Nesse ano, reservei minhas férias no trabalho para fazer algo que sempre quis: um curso de doula. Sou formada em Artes Visuais, trabalho em um museu importante de São Paulo, mas eu sempre senti uma comoção com o momento do nascer. Eis que, com o passar do tempo, o chamado ficou forte e decidi que agora era a hora, independentemente da minha formação.
Procurei, me informei e acabei encontrando o Instituto Gama (Grupo de Apoio à Maternidade Ativa), um lugar com uma proposta incrível, um ponto de encontro para gestantes, profissionais da área e interessados em geral.
Já faz algum tempo que a palavra sororidade cabe perfeitamente com tudo o que acredito e durante o curso de doula não teve como ser diferente. Todas aquelas mulheres juntas para se formarem como profissionais capacitadas para estarem unidas à gestante, sendo companheiras cheias de empatia por ela, e as duas lutando pelo mesmo objetivo: um parto saudável, humanizado e repleto de respeito e amor para a mulher e seu bebê.
Eu, como amante do assunto e super interessada lendo tudo o que aparece nos livros e nas internê, sempre pensei que o parto fosse do âmbito feminino, uma ação realizada por mulheres de uma determinada comunidade, e a medicina introduziu os homens num lugar que antes era de exclusividade feminina. Colocaram a mulher obrigatoriamente deitada de pernas abertas para o doutor, sem levar em conta que, para a grande maioria de parturientes, essa não é a posição mais confortável. Ouvi as motivações de todas as mulheres que estavam ali no curso e eis que, BA-TA-TA, a grande maioria tinha sofrido violência obstetra no primeiro parto e só no segundo ou terceiro que acabaram conhecendo o parto humanizado.
Chorei. Chorei ouvindo os relatos de como o direito ao parto é roubado das mulheres. Chorei pensando em como o bebê é tratado como um grande problema na nossa sociedade e em como a mulher é vista como incompetente em parir. “Porque o bebê tá virado pro outro lado”, “porque o cordão umbilical está enrolado no pescoço”, “porque você não vai dilatar mais que isso não, olha o tamanho da sua bacia”, eles dizem… E tudo vira motivo para facilitar a vida de todo mundo (menos da grávida) porque ninguém quer ouvir uma mulher em estado de dor por muito tempo, às vezes, dias… E a mulher vai retrucar nessa hora? Na hora em que um DOUTOR diz pra ela que o bebê dela está em risco? Não. E eu também não retrucaria se não soubesse o que sei agora e não me sentisse devidamente amparada.
Me sinto obrigada a frisar o que antes só esbocei: o bebê e a gestante são vistos como problemas sim. E vou bater boca em almoço de família, vou ser a diferentona e vou levantar bandeira sobre esse assunto enquanto for necessário. Quantas vezes ouvimos que depois que o bebê nasce não dá mais pra viajar, não dá mais pra gente se dedicar às nossas coisas, não dá mais pra ver os amigos etc? Mas peraí! E a escolha dessa mulher que se tornou mãe? Cuidar do começo da vida de um ser humano não é fazer nada? Sem contar o assunto da repressão da amamentação em lugares públicos. Se a gente precisa criar uma lei que permita a mulher amamentar seu filho em público, minhas amigas… certamente estamos numa sociedade doente. Mas voltando. Só depois que o bebê desmama, que fala legal e que anda, pula e dança é que o bebê para de ser visto com maus olhos. Talvez porque finalmente ele não está mais no controle dessa mulher que o pariu? Vamos dormir com essa.
A doula é quem faz massagem, quem acalma, quem está ali para olhar no olho dessa mulher e falar: “Você é forte, você consegue!”. A doula voltar para esse momento da vida de uma família (porque é uma profissão de tempos imemoriais, viu?) é um empoderamento feminino. A doula não é médica, não faz procedimentos médicos como aferição de pressão, exame de toque e auscultação fetal. O papel dessa profissional é dar apoio físico e emocional à mulher antes, durante e depois do parto, podendo oferecer informações para evitar a intervenção cirúrgica desnecessária – triste realidade do cenário brasileiro em que 53,7% dos nossos bebês nascem de cesarianas e, segundo a Organização Mundial de Saúde, a porcentagem adequada gira em torno dos 15%.
