“… a marcação que caracteriza o tempo do trabalho (de forma desproporcional à oferta efetiva de oportunidades de trabalho) invade cada vez mais a experiência de temporalidade, mesmo nas horas ditas de lazer. Não me refiro ao ócio, essa forma de passar o tempo tão desmoralizada em nossos dias, mas às atividades de lazer, marcadas pela compulsão incansável de produzir resultados, comprovações, efeitos de diversão, que tornam a experiência de produzir resultados, comprovações, efeitos de diversão, que tornam a experiência do tempo de lazer tão cansativa e vazia quanto a do tempo da produção. Nada causa tanto escândalo, em nosso tempo, quanto o tempo vazio. É preciso “aproveitar” o tempo, fazer render a vida, sem preguiça e sem descanso.”
O tempo e o Cão – Maria Rita Kehl
Terça-feira, véspera da minha folga, tenho febre. Não consigo fazer nada além de ficar deitada e imersa no universo do meu celular. Comento em um grupo do whatsapp que é até agradável ficar doente, por que posso fazer nada sem me sentir culpada. Acho que meus amigos vão me julgar, afinal, não fazer algo não é legal e curtir doença é pior ainda. Mas eles entendem a sensação. A verdade é que estamos todos em busca de uma permissão para simplesmente parar ou, no mínimo, uma brecha para escapar de um ritmo sádico. A questão não é o trabalho em si. Sabemos direitinho o que fazer com as horas destinadas aos nossos empregos, difícil mesmo é o que vem depois, as ditas horas livres. Porque, afinal, ninguém quer ser resumido pelo seu trabalho; todos nós temos hobbies, livros de colorir, relacionamentos, eventos, tarefas, vontades e desejos que quase sempre assumem formas imperativas.
No dia da minha folga há tanto a ser feito que só me resta uma ansiedade. Pareço um cachorro correndo atrás do próprio rabo. Não sei para onde ir e, portanto, acabo no mais confortável dos reinos: o Netflix. No dia seguinte, a ressaca mais insossa, a moral: Por que eu não sei aproveitar meu tempo direito?
Sete horas de trabalho e o corpo mais moído do que o normal. A sensação de um machadinho quicando na nuca se junta ao corpo quente e uns calafrios. Penso que, enfim, chegou minha vez. Depois de vinte e cinco anos de Rio de Janeiro, a dengue bate na porta. Vamos para o hospital com todos os privilégios possíveis, no entanto, as picuinhas pessoais somam-se ao trânsito, à demora, às recepcionistas indiferentes e ao terrível negócio que se transformou a saúde. Passo por etapas como em um video-game. Primeiro, escaneiam meus documentos, uma enfermeira mede minha pressão, depois uma médica faz um rápido exame, tiram meu sangue e pedem para eu esperar. Não há previsão de quanto tempo de espera. Ninguém pergunta se estou bem. Três horas de espera depois faço uma reclamação e escuto: “Senhora, tem gente aqui que está esperando desde às 16 hrs”. Eram 23 hrs e estou até agora me perguntando se isso era para ser um consolo. Nesse ponto já estou treinada para me transformar em uma caricatura que declama o óbvio: Isso é um hospital particular?, eu trabalhei o dia todo, eu estou doente, eu já paguei pelo serviço e não tenho escolha, mas como pode?, é um absurdo!, é culpa….. Ainda bem que não existiam panelas por perto, porque do meu umbigo febril rugia o maior mimimi do mundo. Meia noite, a médica aparece com o resultado dos exames: não era dengue, era virose. Perdi todo esse tempo e nem é algo sério?? Ah, a burocracia e seu poder de nos enfiar em uma lógica perversa. O melhor diagnóstico vira um desperdício. Quase solto “era melhor estar doente de verdade porque aí não teria perdido meu tempo”. Nesse exato momento, uma pontada na cabeça me detém e acho que é meu corpo querendo falar a sua verdade.
Agora, melhor de saúde – não tanto da cabeça – me restam algumas questões: Como posso estar tão enclausurada em minha perspectiva individual e, ao mesmo tempo, completamente distante das minhas próprias necessidades? No momento em que inventaram o conceito de “tempo livre” nós perdemos o controle do nosso tempo o que é a mesma coisa que a nossa vida? Preguiça é resistência?
