Faz pouco mais de um ano que tive uma crise de ansiedade daquelas de revirar o estômago. Tinha a nítida sensação de que estava sendo comprimida, espremida, apertada, encurralada pela minha própria vida. Pensando agora, parecia que estava em um desenho animado, as paredes da minha casa se deslocavam rumo ao centro e eu, personagem principal, precisava de alguma forma escapar dali. A diferença do que sentia para um desenho animado é que, fora eu, ninguém podia me salvar. O sentimento de estar comprimida beirava o insuportável e tive dias carregados de lágrimas e muito desespero. Acho que essa cena de Steven Universe pode ilustrar bem…
Não é que as coisas estivessem ruins, não é como se eu estivesse vivendo grandes traumas ou grandes dramas. Estava há pouco mais de um ano trabalhando em home office com o meu marido em uma casa quarto e sala no Alto da Boavista, bairro um tanto afastado do Rio de Janeiro. Tinha meu quintal, o sol entrava pela janela de manhã, acordava de bom humor quase todo dia, duas gatas, cheiro de café, vizinhos agradáveis, visitas constantes. Mas algo não estava indo bem e as crises de ansiedade se faziam cada vez mais constantes. A cidade me oprimia violentamente e percebi que era chegada a tão esperada hora de FAZER ANÁLISE.
Dra. Barbosa, como chamo carinhosa a minha analista, é uma pessoa calma, bastante debochada e feminista. A simpatia foi instantânea e aos poucos começamos a falar dessa dor a qual ela poeticamente apelidou de “carne viva”. Como se eu estivesse sem pele, qualquer coisa me invadia, me pressionava e me deixava em estado de alerta. Fomos buscando aos poucos a causa disso, visitando memórias antigas, relações desfeitas e gatilhos. Foi entre traumas, livros e muitos litros d’água que um dia soltei, quase que sem querer: Acho que preciso de espaço.
Eu não tinha bem noção do que a palavra espaço poderia significar naquele momento, mas sabia que não era exatamente algo físico. Já contei aqui na Ovelha sobra a minha recente empreitada de só ler livros escritos por mulheres. Foi assim que cheguei ao título “Como ficar sozinho” da Sara Maitland para o pessoal da The School of Life. Faz uma semana que acabei de ler o livro e foi durante a leitura que aos poucos fui me dando conta de que esse espaço, que não era físico, também poderia ser chamado de Solidão. Na última sessão de análise, Dra. Barbosa disparou, na lata, como ela sempre faz: desde que você chegou aqui me relata essa sensação de pressão, de esgotamento, de compressão. Acho que você precisa ficar sozinha, Estela.
Saí, como sempre, meio torta e pensando nisso. É verdade. Trabalho escrevendo, sou redatora de dois blogs e redatora da minha vida online, logicamente. Costumo reclamar (amo reclamar, que fique bem claro) bastante sobre a falta de tempo para me dedicar aos meus escritos. Sou também alguém constantemente rodeada de amigos, de histórias, de relatos e cafés em grupo. Me abasteço dessas histórias para escrever meus poemas, sem elas não seria possível ser tão criativa. Mas sigo sentindo falta de algo que me tire desse estado de ansiedade que traz a sensação de que o tempo se esgota mais rápido do que eu possa prever. E cheguei à conclusão de que esse algo era mesmo a Solidão.
Outro dia perguntei a uma amiga o que havia de tão entediante nela mesma que a simples ideia de estar sozinha a deixava ansiosa. Ela não soube bem me responder, me disse que curtia estar acompanhada, que a sensação de ter alguém era confortável. Estamos constantemente rodeados de pessoas, somos seres sociais, mas por que esse receio de estar sozinha? Sara Maitland, em seu livro, faz uma breve introdução e apresenta variações da solidão ao longo do tempo, mas sempre frisando o quanto a solidão é algo estigmatizado. Não aceitamos a negativa de uma amiga que diz que não quer sair porque precisa ficar sozinha, só aceitamos caso ela diga que está ocupada, enrolada com projetos, sem dinheiro, cansada, seja lá o que for, mas estar sozinha não é um motivo suficiente para negar qualquer coisa que seja.
Ter somente a própria companhia sempre me pareceu um privilégio para poucos. Não são todas as pessoas que percebem a importância de se notar sozinhas, dar conta de si mesmas e estranhar. Depois do estranhamento, se acolher e ser generosas consigo mesmas em sua solidão. Ainda no livro, Sara Maitland conta algo curioso, que buscou ficar sozinha após se divorciar. Ela diz, num ato sincericida, que se mudou para uma casa sozinha, após a separação, para assumir o lugar da ex-esposa solitária e sofrida. O que ela não esperava era descobrir que ela mesma, Sara, era uma companhia incrível. O ato consciente e dramático de ferir seu ex-companheiro fez com que Sara se descobrisse uma potência em sua própria solidão. Atualmente, ela vive sozinha em uma casa na Escócia. O mercado mais próximo à sua casa fica a 16km de distância. Ela levou a sério o lance, se isolou e segue produzindo freneticamente.