O curso de doula acabou e ainda não me sinto preparada para me dedicar a esta função de forma remunerada, mas parece que eu ganhei um novo mundo, um mundo de amparo, conscientização e empoderamento feminino imenso. Nós devemos falar sobre o que acontece com as mulheres durante a gestação, na hora do parto e no período de lactação. Precisamos saber sobre os nossos corpos, as nossas condições físicas e, o mais importante, precisamos falar mais, MUITO mais, sobre violência obstetra. Até que o mundo escute.
Malu Risi é artista visual, cantora, metida à tatuadora, aprendiz de doula e faz uma faxina que é uma beleza. Também faz ilustrações para a Ovelha.
Por Malu Risi*
Nesse ano, reservei minhas férias no trabalho para fazer algo que sempre quis: um curso de doula. Sou formada em Artes Visuais, trabalho em um museu importante de São Paulo, mas eu sempre senti uma comoção com o momento do nascer. Eis que, com o passar do tempo, o chamado ficou forte e decidi que agora era a hora, independentemente da minha formação.
Procurei, me informei e acabei encontrando o Instituto Gama (Grupo de Apoio à Maternidade Ativa), um lugar com uma proposta incrível, um ponto de encontro para gestantes, profissionais da área e interessados em geral.
Já faz algum tempo que a palavra sororidade cabe perfeitamente com tudo o que acredito e durante o curso de doula não teve como ser diferente. Todas aquelas mulheres juntas para se formarem como profissionais capacitadas para estarem unidas à gestante, sendo companheiras cheias de empatia por ela, e as duas lutando pelo mesmo objetivo: um parto saudável, humanizado e repleto de respeito e amor para a mulher e seu bebê.
Eu, como amante do assunto e super interessada lendo tudo o que aparece nos livros e nas internê, sempre pensei que o parto fosse do âmbito feminino, uma ação realizada por mulheres de uma determinada comunidade, e a medicina introduziu os homens num lugar que antes era de exclusividade feminina. Colocaram a mulher obrigatoriamente deitada de pernas abertas para o doutor, sem levar em conta que, para a grande maioria de parturientes, essa não é a posição mais confortável. Ouvi as motivações de todas as mulheres que estavam ali no curso e eis que, BA-TA-TA, a grande maioria tinha sofrido violência obstetra no primeiro parto e só no segundo ou terceiro que acabaram conhecendo o parto humanizado.
Chorei. Chorei ouvindo os relatos de como o direito ao parto é roubado das mulheres. Chorei pensando em como o bebê é tratado como um grande problema na nossa sociedade e em como a mulher é vista como incompetente em parir. “Porque o bebê tá virado pro outro lado”, “porque o cordão umbilical está enrolado no pescoço”, “porque você não vai dilatar mais que isso não, olha o tamanho da sua bacia”, eles dizem… E tudo vira motivo para facilitar a vida de todo mundo (menos da grávida) porque ninguém quer ouvir uma mulher em estado de dor por muito tempo, às vezes, dias… E a mulher vai retrucar nessa hora? Na hora em que um DOUTOR diz pra ela que o bebê dela está em risco? Não. E eu também não retrucaria se não soubesse o que sei agora e não me sentisse devidamente amparada.
