Ser mulher e viajar

Ilustração feita com exclusividade por Thais Cortez (a.k.a. Emily)

No fim de fevereiro, duas jovens argentinas Marina Menegazzo e María José Coni desapareceram enquanto faziam uma viagem pelo Equador. Marina e Maíra eram duas amigas que viajavam juntas. Elas foram assassinadas por dois homens (já falamos sobre esse triste caso de feminicídio aqui). A mídia cobriu o caso como a terrível história de duas mulheres que se exporam ao risco de viajar sozinhas. Sim, eram duas amigas, mas, no mundo misógino, uma mulher desacompanhada de um homem ainda é um ser vulnerável e sozinha .

Na minha vida tive a sorte de poder viajar. Desde a adolescência sonhava em viajar sozinha e fiz isso assim que consegui economizar meu dinheiro. As pessoas não entendiam porque eu escolhi viajar sozinha. Meus pais ficaram desesperados. Minhas amigas perguntavam se eu não ia ficar entediada. Diante dessas reações, sempre pensava como seria se eu fosse um homem. Quando voltei, meus pais falavam para seus amigos como tinham uma filha corajosa que saía pelo mundo sozinha, sem medo. De novo me perguntei se um homem ganharia esse elogio. Aventureiro talvez, mas corajoso? Um homem precisa de coragem para fazer o que deseja? Eu não me acho corajosa e eu tenho, sim, medo. É assim que me chamam quando volto, com fotos e lembrancinhas. Mas se eu não voltasse, seria esse o termo? Não seria essa coragem uma ousadia descabida? Não seria uma imprudência?

Todas as minhas viagens foram sozinha ou acompanhadas de amigas. Em alguns lugares andar com quatro amigas parecia mesmo andar só. Éramos quatro dentro de um táxi com um homem e, no entanto, a cada curva desconhecida, nos sentíamos minoria.

Ser mulher é ainda estar em uma posição vulnerável. Na minha última viagem, senti que minha pele, meu corpo inteiro, eram sexualizados de uma nova forma. Mulher da América Latina em terra de colonizador deve estar querendo: um passaporte, um emprego, um velho escroto pra te perturbar quando você está de boa lendo um livro. Fui abordada algumas vezes de modos muito invasivos. Mas continuei viajando sozinha, de ônibus, no meio da madrugada. Usava o que chamo de “a cara de bolada” e mantinha minha cabeça muito erguida. Uma posição que me não me protegia, mas me salvava de desistir. É preciso forjar algum controle para driblar a vulnerabilidade imposta.

Mas escolher viajar sozinha – até se você é um homem – é escolher uma posição vulnerável. Porque estar sozinha em um lugar desconhecido é, sim, algum tipo de radicalidade. Isso te abre de um modo novo. Você é obrigada a reparar mais nas pessoas, nas ruas e em que você é nesse espaço – mas, olha a diferença, reparar aí é por querer prestar atenção e não por medo. O tempo então corre em um ritmo inédito. Os dez dias em que viajei sozinha foram maiores do que meses.

Eu gosto da vulnerabilidade quando ela é uma escolha. Quando eu escolho me colocar nessa posição, escolho um risco que não é mortal. Estar vulnerável, nesse contexto, é livrar-se das certezas para descobrir novas possibilidades. Eu gosto disso, na verdade, eu preciso disso.

É muito diferente da vulnerabilidade que é imposto ao nosso gênero. Estar atenta ao mundo porque se está em busca é muito diferente de estar atenta por medo, até porque essa atenação não garante segurança alguma.

Viajar sozinha não é o problema. O problema é viver em um mundo misógino em que o feminicídio é uma realidade ignorada. O risco não está em ser mulher em um lugar desconhecido. O risco está em ser mulher. Porque, na verdade, em nossas vidas, a violência mais provável não vem de desconhecidos, mas daqueles que confiamos como íntimos. Os casos de feminicídio mais recorrentes envolvem pais, padrastos, maridos, namorados e supostos companheiros – para ter acesso a esses dados, vale consultar essa reportagem.

Dizer as mulheres que o risco está em sair para o mundo faz parte de um discurso político que nos quer encurraladas, longe das ruas, longe da vida. Um discurso que isenta os homens de responsabilidade e joga toda culpa sobre os ombros das mulheres. Um discurso que impõe a vulnerabilidade como uma fragilidade essencial ao nosso gênero. E nós não escolhemos esse risco.

Eu não estou aqui para negar os perigos, mas para pedir que o medo não nos sufoque.

