O Grito da Sereia

Ilustração feita com exclusividade por Janis Souza.

Desde pequena eu já sentia que havia algo de diferente comigo. E por diferente eu digo que, o que as pessoas diziam que eu era ou o que eu deveria ser e fazer, não ia de encontro com o que eu pensava. Lembro de, com uns 4, 5 anos, eu estar na escolinha e querer duas coisas muito pontuais: beijar os meninos que eu achava bonitinhos e ser uma menina. Eu via as meninas e queria me vestir como elas, queria ter o cabelo igual o delas, mas eu nunca pude. Eu sempre tive a cabeça raspada, até uns 11 anos.

Lembro de com 5 anos, estar sentada na cama da minha mãe, penteando os cabelos dela (algo que ela adorava e eu fazia sempre) e soltar: “eu quero ser menina”. Porém, eu nasci e cresci na igreja evangélica. Logo fui repreendida e ouvi coisas como “você vai pro inferno”, “você vai morrer se você pecar”, “quem peca morre, e isso é pecado”. Cresci ouvindo isso. Cresci ouvindo que eu não poderia ser a menina que eu sou jamais, que era errado, que eu ia para o inferno, que eu morreria, que isso e aquilo.

Aos 11 anos eu passei por diversas experiências – negativas – religiosas. Fui levada pra um monte onde várias pessoas costumavam ir pra orar, e lá, me jogaram no chão e oraram na minha cabeça, falando na ~língua dos anjos~, para que qualquer espírito maligno saísse de mim. Fui trancada em salas, levada em cultos e mais cultos, pra que aquilo que morava em mim, saísse.

Aos 13 anos falei que não iria mais pra igreja, pois já havia passado por muitas coisas na minha vida, e não precisava continuar num ambiente onde eu não acreditava em nada daquilo e não era bem tratada.

Conforme fui crescendo, foi-me dito que pessoas como eu eram ‘gays’. Eu nunca entendi muito bem o que isso significava, mas sempre disseram que gay era quem era afeminado e gostava de homem, e eu me enquadrava nisso, mas tinha um adicional, eu ainda queria ser menina. Porém, aos 15 anos eu disse para os meus pais que era gay. Mas, como sempre, senti que faltava algo ali, que talvez aquela definição não me enquadrasse, e eu nunca havia ouvido qualquer definição diferente dessa para pessoas como eu.

Aos 18 anos descobri a palavra TRANS. Através da internet e de amigos, entendi que trans era a pessoa que não se reconhecia com o gênero que lhe foi designado no nascimento. E durante muito tempo pensei sobre isso, que talvez fosse isso de fato que eu era.

 
[caption id="attachment_7093" align="aligncenter" width="1024"]Ilustração por Janis Souza Ilustração por Janis Souza[/caption]  
Aos 19 percebi: eu era uma mulher trans. A minha necessidade de me tornar a mulher que eu sempre quis se definia com isso, com o fato de eu ser uma mulher trans hetero, e não um homem cis gay, e isso tem muito peso social, pois vivemos em uma sociedade onde mulheres trans são vistas como homens gays superafeminados.

Aos 20, me assumi pros meus pais como mulher trans. Talvez essa tenha sido a pior e a melhor decisão da minha vida. Lembro da violência que sofri. Dos socos, das cintadas, dos xingamentos, de tudo o que eu poderia ouvir, ver e sentir em uma fração de segundos, aconteceu ali. Em prantos eu pedia respeito, e em prantos eu saí de casa. A partir daí, as coisas na minha vida começaram a ter altos e baixos.

Comecei meu acompanhamento psicoterapêutico, comecei a passar em consultas com endocrinologista, tudo pra eu que eu fosse me adequando com a mulher que eu sempre quis ser. Ou mulher, a mulher que eu era.

Ainda aos 20, percebi que meu relacionamento com meus pais não mais existia. Havia sido expulsa de casa – indiretamente – sobre o pretexto de que “se você quiser ser mulher, que seja fora de casa”. Passei a semana na casa de um amigo, me perguntando o que eu iria fazer, como eu poderia ser a mulher que eu sou, sem qualquer tipo de reserva, e ainda sim ter contato com meus pais, religiosos fervorosos cristãos fundamentalistas. Me submeti a coisas dolorosas pra ter um teto, pra ter onde morar e o que comer.

Aos 21 anos decidi que nada iria me parar, que esse ano seria o meu ano e que eu faria muitas coisas que eu sempre quis fazer, e que sempre mereci. Mesmo ainda não tendo um bom relacionamento com meus pais (e talvez já descartando a possibilidade de ter um dia), consegui externizar a mulher que eu sou, e a partir daí, tudo foi melhorando, tudo foi dando certo, tudo foi seguindo.

