Das raízes às pontas

Das Raízes às Pontas é um documentário sobre afirmação da negritude através do cabelo natural.  O curta-metragem, com roteiro de Débora Tatiana e Hugo Lins, foi produzido pelo Estúdio Cajuína em parceria com a Leni Audiovisual. Entrevistamos a Flora Egécia (diretora), a Bianca Novais (diretora de arte) e o Rodrigo de Oliveira (diretor de fotografia) do Estúdio Cajuína para saber mais sobre esse projeto incrível.
 

Ovelha: Como começou o projeto “Das Raízes às Pontas”? Quem produziu? Quem idealizou? Quem escreveu? Onde foi gravado?

Estúdio Cajuína: O projeto começou com a percepção de uma dos roteiristas, professora da rede pública de ensino do Distrito Federal onde o preconceito é latente e várias crianças alisam o cabelo desde muito pequenas. O documentário foi concebido pelo Estúdio Cajuína – somos um coletivo de design, fotografia e audiovisual – e produzido em parceria com a Leni Audiovisual. O roteiro foi escrito por Débora Tatiana e Hugo Lins e as gravações foram feitas em vários locais de Brasília e nos ambientes cotidianos da Luísa, personagem principal, no Recanto das Emas, Gama e Taguatinga.
 

Temos visto cada vez mais gente falando sobre cabelo natural e optando pelo cabelo natural, mas isso ainda é muito incipiente, muito novo. Queria que vocês falassem um pouco do significado político por trás de uma escolha estética como cabelo. Como vocês enxergam o cabelo natural? Qual o papel do cabelo natural na identidade racial de uma pessoa?

Os papel dos cabelos vai muito além da questão estética, eles estão associados à afirmação social e conexão com as nossas origens, além de ter uma relevância muito grande na construção da auto-estima. Acreditamos que a valorização do cabelo natural é também uma forma de resistência política, considerando que o cabelo é rejeitado em diversos ambientes, nos meios de expressão e comunicação – que criam e influenciam nossos desejos e relações sociais.

 
cajuina
 

Em geral, o debate sobre transição capilar é muito centrado em mulheres, o que é compreensível, afinal a indústria capilar todinha está centrada em mulheres. Mas o documentário de vocês fala também da experiência de homens negros, certo? Será que vocês poderiam falar um pouco sobre a experiência do homem negro com cabelo natural?

A trajetória do homem negro com seus cabelos desde a infância é carregada de traumas e opressão. É costumeiro estimular os meninos a rasparem a cabeça, adiando o primeiro encontro com a textura natural do cabelo, que muitas vezes ocorre apenas na vida adulta. O homem negro já é marginalizado em diversos contextos e reforçando a sua origem através de um penteado ele pode se sentir mais vulnerável. É uma relação tensa que muitas vezes reflete na construção da identidade das mulheres a sua volta, como esposa e filhas.

 
Divulgação Das Raízes às Pontas_Foto Janine Moraes
 

Sendo uma mulher negra, sei que o ambiente escolar acaba sendo palco de muito racismo, por isso queria que vocês comentassem um pouco da decisão de gravarem em escolas e também de como foi essa experiência.

O meio escolar é de fato muito opressor até mesmo para crianças que recebem uma educação afirmativa e positiva em relação a sua negritude em casa. Na concepção do filme foram objeto de estudo o tratamento que os negros recebem e percebem no meio educacional e o papel da escola no processo de auto-reconhecimento.

Optamos por realizar as gravações uma escola pública do Distrito Federal com uma direção que preza pela inclusão do ensino da história afro-brasileira e que através de aulas e dinâmicas reforça o empoderamento nas crianças. Não é comum encontrar nas escolas diretores ou professores interessados em aplicar a lei 10.639/03, que torna obrigatório o ensino da História Afro-Brasileira e Africana nas escolas, mas o objetivo do filme é valorizar as construções positivas em torno do assunto e por esse motivo escolhemos uma escola com dinâmicas afirmativas, expondo seus resultados. Algumas dinâmicas foram registradas, assim como depoimentos.
 

Vocês gravaram com a Ellen Oléria, uma pessoa que é super importante em termos de representatividade da mulher negra, e que também tem se posicionado contra o racismo de forma bem bacana. Como foi essa conversa?

A importância de entrevistar uma artista é analisar a importância da representatividade. A experiência da criança negra com a mídia é frustrante e desastrosa, ela se vê pouco representada na televisão, no entretenimento e nos brinquedos. Nos raros momentos em que alguma representação ocorre é em um papel que reforça uma única história que é contada na escola sobre a nossa cultura: a escravidão. Seja o artista negro atuando no papel de escravo ou empregada doméstica.

