Assista: Divinas

A diretora Houda Benyamina usa o olhar de duas garotas para falar sobre violência

Alerto que esse filme não passa nem perto de um final feliz. Aliás, faz perder a pouca esperança e fé na humanidade que tenho, mas exatamente por isso ele precisa ser visto e comentado.

Divinas, longa-metragem da diretora franco-marroquina Houda Benyamina e produzido pela Netflix, tem duas protagonistas: as garotas Dounia (Oulaya Amamra) e Maimouna (Déborah Lukumuena), amigas que vivem no subúrbio de Paris.

Na verdade, a história é mesmo do ponto de vista da Dounia, uma mistura de adolescente ingênua com personalidade fortíssima. Ela se mostra responsável ao cuidar das tarefas da casa, já que a mãe é alcoólatra, mas imensamente irresponsável ao se envolver com o tráfico de drogas na tentativa de ganhar “money money money” (como ela mesma diz).

Dounia é uma garota que se veste com roupas largas, não cuida da aparência, mas dá valor a Apple e Adidas. Com a melhor amiga Maimouna, rouba o supermercado para revender os artigos e ganhar dinheiro. Elas fumam maconha escondidas na coxia de um teatro, onde assistem aos ensaios de um grupo de dança contemporânea. Divertem-se à beça nesses e em outros momentos em que sonham um dia comprar uma Ferrari, por exemplo.

Sim, Divinas pode parecer apenas um filme sobre a amizade entre as garotas, mas aí é que você se engana. É sobre capitalismo, discriminação, amor, violência, arrependimentos, tudo ou nada. Tem uma proposta semelhante a do filme Garotas, sobre o qual já falei aqui na Ovelha. Mas é ainda mais ousado.

É um filme sobre o que está acontecendo agora mesmo no mundo. A própria diretora Houda Benyamina disse, em entrevista ao Guardian (LEIA AQUI, em inglês), que se baseou na revolta de jovens dos subúrbios da França em 2005, quando a polícia reprimiu imigrantes moradores de regiões pobres de Paris.

As cenas finais retratam exatamente essa situação e é aí que a ficção parece se transformar mais em um documentário, quando os sonhos acabam e a realidade baixo-astral voa direto na sua nuca. Faz quase 12 anos que a cineasta teve a ideia de contar essa história e agora estamos no auge de uma discussão sobre imigração, refugiados, dos direitos das mulheres…

“Eu estava com muita raiva. Eu estava pronta para queimar lixeiras e incendiar carros e tudo isso, mas eu não o fiz. Melhor fazer um filme do que uma bomba“, declarou a diretora. Pra mim, esse filme fez o mesmo efeito.

Assista ao trailer:

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Ouça: Kiki Hitomi

Kiki Hitomi é uma cantora e compositora japonesa, que também se define como uma “alquimista sonora”. Ela faz parte do grupo King Midas Sound, ao lado do poeta e cantor Roger Robinson e do produtor Kevin Martin, e é fundadora do duo de noise punk japonês Dokkebi Q. E antes de mais nada, ouçam isso:

“Pink no Kimono” é uma das faixas do seu primeiro álbum solo “Karma No Kusari” (Chain of Karma).

Esse disco é maravilhoso! Ela faz uma mistura de reggae da Jamaica com enka (estilo que já mistura a tradição do Japão com música ocidental), 8-bits, videogames retrô.

A voz de Kiki parece se encaixar numa atmosfera meio fantasmagórica e total psicodélica. E ela mesma que fez essa arte do disco.

Nascida em Minoh, em Osaka, a artista se mudou para a Inglaterra nos anos 1990. Seu primeiro trabalho foi como designer gráfica para uma marca de skate. Depois de passar um tempo em Londres, onde descobriu sua vocação para a música, Kiki Hitomi vive em Leipzig, na Alemanha, desde 2012.

Aqui tem um vídeo dela tocando em Berlim:

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