Na minha última viagem, vi muitas mulheres viajando, os grupos de amigas nas rodoviárias eram muito maiores do que os grupos de homens; entrei em um banheiro feminino que ficava na fronteira entre dois países e encontrei nas portas cor de rosa várias mensagens de felicidade, imaginei cada uma dessas garotas alegremente explorando o mundo; fui acolhida por mulheres em cada lugar que passei; bebi com garotas que provavelmente nunca mais vou ver na vida e que nunca esquecerei; fiz amigas, troquei confissões, dividi garrafas de vinho e um tanto de força.

Se você deseja viajar, viaje. Nem sempre é fácil, nem sempre é bom, mas essa vulnerabilidade escolhida sempre te dá algo novo. E às vezes é justamente o que você precisa para sobreviver em mundo que nos coloca em papéis claustrofóbicos.

 
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Ilustração feita com exclusividade por Thais Cortez (a.k.a. Emily).
 

Escrito por
Mais de Taís Bravo

O que buscamos nos livros de colorir?

Os livros de colorir para adultos são definitivamente o fenômeno editorial do ano. As edições de Jardim Secreto e sua sequência, Floresta Encantada, chegam aos montes nas livrarias e esgotam em poucos dias, o mesmo acontece com as caixas de lápis de cor que vão sumindo das estantes. Ninguém entende muito bem de onde surgiu essa onda, muitos embarcam nela, outros preferem analisar de longe – com um ar de superioridade, vale ressaltar.

Muita gente acredita que os livros de colorir para adulto são um sintoma dessa geração leite com pera – ou Millennium – que se recusa a crescer. É uma hipótese preguiçosa, cheia de preconceitos e generalizações que não dá conta de explicar esse fenômeno editorial, porque os números não batem. Jardim Secreto é um sucesso tão grande justamente porque vai além de um nicho e engloba um público diversificado. Não são apenas os jovens de classe média, desocupados e bobinhos, que compram os tais livros. Na verdade, talvez esse público não seja nem mesmo a maioria dos consumidores. Nos últimos meses trabalhei em uma livraria em um bairro de classe média alta do Rio de Janeiro e pude observar de perto quem consome os livros de colorir: Velhinhas, crianças, garotas jovens, senhoras de meia idade que estão tentando parar de fumar e por aí vai. Foi assim que constatei que não há um único fator que explique o porquê de tanto sucesso. Ao ver pilhas de livros sendo vendidas diariamente só consigo pensar em pacto. Johanna Basford deve ter vendido a alma pra conseguir desenhar aquele infinito de folhinhas e ganhar tanto dinheiro. Mas não me iludo, por que, em pleno 2015, nada é tão místico assim.

 

 
Acredito que a onda Jardim Secreto se deve mais a uma jogada genial de marketing editorial do que a valores de uma geração – mas, obviamente, o marketing se inspira em comportamentos contemporâneos, ao mesmo tempo em que os alteram. Livros nunca foram os objetos mais valiosos do mundo, com a invenção dos e-readers e a disponibilização pirata de conteúdos – que eu amo -, as editoras precisam rebolar para se manterem como indústrias lucrativas a longo prazo. Para isso, é preciso confiar e estimular todo fetichismo próprio a nossa condição humana: dá-lhe capa dura, edições comemorativas, capas elaboradas, conteúdo exclusivo e…livros interativos! Os livros não são mais histórias, são experiências que não podem ser reproduzidas. Ninguém pode piratear a experiência de colorir o Jardim Secreto – embora possa tirar xerox das ilustrações -, ou de destruir o Destrua este diário. Dessa forma, os livros interativos são a criação de um novo mercado e a salvação – pelo menos temporária – de uma indústria. É fácil entender porque Jardim Secreto se tornou um produto, mas ainda falta explicar porque se tornou um dos livros mais vendidos mundialmente.

O sucesso de livros interativos não pode ser explicado por um fator ou um nicho e, sim, por um contexto. Vivemos em uma sociedade em que é preciso desenvolver conhecimentos e habilidades intelectuais para ganhar dinheiro – e isso não quer dizer ser rico, mas apenas conseguir um emprego – , em função disso, há cada vez mais um esquecimento de certos gestos. Obviamente, é preciso um recorte de classe, nem todos vivem neste tempo; uma característica da história é que diferentes temporalidades podem coincidir. Falo de um lugar bem específico, da classe média carioca, e me comunico, provavelmente, com pessoas que vivem uma realidade similar, afinal, esse é um texto publicado pela internet sobre um livro de colorir – e não sei se isso precisa ser notado, mas livros são objetos que participam da vida de uma minoria privilegiada. No entanto, ainda que minhas impressões sejam parciais e relativas, a ordem econômica se impõe materialmente e o que ela nos diz é que saber usar a internet é mais importante do que saber lavar seu banheiro.

