Pequenos tesouros que não valem nada

Ilustração exclusiva feita por Fernanda Garcia (Kissy).

Sempre tive paixão por coisas quebradas ou inacabadas, objetos aos pedaços, restos de coisas, fragmentos de algo que um dia significou alguma coisa. Pode ser que isso tenha crescido junto com a minha paixão por quebra-cabeças, que surgiu na minha infância, motivada pela minha mãe que, imagino eu, queria que eu pudesse focar em algo. Gostar de quebra-cabeças, me afeiçoar aos pedaços que são únicos e autossuficientes, deve ter feito eu me afeiçoar também pelos restos e fragmentos.

Um objeto, ao se quebrar, perde sua essência inicial, seu objetivo principal, e passa a vagar nesse lugar não definido entre as mãos que o recolhem e o lixo. Quando um de seus pedaços escapa do lixo ou quando ele é importante demais para ser descartado, uma nova história se constrói e a essência passa a se transformar. A quebra, a falha, o rompimento, trazem a possibilidade da reinvenção, seja de um objeto ou de uma pessoa. Um coração partido precisa se reinventar, uma alma inconsolável precisa se reinventar. Descobrir-se outro é uma questão de sobrevivência quando tudo desmorona.

Minha paixão por coisas quebradas se expandia em largos passos pelas coisas rejeitadas. A chuva que entrava pela goteira do telhado mal encaixado da varanda. O vento forte derrubando o bambu que sustentava as roupas no varal. O granizo que caía forte arrebentando as folhas durante o verão. Os tremores de frio ao deitar na cama. As folhas de livros rabiscadas que barateavam os livros no sebo. Os dentes tortos, as cicatrizes, as manchas, as queimaduras. Cada pequena marca ou sensação que se assemelhava a um pedaço ou a uma fratura me encantava.

 
[caption id="attachment_12167" align="aligncenter" width="612"]pequenos-tesouros-bianca-zampier Foto por Bianca Zampier (@biancazampier)[/caption]  
Assim como essa paixão se expandia para fora de mim, um movimento similar se dava dentro de mim: minhas dores me constituíram imensamente como um ser humano melhor. Não culpo nenhuma das pessoas que me machucou um dia porque todas as marcas que me aconteceram ao longo desses 30 anos foram cuidadas com o afeto que eu destinava aos meus quebra-cabeças ou pequenos tesouros quebrados que pegava no chão, na rua. Ainda que os que me amassem me dissessem que aquilo ia passar, não era exatamente a pressa que me fazia encarar os sentimentos de fratura. O que me fazia me aproximar deles era saber que, naquele exato momento, eu era mais eu do que nunca havia sido.

Quando comecei meu processo de análise, deixei claro para a minha analista que não tinha problemas em ficar triste. Ela achou graça, não sei se acreditou. Mas a verdade é que minha tristeza é um dos meus recantos favoritos, é ao abraça-la que entendo minhas cicatrizes e revisito meus pequenos tesouros reinventados. E quando falo em tristeza não se trata de estar deprimida ou de ser o contrário de alegria, quando falo em tristeza falo em poder me dar espaço para lágrimas assim como me dou espaço para sorrisos. Se não passear entre os extremos, como poderia me conhecer de verdade?

Revivi meus pequenos objetos quebrados e peças perdidas ao começar a ler um livro indicado por uma colega de faculdade. Ao ler um dos meus textos, onde eu falava sobre acolher a si mesmo, a ter paciência com os processos de dor e de felicidade, ela se lembrou da monja budista Pema Chodron e de seu livro chamado “Quando tudo se desfaz”. Ao ler o título fui praticamente transportada para aquela sessão de análise em que eu falava sobre não ter questões quando tudo acaba. Eu não tenho medo de desmontar meus quebra-cabeças quando a imagem se forma, ainda que desmoronada, desmontada, sem encaixe, aquelas peças continuam formando algo único. Entender que a tristeza faz tanta parte de nós mesmos como a alegria é entender que sim, tudo desmorona e tudo se reconstrói.

