Uma mulher encara um ponto ligeiramente à esquerda da câmera. Nunca a olha diretamente. Sua postura é um pouco tensa, cabisbaixa, e traz um sorriso melancólico – mas caloroso – no rosto. A gravação engasga em alguns momentos enquanto capta o pequeno retângulo luminoso que é a sala da delegacia: apenas um painel de madeira clara ao fundo, uma mesa de mesmo material, e a mulher em foco. Em fragmentos de tons saturados, a presenciamos conversando com um interlocutor que não vemos ou ouvimos – nesta fita usando uma blusa azul, naquela outra um blazer vermelho –, mas o motivo de suas múltiplas visitas à sala de entrevistas vai ficando mais claro a cada clipe de poucos segundos. Seu marido desapareceu em circunstâncias misteriosas e a polícia busca por respostas; quer Hannah Smith as tenha ou não. Essa é a história dela.
O Jogo – Com quantos fragmentos se faz uma verdade?
Em junho de 1994, Simon Smith, um humilde vidraceiro britânico, some bruscamente, alarmando familiares e amigos de uma cidadezinha interiorana no Reino Unido. No dia seguinte, sua esposa, Hannah, vai à delegacia de polícia dar queixa do incidente. Suas palavras soam sinceras quando diz que o marido não possuía inimigos e que certamente não é do tipo que “some” quando dá na telha. Ela parece preocupada com o destino de Simon e implora para que a polícia o encontre logo. Sua comoção não impede, no entanto, que o delegado local a chame para questionário inúmeras vezes – sete no total –, todas registradas pela lente atenta de uma câmera; graças a qual agora, num presumido 2015, podemos presenciar o seu relato.
Her Story é um jogo detetivesco que, de fato, exige investigação, interpretação e sagacidade para responder às perguntas que pairam no ar: O que houve com Simon? O que Hannah tem ou não tem a ver com isso? Aqui você não vai clicar em pontos aleatórios do cenário esperando vagamente que seu personagem descubra pistas por você, nem vai tentar combinar itens estapafúrdios para solucionar quebra-cabeças ainda mais absurdos. Não. Toda a dinâmica de Her Story envolve sentar-se confortavelmente em frente ao computador e… assistir a uma série de vídeos antigos. Mas não se engane por essa aparente falta de interatividade; pois para avançar pelos mistérios que envolvem o suposto desaparecimento de Simon Smith, você precisará compreender primeiro a vida de Hannah e os caminhos que a levaram até a cadeira do outro lado da lente. Quão confiável pode ser a voz de uma narradora acusada de homicídio? Bem, isso também caberá a você decidir…
Criado por Sam Barlow (que também trabalhou nos igualmente aclamados Aisle e Silent Hill: Shattered Memories), Her Story é um daqueles games que não podem ser jogados com o cérebro no modo automático. Todo o mistério revelado será porque você, e apenas você, juntou as peças. O jogo é a investigação em si, e é nela em que reside sua interatividade.
Em termos meramente mecânicos, toda a história se passa em frente a um computador meio capenga da polícia. Não sabemos quem é você ali – tudo o que podemos inferir é que é uma pessoa interessada em saber mais sobre o relato de Hannah. Você está explorando um banco de dados antigo, e o sistema do computador, como é de se imaginar, é tão antiquado que estabelece um limite de vídeos a que você tem acesso. E, como o banco de dados é uma bagunça, para procurar os vídeos em questão você precisará digitar um termo supostamente dito por Hannah e torcer para que tenha sido pego na transcrição. Por exemplo, se você procurar pela palavra “murder” (assassinato) encontrará alguns vídeos nos quais ela estará dizendo coisas como “So do you think this is a murder case?” (Acha que este é um caso de assassinato, então?), o que não necessariamente acrescenta muita coisa para a sua compreensão de todo o cenário. Para avançar em Her Story, portanto, você precisará ouvir as palavras de Hannah e, camada por camada, estabelecer uma lógica entre os sete dias nos quais foi interrogada a respeito do sumiço (ou assassinato) de seu marido.
