Por mais doulas

Ilustração feita com exclusividade por Malu Risi baseada na fotografia de Gustavo Dragunskis do parto de Lucianne Menoli com a Doula Renata Regina

Por Malu Risi*

Nesse ano, reservei minhas férias no trabalho para fazer algo que sempre quis: um curso de doula. Sou formada em Artes Visuais, trabalho em um museu importante de São Paulo, mas eu sempre senti uma comoção com o momento do nascer. Eis que, com o passar do tempo, o chamado ficou forte e decidi que agora era a hora, independentemente da minha formação.

Procurei, me informei e acabei encontrando o Instituto Gama (Grupo de Apoio à Maternidade Ativa), um lugar com uma proposta incrível, um ponto de encontro para gestantes, profissionais da área e interessados em geral.

Já faz algum tempo que a palavra sororidade cabe perfeitamente com tudo o que acredito e durante o curso de doula não teve como ser diferente. Todas aquelas mulheres juntas para se formarem como profissionais capacitadas para estarem unidas à gestante, sendo companheiras cheias de empatia por ela, e as duas lutando pelo mesmo objetivo: um parto saudável, humanizado e repleto de respeito e amor para a mulher e seu bebê.

Eu, como amante do assunto e super interessada lendo tudo o que aparece nos livros e nas internê, sempre pensei que o parto fosse do âmbito feminino, uma ação realizada por mulheres de uma determinada comunidade, e a medicina introduziu os homens num lugar que antes era de exclusividade feminina. Colocaram a mulher obrigatoriamente deitada de pernas abertas para o doutor, sem levar em conta que, para a grande maioria de parturientes, essa não é a posição mais confortável. Ouvi as motivações de todas as mulheres que estavam ali no curso e eis que, BA-TA-TA, a grande maioria tinha sofrido violência obstetra no primeiro parto e só no segundo ou terceiro que acabaram conhecendo o parto humanizado.

Chorei. Chorei ouvindo os relatos de como o direito ao parto é roubado das mulheres. Chorei pensando em como o bebê é tratado como um grande problema na nossa sociedade e em como a mulher é vista como incompetente em parir. “Porque o bebê tá virado pro outro lado”, “porque o cordão umbilical está enrolado no pescoço”, “porque você não vai dilatar mais que isso não, olha o tamanho da sua bacia”, eles dizem… E tudo vira motivo para facilitar a vida de todo mundo (menos da grávida) porque ninguém quer ouvir uma mulher em estado de dor por muito tempo, às vezes, dias… E a mulher vai retrucar nessa hora? Na hora em que um DOUTOR diz pra ela que o bebê dela está em risco? Não. E eu também não retrucaria se não soubesse o que sei agora e não me sentisse devidamente amparada.

Me sinto obrigada a frisar o que antes só esbocei: o bebê e a gestante são vistos como problemas sim. E vou bater boca em almoço de família, vou ser a diferentona e vou levantar bandeira sobre esse assunto enquanto for necessário. Quantas vezes ouvimos que depois que o bebê nasce não dá mais pra viajar, não dá mais pra gente se dedicar às nossas coisas, não dá mais pra ver os amigos etc? Mas peraí! E a escolha dessa mulher que se tornou mãe? Cuidar do começo da vida de um ser humano não é fazer nada? Sem contar o assunto da repressão da amamentação em lugares públicos. Se a gente precisa criar uma lei que permita a mulher amamentar seu filho em público, minhas amigas… certamente estamos numa sociedade doente. Mas voltando. Só depois que o bebê desmama, que fala legal e que anda, pula e dança é que o bebê para de ser visto com maus olhos. Talvez porque finalmente ele não está mais no controle dessa mulher que o pariu? Vamos dormir com essa.

A doula é quem faz massagem, quem acalma, quem está ali para olhar no olho dessa mulher e falar: “Você é forte, você consegue!”. A doula voltar para esse momento da vida de uma família (porque é uma profissão de tempos imemoriais, viu?) é um empoderamento feminino. A doula não é médica, não faz procedimentos médicos como aferição de pressão, exame de toque e auscultação fetal. O papel dessa profissional é dar apoio físico e emocional à mulher antes, durante e depois do parto, podendo oferecer informações para evitar a intervenção cirúrgica desnecessária – triste realidade do cenário brasileiro em que 53,7% dos nossos bebês nascem de cesarianas e, segundo a Organização Mundial de Saúde, a porcentagem adequada gira em torno dos 15%.

O curso de doula acabou e ainda não me sinto preparada para me dedicar a esta função de forma remunerada, mas parece que eu ganhei um novo mundo, um mundo de amparo, conscientização e empoderamento feminino imenso. Nós devemos falar sobre o que acontece com as mulheres durante a gestação, na hora do parto e no período de lactação. Precisamos saber sobre os nossos corpos, as nossas condições físicas e, o mais importante, precisamos falar mais, MUITO mais, sobre violência obstetra. Até que o mundo escute.

Malu Risi é artista visual, cantora, metida à tatuadora, aprendiz de doula e faz uma faxina que é uma beleza. Também faz ilustrações para a Ovelha.

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