Há um mês, eu estava no tinder quando dei match com um cara de 29 anos que era exatamente meu tipo (atraente de um modo discreto, olhos e cabelos escuros, desajustado na medida certa).
Então eu li sua biografia.
Deus do céu, pensei imediatamente. Que erro terrível. Esse homem não é nem um pouco Meu Tipo. Ele gosta de fazer atividades ao ar livre e aquelas típicas Coisas de Caras, como carros e escalada. Eu sou uma garota que só gosta de sair se for para restaurantes e hotéis com luxuosos banheiros onde você pode tirar selfies. Mesmo deixando de lado essa incompatibilidade, o resto da sua biografia era tão… boba: um resumo de todas as coisas que dizem para evitar em sites de encontros. Odiei imediatamente, porque era descaradamente sincero, sorridente e animado, o oposto do meu tipo de humor. Eu odiei até seu nome. Vamos chamá-lo de Evan, que é um nome tão brando, agradável e sem graça quanto seu nome verdadeiro.
Quando ele começou a me mandar mensagens, eu rapidamente descobri que sua personalidade era exatamente como sua bio o descrevia. Ele escrevia longas mensagens perguntando sobre mim e me contando coisas sobre ele – nenhuma deles muito interessante. Evan era um engenheiro, um emprego que eu acho particularmente chato. Evan gostava de assistir esportes. Minha indiferença por esportes se transformou em um desgosto após um ex-namorado me forçar a assistir um jogo de futebol atrás do outro.
No entanto, Evan continuava falando e eu continuei respondendo. Porque não havia nada de errado com ele. Ele era um cara de confiança, um solid dude. Não era cruel, não era insistente, não era agressivo, não era arrogante: uma série de qualidades raras no tinder e, na verdade, raras na vida real. Por essa razão, resolvi encontrá-lo.
Eu não me desapontei. Na vida real, Evan foi tão sensível quanto parecia online e também tão comum quanto demonstrava ser.
*
Não vou me sentar aqui e dizer que o homem dos meus sonhos não é real. Eu conheci o homem dos meus sonhos, o homem que tem cada uma das qualidades dessa lista. Na verdade, eu me relacionei com o homem dos meus sonhos. Eu saí com ele várias vezes. Várias versões desse mesmo homem, na verdade.
O homem dos meus sonhos constantemente mudava de ideia sobre seus sentimentos por mim, várias vezes lançando afirmações ligeiramente charmosas como “Você poderia ser, talvez, você poderia ser a garota que vai arruinar minha vida”. O homem dos meus sonhos nunca me escrevia algo entediante. O homem dos meus sonhos não entendia moderação e passava sua vida bebendo só um pouco demais e fumando só um pouco demais. O homem dos meus sonhos era inquieto demais para acordar às sete da manhã e se comprometer com seu emprego entediante, mas estável. O homem dos meus sonhos não dormia por dias, então aparecia na minha porta porque ele apenas TINHA que me ver no meio da noite. O homem dos meus sonhos pegava um ônibus para Nova Iorque sempre que ele tinha vontade. O homem dos meus sonhos estava sempre indeciso sobre seu futuro, seu presente e passado. O homem dos meus sonhos não tinha um relacionamento com seus parentes e não se importava com isso. O homem dos meus sonhos me desprezava sempre que sentia vontade, às vezes através de mensagens. O homem dos meus sonhos não sentia necessidade de me avisar quando decidia desaparecer da minha vida. Esse é o problema. As coisas que eu quero não são como as coisas que eu pensava que queria, as coisas que nos dizem que nós queremos. Eu era essencialmente e profundamente incompatível com o homem dos meus sonhos.
Evan não é o homem dos meus sonhos. Ele é apenas um cara estável. E quanto mais eu ia a encontros com ele (sim, ele sempre chamava de encontros, ele não assumia um tom casual para o que estávamos fazendo), mais começava a perceber que, apesar dele não ter aquele charme afiado que eu buscava, ele era capaz de atender completamente as minhas demandas emocionais. Evan nunca me deixou intrigada sobre seus sentimentos; ele nunca esqueceu de me perguntar como eu estava. O que lhe faltava em mistério, ele compensava em doçura. Ele já havia se comprometido com outras mulheres, então ele poderia se comprometer comigo. Ele não era impulsivo, o que significa que ele também não era o tipo que decidia me abandonar sem me dar um aviso. Ele nunca dizia algo bonito ou vago como “Você poderia ser a garota que vai arruinar minha vida”, porque Evan não lidava com esse tipo de impulsividade. Ele era muito certo do que sentia. Sei que nada disso parece ser atrativo, mas se você é uma garota e está lendo isso, você entende quão raro é encontrar alguém que tem certeza do que sente. Longe de ser comum, Evan era raro.
Sim, éramos muito diferentes, mas eu aprendi a gostar dessa diferença. Evan nunca me fez assistir esportes com ele, ou reclamou quando eu demorei anos para me arrumar. Ele fazia suas coisas e eu fazia as minhas. Ele achava que eu era legal e interessante, cheia de humor e carisma, então eu me sentia assim perto dele, porque ele nunca estava distante ou indiferente. Com ele, eu me sentia uma pessoa impressionante.
Eu sempre me vi casando com outro escritor, levando uma vida no estilo de Scott e Zelda Fitzgerald, e, sendo muito sincera, isso ainda me parece maravilhoso. Porém, percebi que eu poderia ser completamente feliz casada com um cara que não entende tudo que eu amo, que chega em casa de seu trabalho entediante e diz “Como foi seu dia, querida?”.
Veja, não estou te dizendo para dar uma chance a cada cara sem graça do tinder. Também não estou dizendo que caras interessantes são babacas que nunca vão se comprometer com você. O que estou dizendo é: saiba o que é realmente importante para você.
O que Evan me ensinou durante o tempo em que estivemos juntos foi que as coisas que eu preciso são firmeza, comprometimento e entusiasmo. Eu não estou em um estágio da minha vida em que quero mover montanhas para ser a maior fã de um cara, para brilhar um pouco menos porque ele suga toda a luz de um lugar. Eu preciso estar com um homem que diz “eu não brilho se você não brilhar”.