Hoje ainda tenho dificuldades. Hoje ainda passo por muitas coisas complicadas, mas hoje eu sou forte, feliz e conquistei o que jamais achei que conquistaria. Não digo que eu seja totalmente livre, pois a liberdade mesmo surgirá quando eu tiver uma casa onde possa chamar de minha, onde eu não tenha mais que ouvir um nome que nunca gostei e nunca me identifiquei, mas essas conquistas serão vindas aos poucos, pois são minha recompensa por tudo o que eu passei, por todas as vezes que chorei, por todos os socos, chutes, tapas, xingamentos, transfobias e afins que recebi e resisti.

Hoje eu sou a mulher que eu sempre soube que era.
 
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Ilustrações feitas com exclusividade por Janis Souza.

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Assédio, mulheres trans e travestis

A primeira vez que eu fui assediada eu jamais vou me esquecer. Era aniversário da minha melhor amiga, eu tinha transicionado há 2 meses. Estávamos voltando da festa de aniversário dela e eu lembro nitidamente do caminhão que passou gritando “gostosa” em minha direção. Ali foi quando eu percebi que aquilo seria pra sempre, e que ficaria cada vez pior.

Com o passar do tempo, os assédios foram piorando. Um dia fui participar de um debate numa escola no centro da cidade e em um curto período de tempo eu tinha recebido mais de 4 cantadas, na rua e no metrô. Eu estava sozinha e aquilo foi me deixando cada vez mais assustada.

Algo relacionado aos assédios que eu percebi é que sempre que eu estou acompanhada de um homem, os assédios parecem desaparecer, como se ao estar na presença de um homem ele se torna “meu dono”, e eu uma propriedade dele. Diversas vezes saí com caras e o máximo que recebo são olhares que me seguem, mas não escuto absolutamente nada. E isso me incomoda. Me incomoda pelo fato de que minha segurança só está garantida se eu estou acompanhada de um homem, e tudo o que eu quero é andar na rua, tranquilamente, sem que eu fique ouvindo coisas de diversos tipos, ou que eu não tenha que passar por situações desagradáveis.

Em julho, fui com amigos pra um evento (o qual fui fantasiada de gata) e durante todo o trajeto até o evento eu ouvi miados vindo em minha direção. Uma das situações mais constrangedoras aconteceu no metrô, onde um grupo de 10 caras ficaram reunidos todos em volta de mim. Haviam outras portas, mas todos queriam ficar próximos onde eu estava, porque queriam ficar olhando para os meus peitos e minhas pernas. Resolvi então ficar mais próxima dos meus amigos, pois estava sentada de um lado e eles do outro. Quando fui para perto deles, um dos caras sentou onde eu estava, e decidiu que seria uma boa ideia tentar fotografar minhas pernas e fotografar embaixo do meu vestido. Só fiquei sabendo dessa situação quando já havia saído do metrô, quando meus amigos me contaram. Confesso que fiquei bem irritada, com muita vontade de tirar uma satisfação do porque diabos ele tirou uma foto minha, se ele havia conseguido, e o que ele iria fazer com aquela foto.

O que mais me deixa entristecida é que em nenhum caso de assédio eu posso responder. Enquanto mulher trans, as questões de assédio são bem diferentes, mesmo que sejam iguais. Quando um cara nos assedia na rua, ele nos assedia achando que somos mulheres cis, como se mulheres – independente de serem cis ou trans – pudessem ser assediadas, e quando eles notam ou percebem que não somos mulheres cisgêneras, que somos mulheres trans ou travestis, eles ficam irritados, porque “como diabos eu pude mexer com isso?”, como se a masculinidade deles fosse fragilizada ao assediarem uma mulher trans ou uma travesti.
Em alguns casos, quando respondemos, os rapazes que nos assediaram respondem “vixe, é homem” ou “sai pra lá, sou hetero”, e há diversas problemáticas nisso. Uma delas é que sim, somos mulheres. Um homem hetero que se envolve com mulheres trans ainda sim é hetero. Ele sentir atração por uma mulher trans não faz dele “menos hetero”, e é claro que ele não deve demonstrar esse interesse, essa atração, em forma de assédio, pois não merecemos ser assediadas, sejamos cis, trans ou travestis.

Em casos mais extremos, quando respondemos à assédios e cantadas, somos agredidas. Ali, diante daqueles homens que sentem repulsa de terem cantado uma mulher trans ou travesti, somos homens. Somos vistas como homens, e isso faz com que eles queiram descontar a raiva dele em nós. “São homens mesmo”, então podem apanhar, são homens batendo em “homens”, quando na verdade só estamos nos defendendo de assédios. Em muitos casos quando acontece a agressão física, não há quem nos ampare, não há quem nos defenda. Somos bichos, seres TRANSparentes, que se está apanhando é porque fez algo, porque merece.

Somos mulheres trans, somos travestis, e não merecemos ser assediadas. Merecemos respeito, merecemos que nosso gênero, nossa identidade de gênero, seja respeitada sempre.

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