Talvez um dia, em uma soneca ou em uma viagem cortaziana ao submundo do metrô, eu me esconda desse tempo e encontre minhas respostas.
Ilustração feita com exclusividade por Janis Souza.
“… a marcação que caracteriza o tempo do trabalho (de forma desproporcional à oferta efetiva de oportunidades de trabalho) invade cada vez mais a experiência de temporalidade, mesmo nas horas ditas de lazer. Não me refiro ao ócio, essa forma de passar o tempo tão desmoralizada em nossos dias, mas às atividades de lazer, marcadas pela compulsão incansável de produzir resultados, comprovações, efeitos de diversão, que tornam a experiência de produzir resultados, comprovações, efeitos de diversão, que tornam a experiência do tempo de lazer tão cansativa e vazia quanto a do tempo da produção. Nada causa tanto escândalo, em nosso tempo, quanto o tempo vazio. É preciso “aproveitar” o tempo, fazer render a vida, sem preguiça e sem descanso.”
O tempo e o Cão – Maria Rita Kehl
Terça-feira, véspera da minha folga, tenho febre. Não consigo fazer nada além de ficar deitada e imersa no universo do meu celular. Comento em um grupo do whatsapp que é até agradável ficar doente, por que posso fazer nada sem me sentir culpada. Acho que meus amigos vão me julgar, afinal, não fazer algo não é legal e curtir doença é pior ainda. Mas eles entendem a sensação. A verdade é que estamos todos em busca de uma permissão para simplesmente parar ou, no mínimo, uma brecha para escapar de um ritmo sádico. A questão não é o trabalho em si. Sabemos direitinho o que fazer com as horas destinadas aos nossos empregos, difícil mesmo é o que vem depois, as ditas horas livres. Porque, afinal, ninguém quer ser resumido pelo seu trabalho; todos nós temos hobbies, livros de colorir, relacionamentos, eventos, tarefas, vontades e desejos que quase sempre assumem formas imperativas.
No dia da minha folga há tanto a ser feito que só me resta uma ansiedade. Pareço um cachorro correndo atrás do próprio rabo. Não sei para onde ir e, portanto, acabo no mais confortável dos reinos: o Netflix. No dia seguinte, a ressaca mais insossa, a moral: Por que eu não sei aproveitar meu tempo direito?
Sete horas de trabalho e o corpo mais moído do que o normal. A sensação de um machadinho quicando na nuca se junta ao corpo quente e uns calafrios. Penso que, enfim, chegou minha vez. Depois de vinte e cinco anos de Rio de Janeiro, a dengue bate na porta. Vamos para o hospital com todos os privilégios possíveis, no entanto, as picuinhas pessoais somam-se ao trânsito, à demora, às recepcionistas indiferentes e ao terrível negócio que se transformou a saúde. Passo por etapas como em um video-game. Primeiro, escaneiam meus documentos, uma enfermeira mede minha pressão, depois uma médica faz um rápido exame, tiram meu sangue e pedem para eu esperar. Não há previsão de quanto tempo de espera. Ninguém pergunta se estou bem. Três horas de espera depois faço uma reclamação e escuto: “Senhora, tem gente aqui que está esperando desde às 16 hrs”. Eram 23 hrs e estou até agora me perguntando se isso era para ser um consolo. Nesse ponto já estou treinada para me transformar em uma caricatura que declama o óbvio: Isso é um hospital particular?, eu trabalhei o dia todo, eu estou doente, eu já paguei pelo serviço e não tenho escolha, mas como pode?, é um absurdo!, é culpa….. Ainda bem que não existiam panelas por perto, porque do meu umbigo febril rugia o maior mimimi do mundo. Meia noite, a médica aparece com o resultado dos exames: não era dengue, era virose. Perdi todo esse tempo e nem é algo sério?? Ah, a burocracia e seu poder de nos enfiar em uma lógica perversa. O melhor diagnóstico vira um desperdício. Quase solto “era melhor estar doente de verdade porque aí não teria perdido meu tempo”. Nesse exato momento, uma pontada na cabeça me detém e acho que é meu corpo querendo falar a sua verdade.