Evan me ensinou que eu estava fazendo todas as perguntas erradas sobres parceiros românticos em potencial. Você acorda e vai trabalhar todos os dias e você se dedica pacientemente e gentilmente ainda que seja só um trabalho medíocre? Isso é real pra caralho. Você é uma artista, mas você está apaixonada pelo processo e não pelo estilo de vida? Isso é real pra caralho. Você gosta de coisas que eu não gosto, mas você me permite ter meu espaço? Isso é real pra caralho.
Mais importante, você é um cara em que eu possa confiar?
Eu e várias amigas recomendamos esse texto no Medium. Tenho pensado muito sobre as coisas com as quais nos identificamos, nos poemas, imagens e desabafos que nos acolhem. Às vezes acho que nem gostaríamos tanto assim de concordar – tenho várias críticas a esse artigo, principalmente no que diz respeito ao egocentrismo perturbador da autora -, mas o alívio de não estarmos sós é irresistível. Se identificar com esse tipo de relato significa descobrirmos que as feridas que salgamos com apatia e desconfiança não são um defeito individual. Isso nos poupa da culpa – sentimento sempre enormemente presente nos papéis do nosso gênero – e também um tanto de responsabilidade.
O que mais me chama atenção é um padrão nas falas nas quais nos enxergamos. Estamos todas exaustas, cínicas, indispostas para apostar qualquer fagulha de desconforto em um compromisso com o outro. Há também um modelo preciso para carregar essa ferida, afinal, nós somos feministas e empoderadas. A gente não cabe mais na vulnerabilidade, porque aprendemos que isso significa um risco mortal. Então, nos resta ser duras. A ferida que é um rasgo, uma abertura, em nós é casco. Calejadas em nossas resistências não ousamos mais sofrer, não damos conta economicamente, na nossa idade dinheiro e sentimento já se misturam. Ser firme e inteira, manter essa postura diariamente, às vezes tem um peso cruel.
Às vezes eu acho que o feminismo ainda não é capaz de nos liberar para sermos simplesmente humanas, em toda fragilidade e erro que significa essa condição. Às vezes não queria mais me ocupar de estar certa e só chorar, em praça pública, em braços cheios de afeto e incoerência.
*
Eu me encontro neste texto, como muitas mulheres, porque finalmente aprendo a não romantizar a dor e a questionar o que considerava atraente. Hoje, de fato, vejo que não há nada de interessante em um cara arrogante que não consegue dar conta de sua vida e usa justificativas patéticas para isso. Hoje eu não tolero mais quem acha que depressão, ansiedade ou qualquer limite psicológico é charmosinho. E isso é importante. Pedir um amor que não passe por aí é importante. Se deixar ser amada também.
Mas e quanto o que eu amo? O que me incomoda nesse texto é uma domesticação dos nossos afetos. Eu não quero acreditar que o máximo que posso pedir de um homem com quem me envolvo romanticamente é comprometimento. Ainda que isso seja raro. Parece que quando nos dão o que é simplesmente a coisa mais básica de um relacionamento, respeito, estão fazendo algo de extraordinário. Eu não quero achar um cara incrível só porque ele me trata bem. Isso soa ruim. E talvez seja. Mas não é possível pedir um pouco mais? Não é possível algo além dessas duas posições, amar alguém e sofrer ou eu ser amada e morrer de tédio?
Eu sei que a autora tenta apostar em uma solução para isso. Mas não há a palavra amor nesse texto. Há comprometimento e conciliação de interesses, não há afetos que vão além dos planos.
Eu também acho que a pessoa que amamos não precisa estar em concordância com todos os aspectos de nossa vida, não precisa gostar de tudo que gostamos e até mesmo entender totalmente quem somos. Mas se não há brilho no olho, tesão e vontade eu me pergunto para quê uma relação? Estar com alguém só porque ela faz com que eu me sinta admirável é algo meio triste e desonesto. Se for por aí eu tenho relacionamentos em que essa sensação é recíproca e mantida por trocas, afetos e compromissos gigantes. Eu tenho as minhas amigas, pessoas que estiveram e vão estar presentes nos mais diferentes eventos da minha vida. Eu não acredito em relacionamentos que tem a conveniência e a estabilidade como motor. Talvez eu seja só muito romântica ou talvez eu goste mais da minha solidão do que de qualquer companhia.
Por fim, eu acredito que esse texto é construído com uma perspectiva perigosa que o feminismo contemporâneo (de internet) nos traz: precisamos tanto reconstruir nossas autoestimas e assegurar nosso amor próprio que não conseguimos praticar a autocrítica. É, sim, urgente que as mulheres se achem maravilhosas e que digam isso para si mesmas e suas amigas. É, sim, urgente que nós aprendamos a amar de outra forma que não abusiva. É fundamental que nós estejamos finalmente repudiando as dinâmicas machistas que são a base de tantos relacionamentos românticos. Mas é preciso fazer isso sem perder de vista que somos humanas, não somos modelos de empoderamento, nós erramos, nós estamos vulneráveis o tempo todo, nós temos responsabilidade. Acho que só por aí que é possível acreditar de novo em formas de amar – principalmente se você é uma mulher heterossexual ou bissexual que se relaciona com homens. A possibilidade de existir com o outro – e não pelo o outro – só é possível através de uma noção de feminismo que não seja sobre estarmos sempre certas, mas, sim, sobre termos agência e autonomia para construir novas formas de vida e de relacionamentos.
Há um mês, eu estava no tinder quando dei match com um cara de 29 anos que era exatamente meu tipo (atraente de um modo discreto, olhos e cabelos escuros, desajustado na medida certa).
Então eu li sua biografia.
Deus do céu, pensei imediatamente. Que erro terrível. Esse homem não é nem um pouco Meu Tipo. Ele gosta de fazer atividades ao ar livre e aquelas típicas Coisas de Caras, como carros e escalada. Eu sou uma garota que só gosta de sair se for para restaurantes e hotéis com luxuosos banheiros onde você pode tirar selfies. Mesmo deixando de lado essa incompatibilidade, o resto da sua biografia era tão… boba: um resumo de todas as coisas que dizem para evitar em sites de encontros. Odiei imediatamente, porque era descaradamente sincero, sorridente e animado, o oposto do meu tipo de humor. Eu odiei até seu nome. Vamos chamá-lo de Evan, que é um nome tão brando, agradável e sem graça quanto seu nome verdadeiro.
