Assista: Martha Marcy May Marlene

Martha Marcy May Marlene

Perto da minha casa tem um centro cultural em que nessa época do ano se intercalam dias com shows e projeções de filmes gratuitamente no terraço. Pobre que estou e com muita vontade de ir ao cinema, fui aproveitar a boa da La Casa Encendida.

Chegando lá, estava tudo muito bem organizado. Fiquei surpresa pois foram distribuídos fones individuais (bons e exteriores, não como os que dão em avião, haha) e as cadeiras eram confortáveis. Não tinha ideia sobre o que seria o filme. Sabia o nome mas não havia pesquisado. As vezes procuro uma nota no IMDB ou no Rotten Tomatoes mas nessa vez foi um blind date mesmo.

O filme começou e aquela sensação de angústia e gatilhos foram dando vazão no meu peito. “É um filme sobre abuso psicológico, físico, estupro, ok”. Fiquei um pouco desconcertada mas continuei a assistir. A experiência de ter um fone de ouvido, sei que posso parecer exagerada mas, aumentou a sensação de passar pela experiência de forma mais solitária, uma sensação de isolamento. Muito provavelmente não foi proposital mas calhou de ser uma das condições de quem sabe já ter passado por um abuso, sente. De estar sozinho.

A direção de arte é muito boa, o roteiro muito bom, os diálogos são apenas os necessários, o que chegou a me surpreender de como uma sensação tão angustiante foi passada de forma tão clara sem precisar explicar demasiadamente.

 
[infobox maintitle="Daqui em diante teremos spoiler e gatilhos sobre abusos psicológicos e físicos" subtitle="" bg="red" color="black" opacity="on" space="30" link="no link"]

O filme gira em torno da personagem principal que se chama Martha. A história é intercalada entre presente e passado que vai dando respaldo para o comportamento atual da personagem. Um comportamento paranóico, um comportamento defensivo, agressivo e amedrontado.

A primeira cena é Martha fugindo de uma casa e correndo pela floresta. Ela liga para sua irmã pedindo ajuda não direta, mas indiretamente. Em seguida. sua irmã aparece para acolhê-la.

 
giphy (4) giphy (5)
 
Começam então os flash backs das memórias de Martha. Ela, por meio de uma amiga, encontra esse grupo auto-sustentável, que planta, colhe, cozinha, limpa, cuida dos animais, todos juntos. Cada um tem seu afazer dentro do espaço que é dividido, as roupas são divididas, é uma comunidade liderada por Patrick. Patrick é um homem que consegue individualizar cada pessoa e consegue identificar cada vulnerabilidade de cada um dentro do grupo, sendo homem ou mulher, ou seja, o perfil perfeito de um agressor psicológico.

Um dia, Patrick diz à Martha que ela tem cara de Marcy May. Ele cria uma intimidade e diz a ela que é preciso baixar a guarda para se misturar às pessoas. Precisa achar o espaço de trabalho dela no grupo, aceitar que cada um tem uma função. Ele diz isso de forma passivo agressiva na frente de outras pessoas do grupo, que já podemos começar a considerar um culto.

 
[caption id="attachment_11697" align="aligncenter" width="798"]giphy (6) Patrick, aquele cara seguro, líder, inteligente, que consegue tudo por meio dos outros, o perfil do abusador psicológico.[/caption]  
Um dia, Martha acorda parcialmente drogada com Patrick a estuprando. A sensação é tenebrosa. Depois que ele acaba e vai embora, ela levanta e vai para o quarto das outras mulheres e fica em silêncio tentando processar o que aconteceu. Uma mulher que está ao lado dela diz:

Você não sabe como você é sortuda! Eu daria tudo para voltar para o dia em que ele me escolheu

O desespero está instalado. Mulheres em situação de vulnerabilidade convencem umas às outras de que abrir mão, não só de posses materiais mas como do próprio corpo para se doar num grupo, é uma realidade evoluída. Novas mulheres chegam à casa, Martha as ajuda na preparação para o ~ primeiro dia ~, tudo não passa de uma grande lavagem cerebral generalizada.