“E todas essas histórias que temos contado um para o outro…? Nada além disso, histórias…”
O ambiente investigativo de Her Story se beneficia muito do fato de utilizar uma atriz real, em um cenário real, para fazer os vídeos. Essa técnica, conhecida como Full Motion Video (FMV), já foi bastante utilizada algumas décadas atrás, quando as capacidades gráficas dos computadores não iam muito além de animar alguns pixels em formas vagamente humanas. Pré-gravar atores em cenários “reais” e utilizar essas imagens, portanto, era o mais próximo do realismo visual a que os games daquela época podiam chegar. Com o passar dos anos, conforme as técnicas de animação, iluminação e modelagem foram ficando mais sofisticadas, menos aqueles recortes toscões de atores duros pixelizados se fizeram necessários, e mais o FMV foi adentrando no limbo das tecnologias aposentadas (lembra do disquete? Então.).
Her Story, no entanto, utiliza o FMV de modo a enfatizar a sua trama e perderia muito em mistério e imersão se não fosse gravado assim. Por mais que os jogos de hoje tenham avançado muito na emulação do “mundo real”, existem diversas sutilezas que apenas um ser humano consegue transmitir. E a maneira como o FMV é usado aqui é provavelmente uma das melhores de que se tem notícia. Quem segura toda a performance é a atriz, tecladista e ex-ginasta olímpica(!) Viva Seifert, que dá vida, emoção e um estranho senso de ambiguidade a Hannah. É através dela, nossa única narradora, que vemos o mistério se desvelar. E ela não faz feio.
Toda a questão é que, no fim das contas, mesmo quando se termina de assistir a todos os vídeos e temos frescas na memória cada uma das palavras de nossa protagonista, ainda assim há margens para dúvidas. Quando digo que Her Story é um game de interpretação, falo no próprio sentido ficcional da coisa: de que, até que se diga o contrário, poucas coisas no relato estão escavadas na rocha. Você nunca saberá exatamente até onde vai chegar com suas pesquisas, mas vai aproveitar cada segundo das histórias fascinantes que Hannah tem a contar enquanto monta os fragmentos e se surpreende com contradições e acertos. Aqui, embora você não tenha o poder de mudar a história (já que ela aconteceu há mais de vinte anos atrás), você vai brincar realmente de ser detetive.
E isso é tudo o que eu me arrisco a dizer sem acabar estragando a experiência.
Talvez o estilo de Her Story não agrade a todo mundo. Jogadores que preferem desafios mais rápidos, relaxantes e, digamos, conclusivos, talvez se sintam frustrados com seu estilo não usual. Há também a barreira linguística, pois as palavras são parte fundamental de sua mecânica e, embora seja possível colocar legendas em inglês para acompanhar os vídeos, quem não tiver um domínio confortável da língua inglesa provavelmente vai ter dificuldades de aproveitar o jogo, infelizmente.
Para quem tem condições e quer experimentar um dos games mais originais dos últimos anos, com um storytelling não linear esperto, introspectivo e intrigante, fica aqui a dica. Você pode obter Her Story na Steam, na App Store ou na própria página do desenvolvedor.
Uma mulher encara um ponto ligeiramente à esquerda da câmera. Nunca a olha diretamente. Sua postura é um pouco tensa, cabisbaixa, e traz um sorriso melancólico – mas caloroso – no rosto. A gravação engasga em alguns momentos enquanto capta o pequeno retângulo luminoso que é a sala da delegacia: apenas um painel de madeira clara ao fundo, uma mesa de mesmo material, e a mulher em foco. Em fragmentos de tons saturados, a presenciamos conversando com um interlocutor que não vemos ou ouvimos – nesta fita usando uma blusa azul, naquela outra um blazer vermelho –, mas o motivo de suas múltiplas visitas à sala de entrevistas vai ficando mais claro a cada clipe de poucos segundos. Seu marido desapareceu em circunstâncias misteriosas e a polícia busca por respostas; quer Hannah Smith as tenha ou não. Essa é a história dela.
