O inevitável espelho da mulher bissexual

Ilustração feita com exclusividade por Thais Cortez a.k.a. Emily

Chegamos na casa de Joana*, já naquela ansiedade de quem sabe o que vem a seguir. Ela me levou pro quarto. Deitei seu corpo na cama, beijando seu pescoço. Uns amassos a mais e umas roupas a menos, ela diz

apaga a luz.

Como assim, apaga a luz?

tô feia, não me sinto confortável.

Joana é uma das mulheres mais maravilhosas que eu já conheci. Inteligente, independente, estilosa, linda de qualquer ângulo e em todos os detalhes. E eu ia transar com ela de luz apagada porque aparentemente eu era a única pessoa naquele quarto que enxergava tudo isso.

Ser bissexual e mulher é uma experiência muito complexa e surpreendente. Das vivências que tive, a que mais me marcou foi a oportunidade de enxergar as mulheres com quem eu me relacionei como um reflexo daquilo que eu mesma sou. Claro que é possível notar isso sendo lésbica, mas a bissexualidade acaba permitindo que a gente perceba as discrepâncias quando nos relacionamos com gêneros diferentes. E infelizmente elas são assustadoras.

Nos meus relacionamentos com homens, a socialização masculina era bastante evidente. Dava pra perceber que eles sempre tentavam se mostrar fortes, independentes, pragmáticos. Mas se eles falhavam em assinalar todos os quadradinhos da ficha de Cabra Macho™ essa falha não impedia que eles se relacionassem e também não fazia com que eles tivessem um mau juízo de si mesmos. Vida que segue, bola pra frente, na maior parte das vezes ninguém vê essa ausência da performance do machão como um defeito. Se ele chora, é sensível. Se não é fortão, é porque é inteligente. Se é gordo, tem um super senso de humor. Para as mulheres, não é bem assim. Lembra daquela pesquisa que diz que o maior medo dos homens quando encontram uma mulher que conheceram pela internet é de que ela seja gorda? Pras minas, o maior medo é de que o cara seja um assassino.

Prioridades, né.

Voltando à Joana: ela era uma pessoa muito mais fascinante do que a grande maioria dos homens com quem eu já saí. E ela se achava feia. Esquisita. Praticamente não saía de casa sem maquiagem, não gostava de tirar foto. Era, como grande parte das mulheres, extremamente preocupada com seu peso, embora não parecesse estar cinco quilos acima do que é considerado ideal. E isso me doía de um jeito horrível — em parte porque rasga a gente por dentro ver uma pessoa querida com baixa autoestima. Em parte porque… bom, porque eu sabia que já fui, sou, ou serei a Joana de alguém.

Num relacionamento, seja ele qual for, a gente devagarzinho vai notando os traumas, as feridas, os pontos mais sensíveis de quem a gente gosta. A diferença, quando você é mulher e se relaciona com mulheres, é que você percebe um monte desses machucados como resultantes de um contínuo e inescrupuloso esmagamento sistemático da nossa autoestima. Desde que somos pequenas, somos criadas para acreditar que nunca estamos bonitas e nunca somos suficientes. E somos diariamente bombardeadas com mensagens que continuam reiterando essa perspectiva apodrecida de nós mesmas — e alterando a nossa percepção acerca de como deveríamos ser.

Nenhum dos homens com quem me relacionei me pediu pra apagar a luz — e uma boa parte deles não tinha um corpo padrãozinho. Nenhum tinha vergonha do seu cabelo, das espinhas no rosto, do formato dos genitais. Isso sequer era assunto com eles. E isso não é um problema, isso é ótimo. Só me dói que não seja assim com as mulheres. Me dói que não seja assim com a Joana. Me dói que não seja assim comigo.

*Nome fictício.
 

Ilustração feita com exclusividade por Thais Cortez a.k.a. Emily

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