O namorado perfeito dentro do seu celular

Já ouviu falar dos otome games?

Otome game é como são chamados os jogos de simulação de namoro, onde o objetivo é fazer com que a protagonista se apaixone por algum dos personagens masculinos disponíveis através de uma história com múltiplas escolhas.

Qual é o seu favorito? ;)
 
Esses jogos apareceram pela primeira vez no Japão durante a década de 80. Conhecidos como “bishoujo”, eles costumam ter um protagonista masculino que persuade um romance entre várias belas personagens com características comuns aos mangás e animes.

Em 1994, um grupo de programadoras da empresa japonesa de games Koei saíram do padrão, lançando o primeiro jogo de simulação de namoro para mulheres, “Angelique”. A saga de uma jovem, candidata a próxima “Rainha do Universo”, para escolher o pretendente perfeito foi um sucesso.

De acordo com o Instituto de Pesquisa Yano, de Tóquio, hoje o mercado de jogos voltados para o público feminino surfa na explosão dos aplicativos para smarthphones e movimentam um mercado no valor de 15 bilhões de ienes por ano no Japão.

Recentemente eles foram tema de uma reportagem no Japan Times e na CNN, onde entrevistaram jogadoras, que variam de jovens até mulheres casadas, e criadoras desses jogos. Além de terem mulheres como público alvo, os games são escritos por um time predominantemente feminino, como no caso da produtora Cybrid. Os jogos já foram baixados mais de 15 milhões de vezes desde que foram lançados no mercado há cinco anos atrás. E muitos jogos são traduzidos e também se tornaram febre fora do Japão. 

Otome games são uma febre internacional.

Porém, apesar de apontarem o quanto esse nicho é lucrativo, o tom usado por esses textos costuma me irritar um pouco. Como esses jogos são vendidos como “namorados virtuais” e “ a fuga para um mundo onde podem criar sua própria história de amor”, ambas os jornais parecem fazer um julgamento sobre as jogadoras, como se elas trocassem relacionamentos de carne e osso por uma ilusão. De que elas seriam “estranhas” por gostarem de flertar com um personagem fictício num jogo e não se preocuparem com o futuro.

Também não deixam de citar estatísticas, como o dado de que 44,2% das mulheres japonesas – quase a metade das jovens solteiras entre 18 e 34 anos – são virgens. Provando que indústria parece estar se aproveitando de um profundo desejo por intimidade no Japão.

Só que nunca comentam como é caro manter um relacionamento ou ter filhos segundo os modelos patriarcais da sociedade japonesa. Ou os problemas do mercado de trabalho japonês, que expulsa as mulheres casadas e as impedem de progredir na carreira, jornadas de trabalho excessivas, sem auxílio de creches, etc. De como cada vez mulheres tem se afastado do casamento por condições financeiras ou de que os homens japoneses parecem que procuram mais uma nova mãe do que uma parceira… Chega a ser ridículo apontar esses games como um dos culpados pelo desinteresse das japonesas em relacionamentos reais.

Convenientemente esquecem de como toda uma cultura machista tem convencido jovens, tanto mulheres quanto homens, a abandonarem o desejo de um relacionamento amoroso ou mesmo sexo, seja porque é muito caro ou por acreditarem que não vale o esforço.

Nas próprias palavras da empresária Nanako Higashi, dona da empresa de jogos de namoro Voltage, “quase todas as mulheres estão sob estresse, nós queríamos criar algo para elas”.


 
Embora acredite que os otomes games atendem sim em parte a um público solteiro insatisfeito e que procura um consolo nesses jogos, também esquecem de comentar que os jogos de simulação de namoro para homens são bem mais abundantes e variados. 

O que não significa que os otomes games estejam livres de defeitos. Muitos deles são praticamente evoluções dos romances tradicionais, trazendo os clichês problemáticos que existem no gênero.  A protagonista pode viajar para um mundo mágico e namorar cavaleiros, vampiros, samurais, ninjas, detetives, empresários, príncipes, anjos, demônios, ou até mesmo deuses, mas isso não impede que muitos dos mocinhos tenham comportamentos possessivos ou manipuladores. (Sim, estou olhando pra você, Diabolik Lovers)

Ainda mais preocupante é o fato de que um dos tipos de personagens mais populares são os “egoístas”, segundo Higashi.