Quando ele começou a me mandar mensagens, eu rapidamente descobri que sua personalidade era exatamente como sua bio o descrevia. Ele escrevia longas mensagens perguntando sobre mim e me contando coisas sobre ele – nenhuma deles muito interessante. Evan era um engenheiro, um emprego que eu acho particularmente chato. Evan gostava de assistir esportes. Minha indiferença por esportes se transformou em um desgosto após um ex-namorado me forçar a assistir um jogo de futebol atrás do outro.
No entanto, Evan continuava falando e eu continuei respondendo. Porque não havia nada de errado com ele. Ele era um cara de confiança, um solid dude. Não era cruel, não era insistente, não era agressivo, não era arrogante: uma série de qualidades raras no tinder e, na verdade, raras na vida real. Por essa razão, resolvi encontrá-lo.
Eu não me desapontei. Na vida real, Evan foi tão sensível quanto parecia online e também tão comum quanto demonstrava ser.
*
Não vou me sentar aqui e dizer que o homem dos meus sonhos não é real. Eu conheci o homem dos meus sonhos, o homem que tem cada uma das qualidades dessa lista. Na verdade, eu me relacionei com o homem dos meus sonhos. Eu saí com ele várias vezes. Várias versões desse mesmo homem, na verdade.
O homem dos meus sonhos constantemente mudava de ideia sobre seus sentimentos por mim, várias vezes lançando afirmações ligeiramente charmosas como “Você poderia ser, talvez, você poderia ser a garota que vai arruinar minha vida”. O homem dos meus sonhos nunca me escrevia algo entediante. O homem dos meus sonhos não entendia moderação e passava sua vida bebendo só um pouco demais e fumando só um pouco demais. O homem dos meus sonhos era inquieto demais para acordar às sete da manhã e se comprometer com seu emprego entediante, mas estável. O homem dos meus sonhos não dormia por dias, então aparecia na minha porta porque ele apenas TINHA que me ver no meio da noite. O homem dos meus sonhos pegava um ônibus para Nova Iorque sempre que ele tinha vontade. O homem dos meus sonhos estava sempre indeciso sobre seu futuro, seu presente e passado. O homem dos meus sonhos não tinha um relacionamento com seus parentes e não se importava com isso. O homem dos meus sonhos me desprezava sempre que sentia vontade, às vezes através de mensagens. O homem dos meus sonhos não sentia necessidade de me avisar quando decidia desaparecer da minha vida. Esse é o problema. As coisas que eu quero não são como as coisas que eu pensava que queria, as coisas que nos dizem que nós queremos. Eu era essencialmente e profundamente incompatível com o homem dos meus sonhos.
Evan não é o homem dos meus sonhos. Ele é apenas um cara estável. E quanto mais eu ia a encontros com ele (sim, ele sempre chamava de encontros, ele não assumia um tom casual para o que estávamos fazendo), mais começava a perceber que, apesar dele não ter aquele charme afiado que eu buscava, ele era capaz de atender completamente as minhas demandas emocionais. Evan nunca me deixou intrigada sobre seus sentimentos; ele nunca esqueceu de me perguntar como eu estava. O que lhe faltava em mistério, ele compensava em doçura. Ele já havia se comprometido com outras mulheres, então ele poderia se comprometer comigo. Ele não era impulsivo, o que significa que ele também não era o tipo que decidia me abandonar sem me dar um aviso. Ele nunca dizia algo bonito ou vago como “Você poderia ser a garota que vai arruinar minha vida”, porque Evan não lidava com esse tipo de impulsividade. Ele era muito certo do que sentia. Sei que nada disso parece ser atrativo, mas se você é uma garota e está lendo isso, você entende quão raro é encontrar alguém que tem certeza do que sente. Longe de ser comum, Evan era raro.
Sim, éramos muito diferentes, mas eu aprendi a gostar dessa diferença. Evan nunca me fez assistir esportes com ele, ou reclamou quando eu demorei anos para me arrumar. Ele fazia suas coisas e eu fazia as minhas. Ele achava que eu era legal e interessante, cheia de humor e carisma, então eu me sentia assim perto dele, porque ele nunca estava distante ou indiferente. Com ele, eu me sentia uma pessoa impressionante.
Eu sempre me vi casando com outro escritor, levando uma vida no estilo de Scott e Zelda Fitzgerald, e, sendo muito sincera, isso ainda me parece maravilhoso. Porém, percebi que eu poderia ser completamente feliz casada com um cara que não entende tudo que eu amo, que chega em casa de seu trabalho entediante e diz “Como foi seu dia, querida?”.
Veja, não estou te dizendo para dar uma chance a cada cara sem graça do tinder. Também não estou dizendo que caras interessantes são babacas que nunca vão se comprometer com você. O que estou dizendo é: saiba o que é realmente importante para você.
O que Evan me ensinou durante o tempo em que estivemos juntos foi que as coisas que eu preciso são firmeza, comprometimento e entusiasmo. Eu não estou em um estágio da minha vida em que quero mover montanhas para ser a maior fã de um cara, para brilhar um pouco menos porque ele suga toda a luz de um lugar. Eu preciso estar com um homem que diz “eu não brilho se você não brilhar”.
Evan me ensinou que eu estava fazendo todas as perguntas erradas sobres parceiros românticos em potencial. Você acorda e vai trabalhar todos os dias e você se dedica pacientemente e gentilmente ainda que seja só um trabalho medíocre? Isso é real pra caralho. Você é uma artista, mas você está apaixonada pelo processo e não pelo estilo de vida? Isso é real pra caralho. Você gosta de coisas que eu não gosto, mas você me permite ter meu espaço? Isso é real pra caralho.
Mais importante, você é um cara em que eu possa confiar?
Eu e várias amigas recomendamos esse texto no Medium. Tenho pensado muito sobre as coisas com as quais nos identificamos, nos poemas, imagens e desabafos que nos acolhem. Às vezes acho que nem gostaríamos tanto assim de concordar – tenho várias críticas a esse artigo, principalmente no que diz respeito ao egocentrismo perturbador da autora -, mas o alívio de não estarmos sós é irresistível. Se identificar com esse tipo de relato significa descobrirmos que as feridas que salgamos com apatia e desconfiança não são um defeito individual. Isso nos poupa da culpa – sentimento sempre enormemente presente nos papéis do nosso gênero – e também um tanto de responsabilidade.
