Guia Ovelha para ser uma aliada

Arte de capa feita por Fernanda Garcia (Kissy)
A luta por respeito e direitos não é só sobre você

Chegou um Guia Ovelha necessário para qualquer um de nós. Não que os outros não sejam, mas este é um manual de instruções para ser uma pessoa mais desconstruída e com mais semancol.

O objetivo é que, depois de ler e praticar esses passos, a gente pare de universalizar vivências. Por exemplo, não é porque somos mulheres que sofremos as mesmas opressões – existem outras camadas como etnia, orientação sexual e classe social, para citar algumas. Então vamos para o primeiro passo:
 

1) Reconheça seus privilégios

Primeiramente o mais importante: não somos todos iguais. Você pode ter comido o pão que o diabo amassou na sua vida, mas se é branco sempre vai ser mais privilegiado que uma pessoa de cor. Se é cisgênero, sua existência é muito mais simples e aceita socialmente que de uma pessoa trans. Se é magro, comer em público é algo extremamente tranquilo do que para uma pessoa gorda. Se é hetero, então, nossa. A vivência da opressão e discriminação muitas vezes é sutil – uma piada, um olhar, um cochicho. Mas essas coisas tem raízes profundas na sociedade que resultam em oportunidades diferenciadas ou mesmo tolhidas.
 

2) Permita-se desconstruir ideias pré-definidas

É muito comum ver quem está começando a entender sobre questões da diversidade de gênero, sexual e racial, falar o que não deve, seja por pura ignorância, resultado do contexto social/familiar/religioso, ou pela cegueira do próprio privilégio. Como a pessoa branca dizer que sofre ou já sofreu racismo ou, como a mulher cis, dizer que uma mulher trans não é “mulher de verdade” por associar gênero à genitália. Então saiba ouvir, esteja de mente e coração aberto para a desconstrução.
 

3) Eduque-se

Ler esse texto já é um bom começo para se educar! ;) É importantíssimo se informar, ler livros, blogs e sites especializados, acompanhar a fala de representantes de movimentos sociais (como Rain Dove sobre fluidez de gênero e Stephanie Ribeiro sobre feminismo negro), enfim. Só não use seu amiguinho de Wikipedia ou dicionário, ok? É MUITO CHATO pedir informação para ganhar um argumento em uma discussão ou para explicar algo que a pessoa vive e sofre historicamente. Sabe as aulas de história? Pois é. Tem muita coisa dita e não dita na sala de aula que a gente precisa saber.
 

4) Você é um suporte, não protagonista

Não seja a pessoa que explica como é “viver o racismo” sendo branca. Por mais livros que você tenha lido, pós-graduada em [insira aqui curso de humanas] e integrante de coletivos feministas interseccionais, você nunca vai sofrer a discriminação sobre a cor da pele. Então engula o orgulho e ponha-se no seu lugar (que não é o de fala).
 

5) Entenda quando pisou na bola

Muitas vezes as micro-agressões acontecem “na inocência”. Muitas expressões populares, xingamentos, apelidos, piadas e até jeitos de falar são carregados de discriminações. Então, se chamarem a sua atenção por algo que você fez, disse ou escreveu, saiba reconhecer a cagada e PEÇA DESCULPAS. Quem se ofendeu tem TODA A RAZÃO de ficar P da vida, porque essa pessoa sofre com o preconceito e com a invisibilidade desde sempre. Rola climão, é chato e dói no nosso ego descronstruidão, mas é o certo a ser feito, sempre. Sem se explicar nem se justificar, apenas seja humilde e aprenda.
 