O Jogo – Com quantos fragmentos se faz uma verdade?
Em junho de 1994, Simon Smith, um humilde vidraceiro britânico, some bruscamente, alarmando familiares e amigos de uma cidadezinha interiorana no Reino Unido. No dia seguinte, sua esposa, Hannah, vai à delegacia de polícia dar queixa do incidente. Suas palavras soam sinceras quando diz que o marido não possuía inimigos e que certamente não é do tipo que “some” quando dá na telha. Ela parece preocupada com o destino de Simon e implora para que a polícia o encontre logo. Sua comoção não impede, no entanto, que o delegado local a chame para questionário inúmeras vezes – sete no total –, todas registradas pela lente atenta de uma câmera; graças a qual agora, num presumido 2015, podemos presenciar o seu relato.
Her Story é um jogo detetivesco que, de fato, exige investigação, interpretação e sagacidade para responder às perguntas que pairam no ar: O que houve com Simon? O que Hannah tem ou não tem a ver com isso? Aqui você não vai clicar em pontos aleatórios do cenário esperando vagamente que seu personagem descubra pistas por você, nem vai tentar combinar itens estapafúrdios para solucionar quebra-cabeças ainda mais absurdos. Não. Toda a dinâmica de Her Story envolve sentar-se confortavelmente em frente ao computador e… assistir a uma série de vídeos antigos. Mas não se engane por essa aparente falta de interatividade; pois para avançar pelos mistérios que envolvem o suposto desaparecimento de Simon Smith, você precisará compreender primeiro a vida de Hannah e os caminhos que a levaram até a cadeira do outro lado da lente. Quão confiável pode ser a voz de uma narradora acusada de homicídio? Bem, isso também caberá a você decidir…
Criado por Sam Barlow (que também trabalhou nos igualmente aclamados Aisle e Silent Hill: Shattered Memories), Her Story é um daqueles games que não podem ser jogados com o cérebro no modo automático. Todo o mistério revelado será porque você, e apenas você, juntou as peças. O jogo é a investigação em si, e é nela em que reside sua interatividade.
Em termos meramente mecânicos, toda a história se passa em frente a um computador meio capenga da polícia. Não sabemos quem é você ali – tudo o que podemos inferir é que é uma pessoa interessada em saber mais sobre o relato de Hannah. Você está explorando um banco de dados antigo, e o sistema do computador, como é de se imaginar, é tão antiquado que estabelece um limite de vídeos a que você tem acesso. E, como o banco de dados é uma bagunça, para procurar os vídeos em questão você precisará digitar um termo supostamente dito por Hannah e torcer para que tenha sido pego na transcrição. Por exemplo, se você procurar pela palavra “murder” (assassinato) encontrará alguns vídeos nos quais ela estará dizendo coisas como “So do you think this is a murder case?” (Acha que este é um caso de assassinato, então?), o que não necessariamente acrescenta muita coisa para a sua compreensão de todo o cenário. Para avançar em Her Story, portanto, você precisará ouvir as palavras de Hannah e, camada por camada, estabelecer uma lógica entre os sete dias nos quais foi interrogada a respeito do sumiço (ou assassinato) de seu marido.
“E todas essas histórias que temos contado um para o outro…? Nada além disso, histórias…”
O ambiente investigativo de Her Story se beneficia muito do fato de utilizar uma atriz real, em um cenário real, para fazer os vídeos. Essa técnica, conhecida como Full Motion Video (FMV), já foi bastante utilizada algumas décadas atrás, quando as capacidades gráficas dos computadores não iam muito além de animar alguns pixels em formas vagamente humanas. Pré-gravar atores em cenários “reais” e utilizar essas imagens, portanto, era o mais próximo do realismo visual a que os games daquela época podiam chegar. Com o passar dos anos, conforme as técnicas de animação, iluminação e modelagem foram ficando mais sofisticadas, menos aqueles recortes toscões de atores duros pixelizados se fizeram necessários, e mais o FMV foi adentrando no limbo das tecnologias aposentadas (lembra do disquete? Então.).
