Solteira sim, sozinha também

Ilustração feita com exclusividade por Thais Erre

Durante esse ano dei uma reviravolta em minha vida que exigiu uma tranquilidade que nunca soube ter. Um mantra velho ganhou enfim sentido: Quando você perde tudo, não tem nada a perder. Precisei seguir diariamente essa economia estranha sem saber se agora sou capaz de qualquer coisa ou se não aguento mais nem mais uma faísca. Entre desistências, mudanças e recomeços o tempo foi todo meu. Tudo bem, teve carnaval, um flerte ali, clássica mijadinhas – para quem não sabe, esse é o termo para quando você resolve relembrar um caso do passado -, uns matchs e tentativas. Mas não tive energia pra desperdiçar naqueles eventos que a gente vai pra dançar e tirar foto, mas principalmente para tentar conhecer alguém. Tive menos ainda paciência pra me aventurar em treta, porque essas até quando são novas são repetidas. Quando dei por mim estava aqui, solteira, sim, sozinha também. Não só não tenho um relacionamento sério, como não tenho nenhuma das – supostas – pré-condições básicas para eventualmente encontrar um par erótico afetivo. Não tenho um lance casual, não tenho uma paixão platônica, não tenho um perfil em sites ou aplicativos de relacionamento e, na maior parte do tempo, não tenho interesse.

Em meio a todas as questões que preciso resolver e realizar nesse estranho ano, não tenho espaço para transformar a ausência de um romance ou um lance em mais um problema. Mas é claro que é, afinal, paranoia e ansiedade nunca se desenvolvem respeitando os limites, mas forçando cada espaço já abarrotado na sua cabeça. Esse não é um texto caga regras que vai te ensinar em apenas 10 passos a ser uma mulher bem resolvida. Eu não estou bem resolvida, e daí? Isso não me impede de ser feliz. Depois que muita coisa dá errado, a gente entende que tudo bem não estar tudo bem. Perfeição não existe ou dura pouco, o jeito é saber lidar ou levar. Eu estou bem com algumas das minhas questões. Eu estou bem com o fato de que vez ou outra bate uma carência terrível – daquela que só servem para arranjar roubada. Estou bem com minhas crises dignas de “meu deus do céu nunca mais vou me apaixonar nessa vida e eu sou maravilhosa demais pra morrer sozinha não é justo”- minha lua é em Leão, sabe como é. Estou bem com os vazios e angústias, porque isso faz parte dessa missão que é estar viva e não saber nada do que vai acontecer ou que está acontecendo. Eu não estou bem com as expectativas que os outros jogam em cima de mim.

Os outros podem ser pessoas bem próximas como aquela amiga que fica insistindo que você precisa se jogar no mundo e sair mais e pegar aquele cara que te dá mole porque não custa nada afinal. Os outros podem ser as comédias românticas, a publicidade, as canções de amor e o inconsciente coletivo que se revela em cada ceia de natal ao redor do mundo pela famosa pergunta “e os namorado?”. Os outros é a mídia sexista que não tão sutilmente indica que minha atratibilidade tem uma validade que acompanha o ritmo dos meus ovários, então, eu não deveria desperdiçar o tempo lucrativo dos meus 25 anos. Os outros são os diferentes imperativos que convivem nesse mesmo período histórico. As contradições cabem muito bem no novo nicho da literatura em que até mesmo a putaria segue uma narrativa de conto de fadas na qual, depois de muito sexo, a mocinha transforma a fera em um príncipe. O tempo das repressões óbvias acabou, agora todo mundo deve falar de sexo e, no entanto, isso não nos livra do moralismo. Primeiro, pelo peso do dever, depois fato de que só se deve falar sobre um tipo de sexualidade.

 
[caption id="attachment_5189" align="aligncenter" width="700"]Ilustração feita com exclusividade por Thais Erre Ilustração feita com exclusividade por Thais Erre[/caption]  