Ela cita o livro da Virginia Woolf que surgiu de uma palestra dada a uma faculdade de mulheres escritoras (que sonho, gente), “Um teto todo seu“. Ganhei esse livro de um amigo, no dia do meu aniversário, porque ele achou a capa parecida com o meu novo cantinho de trabalho na minha casa nova. Paredes rosas, estante, mesa de trabalho, alguns quadros. Sara cita Virginia Woolf por conta de uma das frases mais marcantes do livro: “uma mulher precisa ter dinheiro e um teto todo seu, um espaço próprio, se quiser escrever ficção”. Claro que essa frase é um tanto burguesa e privilegiada, que nem todas as mulheres (eu incluída) terão essa sorte de ter dinheiro e um espaço para escrever e, mesmo assim, seguimos quebrando as expectativas de moças obedientes e escrevemos. Contra tudo e contra todos, seguimos escrevendo. Mas acho que a frase de Virginia tem um ponto sobre a solidão que precisamos encarar: o quanto abrimos mão de nosso espaço, de nosso tempo, de estar conosco mesmas, o quanto deixamos “nosso teto”, seja ele uma cafeteria ou o sofá da sala de estar, para atender à demanda social de estar entre pessoas? Principalmente à demanda social de sermos mulheres, de estar sempre disponíveis e atentas?
Tenho pensado bastante no quanto a solidão é um elemento importante na construção do nosso eu. Estar absolutamente sozinha, mesmo que em meio a muitas pessoas, como em um shopping, é uma experiência fundamental para perceber o outro. É uma experiência fundamental para desenvolver empatia, para nos tornarmos melhores observadoras, para dar conta da nossa própria dor de estar no mundo e assim entender a dor dos outros. A solidão é um espaço criativo que deveria pertencer a todos e hoje sei o quanto a falta de estar sozinha, de desfrutar de minha própria companhia, passou a me fazer mal. Precisei de um ano de terapia, algumas crises de ansiedade e mais uns vinte livros até encarar o fato de que não estar comigo mesma, como estive durante praticamente toda a minha infância e adolescência, passou a me causar problemas reais.
A solidão na infância costuma ser uma experiência quase universal entre as pessoas criativas.
– Sara Maitland
Costumo dizer que não tenho muitas memórias de infância, só aquelas que construí depois ao ouvir os relatos das minhas irmãs mais velhas e da minha mãe. Não me lembro bem, por exemplo, de longos passeios, brincadeiras em grupo, amiguinhos do pré-escolar. Não tenho memória do primeiro dia na escola, dos natais, das festas de aniversário. Mas me lembro bem nitidamente de perder muitos minutos brincando sozinha com o rádio-relógio do quarto do meu pai. Ou de brincar sozinha com os pequenos pôneis herdados das minhas irmãs. Uma das minhas memórias construídas favoritas é bem poética e já me foi contada inúmeras vezes pela minha mãe: eu, sozinha no cercado, do lado de fora da casa, enquanto ela lavava roupas. De barriga pra cima, eu me deliciava com as folhas da goiabeira se balançando ao vento nos fundos da casa. Ela costuma dizer que parecia que eu perdia o ar com o vento e o farfalhar das folhas. Tenho muito amor por essa memória tão linda que minha mãe me ajudou a construir não só pelo vento e pela poesia das folhas, mas pela sensação de solidão segura que ela me traz. Assim também foram as incontáveis manhãs montando quebra-cabeça com a minha mãe, em uma espécie de solidão acompanhada que compartilhamos em silêncio até hoje. Graças a isso, acredito eu, cultivo esse dom silencioso de escrever. A solidão criativa é minha maior herança de família.
As crianças, como os adultos, precisam de quantidades diferentes de estímulo direto, companhia, envolvimento social e isolamento. Nem você nem elas poderão saber que tipo de pessoa são se jamais puderem experimentar a solidão.
– Sara Maitland
Sigo em busca desse espaço, que não é físico, de estar sozinha sem estar solitária e, nesse momento, sozinha em meu cantinho à la Virginia Woolf, de certa forma cultivo essa solidão acompanhada ao escrever sobre estar sozinha para outras pessoas. É possível cultivar um espaço, se descobrir, se reinventar, aprender a observar, a se distanciar, mesmo que em contato com tantos interlocutores que nos rodeiam constantemente, seja física ou digitalmente. Sei também que é uma tarefa difícil se encarar sozinha depois de tanto tempo se encarando rodeada de pessoas, coisas e opiniões, mas estar sozinha é um exercício necessário e saudável. Sem estigmas, sem poréns, sem desculpas, ninguém aqui espera que você vire uma ermitã de um dia pro outro, mas acredito que estar sozinha é uma forma sincera de se amar.
Faz pouco mais de um ano que tive uma crise de ansiedade daquelas de revirar o estômago. Tinha a nítida sensação de que estava sendo comprimida, espremida, apertada, encurralada pela minha própria vida. Pensando agora, parecia que estava em um desenho animado, as paredes da minha casa se deslocavam rumo ao centro e eu, personagem principal, precisava de alguma forma escapar dali. A diferença do que sentia para um desenho animado é que, fora eu, ninguém podia me salvar. O sentimento de estar comprimida beirava o insuportável e tive dias carregados de lágrimas e muito desespero. Acho que essa cena de Steven Universe pode ilustrar bem…
Não é que as coisas estivessem ruins, não é como se eu estivesse vivendo grandes traumas ou grandes dramas. Estava há pouco mais de um ano trabalhando em home office com o meu marido em uma casa quarto e sala no Alto da Boavista, bairro um tanto afastado do Rio de Janeiro. Tinha meu quintal, o sol entrava pela janela de manhã, acordava de bom humor quase todo dia, duas gatas, cheiro de café, vizinhos agradáveis, visitas constantes. Mas algo não estava indo bem e as crises de ansiedade se faziam cada vez mais constantes. A cidade me oprimia violentamente e percebi que era chegada a tão esperada hora de FAZER ANÁLISE.