Me sinto obrigada a frisar o que antes só esbocei: o bebê e a gestante são vistos como problemas sim. E vou bater boca em almoço de família, vou ser a diferentona e vou levantar bandeira sobre esse assunto enquanto for necessário. Quantas vezes ouvimos que depois que o bebê nasce não dá mais pra viajar, não dá mais pra gente se dedicar às nossas coisas, não dá mais pra ver os amigos etc? Mas peraí! E a escolha dessa mulher que se tornou mãe? Cuidar do começo da vida de um ser humano não é fazer nada? Sem contar o assunto da repressão da amamentação em lugares públicos. Se a gente precisa criar uma lei que permita a mulher amamentar seu filho em público, minhas amigas… certamente estamos numa sociedade doente. Mas voltando. Só depois que o bebê desmama, que fala legal e que anda, pula e dança é que o bebê para de ser visto com maus olhos. Talvez porque finalmente ele não está mais no controle dessa mulher que o pariu? Vamos dormir com essa.
A doula é quem faz massagem, quem acalma, quem está ali para olhar no olho dessa mulher e falar: “Você é forte, você consegue!”. A doula voltar para esse momento da vida de uma família (porque é uma profissão de tempos imemoriais, viu?) é um empoderamento feminino. A doula não é médica, não faz procedimentos médicos como aferição de pressão, exame de toque e auscultação fetal. O papel dessa profissional é dar apoio físico e emocional à mulher antes, durante e depois do parto, podendo oferecer informações para evitar a intervenção cirúrgica desnecessária – triste realidade do cenário brasileiro em que 53,7% dos nossos bebês nascem de cesarianas e, segundo a Organização Mundial de Saúde, a porcentagem adequada gira em torno dos 15%.
O curso de doula acabou e ainda não me sinto preparada para me dedicar a esta função de forma remunerada, mas parece que eu ganhei um novo mundo, um mundo de amparo, conscientização e empoderamento feminino imenso. Nós devemos falar sobre o que acontece com as mulheres durante a gestação, na hora do parto e no período de lactação. Precisamos saber sobre os nossos corpos, as nossas condições físicas e, o mais importante, precisamos falar mais, MUITO mais, sobre violência obstetra. Até que o mundo escute.
Malu Risi é artista visual, cantora, metida à tatuadora, aprendiz de doula e faz uma faxina que é uma beleza. Também faz ilustrações para a Ovelha.
Ilustração feita com exclusividade por Malu Risi baseada na fotografia de Gustavo Dragunskis do parto de Lucianne Menoli com a Doula Renata Regina
Por Malu Risi*
Nesse ano, reservei minhas férias no trabalho para fazer algo que sempre quis: um curso de doula. Sou formada em Artes Visuais, trabalho em um museu importante de São Paulo, mas eu sempre senti uma comoção com o momento do nascer. Eis que, com o passar do tempo, o chamado ficou forte e decidi que agora era a hora, independentemente da minha formação.
Procurei, me informei e acabei encontrando o Instituto Gama (Grupo de Apoio à Maternidade Ativa), um lugar com uma proposta incrível, um ponto de encontro para gestantes, profissionais da área e interessados em geral.
Já faz algum tempo que a palavra sororidade cabe perfeitamente com tudo o que acredito e durante o curso de doula não teve como ser diferente. Todas aquelas mulheres juntas para se formarem como profissionais capacitadas para estarem unidas à gestante, sendo companheiras cheias de empatia por ela, e as duas lutando pelo mesmo objetivo: um parto saudável, humanizado e repleto de respeito e amor para a mulher e seu bebê.
Eu, como amante do assunto e super interessada lendo tudo o que aparece nos livros e nas internê, sempre pensei que o parto fosse do âmbito feminino, uma ação realizada por mulheres de uma determinada comunidade, e a medicina introduziu os homens num lugar que antes era de exclusividade feminina. Colocaram a mulher obrigatoriamente deitada de pernas abertas para o doutor, sem levar em conta que, para a grande maioria de parturientes, essa não é a posição mais confortável. Ouvi as motivações de todas as mulheres que estavam ali no curso e eis que, BA-TA-TA, a grande maioria tinha sofrido violência obstetra no primeiro parto e só no segundo ou terceiro que acabaram conhecendo o parto humanizado.