O que mais me chama atenção é um padrão nas falas nas quais nos enxergamos. Estamos todas exaustas, cínicas, indispostas para apostar qualquer fagulha de desconforto em um compromisso com o outro. Há também um modelo preciso para carregar essa ferida, afinal, nós somos feministas e empoderadas. A gente não cabe mais na vulnerabilidade, porque aprendemos que isso significa um risco mortal. Então, nos resta ser duras. A ferida que é um rasgo, uma abertura, em nós é casco. Calejadas em nossas resistências não ousamos mais sofrer, não damos conta economicamente, na nossa idade dinheiro e sentimento já se misturam. Ser firme e inteira, manter essa postura diariamente, às vezes tem um peso cruel.
Às vezes eu acho que o feminismo ainda não é capaz de nos liberar para sermos simplesmente humanas, em toda fragilidade e erro que significa essa condição. Às vezes não queria mais me ocupar de estar certa e só chorar, em praça pública, em braços cheios de afeto e incoerência.
*
Eu me encontro neste texto, como muitas mulheres, porque finalmente aprendo a não romantizar a dor e a questionar o que considerava atraente. Hoje, de fato, vejo que não há nada de interessante em um cara arrogante que não consegue dar conta de sua vida e usa justificativas patéticas para isso. Hoje eu não tolero mais quem acha que depressão, ansiedade ou qualquer limite psicológico é charmosinho. E isso é importante. Pedir um amor que não passe por aí é importante. Se deixar ser amada também.
Mas e quanto o que eu amo? O que me incomoda nesse texto é uma domesticação dos nossos afetos. Eu não quero acreditar que o máximo que posso pedir de um homem com quem me envolvo romanticamente é comprometimento. Ainda que isso seja raro. Parece que quando nos dão o que é simplesmente a coisa mais básica de um relacionamento, respeito, estão fazendo algo de extraordinário. Eu não quero achar um cara incrível só porque ele me trata bem. Isso soa ruim. E talvez seja. Mas não é possível pedir um pouco mais? Não é possível algo além dessas duas posições, amar alguém e sofrer ou eu ser amada e morrer de tédio?
Eu sei que a autora tenta apostar em uma solução para isso. Mas não há a palavra amor nesse texto. Há comprometimento e conciliação de interesses, não há afetos que vão além dos planos.
Eu também acho que a pessoa que amamos não precisa estar em concordância com todos os aspectos de nossa vida, não precisa gostar de tudo que gostamos e até mesmo entender totalmente quem somos. Mas se não há brilho no olho, tesão e vontade eu me pergunto para quê uma relação? Estar com alguém só porque ela faz com que eu me sinta admirável é algo meio triste e desonesto. Se for por aí eu tenho relacionamentos em que essa sensação é recíproca e mantida por trocas, afetos e compromissos gigantes. Eu tenho as minhas amigas, pessoas que estiveram e vão estar presentes nos mais diferentes eventos da minha vida. Eu não acredito em relacionamentos que tem a conveniência e a estabilidade como motor. Talvez eu seja só muito romântica ou talvez eu goste mais da minha solidão do que de qualquer companhia.
Por fim, eu acredito que esse texto é construído com uma perspectiva perigosa que o feminismo contemporâneo (de internet) nos traz: precisamos tanto reconstruir nossas autoestimas e assegurar nosso amor próprio que não conseguimos praticar a autocrítica. É, sim, urgente que as mulheres se achem maravilhosas e que digam isso para si mesmas e suas amigas. É, sim, urgente que nós aprendamos a amar de outra forma que não abusiva. É fundamental que nós estejamos finalmente repudiando as dinâmicas machistas que são a base de tantos relacionamentos românticos. Mas é preciso fazer isso sem perder de vista que somos humanas, não somos modelos de empoderamento, nós erramos, nós estamos vulneráveis o tempo todo, nós temos responsabilidade. Acho que só por aí que é possível acreditar de novo em formas de amar – principalmente se você é uma mulher heterossexual ou bissexual que se relaciona com homens. A possibilidade de existir com o outro – e não pelo o outro – só é possível através de uma noção de feminismo que não seja sobre estarmos sempre certas, mas, sim, sobre termos agência e autonomia para construir novas formas de vida e de relacionamentos.
Há um mês, eu estava no tinder quando dei match com um cara de 29 anos que era exatamente meu tipo (atraente de um modo discreto, olhos e cabelos escuros, desajustado na medida certa).
Então eu li sua biografia.
Deus do céu, pensei imediatamente. Que erro terrível. Esse homem não é nem um pouco Meu Tipo. Ele gosta de fazer atividades ao ar livre e aquelas típicas Coisas de Caras, como carros e escalada. Eu sou uma garota que só gosta de sair se for para restaurantes e hotéis com luxuosos banheiros onde você pode tirar selfies. Mesmo deixando de lado essa incompatibilidade, o resto da sua biografia era tão… boba: um resumo de todas as coisas que dizem para evitar em sites de encontros. Odiei imediatamente, porque era descaradamente sincero, sorridente e animado, o oposto do meu tipo de humor. Eu odiei até seu nome. Vamos chamá-lo de Evan, que é um nome tão brando, agradável e sem graça quanto seu nome verdadeiro.
Quando ele começou a me mandar mensagens, eu rapidamente descobri que sua personalidade era exatamente como sua bio o descrevia. Ele escrevia longas mensagens perguntando sobre mim e me contando coisas sobre ele – nenhuma deles muito interessante. Evan era um engenheiro, um emprego que eu acho particularmente chato. Evan gostava de assistir esportes. Minha indiferença por esportes se transformou em um desgosto após um ex-namorado me forçar a assistir um jogo de futebol atrás do outro.
No entanto, Evan continuava falando e eu continuei respondendo. Porque não havia nada de errado com ele. Ele era um cara de confiança, um solid dude. Não era cruel, não era insistente, não era agressivo, não era arrogante: uma série de qualidades raras no tinder e, na verdade, raras na vida real. Por essa razão, resolvi encontrá-lo.
Eu não me desapontei. Na vida real, Evan foi tão sensível quanto parecia online e também tão comum quanto demonstrava ser.
*
Não vou me sentar aqui e dizer que o homem dos meus sonhos não é real. Eu conheci o homem dos meus sonhos, o homem que tem cada uma das qualidades dessa lista. Na verdade, eu me relacionei com o homem dos meus sonhos. Eu saí com ele várias vezes. Várias versões desse mesmo homem, na verdade.