 
giphy (2)
 
Curiosamente, fui dar uma olhada em outros reviews desse filme. A grande maioria dos reviews são/foram feitos por homens que predominantemente acharam o filme vazio e chato. Não entendem o privilégio de se serem homens e não serem abusados sexualmente e serem abusados psicologicamente diariamente como todas nós somos. Esse filme fala diretamente com mulheres. Mulheres que escolhem o silêncio ao entenderem que estiveram em uma situação de abuso psicológico, estupro, violência doméstica. A vergonha, a paranóia que segue, a defensiva.

Depois que a irmã da Martha a acolhe, acontece o silêncio, acontecem os espasmos de paranóia tanto na personagem quanto no espectador (ou, na espectadora mulher). A irmã de Martha é casada com um homem bem rico, eles a acolhem numa casa enorme, na beira de um lago. Martha problematiza o tamanho da casa para apenas um casal, problematiza o dinheiro como fator de sucesso. Nesse momento você percebe que o estilo de vida que ela levava na comunidade ainda é o que ela tem como ideal, porém, em algum momento, conseguiu fazer a quebra de onde estavam os problemas. Creio que foi em conjunto com outras mulheres que ali estavam, as observando e se enxergando nos abusos, nos silêncios cúmplices.

 
giphy (1)

[caption id="attachment_11703" align="aligncenter" width="516"]giphy ~ aquele momento que você não sabe se o cara quer ajudar ou se aproveitar, quem nunca passou por isso? ~[/caption]  
Depois da acolhida, outros problemas começam a se instalar. A irmã entende que Martha precisa de tempo e que alguma coisa muito pesada aconteceu com ela. Mas o marido da irmã não tem paciência, entende que aconteceu alguma coisa mas não quer ter que lidar com o problema. O que me é bastante real voltando na questão o privilégio de ser um homem branco e rico. Terceirizar problemas que não lhe concernem pessoalmente. Particularmente, a paranóia da Martha começou a passar para mim. Achei que o marido da irmã fosse abusar dela e isso é exatamente a quebra do argumento masculino “nem todo homem”.

 
[caption id="attachment_11700" align="aligncenter" width="522"]giphy (3) sabendo que precisa de ajuda, aceita ir para um centro de tratamento à pedido do marido da irmã.[/caption]  
Não interessa a pessoa maravilhosa que um cara possa ser e se portar, já passamos por tantas coisas ruins que não nos resta mais chances, mais uma carta branca de confiança. Não peça para uma mulher que já foi abusada para que não generalize. E acredite, muitas de nós fomos.

Infelizmente o filme tem um final mais real do que eu imaginei. Não há um desfecho porque não há desfechos para casos de abusos sexuais e psicológicos. Há somente uma paranóia que pode e deve ser controlada com tratamentos e o medo que segue. Grande parte de nós, mulheres, somos Marthas. Somos Marcy Mays, que é como somos individualizadas no ápice de nossa vulnerabilidade e somos Marlenes quando precisamos pedir ajuda.

Mais de Bárbara Gondar

Mutilação Genital Feminina

Que podem sem comprovadas, 200 milhões de mulheres já passaram pelo terror da mutilação genital. A ONU já adotou mais de uma vez uma resolução para acabar com a mutilação genital feminina (também conhecido pela sigla FGM: Female Genital Mutilation) e manter a agenda de atingir a equidade de gêneros e empoderamento de todas as mulheres até 2030.

Atualmente há quatro tipos de mutilação genital feminina, todas chamadas erroneamente de ‘circuncisão feminina’. Erroneamente porque as sequelas são estrondosas e tenebrosas pra vida de uma criança/mulher que sobrevive a esse tipo de procedimento.

O primeiro tipo de FGM, retira-se a parte de fora do clitóris (o clitóris é enorme, vide). Os instrumentos utilizados normalmente não são higienizados e são utilizados de forma bárbara: giletes de barbear enferrujadas, facas não esterilizadas, cacos de vidro, isso tudo depende do país onde é realizado o procedimento, que ainda, por muitas culturas, infelizmente é considerado cultural.