6) Você pode se sentir ofendido, mas isso não importa

Que raiva que dá quando cola um feministo magoado dizendo que “nem todo homem”, né? Afinal, não estamos falando de pessoas e suas individualidades, mas apontando a questão da masculinidade tóxica promovida pela sociedade patriarcal, que abençoa os caras e fode com as mulheres, não importa se o rapaz é hetero ou homossexual. Mas muitas vezes vemos as pessoas, em debates, medindo e hierarquizando opressões para se justificar. E isso tá erradíssimo. Dizer “nem todo branco” não exclui o fato de que vivemos em uma sociedade racista sustentada em privilégios brancos à custa do sofrimento histórico de pessoas de cor. Mesmo se você é um branco gay, uma feminista branca, uma trans branca. Se te magoa ouvir que todo o branco é racista, pode engolir o choro e calar a boca, pois é a verdade, não importa a sua vivência de opressões.
 

7) Treine seu olhar para a diversidade “de fachada”

Você, feminista, pode ter ficado de orelha em pé quando de repente um monte de marcas começaram a fazer campanhas e coleções “feministas”. Vimos nossa luta contra a opressão patriarcal sendo substituída por “empoderamento feminino” e frases de “girl power” e “the future is female” estampadas em bolsas e camisetas. Não que a gente não goste (a gente pode até ter “camisetas feministas” no armário), afinal é legal ver nossa causa mais visível e falada, a popularidade acaba aproximando pessoas para o movimento. Porém, é FUNDAMENTAL entender que o capitalismo se apropria de movimentos sociais para “ficar bem na fita”… e vender mais.

Com a questão da diversidade é a mesma coisa. Já reparou na quantidade de negros entre os modelos brancos nos desfiles de moda? Na maioria das vezes, não é nem metade. Muitas vezes tem apenas um, dois. E às vezes não há nenhum. Já folheou revistas e contou quantas pessoas de cor estão nas páginas dos editoriais de moda, nos anúncios? Isso também vale para pessoas gordas, PCD, trans, travestis e pessoas de gênero flúido. A sociedade estigmatiza pessoas para que a gente assuma que elas não pertencem a certos lugares.

Até hoje ouvimos que alguém foi “o primeiro negro/muçulmano/imigrante a ganhar o Emmy/Oscar/Grammy” – isso só mostra o quanto ainda estamos engatinhando como sociedade (sem contar as vezes que vemos que estamos ANDANDO PRA TRÁS). Não adianta uma marca de cosméticos fazer toda uma campanha a favor da diversidade pra depois demitir uma das suas modelos quando ela se posiciona contra o racismo institucional. Essa “diversidade doriana” é tokenismo, ou seja, usar uma pessoa pertencente a um grupo historicamente discriminado com o intuito de justificar que a empresa ou pessoa não tem preconceitos e é inclusiva. É o mesmo que se desculpar dizendo que “não é racista pois tem um amigo/namorado/parente negro”. Vamos prestar mais atenção.
 

8) Às vezes a “torta de climão” precisa ser servida

Por mais desconfortável que seja, é super importante chamar a atenção de amigos, colegas e parentes quando estes fizerem piadas preconceituosos e comentários maldosos, ou pior – se estiverem de fato discriminando alguém. Rir sem graça e mudar o assunto ou apenas ficar em silêncio só te faz cúmplice. Por isso, comentar a questão é mais do que sua obrigação. Não estamos dizendo para apontar o dedo na cara do seu tio e gritar “RACISTA!”, claro – mas dá pra dizer que você entende que ele, sendo essa “pessoa de bem” que é, pode “sem querer” estar falando ou pensando de uma forma racista. Seja claro e informativo.
 

9) Faça uso do seu privilégio para tomar atitudes

A interseccionalidade não pode existir apenas “na teoria”. Há inúmeras formas de agir. Quando Hollywood faz white washing, saiba criticar. Quando alguém aponta claramente problemas de apropriação cultural, saiba respeitar. Mas vai muito além disso. Por exemplo, se você é uma recrutadora ou dona de empresa, lembre-se de que as pessoas não tem as mesmas oportunidades nem vivem os mesmos obstáculos ao tentar uma vaga. Sempre que puder, amplie a visibilidade também para as questões que não te representam mas que precisam de apoio, divulgando notícias, artigos, textões e debates nas redes sociais.
 