O homem dos meus sonhos constantemente mudava de ideia sobre seus sentimentos por mim, várias vezes lançando afirmações ligeiramente charmosas como “Você poderia ser, talvez, você poderia ser a garota que vai arruinar minha vida”. O homem dos meus sonhos nunca me escrevia algo entediante. O homem dos meus sonhos não entendia moderação e passava sua vida bebendo só um pouco demais e fumando só um pouco demais. O homem dos meus sonhos era inquieto demais para acordar às sete da manhã e se comprometer com seu emprego entediante, mas estável. O homem dos meus sonhos não dormia por dias, então aparecia na minha porta porque ele apenas TINHA que me ver no meio da noite. O homem dos meus sonhos pegava um ônibus para Nova Iorque sempre que ele tinha vontade. O homem dos meus sonhos estava sempre indeciso sobre seu futuro, seu presente e passado. O homem dos meus sonhos não tinha um relacionamento com seus parentes e não se importava com isso. O homem dos meus sonhos me desprezava sempre que sentia vontade, às vezes através de mensagens. O homem dos meus sonhos não sentia necessidade de me avisar quando decidia desaparecer da minha vida. Esse é o problema. As coisas que eu quero não são como as coisas que eu pensava que queria, as coisas que nos dizem que nós queremos. Eu era essencialmente e profundamente incompatível com o homem dos meus sonhos.
Evan não é o homem dos meus sonhos. Ele é apenas um cara estável. E quanto mais eu ia a encontros com ele (sim, ele sempre chamava de encontros, ele não assumia um tom casual para o que estávamos fazendo), mais começava a perceber que, apesar dele não ter aquele charme afiado que eu buscava, ele era capaz de atender completamente as minhas demandas emocionais. Evan nunca me deixou intrigada sobre seus sentimentos; ele nunca esqueceu de me perguntar como eu estava. O que lhe faltava em mistério, ele compensava em doçura. Ele já havia se comprometido com outras mulheres, então ele poderia se comprometer comigo. Ele não era impulsivo, o que significa que ele também não era o tipo que decidia me abandonar sem me dar um aviso. Ele nunca dizia algo bonito ou vago como “Você poderia ser a garota que vai arruinar minha vida”, porque Evan não lidava com esse tipo de impulsividade. Ele era muito certo do que sentia. Sei que nada disso parece ser atrativo, mas se você é uma garota e está lendo isso, você entende quão raro é encontrar alguém que tem certeza do que sente. Longe de ser comum, Evan era raro.
Sim, éramos muito diferentes, mas eu aprendi a gostar dessa diferença. Evan nunca me fez assistir esportes com ele, ou reclamou quando eu demorei anos para me arrumar. Ele fazia suas coisas e eu fazia as minhas. Ele achava que eu era legal e interessante, cheia de humor e carisma, então eu me sentia assim perto dele, porque ele nunca estava distante ou indiferente. Com ele, eu me sentia uma pessoa impressionante.
Eu sempre me vi casando com outro escritor, levando uma vida no estilo de Scott e Zelda Fitzgerald, e, sendo muito sincera, isso ainda me parece maravilhoso. Porém, percebi que eu poderia ser completamente feliz casada com um cara que não entende tudo que eu amo, que chega em casa de seu trabalho entediante e diz “Como foi seu dia, querida?”.
Veja, não estou te dizendo para dar uma chance a cada cara sem graça do tinder. Também não estou dizendo que caras interessantes são babacas que nunca vão se comprometer com você. O que estou dizendo é: saiba o que é realmente importante para você.
O que Evan me ensinou durante o tempo em que estivemos juntos foi que as coisas que eu preciso são firmeza, comprometimento e entusiasmo. Eu não estou em um estágio da minha vida em que quero mover montanhas para ser a maior fã de um cara, para brilhar um pouco menos porque ele suga toda a luz de um lugar. Eu preciso estar com um homem que diz “eu não brilho se você não brilhar”.
Evan me ensinou que eu estava fazendo todas as perguntas erradas sobres parceiros românticos em potencial. Você acorda e vai trabalhar todos os dias e você se dedica pacientemente e gentilmente ainda que seja só um trabalho medíocre? Isso é real pra caralho. Você é uma artista, mas você está apaixonada pelo processo e não pelo estilo de vida? Isso é real pra caralho. Você gosta de coisas que eu não gosto, mas você me permite ter meu espaço? Isso é real pra caralho.
Mais importante, você é um cara em que eu possa confiar?
Eu e várias amigas recomendamos esse texto no Medium. Tenho pensado muito sobre as coisas com as quais nos identificamos, nos poemas, imagens e desabafos que nos acolhem. Às vezes acho que nem gostaríamos tanto assim de concordar – tenho várias críticas a esse artigo, principalmente no que diz respeito ao egocentrismo perturbador da autora -, mas o alívio de não estarmos sós é irresistível. Se identificar com esse tipo de relato significa descobrirmos que as feridas que salgamos com apatia e desconfiança não são um defeito individual. Isso nos poupa da culpa – sentimento sempre enormemente presente nos papéis do nosso gênero – e também um tanto de responsabilidade.
O que mais me chama atenção é um padrão nas falas nas quais nos enxergamos. Estamos todas exaustas, cínicas, indispostas para apostar qualquer fagulha de desconforto em um compromisso com o outro. Há também um modelo preciso para carregar essa ferida, afinal, nós somos feministas e empoderadas. A gente não cabe mais na vulnerabilidade, porque aprendemos que isso significa um risco mortal. Então, nos resta ser duras. A ferida que é um rasgo, uma abertura, em nós é casco. Calejadas em nossas resistências não ousamos mais sofrer, não damos conta economicamente, na nossa idade dinheiro e sentimento já se misturam. Ser firme e inteira, manter essa postura diariamente, às vezes tem um peso cruel.
Às vezes eu acho que o feminismo ainda não é capaz de nos liberar para sermos simplesmente humanas, em toda fragilidade e erro que significa essa condição. Às vezes não queria mais me ocupar de estar certa e só chorar, em praça pública, em braços cheios de afeto e incoerência.
*
Eu me encontro neste texto, como muitas mulheres, porque finalmente aprendo a não romantizar a dor e a questionar o que considerava atraente. Hoje, de fato, vejo que não há nada de interessante em um cara arrogante que não consegue dar conta de sua vida e usa justificativas patéticas para isso. Hoje eu não tolero mais quem acha que depressão, ansiedade ou qualquer limite psicológico é charmosinho. E isso é importante. Pedir um amor que não passe por aí é importante. Se deixar ser amada também.