Her Story, no entanto, utiliza o FMV de modo a enfatizar a sua trama e perderia muito em mistério e imersão se não fosse gravado assim. Por mais que os jogos de hoje tenham avançado muito na emulação do “mundo real”, existem diversas sutilezas que apenas um ser humano consegue transmitir. E a maneira como o FMV é usado aqui é provavelmente uma das melhores de que se tem notícia. Quem segura toda a performance é a atriz, tecladista e ex-ginasta olímpica(!) Viva Seifert, que dá vida, emoção e um estranho senso de ambiguidade a Hannah. É através dela, nossa única narradora, que vemos o mistério se desvelar. E ela não faz feio.
Toda a questão é que, no fim das contas, mesmo quando se termina de assistir a todos os vídeos e temos frescas na memória cada uma das palavras de nossa protagonista, ainda assim há margens para dúvidas. Quando digo que Her Story é um game de interpretação, falo no próprio sentido ficcional da coisa: de que, até que se diga o contrário, poucas coisas no relato estão escavadas na rocha. Você nunca saberá exatamente até onde vai chegar com suas pesquisas, mas vai aproveitar cada segundo das histórias fascinantes que Hannah tem a contar enquanto monta os fragmentos e se surpreende com contradições e acertos. Aqui, embora você não tenha o poder de mudar a história (já que ela aconteceu há mais de vinte anos atrás), você vai brincar realmente de ser detetive.
E isso é tudo o que eu me arrisco a dizer sem acabar estragando a experiência.
Talvez o estilo de Her Story não agrade a todo mundo. Jogadores que preferem desafios mais rápidos, relaxantes e, digamos, conclusivos, talvez se sintam frustrados com seu estilo não usual. Há também a barreira linguística, pois as palavras são parte fundamental de sua mecânica e, embora seja possível colocar legendas em inglês para acompanhar os vídeos, quem não tiver um domínio confortável da língua inglesa provavelmente vai ter dificuldades de aproveitar o jogo, infelizmente.
Para quem tem condições e quer experimentar um dos games mais originais dos últimos anos, com um storytelling não linear esperto, introspectivo e intrigante, fica aqui a dica. Você pode obter Her Story na Steam, na App Store ou na própria página do desenvolvedor.
Uma mulher encara um ponto ligeiramente à esquerda da câmera. Nunca a olha diretamente. Sua postura é um pouco tensa, cabisbaixa, e traz um sorriso melancólico – mas caloroso – no rosto. A gravação engasga em alguns momentos enquanto capta o pequeno retângulo luminoso que é a sala da delegacia: apenas um painel de madeira clara ao fundo, uma mesa de mesmo material, e a mulher em foco. Em fragmentos de tons saturados, a presenciamos conversando com um interlocutor que não vemos ou ouvimos – nesta fita usando uma blusa azul, naquela outra um blazer vermelho –, mas o motivo de suas múltiplas visitas à sala de entrevistas vai ficando mais claro a cada clipe de poucos segundos. Seu marido desapareceu em circunstâncias misteriosas e a polícia busca por respostas; quer Hannah Smith as tenha ou não. Essa é a história dela.
O Jogo – Com quantos fragmentos se faz uma verdade?
Em junho de 1994, Simon Smith, um humilde vidraceiro britânico, some bruscamente, alarmando familiares e amigos de uma cidadezinha interiorana no Reino Unido. No dia seguinte, sua esposa, Hannah, vai à delegacia de polícia dar queixa do incidente. Suas palavras soam sinceras quando diz que o marido não possuía inimigos e que certamente não é do tipo que “some” quando dá na telha. Ela parece preocupada com o destino de Simon e implora para que a polícia o encontre logo. Sua comoção não impede, no entanto, que o delegado local a chame para questionário inúmeras vezes – sete no total –, todas registradas pela lente atenta de uma câmera; graças a qual agora, num presumido 2015, podemos presenciar o seu relato.