Sobrevivemos sob uma série de imperativos que constroem uma teia ilógica que certamente vão nos levar a um futuro, no mínimo, complicado. As contradições são gritantes, mas quando estamos presos em uma ponta é fácil ignorar o resto. Enfim, hoje, a classe média urbana e globalizada compartilha um estilo de vida: Passamos horas presos no trânsito e, ao fim do dia de trabalho, nos encaminhamos até academias para nos exercitar com o objetivo de nos manter saudáveis (e isso quer dizer, nos manter magros e atraentes de acordo com os padrões); conhecemos pessoas por aplicativos; postamos selfies para nos sentirmos mais amados e bonitos; pagamos caro para alguém nos ouvir, porque precisamos manter a saúde mental; aprendemos técnicas de meditação e espiritualidade para manter a saúde mental; nos enchemos de alimentos orgânicos, sucos verdes, antioxidantes, linhaça, chia e tudo mais que possam inventar para manter a saúde, ao mesmo tempo em que usamos um desodorante que pode nos dar um câncer; amamos nossos filhos acima de tudo, por isso, aos dez meses de idade, eles já são donos de um tablet cheio de joguinhos educativos; gravamos mensagens de áudio no whatsapp para não termos tendinite aos 30 anos; detestamos atender ligações; de uma condição existencial não conseguimos nos livrar: elevadores ainda exigem interações sociais muito estranhas – caso alguém tire os olhos do celular para olhar quem entrou e saiu.

 
Foto de Johanna Basford
 
É através desse modo de vida que os livros de colorir se inscrevem como uma promessa. O sucesso não está na beleza das ilustrações, mas na escolha de um discurso. O Jardim Secreto carrega uma dupla nostalgia; a saudade de tempo mais simples que foi a nossa infância individual e o nosso passado enquanto humanidade. Esses livros permitem um retorno aos gestos esquecidos pela história, mas dentro de uma perspectiva contemporânea, na qual o prazer de realizar algo manualmente é transformado em uma necessidade terapêutica. Sem dúvida colorir deve servir como uma terapia para algumas pessoas, assim como eu exorcizo minhas emoções lavando meu banheiro. A urgência em consumir esse produto é a mesma busca própria aos seres humanos: um pouco de prazer e/ou conforto. Isso só se torna sintomático quando percebemos que há uma estranha confusão entre os termos “prazer” e “terapia” ou “prazer” e “saúde”. Chegamos a um tempo em que todas as ações devem ter finalidade: colorimos para nos aliviar do estresse. Assim, toda busca já supõe um alvo ou, melhor, um produto. Não há mais processo ou dúvida, as insatisfações são medicadas, o ócio tem seu valor produtivo e a recreação infantil se torna parte da linha de montagem.

Aponto essas características sem julgamento, me incluo nessa realidade e não acredito que esses atos sejam condenáveis, porque são apenas consequências de um problema muito maior. Identificar nossos hábitos que às vezes são um tanto absurdos, faz parte de uma autocrítica, principalmente, é o único meio para entender o surgimento de novas tendências. Acho preguiçoso se apegar a uma moral que condena tudo que é contemporâneo com frases repetidas “Ah, a pós-modernidade!”, “Ah, essa jovens mimados”, “Ah, essa modernidade líquida!” e por aí vai. Acho boba toda crítica que parte de uma distância arrogante que claramente pressupõe que existem os outros, os iludidos, e você, o crítico esclarecido. Breaking news: Vivemos em um sistema que se opera por meio da fantasia e você, a partir do momento que conta uma história usando o pronome “eu”, faz parte disso.

O que as pessoas estão em busca é de uma promessa para ocupar suas mentes zuadas e suas mãos vazias. Talvez elas sejam idiotas, alienadas e desprovidas de capacidade crítica. Talvez elas sejam exatamente como nós, pessoas em busca de algo. É claro que os caminhos e os desejos nos conduzem a posições muito diferentes. Não somos todos iguais. Somos uma confusão de perspectivas e anseios. Mas, se eu odeio tanto aquele que só me enxerga sem noção de alteridade e, portanto, me silencia, não posso ou não deveria fazer o mesmo. Não que seja fácil, é mais uma tentativa a se buscar.
 

Imagens retiradas do site da autora, Johanna Basford.
 

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aqui). A mídia cobriu o caso como a terrível história de duas mulheres que se exporam ao risco de viajar sozinhas. Sim, eram duas amigas, mas, no mundo misógino, uma mulher desacompanhada de um homem ainda é um ser vulnerável e sozinha .