Mas e quanto o que eu amo? O que me incomoda nesse texto é uma domesticação dos nossos afetos. Eu não quero acreditar que o máximo que posso pedir de um homem com quem me envolvo romanticamente é comprometimento. Ainda que isso seja raro. Parece que quando nos dão o que é simplesmente a coisa mais básica de um relacionamento, respeito, estão fazendo algo de extraordinário. Eu não quero achar um cara incrível só porque ele me trata bem. Isso soa ruim. E talvez seja. Mas não é possível pedir um pouco mais? Não é possível algo além dessas duas posições, amar alguém e sofrer ou eu ser amada e morrer de tédio?
Eu sei que a autora tenta apostar em uma solução para isso. Mas não há a palavra amor nesse texto. Há comprometimento e conciliação de interesses, não há afetos que vão além dos planos.
Eu também acho que a pessoa que amamos não precisa estar em concordância com todos os aspectos de nossa vida, não precisa gostar de tudo que gostamos e até mesmo entender totalmente quem somos. Mas se não há brilho no olho, tesão e vontade eu me pergunto para quê uma relação? Estar com alguém só porque ela faz com que eu me sinta admirável é algo meio triste e desonesto. Se for por aí eu tenho relacionamentos em que essa sensação é recíproca e mantida por trocas, afetos e compromissos gigantes. Eu tenho as minhas amigas, pessoas que estiveram e vão estar presentes nos mais diferentes eventos da minha vida. Eu não acredito em relacionamentos que tem a conveniência e a estabilidade como motor. Talvez eu seja só muito romântica ou talvez eu goste mais da minha solidão do que de qualquer companhia.
Por fim, eu acredito que esse texto é construído com uma perspectiva perigosa que o feminismo contemporâneo (de internet) nos traz: precisamos tanto reconstruir nossas autoestimas e assegurar nosso amor próprio que não conseguimos praticar a autocrítica. É, sim, urgente que as mulheres se achem maravilhosas e que digam isso para si mesmas e suas amigas. É, sim, urgente que nós aprendamos a amar de outra forma que não abusiva. É fundamental que nós estejamos finalmente repudiando as dinâmicas machistas que são a base de tantos relacionamentos românticos. Mas é preciso fazer isso sem perder de vista que somos humanas, não somos modelos de empoderamento, nós erramos, nós estamos vulneráveis o tempo todo, nós temos responsabilidade. Acho que só por aí que é possível acreditar de novo em formas de amar – principalmente se você é uma mulher heterossexual ou bissexual que se relaciona com homens. A possibilidade de existir com o outro – e não pelo o outro – só é possível através de uma noção de feminismo que não seja sobre estarmos sempre certas, mas, sim, sobre termos agência e autonomia para construir novas formas de vida e de relacionamentos.
“… a marcação que caracteriza o tempo do trabalho (de forma desproporcional à oferta efetiva de oportunidades de trabalho) invade cada vez mais a experiência de temporalidade, mesmo nas horas ditas de lazer. Não me refiro ao ócio, essa forma de passar o tempo tão desmoralizada em nossos dias, mas às atividades de lazer, marcadas pela compulsão incansável de produzir resultados, comprovações, efeitos de diversão, que tornam a experiência de produzir resultados, comprovações, efeitos de diversão, que tornam a experiência do tempo de lazer tão cansativa e vazia quanto a do tempo da produção. Nada causa tanto escândalo, em nosso tempo, quanto o tempo vazio. É preciso “aproveitar” o tempo, fazer render a vida, sem preguiça e sem descanso.”
O tempo e o Cão – Maria Rita Kehl
Terça-feira, véspera da minha folga, tenho febre. Não consigo fazer nada além de ficar deitada e imersa no universo do meu celular. Comento em um grupo do whatsapp que é até agradável ficar doente, por que posso fazer nada sem me sentir culpada. Acho que meus amigos vão me julgar, afinal, não fazer algo não é legal e curtir doença é pior ainda. Mas eles entendem a sensação. A verdade é que estamos todos em busca de uma permissão para simplesmente parar ou, no mínimo, uma brecha para escapar de um ritmo sádico. A questão não é o trabalho em si. Sabemos direitinho o que fazer com as horas destinadas aos nossos empregos, difícil mesmo é o que vem depois, as ditas horas livres. Porque, afinal, ninguém quer ser resumido pelo seu trabalho; todos nós temos hobbies, livros de colorir, relacionamentos, eventos, tarefas, vontades e desejos que quase sempre assumem formas imperativas.
No dia da minha folga há tanto a ser feito que só me resta uma ansiedade. Pareço um cachorro correndo atrás do próprio rabo. Não sei para onde ir e, portanto, acabo no mais confortável dos reinos: o Netflix. No dia seguinte, a ressaca mais insossa, a moral: Por que eu não sei aproveitar meu tempo direito?
Sete horas de trabalho e o corpo mais moído do que o normal. A sensação de um machadinho quicando na nuca se junta ao corpo quente e uns calafrios. Penso que, enfim, chegou minha vez. Depois de vinte e cinco anos de Rio de Janeiro, a dengue bate na porta. Vamos para o hospital com todos os privilégios possíveis, no entanto, as picuinhas pessoais somam-se ao trânsito, à demora, às recepcionistas indiferentes e ao terrível negócio que se transformou a saúde. Passo por etapas como em um video-game. Primeiro, escaneiam meus documentos, uma enfermeira mede minha pressão, depois uma médica faz um rápido exame, tiram meu sangue e pedem para eu esperar. Não há previsão de quanto tempo de espera. Ninguém pergunta se estou bem. Três horas de espera depois faço uma reclamação e escuto: “Senhora, tem gente aqui que está esperando desde às 16 hrs”. Eram 23 hrs e estou até agora me perguntando se isso era para ser um consolo. Nesse ponto já estou treinada para me transformar em uma caricatura que declama o óbvio: Isso é um hospital particular?, eu trabalhei o dia todo, eu estou doente, eu já paguei pelo serviço e não tenho escolha, mas como pode?, é um absurdo!, é culpa….. Ainda bem que não existiam panelas por perto, porque do meu umbigo febril rugia o maior mimimi do mundo. Meia noite, a médica aparece com o resultado dos exames: não era dengue, era virose. Perdi todo esse tempo e nem é algo sério?? Ah, a burocracia e seu poder de nos enfiar em uma lógica perversa. O melhor diagnóstico vira um desperdício. Quase solto “era melhor estar doente de verdade porque aí não teria perdido meu tempo”. Nesse exato momento, uma pontada na cabeça me detém e acho que é meu corpo querendo falar a sua verdade.