Dra. Barbosa, como chamo carinhosa a minha analista, é uma pessoa calma, bastante debochada e feminista. A simpatia foi instantânea e aos poucos começamos a falar dessa dor a qual ela poeticamente apelidou de “carne viva”. Como se eu estivesse sem pele, qualquer coisa me invadia, me pressionava e me deixava em estado de alerta. Fomos buscando aos poucos a causa disso, visitando memórias antigas, relações desfeitas e gatilhos. Foi entre traumas, livros e muitos litros d’água que um dia soltei, quase que sem querer: Acho que preciso de espaço.
Eu não tinha bem noção do que a palavra espaço poderia significar naquele momento, mas sabia que não era exatamente algo físico. Já contei aqui na Ovelha sobra a minha recente empreitada de só ler livros escritos por mulheres. Foi assim que cheguei ao título “Como ficar sozinho” da Sara Maitland para o pessoal da The School of Life. Faz uma semana que acabei de ler o livro e foi durante a leitura que aos poucos fui me dando conta de que esse espaço, que não era físico, também poderia ser chamado de Solidão. Na última sessão de análise, Dra. Barbosa disparou, na lata, como ela sempre faz: desde que você chegou aqui me relata essa sensação de pressão, de esgotamento, de compressão. Acho que você precisa ficar sozinha, Estela.
Saí, como sempre, meio torta e pensando nisso. É verdade. Trabalho escrevendo, sou redatora de dois blogs e redatora da minha vida online, logicamente. Costumo reclamar (amo reclamar, que fique bem claro) bastante sobre a falta de tempo para me dedicar aos meus escritos. Sou também alguém constantemente rodeada de amigos, de histórias, de relatos e cafés em grupo. Me abasteço dessas histórias para escrever meus poemas, sem elas não seria possível ser tão criativa. Mas sigo sentindo falta de algo que me tire desse estado de ansiedade que traz a sensação de que o tempo se esgota mais rápido do que eu possa prever. E cheguei à conclusão de que esse algo era mesmo a Solidão.
Outro dia perguntei a uma amiga o que havia de tão entediante nela mesma que a simples ideia de estar sozinha a deixava ansiosa. Ela não soube bem me responder, me disse que curtia estar acompanhada, que a sensação de ter alguém era confortável. Estamos constantemente rodeados de pessoas, somos seres sociais, mas por que esse receio de estar sozinha? Sara Maitland, em seu livro, faz uma breve introdução e apresenta variações da solidão ao longo do tempo, mas sempre frisando o quanto a solidão é algo estigmatizado. Não aceitamos a negativa de uma amiga que diz que não quer sair porque precisa ficar sozinha, só aceitamos caso ela diga que está ocupada, enrolada com projetos, sem dinheiro, cansada, seja lá o que for, mas estar sozinha não é um motivo suficiente para negar qualquer coisa que seja.
Ter somente a própria companhia sempre me pareceu um privilégio para poucos. Não são todas as pessoas que percebem a importância de se notar sozinhas, dar conta de si mesmas e estranhar. Depois do estranhamento, se acolher e ser generosas consigo mesmas em sua solidão. Ainda no livro, Sara Maitland conta algo curioso, que buscou ficar sozinha após se divorciar. Ela diz, num ato sincericida, que se mudou para uma casa sozinha, após a separação, para assumir o lugar da ex-esposa solitária e sofrida. O que ela não esperava era descobrir que ela mesma, Sara, era uma companhia incrível. O ato consciente e dramático de ferir seu ex-companheiro fez com que Sara se descobrisse uma potência em sua própria solidão. Atualmente, ela vive sozinha em uma casa na Escócia. O mercado mais próximo à sua casa fica a 16km de distância. Ela levou a sério o lance, se isolou e segue produzindo freneticamente.
Ela cita o livro da Virginia Woolf que surgiu de uma palestra dada a uma faculdade de mulheres escritoras (que sonho, gente), “Um teto todo seu“. Ganhei esse livro de um amigo, no dia do meu aniversário, porque ele achou a capa parecida com o meu novo cantinho de trabalho na minha casa nova. Paredes rosas, estante, mesa de trabalho, alguns quadros. Sara cita Virginia Woolf por conta de uma das frases mais marcantes do livro: “uma mulher precisa ter dinheiro e um teto todo seu, um espaço próprio, se quiser escrever ficção”. Claro que essa frase é um tanto burguesa e privilegiada, que nem todas as mulheres (eu incluída) terão essa sorte de ter dinheiro e um espaço para escrever e, mesmo assim, seguimos quebrando as expectativas de moças obedientes e escrevemos. Contra tudo e contra todos, seguimos escrevendo. Mas acho que a frase de Virginia tem um ponto sobre a solidão que precisamos encarar: o quanto abrimos mão de nosso espaço, de nosso tempo, de estar conosco mesmas, o quanto deixamos “nosso teto”, seja ele uma cafeteria ou o sofá da sala de estar, para atender à demanda social de estar entre pessoas? Principalmente à demanda social de sermos mulheres, de estar sempre disponíveis e atentas?
Tenho pensado bastante no quanto a solidão é um elemento importante na construção do nosso eu. Estar absolutamente sozinha, mesmo que em meio a muitas pessoas, como em um shopping, é uma experiência fundamental para perceber o outro. É uma experiência fundamental para desenvolver empatia, para nos tornarmos melhores observadoras, para dar conta da nossa própria dor de estar no mundo e assim entender a dor dos outros. A solidão é um espaço criativo que deveria pertencer a todos e hoje sei o quanto a falta de estar sozinha, de desfrutar de minha própria companhia, passou a me fazer mal. Precisei de um ano de terapia, algumas crises de ansiedade e mais uns vinte livros até encarar o fato de que não estar comigo mesma, como estive durante praticamente toda a minha infância e adolescência, passou a me causar problemas reais.