Agora, melhor de saúde – não tanto da cabeça – me restam algumas questões: Como posso estar tão enclausurada em minha perspectiva individual e, ao mesmo tempo, completamente distante das minhas próprias necessidades? No momento em que inventaram o conceito de “tempo livre” nós perdemos o controle do nosso tempo o que é a mesma coisa que a nossa vida? Preguiça é resistência?
Talvez um dia, em uma soneca ou em uma viagem cortaziana ao submundo do metrô, eu me esconda desse tempo e encontre minhas respostas.
Ilustração feita com exclusividade por Janis Souza.
Ilustração feita com exclusividade por Janis Souza
“… a marcação que caracteriza o tempo do trabalho (de forma desproporcional à oferta efetiva de oportunidades de trabalho) invade cada vez mais a experiência de temporalidade, mesmo nas horas ditas de lazer. Não me refiro ao ócio, essa forma de passar o tempo tão desmoralizada em nossos dias, mas às atividades de lazer, marcadas pela compulsão incansável de produzir resultados, comprovações, efeitos de diversão, que tornam a experiência de produzir resultados, comprovações, efeitos de diversão, que tornam a experiência do tempo de lazer tão cansativa e vazia quanto a do tempo da produção. Nada causa tanto escândalo, em nosso tempo, quanto o tempo vazio. É preciso “aproveitar” o tempo, fazer render a vida, sem preguiça e sem descanso.”
O tempo e o Cão – Maria Rita Kehl
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Terça-feira, véspera da minha folga, tenho febre. Não consigo fazer nada além de ficar deitada e imersa no universo do meu celular. Comento em um grupo do whatsapp que é até agradável ficar doente, por que posso fazer nada sem me sentir culpada. Acho que meus amigos vão me julgar, afinal, não fazer algo não é legal e curtir doença é pior ainda. Mas eles entendem a sensação. A verdade é que estamos todos em busca de uma permissão para simplesmente parar ou, no mínimo, uma brecha para escapar de um ritmo sádico. A questão não é o trabalho em si. Sabemos direitinho o que fazer com as horas destinadas aos nossos empregos, difícil mesmo é o que vem depois, as ditas horas livres. Porque, afinal, ninguém quer ser resumido pelo seu trabalho; todos nós temos hobbies, livros de colorir, relacionamentos, eventos, tarefas, vontades e desejos que quase sempre assumem formas imperativas.
No dia da minha folga há tanto a ser feito que só me resta uma ansiedade. Pareço um cachorro correndo atrás do próprio rabo. Não sei para onde ir e, portanto, acabo no mais confortável dos reinos: o Netflix. No dia seguinte, a ressaca mais insossa, a moral: Por que eu não sei aproveitar meu tempo direito?
[caption id="attachment_4564" align="aligncenter" width="1024"] Ilustração por Janis Souza[/caption]
Sete horas de trabalho e o corpo mais moído do que o normal. A sensação de um machadinho quicando na nuca se junta ao corpo quente e uns calafrios. Penso que, enfim, chegou minha vez. Depois de vinte e cinco anos de Rio de Janeiro, a dengue bate na porta. Vamos para o hospital com todos os privilégios possíveis, no entanto, as picuinhas pessoais somam-se ao trânsito, à demora, às recepcionistas indiferentes e ao terrível negócio que se transformou a saúde. Passo por etapas como em um video-game. Primeiro, escaneiam meus documentos, uma enfermeira mede minha pressão, depois uma médica faz um rápido exame, tiram meu sangue e pedem para eu esperar. Não há previsão de quanto tempo de espera. Ninguém pergunta se estou bem. Três horas de espera depois faço uma reclamação e escuto: “Senhora, tem gente aqui que está esperando desde às 16 hrs”. Eram 23 hrs e estou até agora me perguntando se isso era para ser um consolo. Nesse ponto já estou treinada para me transformar em uma caricatura que declama o óbvio: Isso é um hospital particular?, eu trabalhei o dia todo, eu estou doente, eu já paguei pelo serviço e não tenho escolha, mas como pode?, é um absurdo!, é culpa….. Ainda bem que não existiam panelas por perto, porque do meu umbigo febril rugia o maior mimimi do mundo. Meia noite, a médica aparece com o resultado dos exames: não era dengue, era virose. Perdi todo esse tempo e nem é algo sério?? Ah, a burocracia e seu poder de nos enfiar em uma lógica perversa. O melhor diagnóstico vira um desperdício. Quase solto “era melhor estar doente de verdade porque aí não teria perdido meu tempo”. Nesse exato momento, uma pontada na cabeça me detém e acho que é meu corpo querendo falar a sua verdade.