Agora, melhor de saúde – não tanto da cabeça – me restam algumas questões: Como posso estar tão enclausurada em minha perspectiva individual e, ao mesmo tempo, completamente distante das minhas próprias necessidades? No momento em que inventaram o conceito de “tempo livre” nós perdemos o controle do nosso tempo o que é a mesma coisa que a nossa vida? Preguiça é resistência?
Talvez um dia, em uma soneca ou em uma viagem cortaziana ao submundo do metrô, eu me esconda desse tempo e encontre minhas respostas.
Ilustração feita com exclusividade por Janis Souza.
publicado no Medium, por Priya.
Tradução e comentário: Taís Bravo
Há um mês, eu estava no tinder quando dei match com um cara de 29 anos que era exatamente meu tipo (atraente de um modo discreto, olhos e cabelos escuros, desajustado na medida certa).
Então eu li sua biografia.
Deus do céu, pensei imediatamente. Que erro terrível. Esse homem não é nem um pouco Meu Tipo. Ele gosta de fazer atividades ao ar livre e aquelas típicas Coisas de Caras, como carros e escalada. Eu sou uma garota que só gosta de sair se for para restaurantes e hotéis com luxuosos banheiros onde você pode tirar selfies. Mesmo deixando de lado essa incompatibilidade, o resto da sua biografia era tão… boba: um resumo de todas as coisas que dizem para evitar em sites de encontros. Odiei imediatamente, porque era descaradamente sincero, sorridente e animado, o oposto do meu tipo de humor. Eu odiei até seu nome. Vamos chamá-lo de Evan, que é um nome tão brando, agradável e sem graça quanto seu nome verdadeiro.
Quando ele começou a me mandar mensagens, eu rapidamente descobri que sua personalidade era exatamente como sua bio o descrevia. Ele escrevia longas mensagens perguntando sobre mim e me contando coisas sobre ele – nenhuma deles muito interessante. Evan era um engenheiro, um emprego que eu acho particularmente chato. Evan gostava de assistir esportes. Minha indiferença por esportes se transformou em um desgosto após um ex-namorado me forçar a assistir um jogo de futebol atrás do outro.
No entanto, Evan continuava falando e eu continuei respondendo. Porque não havia nada de errado com ele. Ele era um cara de confiança, um solid dude. Não era cruel, não era insistente, não era agressivo, não era arrogante: uma série de qualidades raras no tinder e, na verdade, raras na vida real. Por essa razão, resolvi encontrá-lo.
Eu não me desapontei. Na vida real, Evan foi tão sensível quanto parecia online e também tão comum quanto demonstrava ser.
*
Não vou me sentar aqui e dizer que o homem dos meus sonhos não é real. Eu conheci o homem dos meus sonhos, o homem que tem cada uma das qualidades dessa lista. Na verdade, eu me relacionei com o homem dos meus sonhos. Eu saí com ele várias vezes. Várias versões desse mesmo homem, na verdade.
O homem dos meus sonhos constantemente mudava de ideia sobre seus sentimentos por mim, várias vezes lançando afirmações ligeiramente charmosas como “Você poderia ser, talvez, você poderia ser a garota que vai arruinar minha vida”. O homem dos meus sonhos nunca me escrevia algo entediante. O homem dos meus sonhos não entendia moderação e passava sua vida bebendo só um pouco demais e fumando só um pouco demais. O homem dos meus sonhos era inquieto demais para acordar às sete da manhã e se comprometer com seu emprego entediante, mas estável. O homem dos meus sonhos não dormia por dias, então aparecia na minha porta porque ele apenas TINHA que me ver no meio da noite. O homem dos meus sonhos pegava um ônibus para Nova Iorque sempre que ele tinha vontade. O homem dos meus sonhos estava sempre indeciso sobre seu futuro, seu presente e passado. O homem dos meus sonhos não tinha um relacionamento com seus parentes e não se importava com isso. O homem dos meus sonhos me desprezava sempre que sentia vontade, às vezes através de mensagens. O homem dos meus sonhos não sentia necessidade de me avisar quando decidia desaparecer da minha vida. Esse é o problema. As coisas que eu quero não são como as coisas que eu pensava que queria, as coisas que nos dizem que nós queremos. Eu era essencialmente e profundamente incompatível com o homem dos meus sonhos.
Evan não é o homem dos meus sonhos. Ele é apenas um cara estável. E quanto mais eu ia a encontros com ele (sim, ele sempre chamava de encontros, ele não assumia um tom casual para o que estávamos fazendo), mais começava a perceber que, apesar dele não ter aquele charme afiado que eu buscava, ele era capaz de atender completamente as minhas demandas emocionais. Evan nunca me deixou intrigada sobre seus sentimentos; ele nunca esqueceu de me perguntar como eu estava. O que lhe faltava em mistério, ele compensava em doçura. Ele já havia se comprometido com outras mulheres, então ele poderia se comprometer comigo. Ele não era impulsivo, o que significa que ele também não era o tipo que decidia me abandonar sem me dar um aviso. Ele nunca dizia algo bonito ou vago como “Você poderia ser a garota que vai arruinar minha vida”, porque Evan não lidava com esse tipo de impulsividade. Ele era muito certo do que sentia. Sei que nada disso parece ser atrativo, mas se você é uma garota e está lendo isso, você entende quão raro é encontrar alguém que tem certeza do que sente. Longe de ser comum, Evan era raro.
Sim, éramos muito diferentes, mas eu aprendi a gostar dessa diferença. Evan nunca me fez assistir esportes com ele, ou reclamou quando eu demorei anos para me arrumar. Ele fazia suas coisas e eu fazia as minhas. Ele achava que eu era legal e interessante, cheia de humor e carisma, então eu me sentia assim perto dele, porque ele nunca estava distante ou indiferente. Com ele, eu me sentia uma pessoa impressionante.