A solidão na infância costuma ser uma experiência quase universal entre as pessoas criativas.
– Sara Maitland
Costumo dizer que não tenho muitas memórias de infância, só aquelas que construí depois ao ouvir os relatos das minhas irmãs mais velhas e da minha mãe. Não me lembro bem, por exemplo, de longos passeios, brincadeiras em grupo, amiguinhos do pré-escolar. Não tenho memória do primeiro dia na escola, dos natais, das festas de aniversário. Mas me lembro bem nitidamente de perder muitos minutos brincando sozinha com o rádio-relógio do quarto do meu pai. Ou de brincar sozinha com os pequenos pôneis herdados das minhas irmãs. Uma das minhas memórias construídas favoritas é bem poética e já me foi contada inúmeras vezes pela minha mãe: eu, sozinha no cercado, do lado de fora da casa, enquanto ela lavava roupas. De barriga pra cima, eu me deliciava com as folhas da goiabeira se balançando ao vento nos fundos da casa. Ela costuma dizer que parecia que eu perdia o ar com o vento e o farfalhar das folhas. Tenho muito amor por essa memória tão linda que minha mãe me ajudou a construir não só pelo vento e pela poesia das folhas, mas pela sensação de solidão segura que ela me traz. Assim também foram as incontáveis manhãs montando quebra-cabeça com a minha mãe, em uma espécie de solidão acompanhada que compartilhamos em silêncio até hoje. Graças a isso, acredito eu, cultivo esse dom silencioso de escrever. A solidão criativa é minha maior herança de família.
As crianças, como os adultos, precisam de quantidades diferentes de estímulo direto, companhia, envolvimento social e isolamento. Nem você nem elas poderão saber que tipo de pessoa são se jamais puderem experimentar a solidão.
– Sara Maitland
Sigo em busca desse espaço, que não é físico, de estar sozinha sem estar solitária e, nesse momento, sozinha em meu cantinho à la Virginia Woolf, de certa forma cultivo essa solidão acompanhada ao escrever sobre estar sozinha para outras pessoas. É possível cultivar um espaço, se descobrir, se reinventar, aprender a observar, a se distanciar, mesmo que em contato com tantos interlocutores que nos rodeiam constantemente, seja física ou digitalmente. Sei também que é uma tarefa difícil se encarar sozinha depois de tanto tempo se encarando rodeada de pessoas, coisas e opiniões, mas estar sozinha é um exercício necessário e saudável. Sem estigmas, sem poréns, sem desculpas, ninguém aqui espera que você vire uma ermitã de um dia pro outro, mas acredito que estar sozinha é uma forma sincera de se amar.
Colagem digital feita exclusivamente por Bárbara Malagoli (Baby C)
Faz pouco mais de um ano que tive uma crise de ansiedade daquelas de revirar o estômago. Tinha a nítida sensação de que estava sendo comprimida, espremida, apertada, encurralada pela minha própria vida. Pensando agora, parecia que estava em um desenho animado, as paredes da minha casa se deslocavam rumo ao centro e eu, personagem principal, precisava de alguma forma escapar dali. A diferença do que sentia para um desenho animado é que, fora eu, ninguém podia me salvar. O sentimento de estar comprimida beirava o insuportável e tive dias carregados de lágrimas e muito desespero. Acho que essa cena de Steven Universe pode ilustrar bem…
Não é que as coisas estivessem ruins, não é como se eu estivesse vivendo grandes traumas ou grandes dramas. Estava há pouco mais de um ano trabalhando em home office com o meu marido em uma casa quarto e sala no Alto da Boavista, bairro um tanto afastado do Rio de Janeiro. Tinha meu quintal, o sol entrava pela janela de manhã, acordava de bom humor quase todo dia, duas gatas, cheiro de café, vizinhos agradáveis, visitas constantes. Mas algo não estava indo bem e as crises de ansiedade se faziam cada vez mais constantes. A cidade me oprimia violentamente e percebi que era chegada a tão esperada hora de FAZER ANÁLISE.
Dra. Barbosa, como chamo carinhosa a minha analista, é uma pessoa calma, bastante debochada e feminista. A simpatia foi instantânea e aos poucos começamos a falar dessa dor a qual ela poeticamente apelidou de “carne viva”. Como se eu estivesse sem pele, qualquer coisa me invadia, me pressionava e me deixava em estado de alerta. Fomos buscando aos poucos a causa disso, visitando memórias antigas, relações desfeitas e gatilhos. Foi entre traumas, livros e muitos litros d’água que um dia soltei, quase que sem querer: Acho que preciso de espaço.
Eu não tinha bem noção do que a palavra espaço poderia significar naquele momento, mas sabia que não era exatamente algo físico. Já contei aqui na Ovelha sobra a minha recente empreitada de só ler livros escritos por mulheres. Foi assim que cheguei ao título “Como ficar sozinho” da Sara Maitland para o pessoal da The School of Life. Faz uma semana que acabei de ler o livro e foi durante a leitura que aos poucos fui me dando conta de que esse espaço, que não era físico, também poderia ser chamado de Solidão. Na última sessão de análise, Dra. Barbosa disparou, na lata, como ela sempre faz: desde que você chegou aqui me relata essa sensação de pressão, de esgotamento, de compressão. Acho que você precisa ficar sozinha, Estela.