Her Story é um jogo detetivesco que, de fato, exige investigação, interpretação e sagacidade para responder às perguntas que pairam no ar: O que houve com Simon? O que Hannah tem ou não tem a ver com isso? Aqui você não vai clicar em pontos aleatórios do cenário esperando vagamente que seu personagem descubra pistas por você, nem vai tentar combinar itens estapafúrdios para solucionar quebra-cabeças ainda mais absurdos. Não. Toda a dinâmica de Her Story envolve sentar-se confortavelmente em frente ao computador e… assistir a uma série de vídeos antigos. Mas não se engane por essa aparente falta de interatividade; pois para avançar pelos mistérios que envolvem o suposto desaparecimento de Simon Smith, você precisará compreender primeiro a vida de Hannah e os caminhos que a levaram até a cadeira do outro lado da lente. Quão confiável pode ser a voz de uma narradora acusada de homicídio? Bem, isso também caberá a você decidir…
Criado por Sam Barlow (que também trabalhou nos igualmente aclamados Aisle e Silent Hill: Shattered Memories), Her Story é um daqueles games que não podem ser jogados com o cérebro no modo automático. Todo o mistério revelado será porque você, e apenas você, juntou as peças. O jogo é a investigação em si, e é nela em que reside sua interatividade.
Em termos meramente mecânicos, toda a história se passa em frente a um computador meio capenga da polícia. Não sabemos quem é você ali – tudo o que podemos inferir é que é uma pessoa interessada em saber mais sobre o relato de Hannah. Você está explorando um banco de dados antigo, e o sistema do computador, como é de se imaginar, é tão antiquado que estabelece um limite de vídeos a que você tem acesso. E, como o banco de dados é uma bagunça, para procurar os vídeos em questão você precisará digitar um termo supostamente dito por Hannah e torcer para que tenha sido pego na transcrição. Por exemplo, se você procurar pela palavra “murder” (assassinato) encontrará alguns vídeos nos quais ela estará dizendo coisas como “So do you think this is a murder case?” (Acha que este é um caso de assassinato, então?), o que não necessariamente acrescenta muita coisa para a sua compreensão de todo o cenário. Para avançar em Her Story, portanto, você precisará ouvir as palavras de Hannah e, camada por camada, estabelecer uma lógica entre os sete dias nos quais foi interrogada a respeito do sumiço (ou assassinato) de seu marido.
“E todas essas histórias que temos contado um para o outro…? Nada além disso, histórias…”
O ambiente investigativo de Her Story se beneficia muito do fato de utilizar uma atriz real, em um cenário real, para fazer os vídeos. Essa técnica, conhecida como Full Motion Video (FMV), já foi bastante utilizada algumas décadas atrás, quando as capacidades gráficas dos computadores não iam muito além de animar alguns pixels em formas vagamente humanas. Pré-gravar atores em cenários “reais” e utilizar essas imagens, portanto, era o mais próximo do realismo visual a que os games daquela época podiam chegar. Com o passar dos anos, conforme as técnicas de animação, iluminação e modelagem foram ficando mais sofisticadas, menos aqueles recortes toscões de atores duros pixelizados se fizeram necessários, e mais o FMV foi adentrando no limbo das tecnologias aposentadas (lembra do disquete? Então.).
Her Story, no entanto, utiliza o FMV de modo a enfatizar a sua trama e perderia muito em mistério e imersão se não fosse gravado assim. Por mais que os jogos de hoje tenham avançado muito na emulação do “mundo real”, existem diversas sutilezas que apenas um ser humano consegue transmitir. E a maneira como o FMV é usado aqui é provavelmente uma das melhores de que se tem notícia. Quem segura toda a performance é a atriz, tecladista e ex-ginasta olímpica(!) Viva Seifert, que dá vida, emoção e um estranho senso de ambiguidade a Hannah. É através dela, nossa única narradora, que vemos o mistério se desvelar. E ela não faz feio.