Chorei. Chorei ouvindo os relatos de como o direito ao parto é roubado das mulheres. Chorei pensando em como o bebê é tratado como um grande problema na nossa sociedade e em como a mulher é vista como incompetente em parir. “Porque o bebê tá virado pro outro lado”, “porque o cordão umbilical está enrolado no pescoço”, “porque você não vai dilatar mais que isso não, olha o tamanho da sua bacia”, eles dizem… E tudo vira motivo para facilitar a vida de todo mundo (menos da grávida) porque ninguém quer ouvir uma mulher em estado de dor por muito tempo, às vezes, dias… E a mulher vai retrucar nessa hora? Na hora em que um DOUTOR diz pra ela que o bebê dela está em risco? Não. E eu também não retrucaria se não soubesse o que sei agora e não me sentisse devidamente amparada.
Me sinto obrigada a frisar o que antes só esbocei: o bebê e a gestante são vistos como problemas sim. E vou bater boca em almoço de família, vou ser a diferentona e vou levantar bandeira sobre esse assunto enquanto for necessário. Quantas vezes ouvimos que depois que o bebê nasce não dá mais pra viajar, não dá mais pra gente se dedicar às nossas coisas, não dá mais pra ver os amigos etc? Mas peraí! E a escolha dessa mulher que se tornou mãe? Cuidar do começo da vida de um ser humano não é fazer nada? Sem contar o assunto da repressão da amamentação em lugares públicos. Se a gente precisa criar uma lei que permita a mulher amamentar seu filho em público, minhas amigas… certamente estamos numa sociedade doente. Mas voltando. Só depois que o bebê desmama, que fala legal e que anda, pula e dança é que o bebê para de ser visto com maus olhos. Talvez porque finalmente ele não está mais no controle dessa mulher que o pariu? Vamos dormir com essa.
A doula é quem faz massagem, quem acalma, quem está ali para olhar no olho dessa mulher e falar: “Você é forte, você consegue!”. A doula voltar para esse momento da vida de uma família (porque é uma profissão de tempos imemoriais, viu?) é um empoderamento feminino. A doula não é médica, não faz procedimentos médicos como aferição de pressão, exame de toque e auscultação fetal. O papel dessa profissional é dar apoio físico e emocional à mulher antes, durante e depois do parto, podendo oferecer informações para evitar a intervenção cirúrgica desnecessária – triste realidade do cenário brasileiro em que 53,7% dos nossos bebês nascem de cesarianas e, segundo a Organização Mundial de Saúde, a porcentagem adequada gira em torno dos 15%.
O curso de doula acabou e ainda não me sinto preparada para me dedicar a esta função de forma remunerada, mas parece que eu ganhei um novo mundo, um mundo de amparo, conscientização e empoderamento feminino imenso. Nós devemos falar sobre o que acontece com as mulheres durante a gestação, na hora do parto e no período de lactação. Precisamos saber sobre os nossos corpos, as nossas condições físicas e, o mais importante, precisamos falar mais, MUITO mais, sobre violência obstetra. Até que o mundo escute.
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Malu Risi é artista visual, cantora, metida à tatuadora, aprendiz de doula e faz uma faxina que é uma beleza. Também faz ilustrações para a Ovelha.
Meu nome é Priscila Garcia, sou motion designer e animadora 2Dfreelancer. Comecei a correr pra diminuir minhas angústias e acabei desenvolvendo um super poder: o de me sentir maravilhosa.
Eu sou meio “tudo ou nada”. Quando me interesso por alguma coisa, acabo ficando meio geek no assunto e me aprofundando em todos os aspectos dele, até enjoar e partir pra próxima paixão. Mas por algum motivo, o meu caso com a corrida tem se estendido sem prazos aparentes pra terminar. Já li uns 9 livros sobre o assunto, e quando estou meio pra baixo, é a única temática que me retoma o sopro de vida.