Saí, como sempre, meio torta e pensando nisso. É verdade. Trabalho escrevendo, sou redatora de dois blogs e redatora da minha vida online, logicamente. Costumo reclamar (amo reclamar, que fique bem claro) bastante sobre a falta de tempo para me dedicar aos meus escritos. Sou também alguém constantemente rodeada de amigos, de histórias, de relatos e cafés em grupo. Me abasteço dessas histórias para escrever meus poemas, sem elas não seria possível ser tão criativa. Mas sigo sentindo falta de algo que me tire desse estado de ansiedade que traz a sensação de que o tempo se esgota mais rápido do que eu possa prever. E cheguei à conclusão de que esse algo era mesmo a Solidão.
[caption id="attachment_11549" align="aligncenter" width="462"] Ilustração por Carina Barros[/caption]
Outro dia perguntei a uma amiga o que havia de tão entediante nela mesma que a simples ideia de estar sozinha a deixava ansiosa. Ela não soube bem me responder, me disse que curtia estar acompanhada, que a sensação de ter alguém era confortável. Estamos constantemente rodeados de pessoas, somos seres sociais, mas por que esse receio de estar sozinha? Sara Maitland, em seu livro, faz uma breve introdução e apresenta variações da solidão ao longo do tempo, mas sempre frisando o quanto a solidão é algo estigmatizado. Não aceitamos a negativa de uma amiga que diz que não quer sair porque precisa ficar sozinha, só aceitamos caso ela diga que está ocupada, enrolada com projetos, sem dinheiro, cansada, seja lá o que for, mas estar sozinha não é um motivo suficiente para negar qualquer coisa que seja.
Ter somente a própria companhia sempre me pareceu um privilégio para poucos. Não são todas as pessoas que percebem a importância de se notar sozinhas, dar conta de si mesmas e estranhar. Depois do estranhamento, se acolher e ser generosas consigo mesmas em sua solidão. Ainda no livro, Sara Maitland conta algo curioso, que buscou ficar sozinha após se divorciar. Ela diz, num ato sincericida, que se mudou para uma casa sozinha, após a separação, para assumir o lugar da ex-esposa solitária e sofrida. O que ela não esperava era descobrir que ela mesma, Sara, era uma companhia incrível. O ato consciente e dramático de ferir seu ex-companheiro fez com que Sara se descobrisse uma potência em sua própria solidão. Atualmente, ela vive sozinha em uma casa na Escócia. O mercado mais próximo à sua casa fica a 16km de distância. Ela levou a sério o lance, se isolou e segue produzindo freneticamente.
Ela cita o livro da Virginia Woolf que surgiu de uma palestra dada a uma faculdade de mulheres escritoras (que sonho, gente), “Um teto todo seu“. Ganhei esse livro de um amigo, no dia do meu aniversário, porque ele achou a capa parecida com o meu novo cantinho de trabalho na minha casa nova. Paredes rosas, estante, mesa de trabalho, alguns quadros. Sara cita Virginia Woolf por conta de uma das frases mais marcantes do livro: “uma mulher precisa ter dinheiro e um teto todo seu, um espaço próprio, se quiser escrever ficção”. Claro que essa frase é um tanto burguesa e privilegiada, que nem todas as mulheres (eu incluída) terão essa sorte de ter dinheiro e um espaço para escrever e, mesmo assim, seguimos quebrando as expectativas de moças obedientes e escrevemos. Contra tudo e contra todos, seguimos escrevendo. Mas acho que a frase de Virginia tem um ponto sobre a solidão que precisamos encarar: o quanto abrimos mão de nosso espaço, de nosso tempo, de estar conosco mesmas, o quanto deixamos “nosso teto”, seja ele uma cafeteria ou o sofá da sala de estar, para atender à demanda social de estar entre pessoas? Principalmente à demanda social de sermos mulheres, de estar sempre disponíveis e atentas?
Tenho pensado bastante no quanto a solidão é um elemento importante na construção do nosso eu. Estar absolutamente sozinha, mesmo que em meio a muitas pessoas, como em um shopping, é uma experiência fundamental para perceber o outro. É uma experiência fundamental para desenvolver empatia, para nos tornarmos melhores observadoras, para dar conta da nossa própria dor de estar no mundo e assim entender a dor dos outros. A solidão é um espaço criativo que deveria pertencer a todos e hoje sei o quanto a falta de estar sozinha, de desfrutar de minha própria companhia, passou a me fazer mal. Precisei de um ano de terapia, algumas crises de ansiedade e mais uns vinte livros até encarar o fato de que não estar comigo mesma, como estive durante praticamente toda a minha infância e adolescência, passou a me causar problemas reais.
A solidão na infância costuma ser uma experiência quase universal entre as pessoas criativas.