Por todos os cantos se fala de amor e/ou suas vertentes, então, se você não faz sua parte e conta sua história, nem que seja para reclamar, você está ainda mais sozinha. Assim, minha solidão não pode ser uma vivência particular, uma experiência única – e silenciosa – que não precisa ser transformada em uma questão. Não é possível estar só e satisfeita ou feliz. Às vezes parece que é preferível ou mais aceitável que eu esteja com alguém em um relacionamento abusivo do que sozinha. É preciso que eu reclame, busque, queira, sofra, deseje; é preciso qualquer coisa, menos que eu esteja confortável com essa condição de solteira, sim, sozinha também. E por isso, eles vão dizer: “É uma fase”. “Você é muito seletiva”. “Você tem dedo podre”. “Quando a gente menos procura é que aparece alguém”. “Se você não sair, não vai conhecer alguém nunca”. “Você precisa se abrir”. “Você já tá no Tinder?”. “Você procura amor nos lugares errados”.” Você pode se divertir com os errados, enquanto não acha o certo”. Eles falam – no cinema, na fila do mercado, na sala de estar -, eu escuto e minha cabeça não perde a oportunidade de plantar uma neurose. O fato de eu estar de boa com minha vida solitária subitamente não me deixa de boa. Penso que não sentir muita falta de ter alguém deve ser um problema. Isso não pode ser normal. Então, de vez em quando, comento minha insatisfação com minhas amigas, não tanto por estar mesmo incomodada, é mais como um aviso de que estou ciente desse marasmo, por favor, não precisa vir com conselhos. Reclamo de como estou apática e frígida, um termo que eu jamais usaria para me referir a outra mulher, mas eu não me poupo. O que percebo em cada uma dessas mensagens em que uso palavras que não são minhas é que julgo minha calma pela medida dos outros e não percebo que essa “anormalidade” pode ser justamente o desvio de um caminho que nunca foi meu.

A verdade é que não há um fio de apatia em mim. Sinto muito, às vezes até demais. Não estar disposta a um determinado tipo de relacionamento, não significa estar fechada ou indiferente ao mundo. Isso também não significa, felizmente, que eu vá me sensibilizar ou me interessar por um cara bundão, só porque é o que temos para hoje. Também não é porque abomino um romantismo que confunde amor com privação e dor, que eu não acredito e quero amor. Não sou muito boa em me controlar, meu humor é instável, meus desejos imponentes; contudo, aprendi a ter uma melhor consciência do que sinto e quero, do que me faz bem e do que me fragiliza. Nem sempre posso escolher os rumos da minha vida e dos meus sentimentos, mas tento, sim, selecionar os laços e sensações que me fortalecem. Ironicamente ou não, meu ano mais estranho e solitário é também o que eu estive mais satisfeita comigo mesma. Não aposto em uma relação de causa e efeito entre esses acontecimentos. Esse texto não é um elogio à solidão, até porque não aprendi sozinha o que eu sei sobre amor próprio. Isso aqui talvez seja só um pedido. Eu, de coração exposto para os outros expiarem, tocarem e sentirem minha vulnerabilidade que não é fria. Um pedido para que não contem com minha insatisfação e entendam que a normalidade só serve para traçar feridas. Principalmente, a aposta – que não é regra – de que se bastar é possível, mais ainda, maravilhoso.
 
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Ilustrações feitas com exclusividade por Thais Erre.

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365 dias inteira: os livros e as lições de 2015

2015 não foi para iniciantes. Mas, se para muitos 2015 foi um ano ruim, para mim, ele foi todo aprendizagem. De um verão abafado em que precisei confrontar minha falta de saídas até quebrar umas paredes a 40 dias destinados a só ser feliz, não teve tempo para folga. Esse ano me exigiu mudanças, dúvidas e crises. Mas agora que chega ao fim, me encontro comigo mesma em uma versão mais forte e tranquila. Esse ano eu escolhi esperar estar sozinha, uma escolha com muitos momentos de hesitação e carência, evidentemente (já escrevi sobre isso aqui na Ovelha). De início, não pareceu escolha, mas simplesmente falta de tempo, paciência e disposição. Algumas vezes também estive sozinha por total falta de sorte, dedo podre e outros fracassos. No entanto, depois de ter percebido que, se eu quiser, ainda posso me apaixonar – com todos os erros, inseguranças e delícias que isso implica – entendi o que realmente rolou durante esses doze meses.

O primeiro livro de 2015 foi Garota Exemplar, da Gilian Flynn. Essa história que me desestabilizou em janeiro retorna até hoje quando me pego medindo minhas palavras no Whatsapp ou pensando se agora que ele sabe que eu sou insegura vai deixar de me achar tão legal. Garota Exemplar é um livro polêmico e, eu diria, imperfeito, mas, meu deus, que impacto ele pode ter na vida de uma mulher. Durante o período em que trabalhei em uma livraria, chegava a me arrepiar quando o indicava a uma garota de 15 anos ou uma senhora de 50. Porque todas nós passamos anos e anos perdendo nosso tempo, felicidade e potencial enquanto nos regulamos pelo olhar masculino. Esse olhar que não se encontra somente em indivíduos, mas se faz presente em obras culturais, expectativas românticas e superego. Nenhum cara precisa me pressionar para ser uma Garota Legal, porque essa cobrança já está (estava?) internalizada. Essa foi uma das primeiras coisas que entendi esse ano e teve um impacto devastador sobre quem eu fui e quem eu decidi me tornar.

