Passei as últimas semanas pensando na Rayzza Ribeiro. Ela tinha 21 anos, era negra e feminista. Foi a um show de metal em uma das escolas ocupadas de Cabo Frio. Ela foi torturada, assassinada e seu corpo foi queimado. O irmão da Rayzza reconheceu o corpo pelas tatuagens, já que ele estava desfigurado e carbonizado. Também fiquei muitos dias pensando na adolescente de 16 anos que foi estuprada por 33 homens. Eu não consigo desligar essa frase: “adolescente de 16 anos é estuprada por 33 homens”.
No começo desse ano, a Isadora, estudante da UFRRJ, sofreu violência sexual em um dos alojamentos da universidade. Denunciou, abriu processo, fez escândalo. Foi estigmatizada, criticada, culpabilizada, julgada. Na quinta retrasada, a Isadora cometeu suicídio. Esses dias eu li que a Comissão Holandesa de Eutanásia autorizou que uma mulher de 20 anos se submetesse à eutanásia. Ela havia sido abusada dos 5 aos 15 anos e sofria de estresse pós-traumático, anorexia severa, depressão crônica e alucinações. Penso nelas duas toda hora. Na segunda passada, passei o dia todo pensando na minha amiga que foi assediada no Metrô de São Paulo. Quando ela tentou denunciar, o funcionário do Metrô perguntou se ela “tinha certeza” do que tinha acontecido.
De manhã, de frente pro espelho ou no caminho pro ponto de ônibus, o inevitável cálculo: “qual a probabilidade de eu ser estuprada hoje”? Um cara me chama de “morena gostosa” na rua. Eu mando ele ir se foder. Ele revida. Anda atrás de mim por segundos que duraram horas, me chamando de “cadela preta”. Assim mesmo. Seis da tarde em Pinheiros.
Qual é a estatística mesmo? Uma em cada cinco? Eu e quatro amigas entramos no carro pra ir pro sítio: “vai acontecer com pelo menos uma de nós um dia, talvez até já tenha acontecido”. A cada dia que esse terror não se concretiza, é um misto de alívio com “não foi hoje, mas pode ser amanhã”. Recomeço a calcular. Não é como se houvesse uma saída óbvia pra nada disso.
Caminhando pra casa percebo que me condicionei a sempre andar muito rápido. “Sempre fui meio acelerada”. Sempre mesmo? O espaço público é hostil a mulheres como eu. O espaço público é hostil a qualquer mulher. Lembro que o espaço privado também é. Penso na amiga que apanhou do namorado; na menina que veio me contar esses dias que um amigo meu a havia assediado; na amiga que foi estuprada pelo colega de curso.
Eu penso em todas nós todos os dias. Compulsivamente.
Ilustração feita com exclusividade por Malu Risi.
Passei as últimas semanas pensando na Rayzza Ribeiro. Ela tinha 21 anos, era negra e feminista. Foi a um show de metal em uma das escolas ocupadas de Cabo Frio. Ela foi torturada, assassinada e seu corpo foi queimado. O irmão da Rayzza reconheceu o corpo pelas tatuagens, já que ele estava desfigurado e carbonizado. Também fiquei muitos dias pensando na adolescente de 16 anos que foi estuprada por 33 homens. Eu não consigo desligar essa frase: “adolescente de 16 anos é estuprada por 33 homens”.
No começo desse ano, a Isadora, estudante da UFRRJ, sofreu violência sexual em um dos alojamentos da universidade. Denunciou, abriu processo, fez escândalo. Foi estigmatizada, criticada, culpabilizada, julgada. Na quinta retrasada, a Isadora cometeu suicídio. Esses dias eu li que a Comissão Holandesa de Eutanásia autorizou que uma mulher de 20 anos se submetesse à eutanásia. Ela havia sido abusada dos 5 aos 15 anos e sofria de estresse pós-traumático, anorexia severa, depressão crônica e alucinações. Penso nelas duas toda hora. Na segunda passada, passei o dia todo pensando na minha amiga que foi assediada no Metrô de São Paulo. Quando ela tentou denunciar, o funcionário do Metrô perguntou se ela “tinha certeza” do que tinha acontecido.