– Sara Maitland
Costumo dizer que não tenho muitas memórias de infância, só aquelas que construí depois ao ouvir os relatos das minhas irmãs mais velhas e da minha mãe. Não me lembro bem, por exemplo, de longos passeios, brincadeiras em grupo, amiguinhos do pré-escolar. Não tenho memória do primeiro dia na escola, dos natais, das festas de aniversário. Mas me lembro bem nitidamente de perder muitos minutos brincando sozinha com o rádio-relógio do quarto do meu pai. Ou de brincar sozinha com os pequenos pôneis herdados das minhas irmãs. Uma das minhas memórias construídas favoritas é bem poética e já me foi contada inúmeras vezes pela minha mãe: eu, sozinha no cercado, do lado de fora da casa, enquanto ela lavava roupas. De barriga pra cima, eu me deliciava com as folhas da goiabeira se balançando ao vento nos fundos da casa. Ela costuma dizer que parecia que eu perdia o ar com o vento e o farfalhar das folhas. Tenho muito amor por essa memória tão linda que minha mãe me ajudou a construir não só pelo vento e pela poesia das folhas, mas pela sensação de solidão segura que ela me traz. Assim também foram as incontáveis manhãs montando quebra-cabeça com a minha mãe, em uma espécie de solidão acompanhada que compartilhamos em silêncio até hoje. Graças a isso, acredito eu, cultivo esse dom silencioso de escrever. A solidão criativa é minha maior herança de família.
As crianças, como os adultos, precisam de quantidades diferentes de estímulo direto, companhia, envolvimento social e isolamento. Nem você nem elas poderão saber que tipo de pessoa são se jamais puderem experimentar a solidão.
– Sara Maitland
Sigo em busca desse espaço, que não é físico, de estar sozinha sem estar solitária e, nesse momento, sozinha em meu cantinho à la Virginia Woolf, de certa forma cultivo essa solidão acompanhada ao escrever sobre estar sozinha para outras pessoas. É possível cultivar um espaço, se descobrir, se reinventar, aprender a observar, a se distanciar, mesmo que em contato com tantos interlocutores que nos rodeiam constantemente, seja física ou digitalmente. Sei também que é uma tarefa difícil se encarar sozinha depois de tanto tempo se encarando rodeada de pessoas, coisas e opiniões, mas estar sozinha é um exercício necessário e saudável. Sem estigmas, sem poréns, sem desculpas, ninguém aqui espera que você vire uma ermitã de um dia pro outro, mas acredito que estar sozinha é uma forma sincera de se amar.
Conheci a Matilde Campilho quando, em uma quinta-feira qualquer, fui trabalhar na casa de uma das minhas grandes amigas da vida, a Bianca. Sim, nós duas nos reunimos algumas vezes para compartilhar o dia de homeoffice e curtir a companhia. Nessa quinta-feira fatídica, falávamos sobre poemas, sobre minha trava em escrever, sobre músicas e, em um dado momento, a Bianca disse: você precisa conhecer a Matilde. Sim, eu precisava mesmo. Precisava muito. Foi um daqueles conselhos que só uma grande amiga pode dar. E te amo mais por isso, Bianca.
Ela me emprestou sua edição autografada de Jóquei (a Bianca é amiga da Matilde ~choro e ranger de dentes~), uma lindíssima edição portuguesa da Tinta da China, editora que mora no meu coração. A única coisa que Bianca havia dito sobre Matilde Campilho era que ela é portuguesa e que é uma mulher incrível. E ela é, gente, ela é. Matilde é uma poeta capaz de fazer um livro inteiro de poemas para o amor, para a vida e para todo mundo se entregar. São VII partes, 132 páginas de pura poesia portuguesa.
E lá fui eu, mergulhei naquele livro, como em tantos outros. Confesso que esperava que esse mergulho fosse tranquilo, mas não foi. São selvagens e doces as águas em que Matilde navega, mas com tamanha fluidez e tamanha intensidade que chega a impressionar. Ela consegue ir de um ponto a outro, do quente ao frio, com tanta desenvoltura que é impossível não se apaixonar. Cada novo poema, um novo arrepio, sequencialmente. As palavras que Matilde escolhe são simples, mas combinadas em uma potência enorme. Ela se utiliza de cenários comuns, situações normais, para fazer brotar ali a poesia do dia a dia.
O último poema do último príncipe
Era capaz de atravessar a cidade em bicicleta para te ver dançar.
E isso
diz muito sobre minha caixa torácica.
– Matilde Campilho
Dentro do dia a dia contado por Matilde Campilho, se espalha o amor. Não aquele amor limpo e belo, sem rachaduras, mas sim aquele amor que se expande a cada novo contato, a cada nova visão, um amor que se abre em feridas e ondas, que se trata de passado vivido intensamente nas memórias da poeta. A verdade é que a cada poema que lia, me emocionava mais, a ponto de, por vezes, sacudir a cabeça em sinal negativo, aquela dificuldade de acreditar que foi possível existir uma combinação de palavras tão perfeitas.
M
Porque tinha sal em minhas pestanas, porque existe um salmão dourado onde o amor sempre dança, porque a ideia de ir até o mar de metrô era a oração que nos fazia ficar acordados até de manhã, porque há um osso se estilhaçando constantemente dentro das paredes mestras e nós já sabíamos isso, porque a paixão não é de todo a coisa mais importante mas é sim o canudinho através do qual dá pra ver que o mundo é muito feito de construções de papel-celulose que vem da árvore e que depois se transforma em lista telefónica de onde alguém arranca a página e logo transforma em veleiros e montanhas.
Talvez porque na porta do restaurante habitual alguém toca clarinete ao sol, porque até as ruínas podemos amar nesta cidade, porque eu tenho um olho em você e você tem um dedo em mim, porque para chegar no telhado do aqueduto é preciso percorrer a estreita escadaria de pedra e é impossível não esfregar as costas nas paredes húmidas. Porque atingir o ponto de rebuçado significa simplesmente abandonar todas as coisas e dedicar-se só à concentração, mesmo que todasascoisas sejam um olho preto e um olho castanho e sua dissociação seja a possível causa para a avalanche.