Dentre os negros em ascensão na mídia é mais incomum ainda vê-los usando o cabelo natural. Quando uma artista como a Ellen Oléria alcança tamanha repercussão ela representa grande parte das mulheres negras do Brasil com os traços largos, a pele e os fios crespos. A Ellen foge de diversos padrões e inspira mulheres que raramente conseguem se ver em um artista, em um penteado, em uma propaganda de produtos de cabelo, em uma imagem positiva. #

 
ellen
 

O lançamento do Das Raízes às Pontas será em Brasília, no segundo semestre de 2015. Além da exibição, o lançamento contará com uma exposição. A data será divulgada na página do documentário.

Mais de Bárbara Paes

Joy Buolamwini e o preconceito algorítmico

Joy Buolamwini é uma estudante de pós-graduação no MIT (o Massachusetts Institute of Technology, uma das instituições de ensino superior mais respeitadas dos EUA). O currículo dessa mina é surreal: antes de entrar no MIT, ela se formou em Ciências da Computação no Georgia Institute of Technology e tem mestrado em Aprendizado e Tecnologia na Universidade de Oxford.

Parte de seu trabalho como pesquisadora no MIT consiste em explorar a ligação entre tecnologia de impacto social e inclusão. Nesse sentido, a Joy lidera a Algorithmic Justice League (Liga da Justiça Algorítmica), uma iniciativa para combater os preconceitos existentes nos algoritmos que regem as tecnologias que usamos.

No TEDTalk abaixo a Joy fala sobre como passou a se interessar por esse tema:

 
Lá no MIT, ela tem a oportunidade de trabalhar vários projetos bizarros, incluindo o Espelho de Desejar, um projeto que ela criou para poder projetar máscaras digitais fantásticas para o seu reflexo. Para construir o sistema do espelho, ela usou um software genérico de reconhecimento facial, mas logo descobriu que era difícil testá-lo a menos que ela usasse uma máscara branca. Ou seja, o software de reconhecimento facial não estava preparado para reconhecer pessoas negras, só pessoas brancas. Segundo a Joy, isso é bem problemático: “o preconceito algorítmico, como o preconceito humano, resulta da injustiça. Porém, os algoritmos, tal como os vírus, podem espalhar preconceitos numa grande escala num ritmo rápido. O preconceito em algoritmos também pode levar a experiências de exclusão e a práticas discriminatórias.” 

Esse tipo de desvio na tecnologia é criado da seguinte forma: cientistas criam um grupo de formação com exemplos de rostos. As pessoas que participam do estudo vão determinando o que é um rosto e não é.  Contudo, se os grupos de formação não forem diversificados, qualquer rosto que se desvie da norma estabelecida será difícil de detectar. E foi isso que aconteceu com a Joy: as máquinas não foram ensinadas a ler rostos negros, só tinham visto exemplos de rostos brancos. 

O ponto é que o preconceito algorítmico pode ser bem escroto e discriminatório, como explica Joy: “Nos meus exemplos com os robôs sociais que foi como eu descobri a exclusão com o preconceito algorítmico. Mas o preconceito algorítmico também pode levar a práticas discriminatórias. Nos Estados Unidos da América, os departamentos da polícia começam a usar o software de reconhecimento facial no seu arsenal de luta contra o crime. A Faculdade de Direito de Georgetown publicou um relatório mostrando que um em dois adultos, nos EUA — ou seja, 117 milhões de pessoas — têm os rostos em redes de reconhecimento facial. Os departamentos da polícia podem procurar nessas redes não regulamentadas, usando algoritmos que não foram auditados quanto ao seu rigor”.

A boa notícia é que esse cenário pode mudar com a criação de grupos de pesquisa mais diversos. “Há a oportunidade de criar grupos de formação com um espetro completo que reflitam um retrato mais rico da humanidade“, diz Joy. O documentário da Joy, o Coded Gaze: Unmasking Algorithmic Bias (algo como “o olhar codificado: desmascarando o preconceito algorítmico”) foi lançado no Museu de Belas Artes de Boston. O documentário mostra como a falta de diversidade na tecnologia levou à construção de algoritmos falhos e preconceituosos.

No começo deste ano, a Joy foi ganhadora do prêmio Search for Hidden Figures. Nesse link aqui ela fala um pouco mais sobre isso e no vídeo abaixo dá pra aprender um pouco sobre a trajetória dela:

Em uma entrevista para a BBC, a Joy conta que espera que a situação comece a melhorar, conforme as pessoas tomem consciência dos potenciais problemas decorrentes do preconceito algorítmico. “Qualquer tecnologia que criamos reflete tanto nossas aspirações quanto nossas limitações”, diz Joy, “se formos limitados na hora de pensar inclusão, isso vai ser refletido e incorporadona tecnologia que criamos”.

Segue a Joy no Twitter pra acompanhar os projetos dela!

 

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Das Raízes às Pontas é um documentário sobre afirmação da negritude através do cabelo natural.  O curta-metragem, com roteiro de Débora Tatiana e Hugo Lins, foi produzido pelo Estúdio Cajuína em parceria com a Leni Audiovisual. Entrevistamos a Flora Egécia (diretora), a Bianca Novais (diretora de arte) e o Rodrigo de Oliveira (diretor de fotografia) do Estúdio Cajuína para saber mais sobre esse projeto incrível.
 