A vida é uma boa professora e amiga. Se pudéssemos perceber, veríamos que tudo está sempre em transição. No fim, nada é como sonhamos. Esse estado descentralizado e indefinido representa a situação ideal. Nesse ponto, não estamos presos a nada e podemos abrir nosso coração e mente além de qualquer limite.”

Pema Chodron

A vida foi uma boa professora comigo quando me entregou em mãos a experiência de quebra-cabeças e pequenos fragmentos a esmo. A impermanência das peças, dos restos, me ensinou a entender que eu também sou uma eterna impermanência, em uma eterna busca por me manter sã, mesmo sendo um milhão de fragmentos e células e neurônios e pequenos ossos. Quando criança, ao me deparar com os pequenos restos, ao cuidar de observar calmamente que um fragmento um dia foi outra coisa que alguém acreditou só servir quando inteira, me fazia avaliar meu encantamento. Aqueles restos passavam a ser algo único e inteiro para mim. Todo ele representava agora, em si, uma nova história, a história da quebra, da ruptura. Reinventar os restos, os cacos, traz a possibilidade de amar cada pequeno fragmento como algo único.

Sempre tive paixão por pedras quebradas, folhas rasgadas, livros com páginas dobradas. Um objeto com marcas conta uma história sincera de sobrevivência. E assim também somos nós, incontáveis fragmentos únicos com sinceras histórias de sobrevivência. Cada pequena marca, cada dor, cada fratura, faz de nós mais humanos e mais sobreviventes da nossa própria jornada. Aceitar as feridas e as cicatrizes como algo que faz parte de quem somos ainda vai nos levar além. No fim, somos pequenos tesouros que não valem nada por terem sido tirados do lixo, mas com muito mais história e alma que qualquer outro objeto inteiro.
 
Ilustração exclusiva feita por Fernanda Garcia (Kissy).
 

Mais de Estela Rosa

Estante das Minas: Adília Lopes

Como eu disse aqui na Ovelha, na minha primeira participação, faz mais ou menos um ano que me dedico à leitura de escritoras mulheres. Já fui da autoajuda à poesia, do romance à teoria, e continuo nessa empreitada para fortalecer nosso mercado literário e para me fortalecer também, né, por que não?

Faz uns dois meses, uma grande amiga me perguntou se, ao só ler mulheres, eu não sentia falta dos autores homens, se um Mia Couto não me causava saudades. Nem titubeei ao dizer que não. Depois de conversarmos mais sobre isso, ela acabou mudando de ideia… E gosto de pensar que foi porque viu minha estante de livros e abriu o primeiro livro de poesia que entreguei a ela: a Antologia de poemas da Adília Lopes.

Foi essa mesma amiga, depois de perceber o quanto estava atravessada pela dúvida em relação às escritoras mulheres, que me sugeriu que eu divulgasse o que eu andava lendo. Muitas vezes eu acabava falando do livro que estava lendo no meu próprio Facebook e via como outras mulheres se empolgavam na discussão, então por que não expandir isso? Foi assim que entrei em contato, de novo, com as Ovelhas maravilhosas e me propus a escrever sobre mulheres na literatura. Sei que muito do que vai sair aqui estará imerso nessa paixão louca que tenho pelos livros, mas acho que isso também faz parte da admiração e da sororidade, então tá tudo certo.

E nada mais justo do que começar falando dessa poeta fabulosa que é a Adília Lopes, que foi justamente quem me ajudou a dar o pontapé inicial nessa troca deliciosa entre mulheres. Conheci a Adília ainda na época da faculdade, através de um professor de Literatura Portuguesa. Ele, acompanhando meus gostos, me disse que a Adília se tornaria minha paixão. E assim foi. Logo no primeiro poema fiquei tonta, zonza, imersa nesse universo português tão simples e tão envolvente.