Porque a palavra Bushboy não existia até aqui mas agora sim, porque fazer equilibrismo sobre a corda amarela dentro do apartamento é tudo o que já imaginávamos que ia ser, mesmo antes de acontecer. Porque no interior do pulmão do cervo tem carne que brilha, brilha tanto como o sol que se espelha na ponta da seta. Porque acreditamos, você e eu, que a razão final é que a erva cresça muito acima de nossas cabeças.
– Matilde Campilho
Além de uma escrita super maravilhosa (já deu pra perceber meu amor, né?), Matilde também leva alcunha de poeta nômade. Lisboeta de nascimento e carioca de coração, ela se divide entre Portugal e Brasil, o que acabou causando uma mistura de sotaques que deixa tudo ainda mais encantador. Aliás, não satisfeita em escrever bem, Matilde Campilho também é uma ótima leitora de poesia e faz vários vídeos onde lê seus próprios poemas. Meu favorito tem trilha sonora da Bianca, sim, a minha grande amiga que foi a causa desse amor.
O livro da Matilde, lançado em 2014 em Portugal, já saiu aqui no Brasil pela Editora 34, numa edição básica que me faz sentir falta da edição portuguesa tão linda. Mas, como o que importa mesmo é o texto, tá valendo! Se quiserem seguir a Matilde, além do seu canal do YouTube com vídeos lindos, ela também divide um programa chamado Pingue Pongue, na rádio Antena 3, com Tomás Cunha Ferreira, que dá pra ouvir aqui.
Vou deixar mais um pedacinho de poema da Matilde aqui. Porque sim. Porque ela me emocionou e me emociona tanto que me fez escrever mais poemas. Obrigada, Matilde, por essa sorte que é dividir um mundo com você.
Ainda estou sem saber como é que se faz um poema mas pelo menos já sei dobrar a roupa.
Não é que as coisas estivessem ruins, não é como se eu estivesse vivendo grandes traumas ou grandes dramas. Estava há pouco mais de um ano trabalhando em home office com o meu marido em uma casa quarto e sala no Alto da Boavista, bairro um tanto afastado do Rio de Janeiro. Tinha meu quintal, o sol entrava pela janela de manhã, acordava de bom humor quase todo dia, duas gatas, cheiro de café, vizinhos agradáveis, visitas constantes. Mas algo não estava indo bem e as crises de ansiedade se faziam cada vez mais constantes. A cidade me oprimia violentamente e percebi que era chegada a tão esperada hora de FAZER ANÁLISE.
Dra. Barbosa, como chamo carinhosa a minha analista, é uma pessoa calma, bastante debochada e feminista. A simpatia foi instantânea e aos poucos começamos a falar dessa dor a qual ela poeticamente apelidou de “carne viva”. Como se eu estivesse sem pele, qualquer coisa me invadia, me pressionava e me deixava em estado de alerta. Fomos buscando aos poucos a causa disso, visitando memórias antigas, relações desfeitas e gatilhos. Foi entre traumas, livros e muitos litros d’água que um dia soltei, quase que sem querer: Acho que preciso de espaço.
Eu não tinha bem noção do que a palavra espaço poderia significar naquele momento, mas sabia que não era exatamente algo físico. Já contei aqui na Ovelha sobra a minha recente empreitada de só ler livros escritos por mulheres. Foi assim que cheguei ao título “Como ficar sozinho” da Sara Maitland para o pessoal da The School of Life. Faz uma semana que acabei de ler o livro e foi durante a leitura que aos poucos fui me dando conta de que esse espaço, que não era físico, também poderia ser chamado de Solidão. Na última sessão de análise, Dra. Barbosa disparou, na lata, como ela sempre faz: desde que você chegou aqui me relata essa sensação de pressão, de esgotamento, de compressão. Acho que você precisa ficar sozinha, Estela.
Saí, como sempre, meio torta e pensando nisso. É verdade. Trabalho escrevendo, sou redatora de dois blogs e redatora da minha vida online, logicamente. Costumo reclamar (amo reclamar, que fique bem claro) bastante sobre a falta de tempo para me dedicar aos meus escritos. Sou também alguém constantemente rodeada de amigos, de histórias, de relatos e cafés em grupo. Me abasteço dessas histórias para escrever meus poemas, sem elas não seria possível ser tão criativa. Mas sigo sentindo falta de algo que me tire desse estado de ansiedade que traz a sensação de que o tempo se esgota mais rápido do que eu possa prever. E cheguei à conclusão de que esse algo era mesmo a Solidão.
Outro dia perguntei a uma amiga o que havia de tão entediante nela mesma que a simples ideia de estar sozinha a deixava ansiosa. Ela não soube bem me responder, me disse que curtia estar acompanhada, que a sensação de ter alguém era confortável. Estamos constantemente rodeados de pessoas, somos seres sociais, mas por que esse receio de estar sozinha? Sara Maitland, em seu livro, faz uma breve introdução e apresenta variações da solidão ao longo do tempo, mas sempre frisando o quanto a solidão é algo estigmatizado. Não aceitamos a negativa de uma amiga que diz que não quer sair porque precisa ficar sozinha, só aceitamos caso ela diga que está ocupada, enrolada com projetos, sem dinheiro, cansada, seja lá o que for, mas estar sozinha não é um motivo suficiente para negar qualquer coisa que seja.