De manhã, de frente pro espelho ou no caminho pro ponto de ônibus, o inevitável cálculo: “qual a probabilidade de eu ser estuprada hoje”? Um cara me chama de “morena gostosa” na rua. Eu mando ele ir se foder. Ele revida. Anda atrás de mim por segundos que duraram horas, me chamando de “cadela preta”. Assim mesmo. Seis da tarde em Pinheiros.
Qual é a estatística mesmo? Uma em cada cinco? Eu e quatro amigas entramos no carro pra ir pro sítio: “vai acontecer com pelo menos uma de nós um dia, talvez até já tenha acontecido”. A cada dia que esse terror não se concretiza, é um misto de alívio com “não foi hoje, mas pode ser amanhã”. Recomeço a calcular. Não é como se houvesse uma saída óbvia pra nada disso.
Caminhando pra casa percebo que me condicionei a sempre andar muito rápido. “Sempre fui meio acelerada”. Sempre mesmo? O espaço público é hostil a mulheres como eu. O espaço público é hostil a qualquer mulher. Lembro que o espaço privado também é. Penso na amiga que apanhou do namorado; na menina que veio me contar esses dias que um amigo meu a havia assediado; na amiga que foi estuprada pelo colega de curso.
Eu penso em todas nós todos os dias. Compulsivamente.
Passei as últimas semanas pensando na Rayzza Ribeiro. Ela tinha 21 anos, era negra e feminista. Foi a um show de metal em uma das escolas ocupadas de Cabo Frio. Ela foi torturada, assassinada e seu corpo foi queimado. O irmão da Rayzza reconheceu o corpo pelas tatuagens, já que ele estava desfigurado e carbonizado. Também fiquei muitos dias pensando na adolescente de 16 anos que foi estuprada por 33 homens. Eu não consigo desligar essa frase: “adolescente de 16 anos é estuprada por 33 homens”.
No começo desse ano, a Isadora, estudante da UFRRJ, sofreu violência sexual em um dos alojamentos da universidade. Denunciou, abriu processo, fez escândalo. Foi estigmatizada, criticada, culpabilizada, julgada. Na quinta retrasada, a Isadora cometeu suicídio. Esses dias eu li que a Comissão Holandesa de Eutanásia autorizou que uma mulher de 20 anos se submetesse à eutanásia. Ela havia sido abusada dos 5 aos 15 anos e sofria de estresse pós-traumático, anorexia severa, depressão crônica e alucinações. Penso nelas duas toda hora. Na segunda passada, passei o dia todo pensando na minha amiga que foi assediada no Metrô de São Paulo. Quando ela tentou denunciar, o funcionário do Metrô perguntou se ela “tinha certeza” do que tinha acontecido.
De manhã, de frente pro espelho ou no caminho pro ponto de ônibus, o inevitável cálculo: “qual a probabilidade de eu ser estuprada hoje”? Um cara me chama de “morena gostosa” na rua. Eu mando ele ir se foder. Ele revida. Anda atrás de mim por segundos que duraram horas, me chamando de “cadela preta”. Assim mesmo. Seis da tarde em Pinheiros.
Qual é a estatística mesmo? Uma em cada cinco? Eu e quatro amigas entramos no carro pra ir pro sítio: “vai acontecer com pelo menos uma de nós um dia, talvez até já tenha acontecido”. A cada dia que esse terror não se concretiza, é um misto de alívio com “não foi hoje, mas pode ser amanhã”. Recomeço a calcular. Não é como se houvesse uma saída óbvia pra nada disso.
Caminhando pra casa percebo que me condicionei a sempre andar muito rápido. “Sempre fui meio acelerada”. Sempre mesmo? O espaço público é hostil a mulheres como eu. O espaço público é hostil a qualquer mulher. Lembro que o espaço privado também é. Penso na amiga que apanhou do namorado; na menina que veio me contar esses dias que um amigo meu a havia assediado; na amiga que foi estuprada pelo colega de curso.
