steam, não estamos também sussurrando: “espelho, espelho meu…”?

Se sim, abre-se uma potencialidade a ser explorada não apenas por desenvolvedores e jogadores, mas também terapeutas e professores.  E, havendo este potencial, podemos pensar na sua relação também na transmissão e construção de cultura, nos aspectos étnicos e de gênero.

Imagens:
1. Minha personagem em Skyrim
2. Heavy Rain
3. Loneliness

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