 
O segundo tipo de FGM, é retirado o clitóris e os lábios pequenos. Lembrando que muitas vezes sem anestesia, as crianças que são submetidas a esses procedimentos tem idades variadas, desde nenens até pré adolescentes e sangram muito. Essas crianças estão expostas a diversos tipos de infecção e doenças como a AIDS por causa da falta de higienização nos instrumentos, sendo utilizado o mesmo em cada criança, como uma linha de produção.

 
O terceiro tipo de FGM é o pior que existe, se é que é possível fazer uma mínima distinção de atos tão brutais. No tipo 3, além do corte do clitóris e dos pequenos lábios, a vagina é costurada, deixando apenas um micro buraco na parte de baixo. Isso acarreta muitos problemas de saúde, extrema dor em urinar, extrema dor em menstruar, altos níveis de infecção urinária e vaginas acarretando muitas vezes em infertilidade da mulher. Mas ainda é possível engravidar e o sexo é insuportável e o nascimento da criança pode chegar a matar a mãe e o bebê.

 
O quarto tipo de FGM é um tipo que não é classificado. Podem acontecer algumas alterações na região vaginal, tatuagens, introdução de materiais corrosivos, cortar a base da vagina, e qualquer outra bizarrice que um ser humano seja capaz de fazer com um genital feminino. Porém, nesse tipo, as alterações são aleatórias.

 
Muitas mulheres nem associam os vários problemas de saúde posteriores à prática da mutilação que aconteceu em sua infância, o que torna a causa mais invisível. A ONU diz que a os números não são bons, e que em 15 anos, pode ser que aumentem os casos,então é preciso agir com firmeza para que a prática seja eliminada, com conscientização e políticas públicas.

A prática da mutilação tem raízes misóginas, desigualdade de gênero, de inferioridade da mulher, de pureza, castração, controlar sexualidade e até estética. Não há NENHUM benefício médico encontrado (quer dizer, alguém ainda foi tentar buscar por isso). Infelizmente a prática é realizada, na maioria das vezes, por mulheres e em mulheres, com medo de exclusão social.

 
2
 
Sabemos que há urgências no feminismo e eu não poderia concordar mais que essa é uma delas. Na resolução expedida pela ONU no último dia 29 foram formalizadas e numeradas 12 possíveis ações para que a agenda de equidade de gêneros pudesse ser cumprida até 2030, das quais resumidamente são:

  1. Pedem para que os estados coloquem ênfase na educação, principalmente na juventude, pais e religiosos, líderes tradicionais e comunitários sobre o efeito nocivo da mutilação e que incitem os homens e meninos a se tornarem mais envolvidos e informados, fazendo campanhas de conscientização e se tornarem agentes de mudança.
  2. Apoio nacional e internacional para eliminar a prática e organizar eventos que conscientizem nesse âmbito durante o Dia Internacional da Tolerância Zero Para a Mutilação (dia 6 de fevereiro) com a participação de religiosos e autoridades locais comunitárias.
  3. De acordo com a lei dos Direitos Humanos, é pedido para que os Estados instituam leis contra esse tipo de prática e que tomem medidas para garantir a aplicação restrita dessa lei.
  4. Incentiva os Estados a desenvolver políticas abrangentes para combater a FGM, envolvendo o governo, o parlamento, o judiciário, a sociedade civil, a juventude, os meios de comunicação, o setor privado e todas as partes interessadas.
  5. Também incentiva os Estados a desenvolver, apoiar, e promover a educação, conforme apropriado, incluindo matérias de saúde sexual e reprodutiva que claramente desafia os estereótipos de atitudes e práticas nocivas para as crianças e mulheres.
  6. Enfatiza que os Estados precisam sistematizar, conforme apropriado, a coleta de dados sobre FGM para encorajar e prestar apoio financeiro à investigação principalmente em níveis universitários para que usem os resultados para tornar mais forte a a opinião pública e conscientização sobre o assunto. E também para conseguirem medir o progresso das campanhas.
  7. Exorta os Estados a prestar assistência às vítimas de FGM, incluindo tratamentos físicos e psicológicos.
  8. Encoraja os Estados a apresentarem as avaliações submetidas periodicamente e recomendações de medidas para a eliminação da FGM.
  9. Encoraja a comunidade internacional a manter a questão da FGM na agenda das políticas de desenvolvimento e uma dedicação especial para a implementação dos objetivos de Desenvolvimento Sustentável até 2030.
  10. Exorta os Estados a continuar a aumentar a assistência técnica e financeira para implementação de políticas eficazes, programas e planos de ação para eliminar a prática da FGM nos níveis nacional, regional e internacional.
  11. Convida o alto comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos e os órgãos de tratado de direitos humanos pertinentes, em particular o Comitê de Direitos Econômicos, Sociais e os Direitos Culturais, a Comissão de Direitos Humanos, o Comitê sobre os Direitos da Criança, o Comitê para a Eliminação da discriminação contra a Mulher, o Comitê contra a Tortura e o Comitê para a proteção dos Direitos de Todos os Trabalhadores Migrantes e dos Membros das suas Famílias, para continuar a dar especial atenção à questão da eliminação da FGM.
  12. Decide continuar a análise da questão da FGM de acordo com o seu programa de trabalho.