Comecei a correr há pouco mais de 8 meses e estou com a minha primeira Meia-Maratona de trilha agendada pra Maio. Eu já tinha tentado começar a correr antes, mas não tinha dado muito certo porque eu não sabia da existência do Trail Running, e não achava muito legal correr na esteira. Tive que entender de que maneira eu gosto de correr pra começar a gostar de correr, de fato.
Nesses 8 meses, eu cheguei à conclusão que todo mundo pode gostar de correr. A grande questão é entender que tipo de corredor você é. Eu descobri que sou apaixonada por percorrer longas distâncias, principalmente no meio da natureza. A velocidade pra mim não importa tanto. Mas existe gente que gosta de corrida curta, de velocidade, em esteira, em pista, na rua. Corrida longa no deserto, no asfalto. As modalidades são muitas, independente de forma física. Tanto que tem corredor super rápido que não estaria pronto pra terminar uma maratona. Os desafios são muito diferentes em cada modalidade. Quanto mais longa a prova, mais mental é o problema. Claro que sem o mínimo de treinamento, ninguém corre nem 5 quilômetros.
Depois de ter me formado e me encontrado na minha profissão e vida amorosa, eu comecei a sentir um vazio muito grande. Foi na corrida que eu encontrei o hobbie que eu tanto precisava.
A minha relação com o mundo mudou. Quando traço uma rota na internet e vejo que vou demorar mais de uma hora pra percorrer 9 quilômetros de transporte publico ou carro, eu penso que poderia ir correndo que chegaria mais rápido.
Eu não tenho uma forma física atlética, jamais penso em conseguir um pódio, mas correr tem me ajudado a aceitar melhor o meu corpo também. Quando eu sinto aquele calor porque estou suando que nem um porco, não hesito mais em tirar a camiseta e ficar só de top. Pelo contrário, sinto orgulho de estar me exercitando e cuidando da minha saúde, mesmo não estando no padrão de beleza das revistas.
Não sou hipócrita, é claro que eu preferiria ter um pouco menos de culote e de pneuzinhos. Mas um dia desses eu dei sinal pro ônibus e ele não quis parar, então decidi sair correndo até o próximo ponto e consegui alcançá-lo. Não tem medalha que coroe isso. Estar condicionada e desafiar os meus limites me faz ver como meu corpo é maravilhoso e por consequência amá-lo mais.
Eu tenho um corpo bom, sim! Ele me leva a lugares, transpõe obstáculos e faz coisas que eu jamais imaginei que pudesse fazer, a cada dia com mais eficiência. Essa é a minha motivação no momento. Se, como consequência, eu perder uns quilos e enrijecer os músculos, legal. Mas isso está longe de ser prioridade. Eu corro porque me sinto livre como em raros momentos da vida. Tem mulher que se sente poderosa em cima de um salto agulha, eu me sinto assim quando estou há mais de uma hora correndo sem bufar.
Como citei mais acima, a mágica acontece pra mim em corridas mais longas, e demorou pra eu conseguir perceber isso. Mas se você tem vontade de correr e não sabe muito bem se vai gostar, coloca um tênis e sai explorando sua vizinhança, ou mesmo a esteira da academia, pra descobrir que tipo de treino te faz feliz. Sem frescuras e sem neuras. Espero que você se encontre também. Não desista antes do terceiro mês e busque orientação profissional :)
Instituto Gama (Grupo de Apoio à Maternidade Ativa), um lugar com uma proposta incrível, um ponto de encontro para gestantes, profissionais da área e interessados em geral.
Já faz algum tempo que a palavra sororidade cabe perfeitamente com tudo o que acredito e durante o curso de doula não teve como ser diferente. Todas aquelas mulheres juntas para se formarem como profissionais capacitadas para estarem unidas à gestante, sendo companheiras cheias de empatia por ela, e as duas lutando pelo mesmo objetivo: um parto saudável, humanizado e repleto de respeito e amor para a mulher e seu bebê.