Ovelha: Como começou o projeto “Das Raízes às Pontas”? Quem produziu? Quem idealizou? Quem escreveu? Onde foi gravado?

Estúdio Cajuína: O projeto começou com a percepção de uma dos roteiristas, professora da rede pública de ensino do Distrito Federal onde o preconceito é latente e várias crianças alisam o cabelo desde muito pequenas. O documentário foi concebido pelo Estúdio Cajuína – somos um coletivo de design, fotografia e audiovisual – e produzido em parceria com a Leni Audiovisual. O roteiro foi escrito por Débora Tatiana e Hugo Lins e as gravações foram feitas em vários locais de Brasília e nos ambientes cotidianos da Luísa, personagem principal, no Recanto das Emas, Gama e Taguatinga.
 

Temos visto cada vez mais gente falando sobre cabelo natural e optando pelo cabelo natural, mas isso ainda é muito incipiente, muito novo. Queria que vocês falassem um pouco do significado político por trás de uma escolha estética como cabelo. Como vocês enxergam o cabelo natural? Qual o papel do cabelo natural na identidade racial de uma pessoa?

Os papel dos cabelos vai muito além da questão estética, eles estão associados à afirmação social e conexão com as nossas origens, além de ter uma relevância muito grande na construção da auto-estima. Acreditamos que a valorização do cabelo natural é também uma forma de resistência política, considerando que o cabelo é rejeitado em diversos ambientes, nos meios de expressão e comunicação – que criam e influenciam nossos desejos e relações sociais.

 
cajuina
 

Em geral, o debate sobre transição capilar é muito centrado em mulheres, o que é compreensível, afinal a indústria capilar todinha está centrada em mulheres. Mas o documentário de vocês fala também da experiência de homens negros, certo? Será que vocês poderiam falar um pouco sobre a experiência do homem negro com cabelo natural?

A trajetória do homem negro com seus cabelos desde a infância é carregada de traumas e opressão. É costumeiro estimular os meninos a rasparem a cabeça, adiando o primeiro encontro com a textura natural do cabelo, que muitas vezes ocorre apenas na vida adulta. O homem negro já é marginalizado em diversos contextos e reforçando a sua origem através de um penteado ele pode se sentir mais vulnerável. É uma relação tensa que muitas vezes reflete na construção da identidade das mulheres a sua volta, como esposa e filhas.

 
Divulgação Das Raízes às Pontas_Foto Janine Moraes
 

Sendo uma mulher negra, sei que o ambiente escolar acaba sendo palco de muito racismo, por isso queria que vocês comentassem um pouco da decisão de gravarem em escolas e também de como foi essa experiência.

O meio escolar é de fato muito opressor até mesmo para crianças que recebem uma educação afirmativa e positiva em relação a sua negritude em casa. Na concepção do filme foram objeto de estudo o tratamento que os negros recebem e percebem no meio educacional e o papel da escola no processo de auto-reconhecimento.

Optamos por realizar as gravações uma escola pública do Distrito Federal com uma direção que preza pela inclusão do ensino da história afro-brasileira e que através de aulas e dinâmicas reforça o empoderamento nas crianças. Não é comum encontrar nas escolas diretores ou professores interessados em aplicar a lei 10.639/03, que torna obrigatório o ensino da História Afro-Brasileira e Africana nas escolas, mas o objetivo do filme é valorizar as construções positivas em torno do assunto e por esse motivo escolhemos uma escola com dinâmicas afirmativas, expondo seus resultados. Algumas dinâmicas foram registradas, assim como depoimentos.
 

Vocês gravaram com a Ellen Oléria, uma pessoa que é super importante em termos de representatividade da mulher negra, e que também tem se posicionado contra o racismo de forma bem bacana. Como foi essa conversa?

A importância de entrevistar uma artista é analisar a importância da representatividade. A experiência da criança negra com a mídia é frustrante e desastrosa, ela se vê pouco representada na televisão, no entretenimento e nos brinquedos. Nos raros momentos em que alguma representação ocorre é em um papel que reforça uma única história que é contada na escola sobre a nossa cultura: a escravidão. Seja o artista negro atuando no papel de escravo ou empregada doméstica.

Dentre os negros em ascensão na mídia é mais incomum ainda vê-los usando o cabelo natural. Quando uma artista como a Ellen Oléria alcança tamanha repercussão ela representa grande parte das mulheres negras do Brasil com os traços largos, a pele e os fios crespos. A Ellen foge de diversos padrões e inspira mulheres que raramente conseguem se ver em um artista, em um penteado, em uma propaganda de produtos de cabelo, em uma imagem positiva. #

 
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O lançamento do Das Raízes às Pontas será em Brasília, no segundo semestre de 2015. Além da exibição, o lançamento contará com uma exposição. A data será divulgada na página do documentário.

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