10) Não fique se vangloriando por fazer o mínimo

Lembra quando a Miss Texas virou notícia por ter se oposto ao Trump ao declarar que o que rolou em Charlottesville foi um atentado terrorista provocado por uma direita facista e neonazista? Bacana, né? Porém isso tirou, de novo, o foco das próprias pessoas oprimidas que estavam endereçando o problema há muito mais tempo. A pessoa privilegiada SEMPRE vai ganhar a atenção como se legitimasse alguma coisa, e isso é terrivelmente problemático. Então não espere ninguém te dar biscoito por estar fazendo O MÍNIMO que qualquer pessoa privilegiada (branca, cis, hetero e classe média) deveria fazer.
 
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Há sempre espaço para a discussão e o aprendizado. Eu mesma não sou a dona da verdade por estar escrevendo este post, pois já cometi inúmeros erros vergonhosos por ser branca, classe média, magra e cisgênero. O passado nos condena, sim, mas o presente está aí para ser desconstruído!
 

Que saber mais, entender mais? Aqui vão alguns links:
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Arte da capa por Fernanda Garcia (Kissy).

Mais de Nina Grando

Modefica: ativismo online e offline

Toda a leitora da Ovelha deveria acompanhar o Modefica, uma plataforma que não é só mais um site de moda e lifestyle; ele tem a missão de levar um conteúdo feminista e de consciência vegana para suas leitoras.

Quando eu digo plataforma, é porque o Modefica não é só um site. O projeto se estende também por outras frentes, como um e-commerce que corresponde aos mesmos valores éticos, que vende apenas produtos veganos e que não fazem testes em animais.

Os ideais e a história do Modefica se assemelham aos da Ovelha, mas essa sinergia incrível não termina aí. Assim como eu, a fundadora e editora-chefe do Modefica é a Marina Colerato que, além de xará (meu “Nina” é só apelido), também trabalha com pesquisa de tendências. Até cabelo rosa ela teve! ♡
 

 
A Marina me convidou recentemente para participar do Modefica Offline, um evento anual que se configura numa feirinha, bate-papos e workshops que acontecem durante um final de semana, com o intuito de debater ideias e inspirar mudanças.

No próximo sábado, dia 6, vou mediar o bate-papo “A importância do ativismo online para mudanças offline“, que contará com a presença das incríveis Stephanie Ribeiro, Aline Ramos, Amara Moira e Súlivam Sena (saiba mais sobre cada uma aqui). Aproveito para fazer o convite para ver essas mulheres sensacionais no palco! Dá ainda para se inscrever nos bate-papos ;)

Conversei rapidamente com a Marina pra saber um pouco mais sobre o Modefica e, especialmente, o Modefica Offline.

Ovelha: O Modifica surgiu na mesma época que a Ovelha, e também veio pra fazer a diferença. Conta um pouco do que a levou a criar esse projeto tão importante.

Marina Colerato: O Modefica nasceu em 2014 depois de 6 anos acumulando o desejo de ver uma moda mais criativa e diversificada no Brasil. Sou formada na área e via a dificuldade de sucesso dos novos designers e estilistas, além de uma mídia de moda que só divulga produtos de marcas de luxo ou grandes marcas. Desde o Mercado Mundo Mix, nos anos 90, não tínhamos nem mais eventos autorais e independentes para unir novos criadores. Foi nos últimos 3 anos que a coisa começou a mudar, o MMM voltou e novas feiras e espaços como Jardim Secreto e Endossa foram surgindo, além da possibilidade de criar sua loja virtual e divulgar nas mídias sociais. O cenário mudou bastante nesses dois últimos anos, mas continua sendo muito difícil para quem é designer de moda/estilista.