Eu, como amante do assunto e super interessada lendo tudo o que aparece nos livros e nas internê, sempre pensei que o parto fosse do âmbito feminino, uma ação realizada por mulheres de uma determinada comunidade, e a medicina introduziu os homens num lugar que antes era de exclusividade feminina. Colocaram a mulher obrigatoriamente deitada de pernas abertas para o doutor, sem levar em conta que, para a grande maioria de parturientes, essa não é a posição mais confortável. Ouvi as motivações de todas as mulheres que estavam ali no curso e eis que, BA-TA-TA, a grande maioria tinha sofrido violência obstetra no primeiro parto e só no segundo ou terceiro que acabaram conhecendo o parto humanizado.
Chorei. Chorei ouvindo os relatos de como o direito ao parto é roubado das mulheres. Chorei pensando em como o bebê é tratado como um grande problema na nossa sociedade e em como a mulher é vista como incompetente em parir. “Porque o bebê tá virado pro outro lado”, “porque o cordão umbilical está enrolado no pescoço”, “porque você não vai dilatar mais que isso não, olha o tamanho da sua bacia”, eles dizem… E tudo vira motivo para facilitar a vida de todo mundo (menos da grávida) porque ninguém quer ouvir uma mulher em estado de dor por muito tempo, às vezes, dias… E a mulher vai retrucar nessa hora? Na hora em que um DOUTOR diz pra ela que o bebê dela está em risco? Não. E eu também não retrucaria se não soubesse o que sei agora e não me sentisse devidamente amparada.
Me sinto obrigada a frisar o que antes só esbocei: o bebê e a gestante são vistos como problemas sim. E vou bater boca em almoço de família, vou ser a diferentona e vou levantar bandeira sobre esse assunto enquanto for necessário. Quantas vezes ouvimos que depois que o bebê nasce não dá mais pra viajar, não dá mais pra gente se dedicar às nossas coisas, não dá mais pra ver os amigos etc? Mas peraí! E a escolha dessa mulher que se tornou mãe? Cuidar do começo da vida de um ser humano não é fazer nada? Sem contar o assunto da repressão da amamentação em lugares públicos. Se a gente precisa criar uma lei que permita a mulher amamentar seu filho em público, minhas amigas… certamente estamos numa sociedade doente. Mas voltando. Só depois que o bebê desmama, que fala legal e que anda, pula e dança é que o bebê para de ser visto com maus olhos. Talvez porque finalmente ele não está mais no controle dessa mulher que o pariu? Vamos dormir com essa.
A doula é quem faz massagem, quem acalma, quem está ali para olhar no olho dessa mulher e falar: “Você é forte, você consegue!”. A doula voltar para esse momento da vida de uma família (porque é uma profissão de tempos imemoriais, viu?) é um empoderamento feminino. A doula não é médica, não faz procedimentos médicos como aferição de pressão, exame de toque e auscultação fetal. O papel dessa profissional é dar apoio físico e emocional à mulher antes, durante e depois do parto, podendo oferecer informações para evitar a intervenção cirúrgica desnecessária – triste realidade do cenário brasileiro em que 53,7% dos nossos bebês nascem de cesarianas e, segundo a Organização Mundial de Saúde, a porcentagem adequada gira em torno dos 15%.
O curso de doula acabou e ainda não me sinto preparada para me dedicar a esta função de forma remunerada, mas parece que eu ganhei um novo mundo, um mundo de amparo, conscientização e empoderamento feminino imenso. Nós devemos falar sobre o que acontece com as mulheres durante a gestação, na hora do parto e no período de lactação. Precisamos saber sobre os nossos corpos, as nossas condições físicas e, o mais importante, precisamos falar mais, MUITO mais, sobre violência obstetra. Até que o mundo escute.
Malu Risi é artista visual, cantora, metida à tatuadora, aprendiz de doula e faz uma faxina que é uma beleza. Também faz ilustrações para a Ovelha.