Agora, melhor de saúde – não tanto da cabeça – me restam algumas questões: Como posso estar tão enclausurada em minha perspectiva individual e, ao mesmo tempo, completamente distante das minhas próprias necessidades? No momento em que inventaram o conceito de “tempo livre” nós perdemos o controle do nosso tempo o que é a mesma coisa que a nossa vida? Preguiça é resistência?
Talvez um dia, em uma soneca ou em uma viagem cortaziana ao submundo do metrô, eu me esconda desse tempo e encontre minhas respostas.
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Ilustração feita com exclusividade por Janis Souza.
Tem algum tempo que tento me assumir como escritora. Mas afirmar essa identidade diante dos outros me provoca um intenso complexo de fraude. Sinto que a qualquer momento alguém pode duvidar de mim e apontar todas as minhas falhas. No entanto, também tem algum tempo que decidi que não preciso de aprovação alheia. Ainda que ser admirada seja algo ótimo, é apenas uma sensação passageira e incapaz de sustentar minha felicidade. No fim do dia, mesmo que ninguém me leia ou aprecie, eu vou escrever. Então, afirmar com todas as letras que sou, sim, escritora, tem sido uma tentativa difícil, mas importante.
Tornou-se ainda mais importante quando percebi que minhas angústias pertencem, na verdade, a um inconsciente coletivo que eu diria que é especialmente um inconsciente feminino. Porque, afinal, a materialidade histórica de séculos de silenciamento ainda impõe opressões físicas e psicológicas sobre nosso gênero. Minhas amigas, Amanda Palmer e Aline Valek são algumas das mulheres que já falaram sobre os tormentos do complexo de fraude. Em 1928, Virginia Woolf afirmava que para ser escritora era necessário um teto e uma renda própria, mas eu, pessoalmente, acredito que também é preciso uma boa dose de autoestima e de um grupo de apoio, ou seja, das migas. Quanto mais exponho minhas dúvidas, mais companheiras encontro. Pensando essa urgência como uma questão de gênero surgiu a vontade de ter um espaço para que escritoras possam se conhecer, conversar e transformar as inseguranças em criação. Foi assim que surgiu a Mulheres Que Escrevem uma newsletter organizada por mim e a jornalista – e minha bff – Natasha Ísis, mas (assim nós esperamos) alimentada por muitas outras escritoras.
A ideia é que a newsletter seja um lugar para refletir sobre nosso ofício, compartilhar nossos textos e também como se desenvolve nosso processo criativo. Mas nossa intenção é que tenha um tom de um café ou um boteco gostoso, ou seja, apesar de termos um ponto de partida estamos contando que o tópico da conversa seja desvirtuado e se transforme, porque, afinal, conversa boa tem sempre um movimento imprevisível. Escolhemos o formato da newsletter justamente porque acreditamos no poder de um ambiente mais intimista, em vez de um textão pronto, enviamos uma email e um convite para uma troca.
Então, bora escrever com a gente?
Arte do “Mulheres Que Escrevem” por Dora Leroy.
Foto de capa: Clarice Lispector clicada por Claudia Andujar.