Eu penso em todas nós todos os dias. Compulsivamente.
Foi a noite das atrizes negras no Emmy ontem. A Viola Davis foi a primeira mulher negra a ganhar o Emmy de Melhor Atriz em uma série de drama. A Uzo Aduba ganhou o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante em uma série de drama. A Regina King levou uma estatueta pelo seu papel em American Crime. E no total, 10 mulheres negras haviam sido indicadas! Fiquei tão feliz que eu poderia escrever esse parágrafo um milhão de vezes.
Foi a primeira vez que duas mulheres negras estavam concorrendo simultaneamente na categoria de Melhor Atriz numa série de drama! E ver a Taraji P. Henson, de Empire, que também havia sido indicada, apoiando a Viola foi uma belezinha:
E a Kerry Washington, que já foi indicada para a mesma categoria duas vezes, tava toda emocionada também:
A Uzo Aduba (maravilhosa demais, socorro!) ganhou o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante pelo seu papel incrível em Orange Is The New Black, e fez um discurso super emocionado e emocionante:
https://youtu.be/TsaIcvdc34o?t=21
E não podemos esquecer de como é importante a vitória Regina King. A atriz tem mais de 30 anos de carreira, mas só agora ganhou um Emmy. Olha o discurso dela:
https://www.youtube.com/watch?v=petS-gepzsM
A Taraji e a Regina sendo lindas:
E a Gabrielle Union, que foi citada no discurso da Viola como uma das mulheres que abriram caminho para outras atrizes negras, postou essa foto amorzinho celebrando a representatividade no Emmy de ontem.
O irmão da Rayzza reconheceu o corpo pelas tatuagens, já que ele estava desfigurado e carbonizado. Também fiquei muitos dias pensando na adolescente de 16 anos que foi estuprada por 33 homens. Eu não consigo desligar essa frase: “adolescente de 16 anos é estuprada por 33 homens”.
No começo desse ano, a Isadora, estudante da UFRRJ, sofreu violência sexual em um dos alojamentos da universidade. Denunciou, abriu processo, fez escândalo. Foi estigmatizada, criticada, culpabilizada, julgada. Na quinta retrasada, a Isadora cometeu suicídio. Esses dias eu li que a Comissão Holandesa de Eutanásia autorizou que uma mulher de 20 anos se submetesse à eutanásia. Ela havia sido abusada dos 5 aos 15 anos e sofria de estresse pós-traumático, anorexia severa, depressão crônica e alucinações. Penso nelas duas toda hora. Na segunda passada, passei o dia todo pensando na minha amiga que foi assediada no Metrô de São Paulo. Quando ela tentou denunciar, o funcionário do Metrô perguntou se ela “tinha certeza” do que tinha acontecido.
De manhã, de frente pro espelho ou no caminho pro ponto de ônibus, o inevitável cálculo: “qual a probabilidade de eu ser estuprada hoje”? Um cara me chama de “morena gostosa” na rua. Eu mando ele ir se foder. Ele revida. Anda atrás de mim por segundos que duraram horas, me chamando de “cadela preta”. Assim mesmo. Seis da tarde em Pinheiros.
Qual é a estatística mesmo? Uma em cada cinco? Eu e quatro amigas entramos no carro pra ir pro sítio: “vai acontecer com pelo menos uma de nós um dia, talvez até já tenha acontecido”. A cada dia que esse terror não se concretiza, é um misto de alívio com “não foi hoje, mas pode ser amanhã”. Recomeço a calcular. Não é como se houvesse uma saída óbvia pra nada disso.
Caminhando pra casa percebo que me condicionei a sempre andar muito rápido. “Sempre fui meio acelerada”. Sempre mesmo? O espaço público é hostil a mulheres como eu. O espaço público é hostil a qualquer mulher. Lembro que o espaço privado também é. Penso na amiga que apanhou do namorado; na menina que veio me contar esses dias que um amigo meu a havia assediado; na amiga que foi estuprada pelo colega de curso.
Eu penso em todas nós todos os dias. Compulsivamente.