No more tears foi o primeiro poema que li da Adília e foi daquelas leituras que te deixam parada alguns minutos, absorvendo toda as camadas que a poeta lança ao falar de algo tão simples e corriqueiro como a infância:

No more tears
Quantas vezes me fechei para chorar

na casa de banho da casa de minha avó

lavava os olhos com shampoo

e chorava

chorava por causa do shampoo

depois acabaram os shampoos

que faziam arder os olhos

no more tears disse Johnson & Johnson

as mães são filhas das filhas

e as filhas são mães das mães

uma mãe lava a cabeça da outra

e todas têm cabelos de crianças loiras

para chorar não podemos usar mais shampoo

e eu gostava de chorar a fio

e chorava

sem um desgosto sem uma dor sem um lenço

sem uma lágrima

fechada à chave na casa de banho

da casa da minha avó

onde além de mim só estava eu

também me fechava no guarda-vestidos

mas um guarda-vestidos não se pode fechar por dentro

nunca ninguém viu um vestido a chorar

 

In: O decote da dama de espadas, 1988

Em seu poema, ela coloca não só o lugar da criança, como o lugar da criança mulher, atravessada pela mãe, pelos cabelos, pelas lágrimas e pelos vestidos, aqueles que não choram.

Adília Lopes é o codinome de Maria José da Silva Viana Fidalgo de Oliveira que nasceu em Lisboa, no dia 20 de abril de 1960. Ela publica seus primeiros poemas em 1984, mas se consagra como escritora a partir de 1985, quando começa uma série de publicações que a levaram a ser conhecida por toda parte em Portugal. Por conta de uma história curiosa de psicose esquizoafetiva, muito citada em seus poemas, Adília larga a primeira faculdade que cursa, Física, por uma indicação médica. Após um tempo afastada dos estudos, passa a se dedicar à Literatura e Linguística (graças à Deusa).

Fedra está apaixonada

por Hipólito

Hipólito não está apaixonado

por Fedra

Fedra enforca-se

Hipólito morre

num acidente

 

Dido está apaixonada

por Eneias

Eneias não está apaixonado

por Dido

Dido oferece uma espada

a Eneias

Eneias esquece-se da espada

quando se vai embora

Dido suicida-se

com a espada esquecida

por Eneias

 

Um desgosto de amor

atirou-me para um

curso de dactilografia

consolo-me

a escrever automaticamente

o pior são os tempos livres

 

In: Sete rios entre campos, 1999

 

Obviamente, Adília se tornou uma das minhas poetas favoritas. Afinal de contas, não dá para não se apaixonar por alguém que se autodenomina uma “freira poetisa barroca” e faz poesia sobre o cotidiano de uma maneira delicada e marcante.

É possível achar muitos outros poemas da Adília Lopes espalhados pela internet, mas, se você é daquelas que ama livros e vai querer ler tudo de cabo a rabo, corre pra comprar logo, porque essa Antologia que citei foi publicada no Brasil pela Cosac Naify em parceria com a 7Letras, na coleção Ás de Colete. Por conta do encerramento das atividades da Cosac, é provável que o livro esgote em breve. E não se sabe quando haverá uma reedição, infelizmente. :(

Com o fogo não se brinca

porque o fogo queima

com o fogo que arde sem se ver

ainda se deve brincar menos

do que com o fogo com fumo

porque o fogo que arde sem se ver

é um fogo que queima muito

e como queima

muito

custa mais

a apagar

do que o fogo com fumo

 

In: Um jogo bastante perigoso, 1985.

 

Leiam Adília Lopes, meninas! Vamos celebrar essas mulheres incríveis que produzem intensamente e falam também intensamente sobre ser mulher. <3

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uma alma inconsolável precisa se reinventar. Descobrir-se outro é uma questão de sobrevivência quando tudo desmorona.

Minha paixão por coisas quebradas se expandia em largos passos pelas coisas rejeitadas. A chuva que entrava pela goteira do telhado mal encaixado da varanda. O vento forte derrubando o bambu que sustentava as roupas no varal. O granizo que caía forte arrebentando as folhas durante o verão. Os tremores de frio ao deitar na cama. As folhas de livros rabiscadas que barateavam os livros no sebo. Os dentes tortos, as cicatrizes, as manchas, as queimaduras. Cada pequena marca ou sensação que se assemelhava a um pedaço ou a uma fratura me encantava.

