Leia: O primeiro homem mau

Colagem digital por Fernanda Garcia (Kissy)
Miranda July e o amor de Macabéa por uma panela só

Miranda July, 42 anos, é uma daquelas mulheres com mil atribuições em seu currículo desde sempre: artista visual, cineasta, roteirista, atriz, canta, dança… Em 2005, ela incluiu escritora no seu Linkedin com o lançamento de um conto chamado The Boy from Lam Kien. Em 2013, saiu no Brasil o livro de relatos O escolhido foi você (Companhia das Letras), mas aqui vou falar sobre seu primeiro romance, O primeiro homem mau, lançado em 2015. E o que podemos dizer sobre esse livro?

Basicamente é a história da protagonista Cheryl Glickman que vive sob algumas regras muito específicas. Michiko Kakutani, crítica literária do New York Times, a define como uma versão extrema de uma daquelas depressivas personagens femininas de meia-idade de Anne Tyler, afundada em um marasmo de baixas expectativas e energia ainda menor”. Parece cruel, mas Cheryl tem um quê de Macabéa (A hora da estrela, Clarice Lispector) ao se alienar de sua vida e criar narrativas internas tão específicas e estranhas que não fazem sentido para NINGUÉM ⁓sem caps lock⁓ ninguém a não ser ela mesma.


Cheryl é uma mulher de 40 e poucos anos e trabalha em uma empresa chamada Open Palm, que produz e vende vídeos de autodefesa e exercícios. Ela é obsessivamente apaixonada por um membro do conselho diretor da empresa, Phillip, e está convencida de que esse amor vem de vidas passadas. Porém, ele a considera mais uma confidente de suas perversões do que uma possibilidade amorosa.

O cotidiano de Cheryl é regido pelas suas fantasias amorosas de vidas passadas e um sistema que visa conservar a maior quantidade de energia possível: apenas usar uma panela para cozinhar e comer para nunca ter que enfrentar uma pilha de louça suja ou abandonar livros no meio da leitura para não ter o trabalho de colocá-los de volta à estante.

Desde que conheceu um bebê, filho dos amigos de seus pais quando criança, convenceu-se de que seria sua mãe em alguma outra encarnação e nomeou essa entidade-criança de Kubelko Bondy. Desse modo, sempre que vê uma criança na rua ela estabelece conversas mentais com a criança/Kubelko, prometendo nunca abandoná-lo.

“- Eu continuo nascendo para as pessoas erradas, ele disse.

Assenti com pesar. Eu sei”

Tá doidão, né? Pois pique bem essas cebolas e reserve, tem mais.

Então Clee chega em nossas vidas. Filha de seus chefes, Cheryl é intimada a hospedar a jovem de 20 anos em sua casa até encontrar um apartamento próprio. Porém, Clee resolve ocupar a sala de estar por um período indeterminado e revela-se agressiva, anti-higiênica e acomodada.

Com uma postura irritantemente passiva, mas igualmente incomodada, Cheryl sofre como se acreditasse que merecesse o descaso e as agressões de sua hóspede, que transforma sua sala em um reino de roupas amassadas e jogadas aleatoriamente, permeadas pelo cheiro de unhas fungadas e restos de comidas (mano do céu…)

[caption id="attachment_13357" align="aligncenter" width="434"] Miranda July (Foto: Divulgação/Cia das Letras)[/caption]

A partir das sessões de terapia, a protagonista consegue reunir forças para reagir e, inspirada nos vídeos de autodefesa da Open Palm, passa a revidar as agressões verbais e físicas de Clee. Sim, elas passam a tretar fisicamente.

Porém, em um dos muitos  plot-twist do livro, as lutas passam a ganhar um outro significado na relação de ambas e, com o tempo, começam a reencenar as coreografias de artes marciais dos vídeos de autodefesa e, com isso, criar uma espécie de relacionamento baseado na interpretação dos papéis de vítima e de agressor dos vídeos. O nome do livro, O primeiro homem mau, é um desses personagens.

O relacionamento transforma-se em diferentes representações ao longo do livro, ora com viés claramente sexuais e românticos, ora desempenhando um papel maternal, Cheryl e Clee encontram uma dinâmica que possibilita a ambas terem papéis mais ativos em suas narrativas.

O livro desemboca para outros caminhos a partir desse ponto, mas o despertar de Cheryl e de sua recente habilidade de conseguir projetar um pouco de sua piração para a realidade nos dá algumas dicas sobre o que, afinal de contas, se trata o romance de estreia de July.

A narrativa do livro é desconfortável, as cenas são absurdas e as personagens beiram ao grotesco. Cheryl é tão absorta em sua própria cosmogonia – essa criatura de amores passados e maternidades futuras – que não tem referência para reconhecer o absurdo.

No entanto, é pela projeção de seus absurdos em suas novas relações que ela consegue dar vazão a sua introspecção e se colocar, mesmo que deslocadamente, no exterior e sair de seu mundo hermético. Sua relação com Clee e o jogo de interpretação e inversão de papéis deu a ela um protagonismo de sua vida.