Toda a questão é que, no fim das contas, mesmo quando se termina de assistir a todos os vídeos e temos frescas na memória cada uma das palavras de nossa protagonista, ainda assim há margens para dúvidas. Quando digo que Her Story é um game de interpretação, falo no próprio sentido ficcional da coisa: de que, até que se diga o contrário, poucas coisas no relato estão escavadas na rocha. Você nunca saberá exatamente até onde vai chegar com suas pesquisas, mas vai aproveitar cada segundo das histórias fascinantes que Hannah tem a contar enquanto monta os fragmentos e se surpreende com contradições e acertos. Aqui, embora você não tenha o poder de mudar a história (já que ela aconteceu há mais de vinte anos atrás), você vai brincar realmente de ser detetive.
E isso é tudo o que eu me arrisco a dizer sem acabar estragando a experiência.
Talvez o estilo de Her Story não agrade a todo mundo. Jogadores que preferem desafios mais rápidos, relaxantes e, digamos, conclusivos, talvez se sintam frustrados com seu estilo não usual. Há também a barreira linguística, pois as palavras são parte fundamental de sua mecânica e, embora seja possível colocar legendas em inglês para acompanhar os vídeos, quem não tiver um domínio confortável da língua inglesa provavelmente vai ter dificuldades de aproveitar o jogo, infelizmente.
Para quem tem condições e quer experimentar um dos games mais originais dos últimos anos, com um storytelling não linear esperto, introspectivo e intrigante, fica aqui a dica. Você pode obter Her Story na Steam, na App Store ou na própria página do desenvolvedor.
Acho que a melhor palavra que eu tenho para descrever Missing Translation é “agradável”.
Ãhan. Esse deve ser o game mais agradável que eu jogo em semanas.
Gratuito, simples e tão gracinha, Missing Translation é um jogo redondinho, daqueles que estimulam a exploração e o ato de se perder num mundo curto, mas surpreendentemente carismático. Peguei para jogar numa manhã de sábado antes de colocar as mãos nos freelas-nossos-de-cada-dia, e, duas horas depois, já me sentia mais leve e disposta para começar o dia. Esse jogo me lembrou da experiência de ler um livro de aventuras deitada numa rede: descomprometida, calma e feliz.
Agradável.
A premissa? Você é uma pessoinha comum de saco cheio da velha rotina do acorda-trabalha-vai-dormir até que certo dia é puxada – claro que é – para um mundo paralelo bucólico com trilha sonora de RPG dos anos 1990 (que é linda por sinal). Você se vê em uma pacífica vila com moinhos de vento, nuvens preguiçosas, gatos everywhere e alguns moradores locais para conversar. Mas aí é que está a pegadinha: o idioma pelo qual eles se comunicam é completamente incompreensível! Você pode até ensaiar algumas palavras com o estranho sistema de símbolos que o game te dá, mas é certo que será apenas com muito esforço, observação e tentativa e erro que você será capaz de estabelecer uma conexão com aqueles habitantes. O mundo deles é completamente alienígena para você. E isso é de certa forma um alívio.
Para voltar para casa, será necessário coletar quatro pedras mágicas – claro que são – que se espalharam pelo mundo – claro que sim – depois que você atravessou o portal misterioso. Em termos mecânicos, isso significa completar quatro séries de quebra-cabeças progressivamente mais complicados. Embora os quebra-cabeças em si não representem nada de mais em termos de inovação ou dificuldade, é interessante como eles te colocam em um estado de concentração quase meditativo de encontrar um diálogo entre um processo comunicativo que nunca se completa plenamente com os habitantes e a tarefa semiconsciente de resolver uma charada com respostas possíveis.
(Ou pelo menos foi assim que li.)