 
Pessoalmente achei muitos desses tópicos redundantes mas se tem uma coisa que eu aprendi nessa vida é que se você não deixa muito explícito e especificado, sempre há uma forma de ser alterado, por isso existem contratos minuciosos e enfim, resoluções como essa. Às vezes vemos causas como essas e não sabemos como ajudar, mas todo tipo de militância como procurar saber mais sobre o assunto, dar visibilidade, é um ato solidário, uma forma de ajudar.

 

 
Há uma matéria muito boa da BBC que fala sobre o assunto, deixo aqui linkada. Há muitos documentários no YouTube também, só procurar tanto em português como inglês que aparecerão diversos vídeos sobre o assunto. Está sendo difícil demais finalizar esse texto, muita força para nós.
 

#EndFMG

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La Casa Encendida.

Chegando lá, estava tudo muito bem organizado. Fiquei surpresa pois foram distribuídos fones individuais (bons e exteriores, não como os que dão em avião, haha) e as cadeiras eram confortáveis. Não tinha ideia sobre o que seria o filme. Sabia o nome mas não havia pesquisado. As vezes procuro uma nota no IMDB ou no Rotten Tomatoes mas nessa vez foi um blind date mesmo.

O filme começou e aquela sensação de angústia e gatilhos foram dando vazão no meu peito. “É um filme sobre abuso psicológico, físico, estupro, ok”. Fiquei um pouco desconcertada mas continuei a assistir. A experiência de ter um fone de ouvido, sei que posso parecer exagerada mas, aumentou a sensação de passar pela experiência de forma mais solitária, uma sensação de isolamento. Muito provavelmente não foi proposital mas calhou de ser uma das condições de quem sabe já ter passado por um abuso, sente. De estar sozinho.

A direção de arte é muito boa, o roteiro muito bom, os diálogos são apenas os necessários, o que chegou a me surpreender de como uma sensação tão angustiante foi passada de forma tão clara sem precisar explicar demasiadamente.

 

O filme gira em torno da personagem principal que se chama Martha. A história é intercalada entre presente e passado que vai dando respaldo para o comportamento atual da personagem. Um comportamento paranóico, um comportamento defensivo, agressivo e amedrontado.

A primeira cena é Martha fugindo de uma casa e correndo pela floresta. Ela liga para sua irmã pedindo ajuda não direta, mas indiretamente. Em seguida. sua irmã aparece para acolhê-la.