Escrito por
Mais de Fabi Oda

Dada: as mulheres do movimento dadaísmo

Enquanto a autoria do famoso readymade de Duchamp, “a Fonte”, é questionada, uma nova exposição examina o trio de mulheres que realmente lideraram o dadaísmo do início do século 20.

 

 
A escultura readymade do urinol de Marcel Duchamp, entitulada “a Fonte”, foi eleita a obra artística mais influente do século 20. Recentemente, no entanto, surgiram dúvidas se Duchamp de fato comprou ou não o urinol e o chamou de arte – muitos historiadores da arte acreditam agora que a famigerada peça foi, na verdade, a obra de  outra artista dadaísta e excêntrica, a baronesa Elsa von Freytag-Loringhoven. O nome lhe parece familiar? Para muito de nós, provavelmente não. Elsa, apesar da genialidade de seu trabalho e vida, nunca teve a fama nem a notoriedade recebida pelos seus colegas dadaístas homens.

 

 
Sophie Taeuber-Arp, Hannah Hoch e Elsa von Freytag-Loringhoven são três mulheres que foram as principais artistas do movimento vanguarda Dadaísta: um movimento que sempre fora historicamente associado com seus protagonistas masculinos. Apesar da da relativa obscuridade comparado aos nomes como Duchamp ou Manray, essas três mulheres contribuíram significativamente para o dadaísmo, através de obras de arte feitas a partir de uma gama vertiginosamente diversificada de mídias, incluindo colagem, cenografia, têxtil, escultura e objetos-escultura encontrados. Suas práticas incluem até exemplos de arte performática que ainda permanecem notavelmente atuais, apesar de terem quase um século. Esse trio, por muitas vezes esquecido, é o destaque da DADA Differently – traduzido Dada Diferente – uma exposição coletiva no Museu Haus Konstruktiv, em Zurique.

O Dada representou uma quebra radical da compreensão tradicional não só da arte, mas da razão e da própria lógica. Formado na politicamente neutra Suíça como reação aos horrores da Primeira Guerra Mundial, Dada imaginou uma arte tão sem sentido como o mundo em seu entorno. No entanto, apesar de sua sátira inovadora e iconoclastia cultural, Dada permaneceu como um movimento que abrigava e normalizava a misoginia do começo do século 20 assim como outras escolas de vanguarda da época. A marginalização dos trabalhos de Taeuber-Arp, Höch, and von Freytag-Loringhoven refletem isso.

A andrógena von Freytag-Loringhoven foi uma pioneira em performance artística, cuja arte e, crucialmente, vida desafiava ferozmente as convenções burguesas artísticas e morais. Ela ganhou notoriedade por sua estética proto-punk; fotografias mostravam a artista com um sutiã feito de latas de sopa, vestindo um canário enjaulado como colar, ou com seus cabelos raspados tingidos de vermillion. Em 1913, a caminho do cartório para se casar com um barão sem dinheiro, von Freytag-Loringhoven pegou um anel de ferro na rua e declarou ser um Enduring Ornament: um dos primeiros objetos readymade do mundo. Fazendo isso, minou a concepção ocidental do obra de arte como algo necessariamente agradável e única – dois anos antes de Duchamp e Francis Picabia fazerem o mesmo.

 

 

 

 
As fotomontagens de Höch cortam e fatiam imagens da vida contemporânea para criar novos significados enquanto minam compreensões do antigo. Enquanto essa colagens inovadoras tenham recebido aclamação recentemente, outros aspectos de sua prática – como as estranhas bonecas Dada – são menos conhecidos. Com olhos largos e arregalados e atributos sexuais secundários exagerados, as bonecas de pano continham a marca da incisiva sensibilidade crítica de Höch.

 

 

 
Pintora, dançarina e cenógrafa, Taeuber-Arp também subverteu o tradicionalmente feminino meio têxtil para fins mais radicais, criando marionetes articuladas para serem utilizadas em uma peça que integrava dança Dada com o nascente movimento psicanalítico. Fantoches como König Hirsch: Clarissa (1918) eram criados para expressar estados interiores, através do movimento expressivo libertado das restrições da anatomia humana.

 

 

 

 
Zurique foi a cidade na qual o movimento Dada ganhou seu nome e definição em 1916, no famoso cabaré Voltaire. É apropriado então, que em seu aniversário de 100 anos, o movimento nos ofereça a exposição DADA Differently, uma oportunidade para revisitar o Dada sob a luz da contribuição de todos seus membros – não apenas os homens.

 

 
Exposição “DADA Differently: Sophie Taeuber-Arp, Hannah Höch, Elsa von Freytag-Loringhoven”, rola de 25 de fevereiro até 8 de maio de 2016 no Museu Haus Konstruktiv, Zurique


Imagens retiradas daqui: 1 / 2 / 3 / 4

 
 

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