Ter somente a própria companhia sempre me pareceu um privilégio para poucos. Não são todas as pessoas que percebem a importância de se notar sozinhas, dar conta de si mesmas e estranhar. Depois do estranhamento, se acolher e ser generosas consigo mesmas em sua solidão. Ainda no livro, Sara Maitland conta algo curioso, que buscou ficar sozinha após se divorciar. Ela diz, num ato sincericida, que se mudou para uma casa sozinha, após a separação, para assumir o lugar da ex-esposa solitária e sofrida. O que ela não esperava era descobrir que ela mesma, Sara, era uma companhia incrível. O ato consciente e dramático de ferir seu ex-companheiro fez com que Sara se descobrisse uma potência em sua própria solidão. Atualmente, ela vive sozinha em uma casa na Escócia. O mercado mais próximo à sua casa fica a 16km de distância. Ela levou a sério o lance, se isolou e segue produzindo freneticamente.
Ela cita o livro da Virginia Woolf que surgiu de uma palestra dada a uma faculdade de mulheres escritoras (que sonho, gente), “Um teto todo seu“. Ganhei esse livro de um amigo, no dia do meu aniversário, porque ele achou a capa parecida com o meu novo cantinho de trabalho na minha casa nova. Paredes rosas, estante, mesa de trabalho, alguns quadros. Sara cita Virginia Woolf por conta de uma das frases mais marcantes do livro: “uma mulher precisa ter dinheiro e um teto todo seu, um espaço próprio, se quiser escrever ficção”. Claro que essa frase é um tanto burguesa e privilegiada, que nem todas as mulheres (eu incluída) terão essa sorte de ter dinheiro e um espaço para escrever e, mesmo assim, seguimos quebrando as expectativas de moças obedientes e escrevemos. Contra tudo e contra todos, seguimos escrevendo. Mas acho que a frase de Virginia tem um ponto sobre a solidão que precisamos encarar: o quanto abrimos mão de nosso espaço, de nosso tempo, de estar conosco mesmas, o quanto deixamos “nosso teto”, seja ele uma cafeteria ou o sofá da sala de estar, para atender à demanda social de estar entre pessoas? Principalmente à demanda social de sermos mulheres, de estar sempre disponíveis e atentas?
Tenho pensado bastante no quanto a solidão é um elemento importante na construção do nosso eu. Estar absolutamente sozinha, mesmo que em meio a muitas pessoas, como em um shopping, é uma experiência fundamental para perceber o outro. É uma experiência fundamental para desenvolver empatia, para nos tornarmos melhores observadoras, para dar conta da nossa própria dor de estar no mundo e assim entender a dor dos outros. A solidão é um espaço criativo que deveria pertencer a todos e hoje sei o quanto a falta de estar sozinha, de desfrutar de minha própria companhia, passou a me fazer mal. Precisei de um ano de terapia, algumas crises de ansiedade e mais uns vinte livros até encarar o fato de que não estar comigo mesma, como estive durante praticamente toda a minha infância e adolescência, passou a me causar problemas reais.
A solidão na infância costuma ser uma experiência quase universal entre as pessoas criativas.
– Sara Maitland
Costumo dizer que não tenho muitas memórias de infância, só aquelas que construí depois ao ouvir os relatos das minhas irmãs mais velhas e da minha mãe. Não me lembro bem, por exemplo, de longos passeios, brincadeiras em grupo, amiguinhos do pré-escolar. Não tenho memória do primeiro dia na escola, dos natais, das festas de aniversário. Mas me lembro bem nitidamente de perder muitos minutos brincando sozinha com o rádio-relógio do quarto do meu pai. Ou de brincar sozinha com os pequenos pôneis herdados das minhas irmãs. Uma das minhas memórias construídas favoritas é bem poética e já me foi contada inúmeras vezes pela minha mãe: eu, sozinha no cercado, do lado de fora da casa, enquanto ela lavava roupas. De barriga pra cima, eu me deliciava com as folhas da goiabeira se balançando ao vento nos fundos da casa. Ela costuma dizer que parecia que eu perdia o ar com o vento e o farfalhar das folhas. Tenho muito amor por essa memória tão linda que minha mãe me ajudou a construir não só pelo vento e pela poesia das folhas, mas pela sensação de solidão segura que ela me traz. Assim também foram as incontáveis manhãs montando quebra-cabeça com a minha mãe, em uma espécie de solidão acompanhada que compartilhamos em silêncio até hoje. Graças a isso, acredito eu, cultivo esse dom silencioso de escrever. A solidão criativa é minha maior herança de família.
As crianças, como os adultos, precisam de quantidades diferentes de estímulo direto, companhia, envolvimento social e isolamento. Nem você nem elas poderão saber que tipo de pessoa são se jamais puderem experimentar a solidão.
– Sara Maitland
Sigo em busca desse espaço, que não é físico, de estar sozinha sem estar solitária e, nesse momento, sozinha em meu cantinho à la Virginia Woolf, de certa forma cultivo essa solidão acompanhada ao escrever sobre estar sozinha para outras pessoas. É possível cultivar um espaço, se descobrir, se reinventar, aprender a observar, a se distanciar, mesmo que em contato com tantos interlocutores que nos rodeiam constantemente, seja física ou digitalmente. Sei também que é uma tarefa difícil se encarar sozinha depois de tanto tempo se encarando rodeada de pessoas, coisas e opiniões, mas estar sozinha é um exercício necessário e saudável. Sem estigmas, sem poréns, sem desculpas, ninguém aqui espera que você vire uma ermitã de um dia pro outro, mas acredito que estar sozinha é uma forma sincera de se amar.