O segundo livro do ano foi o maravilhoso Bad Feminist da Roxane Gay. Essa coletânea de ensaios – que infelizmente ainda não foi traduzido para o português – me fez repensar meu engajamento feminista e, principalmente, entender melhor o impacto da cultura misógina e racista produzida por nossa sociedade ocidental. Meu artigo favorito desse livro é o The trouble with Prine Chaming, or he who trespassed against us (traduzi uma versão resumida desse ensaio para o blog do Livre de Abuso). Se Garota Exemplar me fez questionar os perigos de construir uma persona em busca de validação amorosa, Roxane Gay me fez, enfim, admitir que muitas das minhas expectativas românticas eram, na verdade, abusivas. A estrutura de um conto de fadas é a de uma narrativa na qual uma mulher incrível, praticamente uma heroína (pensa na rebeldia da Ariel, o altruísmo da Branca de Neve e a curiosidade da Bela), aceita sofrer todo tipo de horror (ou castigo) para encontrar seu Príncipe Encantado, seu verdadeiro amor (agora pensa no que você realmente lembra dos príncipes dessas histórias além de serem homens brancos e ricos?). Basicamente, a gente aprende desde pequena a rimar amor e dor, a aceitar que o caminho para ser amada deve ser difícil. Sem contar no quanto é recorrente a ideia de uma mulher ajudar um homem a superar algum tormento até que ele possa se tornar um homem melhor. Sabe aquele ditado machista, “por trás de um grande homem tem uma grande mulher”? Pois é, tatuado no nosso inconsciente.

Para não dizer que essas referências são muito ultrapassadas, vou usar como exemplo meu filme favorito durante a adolescência, Almost Famous. A história desse filme é sobre garotos que querem se tornar grandes homens e, para isso, contam com a ajuda de umas musas. Ajuda que evidentemente está em segundo plano, que serve quase como uma decoração, porque, no fim, o que realmente transforma esses garotos é a eterna conversa que eles mantêm fechada entre eles. Nessa conversa, o papel de uma garota é trazer uma cerveja, mandar um beijo, dançar, ser essa coisa bonita, leve, independente e solitária que é uma Garota Legal. O grande mantra de Penny Lane, a musa do filme, é:

 
I always tell the girls never take it seriously, if you never take it seriously you never get hurt, if you never get hurt you always have fun, and if you ever get lonely just go to the record store and visit your friends.

(Eu sempre falo para as garotas não levarem á sério, porque se você nunca leva à sério, você nunca se machuca, e, se você nunca se machuca, você sempre se diverte e se eventualmente se sente solitária, apenas vá até uma loja de discos e visite seus amigos).

 
Um mantra que diz perfeitamente o que o olhar masculino espera de nós. Não é à toa que Almost Famous é do mesmo diretor de Elizabethtown, filme que inspirou o conceito de maniac pixie dream girl (para entender melhor esse termo recomendo esse texto aqui).

O que essas histórias me ensinaram enquanto eu crescia? Me ensinaram a aceitar uma posição limitada. Me ensinaram que para ser amada, era preciso não me levar tão à sério assim. Me ensinaram ouvir o que os garotos diziam, deixar eles conversarem, aprender com eles, jamais ensinar, só inspirar um pouquinho. Me ensinaram a aceitar meu papel secundário, ser uma bengala, uma inspiração, uma referência na grande história que pertencia somente a eles. Me ensinaram a um dia suspirar em paz porque cumpri minha missão na terra e ajudei um garoto a se transformar em um Grande Homem.

Acontece que eu sempre gostei muito de falar e me intrometer e perder o controle. Acontece que, apesar de todos os meus esforços, não conseguia ser uma Garota Legal. Afinal, quem de fato consegue? Fora dos produtos culturais, nós, mulheres, existimos em corpos e desejos reais. Nenhuma de nós se limita a essas personas, ainda assim acreditamos, ratificamos e nos dividimos a partir desses mitos. Como prova, volto a minha adolescência, alguém aí já parou para analisar a letra de Sk8er Boy? Aos 13 anos eu repetia as palavras cantadas por Avril Lavigne com muita convicção:

 
Sorry girl, but you missed out
Well, tough luck, that boy’s mine now
We are more than just good friends
This is how the story ends
Too bad that you couldn’t see
See the man that boy could be
There is more than meets the eye
I see the soul that has in inside

(Desculpe, garota, mas você saiu perdendo
Bem, foi mal aí, aquele garoto agora é meu
Somos mais do que apenas bons amigos
É assim que a história termina
É uma pena que você não pôde ver
Ver o homem que aquele garoto poderia ser
Há mais do que aquilo que se percebe à primeira vista
Vejo a alma que está por dentro)
 

Atire a primeira pedra quem nunca se perguntou “por que ele tá com essa garota sem graça/feia/burra?”.