Acrescentou-se a isso o desejo de falar de moda de maneira séria porque a indústria da moda é coisa séria. Ela emprega milhões de pessoas, vale trilhões de dólares, ao mesmo tempo que escraviza pessoas, majoritariamente mulheres, mata bilhões de animais não-humanos e polui o mundo. O Modefica veio para incentivar a criatividade na moda, mas também veio para pensar essa criatividade de maneira séria, responsável e interseccional. A moda tange várias indústrias e várias pessoas, por isso, ao falar de moda, o pensamento precisa ser amplificado e, mais uma vez, a mídia de moda só fala de tendências ou de negócios (lucros, ações e CEOs). O Modefica surgiu do desejo de humanizar a comunicação de moda para promover uma produção e consumo mais conscientes.
 
 
Ovelha: Como você acha que o Modifica, em seu ativismo online, cria mudanças offline?

Marina Colerato: Nós somos uma plataforma bastante informativa e é isso que queremos. É a informação certa que faz as pessoas repensarem. Desse repensar, vem a vontade de mudança. Da vontade, aliada às dicas que nós damos, vem a mudança de fato. É um trabalho de formiguinha, mas é assim que a gente acredita que deve ser. É claro que promovemos eventos fora da internet, como é o caso do Modefica Offline e da Mentoria Modefica, pra fortalecer esse repasse de informação e troca para além da irternet, torcendo assim pra que as mudanças aconteçam mais rápido.
 
 
Ovelha: Você poderia falar um pouco mais sobre como é a Mentoria Modefica?

Marina Colerato: Estamos notando um crescente número de mulheres empreendendo marcas de moda com cada vez mais consciência, e diversas delas com muito potencial. A Mentoria busca reforçar as chances de sucesso dessas marcas, e, ao mesmo tempo, sugerir abordagens realmente positivas e conscientes, pensando como a moda pode ser uma ferramenta de transformação socioambiental positiva.

A mentoria é gratuita e conta com convidados especiais em todos os encontros para enriquecer o diálogo. Fizemos uma edição 2016 com 8 encontros de 3 horas cada, e 2017 tem mais também. Era pra ser pontual, como uma maneira de retribuir pela mentoria que eu recebi do Think Olga (Olga Mentoring), mas tivemos muitas marcas interessadas e acreditamos que é mais uma maneira de nos posicionarmos como agente transformador. Por isso rola ano que vem de novo!
 
 
Ovelha: Já em seu primeiro ano, as leitoras do Modifica foram agraciadas com um evento que reflete todo o ideal do site, o Modifica Offline. Pra você, qual é a importância de materializar a proposta do site em um espaço físico? Como o ativismo do site é ampliado por seu evento?

Marina Colerato: Eu acredito que a maior importância, e por isso que fizemos o evento, é mostrar que na ‘vida real’ tem muita gente pensando sobre isso. Pode parecer que estamos sozinhas, mas não estamos. Há outras mulheres dividindo esse mar com a gente e o evento vem para mostrar isso para quem participa, além de promover trocas olho no olho. Além disso, da produção às convidadas, todo mundo que trabalha com a gente é mulher. Desde a segurança até a fotógrafa. É uma forma de mostrar que há mulheres capacitadas em todas as profissões. Também juntamos o empreendedorismo feminino e uma nova maneira de pensar moda dentro da nossa loja pop-up, com marcas que estão produzindo com critérios bacanas, possuem costureiras próprias, não usam materiais de origem animal, trabalham o slow fashion. E tem as rodas de conversa, com meninas debatendo temas que sempre abordamos: de melhores maneiras de produzir a novas formas de negócios. Há uma discussão sobre distúrbios alimentares, que trata da relação da mulher com o corpo, e também de beleza, sob um ponto de vista mais holístico, que fala sobre aceitação. Então o evento é um desafio, onde tentamos colocar em prática tudo sobre o que falamos o ano inteiro.

 

 
O Modefica Offline acontece nos dias 6 e 7 de agosto, é aberto ao público e tem entrada gratuita. Apenas para participas dos bate-papos e workshops é necessário fazer inscrição. Acompanhe o evento no Facebook.

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