Eu sempre me vi casando com outro escritor, levando uma vida no estilo de Scott e Zelda Fitzgerald, e, sendo muito sincera, isso ainda me parece maravilhoso. Porém, percebi que eu poderia ser completamente feliz casada com um cara que não entende tudo que eu amo, que chega em casa de seu trabalho entediante e diz “Como foi seu dia, querida?”.
Veja, não estou te dizendo para dar uma chance a cada cara sem graça do tinder. Também não estou dizendo que caras interessantes são babacas que nunca vão se comprometer com você. O que estou dizendo é: saiba o que é realmente importante para você.
O que Evan me ensinou durante o tempo em que estivemos juntos foi que as coisas que eu preciso são firmeza, comprometimento e entusiasmo. Eu não estou em um estágio da minha vida em que quero mover montanhas para ser a maior fã de um cara, para brilhar um pouco menos porque ele suga toda a luz de um lugar. Eu preciso estar com um homem que diz “eu não brilho se você não brilhar”.
Evan me ensinou que eu estava fazendo todas as perguntas erradas sobres parceiros românticos em potencial. Você acorda e vai trabalhar todos os dias e você se dedica pacientemente e gentilmente ainda que seja só um trabalho medíocre? Isso é real pra caralho. Você é uma artista, mas você está apaixonada pelo processo e não pelo estilo de vida? Isso é real pra caralho. Você gosta de coisas que eu não gosto, mas você me permite ter meu espaço? Isso é real pra caralho.
Mais importante, você é um cara em que eu possa confiar?
Eu e várias amigas recomendamos esse texto no Medium. Tenho pensado muito sobre as coisas com as quais nos identificamos, nos poemas, imagens e desabafos que nos acolhem. Às vezes acho que nem gostaríamos tanto assim de concordar – tenho várias críticas a esse artigo, principalmente no que diz respeito ao egocentrismo perturbador da autora -, mas o alívio de não estarmos sós é irresistível. Se identificar com esse tipo de relato significa descobrirmos que as feridas que salgamos com apatia e desconfiança não são um defeito individual. Isso nos poupa da culpa – sentimento sempre enormemente presente nos papéis do nosso gênero – e também um tanto de responsabilidade.
O que mais me chama atenção é um padrão nas falas nas quais nos enxergamos. Estamos todas exaustas, cínicas, indispostas para apostar qualquer fagulha de desconforto em um compromisso com o outro. Há também um modelo preciso para carregar essa ferida, afinal, nós somos feministas e empoderadas. A gente não cabe mais na vulnerabilidade, porque aprendemos que isso significa um risco mortal. Então, nos resta ser duras. A ferida que é um rasgo, uma abertura, em nós é casco. Calejadas em nossas resistências não ousamos mais sofrer, não damos conta economicamente, na nossa idade dinheiro e sentimento já se misturam. Ser firme e inteira, manter essa postura diariamente, às vezes tem um peso cruel.
Às vezes eu acho que o feminismo ainda não é capaz de nos liberar para sermos simplesmente humanas, em toda fragilidade e erro que significa essa condição. Às vezes não queria mais me ocupar de estar certa e só chorar, em praça pública, em braços cheios de afeto e incoerência.
*
Eu me encontro neste texto, como muitas mulheres, porque finalmente aprendo a não romantizar a dor e a questionar o que considerava atraente. Hoje, de fato, vejo que não há nada de interessante em um cara arrogante que não consegue dar conta de sua vida e usa justificativas patéticas para isso. Hoje eu não tolero mais quem acha que depressão, ansiedade ou qualquer limite psicológico é charmosinho. E isso é importante. Pedir um amor que não passe por aí é importante. Se deixar ser amada também.
Mas e quanto o que eu amo? O que me incomoda nesse texto é uma domesticação dos nossos afetos. Eu não quero acreditar que o máximo que posso pedir de um homem com quem me envolvo romanticamente é comprometimento. Ainda que isso seja raro. Parece que quando nos dão o que é simplesmente a coisa mais básica de um relacionamento, respeito, estão fazendo algo de extraordinário. Eu não quero achar um cara incrível só porque ele me trata bem. Isso soa ruim. E talvez seja. Mas não é possível pedir um pouco mais? Não é possível algo além dessas duas posições, amar alguém e sofrer ou eu ser amada e morrer de tédio?
Eu sei que a autora tenta apostar em uma solução para isso. Mas não há a palavra amor nesse texto. Há comprometimento e conciliação de interesses, não há afetos que vão além dos planos.
Eu também acho que a pessoa que amamos não precisa estar em concordância com todos os aspectos de nossa vida, não precisa gostar de tudo que gostamos e até mesmo entender totalmente quem somos. Mas se não há brilho no olho, tesão e vontade eu me pergunto para quê uma relação? Estar com alguém só porque ela faz com que eu me sinta admirável é algo meio triste e desonesto. Se for por aí eu tenho relacionamentos em que essa sensação é recíproca e mantida por trocas, afetos e compromissos gigantes. Eu tenho as minhas amigas, pessoas que estiveram e vão estar presentes nos mais diferentes eventos da minha vida. Eu não acredito em relacionamentos que tem a conveniência e a estabilidade como motor. Talvez eu seja só muito romântica ou talvez eu goste mais da minha solidão do que de qualquer companhia.
Por fim, eu acredito que esse texto é construído com uma perspectiva perigosa que o feminismo contemporâneo (de internet) nos traz: precisamos tanto reconstruir nossas autoestimas e assegurar nosso amor próprio que não conseguimos praticar a autocrítica. É, sim, urgente que as mulheres se achem maravilhosas e que digam isso para si mesmas e suas amigas. É, sim, urgente que nós aprendamos a amar de outra forma que não abusiva. É fundamental que nós estejamos finalmente repudiando as dinâmicas machistas que são a base de tantos relacionamentos românticos. Mas é preciso fazer isso sem perder de vista que somos humanas, não somos modelos de empoderamento, nós erramos, nós estamos vulneráveis o tempo todo, nós temos responsabilidade. Acho que só por aí que é possível acreditar de novo em formas de amar – principalmente se você é uma mulher heterossexual ou bissexual que se relaciona com homens. A possibilidade de existir com o outro – e não pelo o outro – só é possível através de uma noção de feminismo que não seja sobre estarmos sempre certas, mas, sim, sobre termos agência e autonomia para construir novas formas de vida e de relacionamentos.