 
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Começam então os flash backs das memórias de Martha. Ela, por meio de uma amiga, encontra esse grupo auto-sustentável, que planta, colhe, cozinha, limpa, cuida dos animais, todos juntos. Cada um tem seu afazer dentro do espaço que é dividido, as roupas são divididas, é uma comunidade liderada por Patrick. Patrick é um homem que consegue individualizar cada pessoa e consegue identificar cada vulnerabilidade de cada um dentro do grupo, sendo homem ou mulher, ou seja, o perfil perfeito de um agressor psicológico.

Um dia, Patrick diz à Martha que ela tem cara de Marcy May. Ele cria uma intimidade e diz a ela que é preciso baixar a guarda para se misturar às pessoas. Precisa achar o espaço de trabalho dela no grupo, aceitar que cada um tem uma função. Ele diz isso de forma passivo agressiva na frente de outras pessoas do grupo, que já podemos começar a considerar um culto.

 

 
Um dia, Martha acorda parcialmente drogada com Patrick a estuprando. A sensação é tenebrosa. Depois que ele acaba e vai embora, ela levanta e vai para o quarto das outras mulheres e fica em silêncio tentando processar o que aconteceu. Uma mulher que está ao lado dela diz:

Você não sabe como você é sortuda! Eu daria tudo para voltar para o dia em que ele me escolheu

O desespero está instalado. Mulheres em situação de vulnerabilidade convencem umas às outras de que abrir mão, não só de posses materiais mas como do próprio corpo para se doar num grupo, é uma realidade evoluída. Novas mulheres chegam à casa, Martha as ajuda na preparação para o ~ primeiro dia ~, tudo não passa de uma grande lavagem cerebral generalizada.

 
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Curiosamente, fui dar uma olhada em outros reviews desse filme. A grande maioria dos reviews são/foram feitos por homens que predominantemente acharam o filme vazio e chato. Não entendem o privilégio de se serem homens e não serem abusados sexualmente e serem abusados psicologicamente diariamente como todas nós somos. Esse filme fala diretamente com mulheres. Mulheres que escolhem o silêncio ao entenderem que estiveram em uma situação de abuso psicológico, estupro, violência doméstica. A vergonha, a paranóia que segue, a defensiva.

Depois que a irmã da Martha a acolhe, acontece o silêncio, acontecem os espasmos de paranóia tanto na personagem quanto no espectador (ou, na espectadora mulher). A irmã de Martha é casada com um homem bem rico, eles a acolhem numa casa enorme, na beira de um lago. Martha problematiza o tamanho da casa para apenas um casal, problematiza o dinheiro como fator de sucesso. Nesse momento você percebe que o estilo de vida que ela levava na comunidade ainda é o que ela tem como ideal, porém, em algum momento, conseguiu fazer a quebra de onde estavam os problemas. Creio que foi em conjunto com outras mulheres que ali estavam, as observando e se enxergando nos abusos, nos silêncios cúmplices.

 
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Depois da acolhida, outros problemas começam a se instalar. A irmã entende que Martha precisa de tempo e que alguma coisa muito pesada aconteceu com ela. Mas o marido da irmã não tem paciência, entende que aconteceu alguma coisa mas não quer ter que lidar com o problema. O que me é bastante real voltando na questão o privilégio de ser um homem branco e rico. Terceirizar problemas que não lhe concernem pessoalmente. Particularmente, a paranóia da Martha começou a passar para mim. Achei que o marido da irmã fosse abusar dela e isso é exatamente a quebra do argumento masculino “nem todo homem”.

 

 
Não interessa a pessoa maravilhosa que um cara possa ser e se portar, já passamos por tantas coisas ruins que não nos resta mais chances, mais uma carta branca de confiança. Não peça para uma mulher que já foi abusada para que não generalize. E acredite, muitas de nós fomos.

Infelizmente o filme tem um final mais real do que eu imaginei. Não há um desfecho porque não há desfechos para casos de abusos sexuais e psicológicos. Há somente uma paranóia que pode e deve ser controlada com tratamentos e o medo que segue. Grande parte de nós, mulheres, somos Marthas. Somos Marcy Mays, que é como somos individualizadas no ápice de nossa vulnerabilidade e somos Marlenes quando precisamos pedir ajuda.

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