Uma lembrança de empatia

Foto e montagem por Fernanda Garcia (Kissy)

Alguns anos atrás, meus avós começaram a ficar bem doentes. Os dois em sintonia. Minha vó (eu chamo de batian, ok?) estava com alguma doença que não tinha sido exatamente diagnosticada mas parecia ser um ~ tipo ~ de Alzheimer. Meu vô (ditian) tinha descoberto um tumor no pulmão. Calma! Essa história tem um contexto bonito no final!

Na época eu estava terminando a faculdade, estudava a noite, não tinha aulas nas terças e também não estava trabalhando. Então decidi dedicar esses tempos livres pra ajudá-los. Minha vó tinha muitas responsabilidades na casa e meu vô já não podia ajudar. Então toda semana eu chegava lá na casa onde cresci, no bairro do Butantã em São Paulo e voltava quarta à noite, direto pra faculdade. Por sorte, eu pegava um ônibus que fazia o caminho exato que eu precisava (Jd. Bonfiglioli – Liberdade) sem precisar andar muito.

 

Olha aí os bonitões no dia do casamento!
Olha aí os bonitões no dia do casamento!
 

Foi uma época muito boa para eu passar mais tempo (fora alguns finais de semana quando também ia visitá-los) com duas pessoas tão essenciais na minha formação básica. Quando eu era bem pequena, minha mãe trabalhava e estudava até bem tarde e quem cuidava de mim e da minha irmã o tempo todo eram eles. Nessas minhas visitas, assistia NHK (canal japonês) com a batian depois do almoço e Bonanza com o ditian mais tarde – pura nostalgia!

Beleza.

No primeiro desses dias, quando soube que o tumor do meu vô estava já muito avançado e ele não teria mais muito tempo, obviamente fiquei muito triste. Eu desabei em lágrimas na volta desse primeiro dia, durante meu caminho no ônibus pra faculdade. Por mais que seja natural, era uma parada que não entrava bem na minha cabeça. Acredito que isso também é normal.

E EIS QUE entra no ônibus uma moça, mais ou menos da minha idade, ou um pouco mais velha, não reparei direito. Eu descia só no último ponto então ainda tinha muito chão pela frente. Não tenho ideia do que essa garota pensou ao me ver com a cara toda derretendo em prantos, mas quando ela desceu simplesmente deixou um bilhetinho no meu colo e saiu, sem alardes. E dizia:

Moça, não chora não. Todo mal passa e o bem sempre fica. Tenha um lindo fim de semana.

Ela não me conhecia, não sabia por que eu estava daquele jeito, mas não importava. Ela me queria bem! Guardei cada palavra desse recado na minha cabeça até hoje. Também tirei uma fotinho de celular. Infelizmente, o papelzinho do bilhete se perdeu no mundo depois que a minha mochila foi roubada certa vez.
Ela talvez nem saiba, mas fez um impacto enorme em mim e da melhor maneira possível. A sua atitude foi muito importante naquele momento – até hoje. Quem sabe ela se colocou no meu lugar e pensou algo do tipo “poxa, ela deve estar bem mal pra chorar sozinha em público assim”. Pois é, eu tava, mana. E você me ajudou com um gesto pequeno de valor bem grande. Queria me lembrar da sua fisionomia. Se eu a encontrasse de novo, daria um abraço bem apertado seguido de um “muuuuito obrigada”.

 

Fotinho no dia que recebi o bilhete ♡
Fotinho no dia que recebi o bilhete ♡
 
Minha vó acabou pegando uma forte pneumonia falecendo 1 mês antes do meu vô. Mas em cada momento triste, eu pensei (e ainda penso) nessa menina, no seu bilhete e na sua empatia comigo. A gente nunca espera um gesto gratuito de carinho de alguém desconhecido. É reconfortante e traz amor ao coração.

Obrigada!
 

Imagens do acervo da Fernanda Kissy
 

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