Na minha vida tive a sorte de poder viajar. Desde a adolescência sonhava em viajar sozinha e fiz isso assim que consegui economizar meu dinheiro. As pessoas não entendiam porque eu escolhi viajar sozinha. Meus pais ficaram desesperados. Minhas amigas perguntavam se eu não ia ficar entediada. Diante dessas reações, sempre pensava como seria se eu fosse um homem. Quando voltei, meus pais falavam para seus amigos como tinham uma filha corajosa que saía pelo mundo sozinha, sem medo. De novo me perguntei se um homem ganharia esse elogio. Aventureiro talvez, mas corajoso? Um homem precisa de coragem para fazer o que deseja? Eu não me acho corajosa e eu tenho, sim, medo. É assim que me chamam quando volto, com fotos e lembrancinhas. Mas se eu não voltasse, seria esse o termo? Não seria essa coragem uma ousadia descabida? Não seria uma imprudência?

Todas as minhas viagens foram sozinha ou acompanhadas de amigas. Em alguns lugares andar com quatro amigas parecia mesmo andar só. Éramos quatro dentro de um táxi com um homem e, no entanto, a cada curva desconhecida, nos sentíamos minoria.

Ser mulher é ainda estar em uma posição vulnerável. Na minha última viagem, senti que minha pele, meu corpo inteiro, eram sexualizados de uma nova forma. Mulher da América Latina em terra de colonizador deve estar querendo: um passaporte, um emprego, um velho escroto pra te perturbar quando você está de boa lendo um livro. Fui abordada algumas vezes de modos muito invasivos. Mas continuei viajando sozinha, de ônibus, no meio da madrugada. Usava o que chamo de “a cara de bolada” e mantinha minha cabeça muito erguida. Uma posição que me não me protegia, mas me salvava de desistir. É preciso forjar algum controle para driblar a vulnerabilidade imposta.

Mas escolher viajar sozinha – até se você é um homem – é escolher uma posição vulnerável. Porque estar sozinha em um lugar desconhecido é, sim, algum tipo de radicalidade. Isso te abre de um modo novo. Você é obrigada a reparar mais nas pessoas, nas ruas e em que você é nesse espaço – mas, olha a diferença, reparar aí é por querer prestar atenção e não por medo. O tempo então corre em um ritmo inédito. Os dez dias em que viajei sozinha foram maiores do que meses.

Eu gosto da vulnerabilidade quando ela é uma escolha. Quando eu escolho me colocar nessa posição, escolho um risco que não é mortal. Estar vulnerável, nesse contexto, é livrar-se das certezas para descobrir novas possibilidades. Eu gosto disso, na verdade, eu preciso disso.

É muito diferente da vulnerabilidade que é imposto ao nosso gênero. Estar atenta ao mundo porque se está em busca é muito diferente de estar atenta por medo, até porque essa atenação não garante segurança alguma.

Viajar sozinha não é o problema. O problema é viver em um mundo misógino em que o feminicídio é uma realidade ignorada. O risco não está em ser mulher em um lugar desconhecido. O risco está em ser mulher. Porque, na verdade, em nossas vidas, a violência mais provável não vem de desconhecidos, mas daqueles que confiamos como íntimos. Os casos de feminicídio mais recorrentes envolvem pais, padrastos, maridos, namorados e supostos companheiros – para ter acesso a esses dados, vale consultar essa reportagem.

Dizer as mulheres que o risco está em sair para o mundo faz parte de um discurso político que nos quer encurraladas, longe das ruas, longe da vida. Um discurso que isenta os homens de responsabilidade e joga toda culpa sobre os ombros das mulheres. Um discurso que impõe a vulnerabilidade como uma fragilidade essencial ao nosso gênero. E nós não escolhemos esse risco.

Eu não estou aqui para negar os perigos, mas para pedir que o medo não nos sufoque.

Na minha última viagem, vi muitas mulheres viajando, os grupos de amigas nas rodoviárias eram muito maiores do que os grupos de homens; entrei em um banheiro feminino que ficava na fronteira entre dois países e encontrei nas portas cor de rosa várias mensagens de felicidade, imaginei cada uma dessas garotas alegremente explorando o mundo; fui acolhida por mulheres em cada lugar que passei; bebi com garotas que provavelmente nunca mais vou ver na vida e que nunca esquecerei; fiz amigas, troquei confissões, dividi garrafas de vinho e um tanto de força.

Se você deseja viajar, viaje. Nem sempre é fácil, nem sempre é bom, mas essa vulnerabilidade escolhida sempre te dá algo novo. E às vezes é justamente o que você precisa para sobreviver em mundo que nos coloca em papéis claustrofóbicos.

 

Ilustração feita com exclusividade por Thais Cortez (a.k.a. Emily).
 

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