Sem contar que eles seguem padrões eurocêntricos de beleza, então personagens de pele escura são coisa rara. E relacionamentos não heterossexuais também fazem falta nos otome games para celulares (nos jogos para PC a situação é um pouco melhor).

No entanto, resolvi descobrir alguma das razões para o sucesso de jogos. Tanto que baixei diversos otome games para testar e achar algum com uma boa história ou que não me irritasse (risos).

Quase acabei com a memória do meu celular….
 
No fim, Otome games são passatempos divertidos. Oferecendo diversas opções de “namorados” incrivelmente bonitos que te amam incondicionalmente em histórias que chegam a ser empolgantes. Muitos funcionam através do sistema de tickets, oferecendo trechos da história aos poucos (ou tudo se você estiver disposta a gastar $$$) ou mini-games. É fácil ser vencida pela curiosidade de saber se a protagonista conseguirá um final feliz ou não.

E após quase torrar a memória do meu celular testando vários jogos de romance, trouxe algumas sugestões caso você queira dar uma chance e esteja procurando algo novo para jogar.
 

 

Shall We Date: Guard me, Sherlock!

Idioma: Inglês
Disponível para: iOS, Android, Facebook

Já pensou em namorar Sherlock Holmes, John Watson ou até mesmo James Moriarty? Nesse game você pode. Guard me Sherlock! foi o game que me fisgou e é meu vício atual. Nesse jogo você é uma atriz que recebe ameaças misteriosas e recorre a ajuda de ninguém menos que Sherlock Holmes para te ajudar a resolver esse mistério.

A arte do jogo é linda e o app não é difícil de mexer, o texto em inglês não soa estranho. Se você gosta da série Sherlock da BBC, esse jogo pode te conquistar. O que me ganhou, até agora, foi que nenhum dos mocinhos trata a protagonista como idiota ou age de maneira possessiva. Além disso, a história te oferece questões de lógica, eventos e mini-games que desbloqueiam historinhas extras para conferir depois. 
 


 

Mystic Messenger

Idioma: Inglês
Disponível para: iOS, Android

Esse game coreano é a febre do momento entre as fãs de otome games. O destaque de Mystic Messenger é que você acompanha a história através de conversas de chat entre os personagens, mensagens e até ligações. Sim, os mocinhos ligam para o seu telefone e “falam” com você.

A história começa simples: um app misterioso é instalado no seu celular e você acaba se envolvendo com um grupo de pessoas ligadas a uma associação beneficente. O mistério se desenvolve a partir daí e existem quatro opções de romance disponíveis.
 


 

Alice ao contrário

Idioma: Português
Disponível para: Android

Poucos otomes games ganham versão em português e os que existem não tem a melhor das traduções. Joguei um pouco além do prólogo, Alice ao contrário é um pouco melhor do que a média, apesar do texto soar em certos momentos como se tivessem jogado direto no Google Tradutor. Existem quatro romances disponíveis, que incluem um alfaiate, as versões humanas de um coelho e do gato de cheshire, mais um duque.

Porém, de todos que achei em português, esse é o que tem a proposta mais interessante. A protagonista está passeando por Londres quando cai no rio e acaba indo parar no País das Maravilhas, só que todos acham que ela é a nova Rainha de Copas. Ela precisa saber como sair dessa situação antes que Alice chegue.
 


 

My Horse Prince

Idioma: Inglês
Disponível para: iOS, Android

Se você chegou até aqui e ainda acha otomes games algo estranho, então aqui vai a dica de um jogo bizarro de verdade. My Horse Prince é uma paródia bem humorada dos otomes games, onde a jovem protagonista acaba se apaixonando por um cavalo com rosto de galã (!!!!!!!).

O mais surpreendente de tudo é o que o jogo tem diálogos hilários e mini-games divertidos. Comecei a jogar e agora estou determinada a ir até o fim desse “romance” só para saber o que acontece.
 

E aí? Qual será o seu date?

 

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  • Gente, eu já corri ver se ainda tem um espacinho na memória do celular pra baixar esse “Guard me, Sherlock!” – foi mal, Zé!

    • Pachi

      O jogo é um pouco pesadinho, mas não pesa mais do que um Candy Crush da vida. Vale muito a pena, estou viciada e quero casar com o Sherlock hahahaha