 

 
Assim como essa paixão se expandia para fora de mim, um movimento similar se dava dentro de mim: minhas dores me constituíram imensamente como um ser humano melhor. Não culpo nenhuma das pessoas que me machucou um dia porque todas as marcas que me aconteceram ao longo desses 30 anos foram cuidadas com o afeto que eu destinava aos meus quebra-cabeças ou pequenos tesouros quebrados que pegava no chão, na rua. Ainda que os que me amassem me dissessem que aquilo ia passar, não era exatamente a pressa que me fazia encarar os sentimentos de fratura. O que me fazia me aproximar deles era saber que, naquele exato momento, eu era mais eu do que nunca havia sido.

Quando comecei meu processo de análise, deixei claro para a minha analista que não tinha problemas em ficar triste. Ela achou graça, não sei se acreditou. Mas a verdade é que minha tristeza é um dos meus recantos favoritos, é ao abraça-la que entendo minhas cicatrizes e revisito meus pequenos tesouros reinventados. E quando falo em tristeza não se trata de estar deprimida ou de ser o contrário de alegria, quando falo em tristeza falo em poder me dar espaço para lágrimas assim como me dou espaço para sorrisos. Se não passear entre os extremos, como poderia me conhecer de verdade?

Revivi meus pequenos objetos quebrados e peças perdidas ao começar a ler um livro indicado por uma colega de faculdade. Ao ler um dos meus textos, onde eu falava sobre acolher a si mesmo, a ter paciência com os processos de dor e de felicidade, ela se lembrou da monja budista Pema Chodron e de seu livro chamado “Quando tudo se desfaz”. Ao ler o título fui praticamente transportada para aquela sessão de análise em que eu falava sobre não ter questões quando tudo acaba. Eu não tenho medo de desmontar meus quebra-cabeças quando a imagem se forma, ainda que desmoronada, desmontada, sem encaixe, aquelas peças continuam formando algo único. Entender que a tristeza faz tanta parte de nós mesmos como a alegria é entender que sim, tudo desmorona e tudo se reconstrói.

A vida é uma boa professora e amiga. Se pudéssemos perceber, veríamos que tudo está sempre em transição. No fim, nada é como sonhamos. Esse estado descentralizado e indefinido representa a situação ideal. Nesse ponto, não estamos presos a nada e podemos abrir nosso coração e mente além de qualquer limite.”

Pema Chodron

A vida foi uma boa professora comigo quando me entregou em mãos a experiência de quebra-cabeças e pequenos fragmentos a esmo. A impermanência das peças, dos restos, me ensinou a entender que eu também sou uma eterna impermanência, em uma eterna busca por me manter sã, mesmo sendo um milhão de fragmentos e células e neurônios e pequenos ossos. Quando criança, ao me deparar com os pequenos restos, ao cuidar de observar calmamente que um fragmento um dia foi outra coisa que alguém acreditou só servir quando inteira, me fazia avaliar meu encantamento. Aqueles restos passavam a ser algo único e inteiro para mim. Todo ele representava agora, em si, uma nova história, a história da quebra, da ruptura. Reinventar os restos, os cacos, traz a possibilidade de amar cada pequeno fragmento como algo único.

Sempre tive paixão por pedras quebradas, folhas rasgadas, livros com páginas dobradas. Um objeto com marcas conta uma história sincera de sobrevivência. E assim também somos nós, incontáveis fragmentos únicos com sinceras histórias de sobrevivência. Cada pequena marca, cada dor, cada fratura, faz de nós mais humanos e mais sobreviventes da nossa própria jornada. Aceitar as feridas e as cicatrizes como algo que faz parte de quem somos ainda vai nos levar além. No fim, somos pequenos tesouros que não valem nada por terem sido tirados do lixo, mas com muito mais história e alma que qualquer outro objeto inteiro.
 
Ilustração exclusiva feita por Fernanda Garcia (Kissy).
 

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