 

 
Terceira aprendizagem do ano: O caminho da segurança e do amor próprio inevitavelmente cruza com o da sororidade.

Mais para o final do ano, li Os Casos de Amor de Nathaniel P. de Adelle Waldman, livro que me deixou perturbada de um jeito perigoso. A história que foca em um preciso exemplo de cara meio intelectual meio de esquerda quase me destruiu, porque enxerguei ali todo o abuso psicológico que sofri nos últimos anos. Nathaniel P. é o nosso #amigo secreto. Ele é aquele cara que é pró feminismo mas que não hesita em ignorar uma mulher em uma conversa. Aquele cara que passa horas debatendo sobre política com um amigo próximo, mas que a gente sabe muito bem que o que está em jogo naquela conversa não é a revolução, mas um duelo de egos. Aquele cara que adora mulheres independentes e confiantes e faz questão de repetir isso sempre. Aquele cara capaz de transformar essas mesmas mulheres em locas, histéricas e inseguras. Todo mundo conhece esses caras. Eles foram meus amigos, confidentes, amores, peguetes e inspiração. Confesso o enjoo que esse livro me provocou foi suficiente para eu acreditar que nunca mais poderia me envolver com outro homem, porque, depois de tantos anos de abusos velados, não sei se aguentaria o risco de me ver novamente nesse tipo de dinâmica.

Então vieram os 40 dias em que minha única meta era aproveitar da melhor forma possível cada hora. Aí, depois de anos julgando quem gostava de uma história tão limitada escrita por uma mulher privilegiada, eu resolvi ler Comer, rezar e amar da Elizabeth Gilbert. Poderia dizer que foi um desses prazeres proibidos, mas se tem algo que esse livro me despertou foi a necessidade de se livrar da culpa. Gilbert falha em muitos aspectos, principalmente em reconhecer seus privilégios, mas em sua incesante necesidade de justificar sua escolha por uma vida mais prazerosa, ela acerta em um de nossos pontos frágeis: Por que, afinal, é tão difícil para uma mulher admitir que só quer fazer algo que lhe dá prazer sem se explicar ou se remoer em culpa? Resolvi tentar, pelo menos por um tempo, desfrutar meus dias livre de argumentos. Nesse momento em que tudo era novo, entendi o que a Babi (Bárbara Carneiro para os não tão íntimos), me disse em um áudio há alguns meses: A performance pode ser escolha. Os flertes, como as máscaras, podem ter a leveza de qualquer criação. Desistir dos roteiros, sim, mas jamais do risco de se abrir. Enfim, me sentia curada e forte o suficiente pra mais do que entender, viver Botar as asinhas de fora, sim.

No avião voltando para casa, assisti o The end of the tour, filme que conta sobre os dias em que o jornalista David Lipsky acompanhou David Foster Wallace na turnê de seu livro Graça Infinita. O primeiro instinto é gostar do filme, porque o tema é interessante, as conversas são boas e o final te deixa com uma sensação de “puxa, como a vida pode ser intensa”. Ainda assim, sei lá, alguma coisa em mim só sentiu um “nhé”. Demorou pra cair a ficha, mas esse filme em sua eterna conversa entre dois caras explica muito bem porque todas essas aprendizagens não são só sobre relacionamentos, mas, principalmente, sobre a mulher que escolhi ser.

Não é questão de falta de representatividade feminina ou teste de Bechdel – e eu sinceramente não aguento mais escrever sobre isso ainda que seja importante. É que eu não quero mais me esforçar para acompanhar uma conversa que em momento algum é sobre mim. Eu não aceito mais o papel que me é possível. Não faz sentido compactuar com um jogo em que as palavras, as peças e a finalidade já estão determinadas. É melhor esquecer isso, virar a mesa, iniciar uma nova partida de um outro ponto. Foi por isso que criei, junto com minha melhor amiga Natasha Ísis, a newsletter Mulheres que escrevem, porque precisava iniciar uma outra conversa.

Gostar de garotos e escrever nunca foi fácil – mesmo que tantas vezes um gesto empurre o outro. Em 2015, ano que a palavra “fácil” foi riscada do nosso vocabulário, aprendi a operar essas ações de outra perspectiva.

A última aprendizagem vem desde o início: Me quebrar toda para sozinha – com o apoio de diversas mulheres – me refazer inteira.

 

Ilustrações feitas com exclusividade por Janis Souza (Tumblr / Instagram)

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