O jogo é radical em te lançar em um universo novo retirando de você a capacidade entender e se fazer entender. A sensação de novidade e descoberta é quase infantil. Toda a palavrinha nova é um mistério solucionado e ainda existem “espaços escuros” suficientes neste universo para te causar admiração. O nosso mundo também possui milhares de lugares ocultos, mas as rotinas quase sempre nos fazem esquecer de que existem espaços além dos pavimentados e gastos que percorremos todo santo dia. De tempos em tempos, precisamos lembrar que ainda existe frescor se mudarmos nossas trilhas de vez em quando.
Missing Translation é uma pausa gostosa nessa marcha. Ele acaba na hora certa e não tem a pretensão de mudar a sua vida – mas isso está longe de ser uma coisa ruim. Jogos como ele são os que me lembram por que eu gosto tanto de videogames. São um lembrete de que nem todo jogo precisa ser sobre explosões espaciais e sobreviventes num mundo morto. Ou sobre grandes decisões morais e descobertas que podem mudar toda uma vida. Alguns games podem ser apenas isto: agradáveis.
O ambiente investigativo de Her Story se beneficia muito do fato de utilizar uma atriz real, em um cenário real, para fazer os vídeos. Essa técnica, conhecida como Full Motion Video (FMV), já foi bastante utilizada algumas décadas atrás, quando as capacidades gráficas dos computadores não iam muito além de animar alguns pixels em formas vagamente humanas. Pré-gravar atores em cenários “reais” e utilizar essas imagens, portanto, era o mais próximo do realismo visual a que os games daquela época podiam chegar. Com o passar dos anos, conforme as técnicas de animação, iluminação e modelagem foram ficando mais sofisticadas, menos aqueles recortes toscões de atores duros pixelizados se fizeram necessários, e mais o FMV foi adentrando no limbo das tecnologias aposentadas (lembra do disquete? Então.).
Her Story, no entanto, utiliza o FMV de modo a enfatizar a sua trama e perderia muito em mistério e imersão se não fosse gravado assim. Por mais que os jogos de hoje tenham avançado muito na emulação do “mundo real”, existem diversas sutilezas que apenas um ser humano consegue transmitir. E a maneira como o FMV é usado aqui é provavelmente uma das melhores de que se tem notícia. Quem segura toda a performance é a atriz, tecladista e ex-ginasta olímpica(!) Viva Seifert, que dá vida, emoção e um estranho senso de ambiguidade a Hannah. É através dela, nossa única narradora, que vemos o mistério se desvelar. E ela não faz feio.
Toda a questão é que, no fim das contas, mesmo quando se termina de assistir a todos os vídeos e temos frescas na memória cada uma das palavras de nossa protagonista, ainda assim há margens para dúvidas. Quando digo que Her Story é um game de interpretação, falo no próprio sentido ficcional da coisa: de que, até que se diga o contrário, poucas coisas no relato estão escavadas na rocha. Você nunca saberá exatamente até onde vai chegar com suas pesquisas, mas vai aproveitar cada segundo das histórias fascinantes que Hannah tem a contar enquanto monta os fragmentos e se surpreende com contradições e acertos. Aqui, embora você não tenha o poder de mudar a história (já que ela aconteceu há mais de vinte anos atrás), você vai brincar realmente de ser detetive.
E isso é tudo o que eu me arrisco a dizer sem acabar estragando a experiência.
Talvez o estilo de Her Story não agrade a todo mundo. Jogadores que preferem desafios mais rápidos, relaxantes e, digamos, conclusivos, talvez se sintam frustrados com seu estilo não usual. Há também a barreira linguística, pois as palavras são parte fundamental de sua mecânica e, embora seja possível colocar legendas em inglês para acompanhar os vídeos, quem não tiver um domínio confortável da língua inglesa provavelmente vai ter dificuldades de aproveitar o jogo, infelizmente.
Para quem tem condições e quer experimentar um dos games mais originais dos últimos anos, com um storytelling não linear esperto, introspectivo e intrigante, fica aqui a dica. Você pode obter Her Story na Steam, na App Store ou na própria página do desenvolvedor.