“… a marcação que caracteriza o tempo do trabalho (de forma desproporcional à oferta efetiva de oportunidades de trabalho) invade cada vez mais a experiência de temporalidade, mesmo nas horas ditas de lazer. Não me refiro ao ócio, essa forma de passar o tempo tão desmoralizada em nossos dias, mas às atividades de lazer, marcadas pela compulsão incansável de produzir resultados, comprovações, efeitos de diversão, que tornam a experiência de produzir resultados, comprovações, efeitos de diversão, que tornam a experiência do tempo de lazer tão cansativa e vazia quanto a do tempo da produção. Nada causa tanto escândalo, em nosso tempo, quanto o tempo vazio. É preciso “aproveitar” o tempo, fazer render a vida, sem preguiça e sem descanso.”
O tempo e o Cão – Maria Rita Kehl
Terça-feira, véspera da minha folga, tenho febre. Não consigo fazer nada além de ficar deitada e imersa no universo do meu celular. Comento em um grupo do whatsapp que é até agradável ficar doente, por que posso fazer nada sem me sentir culpada. Acho que meus amigos vão me julgar, afinal, não fazer algo não é legal e curtir doença é pior ainda. Mas eles entendem a sensação. A verdade é que estamos todos em busca de uma permissão para simplesmente parar ou, no mínimo, uma brecha para escapar de um ritmo sádico. A questão não é o trabalho em si. Sabemos direitinho o que fazer com as horas destinadas aos nossos empregos, difícil mesmo é o que vem depois, as ditas horas livres. Porque, afinal, ninguém quer ser resumido pelo seu trabalho; todos nós temos hobbies, livros de colorir, relacionamentos, eventos, tarefas, vontades e desejos que quase sempre assumem formas imperativas.
No dia da minha folga há tanto a ser feito que só me resta uma ansiedade. Pareço um cachorro correndo atrás do próprio rabo. Não sei para onde ir e, portanto, acabo no mais confortável dos reinos: o Netflix. No dia seguinte, a ressaca mais insossa, a moral: Por que eu não sei aproveitar meu tempo direito?
Sete horas de trabalho e o corpo mais moído do que o normal. A sensação de um machadinho quicando na nuca se junta ao corpo quente e uns calafrios. Penso que, enfim, chegou minha vez. Depois de vinte e cinco anos de Rio de Janeiro, a dengue bate na porta. Vamos para o hospital com todos os privilégios possíveis, no entanto, as picuinhas pessoais somam-se ao trânsito, à demora, às recepcionistas indiferentes e ao terrível negócio que se transformou a saúde. Passo por etapas como em um video-game. Primeiro, escaneiam meus documentos, uma enfermeira mede minha pressão, depois uma médica faz um rápido exame, tiram meu sangue e pedem para eu esperar. Não há previsão de quanto tempo de espera. Ninguém pergunta se estou bem. Três horas de espera depois faço uma reclamação e escuto: “Senhora, tem gente aqui que está esperando desde às 16 hrs”. Eram 23 hrs e estou até agora me perguntando se isso era para ser um consolo. Nesse ponto já estou treinada para me transformar em uma caricatura que declama o óbvio: Isso é um hospital particular?, eu trabalhei o dia todo, eu estou doente, eu já paguei pelo serviço e não tenho escolha, mas como pode?, é um absurdo!, é culpa….. Ainda bem que não existiam panelas por perto, porque do meu umbigo febril rugia o maior mimimi do mundo. Meia noite, a médica aparece com o resultado dos exames: não era dengue, era virose. Perdi todo esse tempo e nem é algo sério?? Ah, a burocracia e seu poder de nos enfiar em uma lógica perversa. O melhor diagnóstico vira um desperdício. Quase solto “era melhor estar doente de verdade porque aí não teria perdido meu tempo”. Nesse exato momento, uma pontada na cabeça me detém e acho que é meu corpo querendo falar a sua verdade.
Agora, melhor de saúde – não tanto da cabeça – me restam algumas questões: Como posso estar tão enclausurada em minha perspectiva individual e, ao mesmo tempo, completamente distante das minhas próprias necessidades? No momento em que inventaram o conceito de “tempo livre” nós perdemos o controle do nosso tempo o que é a mesma coisa que a nossa vida? Preguiça é resistência?
Talvez um dia, em uma soneca ou em uma viagem cortaziana ao submundo do metrô, eu me esconda desse tempo e encontre minhas respostas.
Ilustração feita com exclusividade por Janis Souza.