Pela primeira vez eu comecei a assistir a uma temporada de Girls e não tive vontade de gritar. Parece que a Lena Dunham está aprendendo aos pouquinhos a ser menos feminista branca e focando mais no potencial dramático e na capacidade de gerar empatia da série.
No terceiro episódio dessa sexta temporada (American Bitch), Hannah visita um autor chamado Chuck Palmer, famoso tanto por seus livros quanto por sua capacidade de se envolver sexualmente com as fãs. Depois de um escândalo no qual ele foi acusado de estupro, Hannah escreveu um texto sobre isso em seu blog apoiando a vítima. Chuck teria, então, convidado Hannah para ir em sua casa confrontá-lo.
Mas o gancho que eu gostaria de aproveitar aqui nem tem tanto a ver com a trama principal (vou retomar o desfecho do episódio mais ao final do texto), mas com um relato de Hannah sobre um abuso sofrido em sua infância. A garota recorda, durante uma conversa com Palmer, de um professor que, quando ela tinha 11 anos, gostava de fazer massagens em seus ombros. Quando, anos mais tarde, ela acusa o professor de assédio para um de seus antigos colegas, ela é taxada de exagerada. E é isso que eu gostaria de discutir aqui: quais os limites da relação professor-aluna e por que é tão difícil denunciar o assédio sofrido de algum professor, instrutor, orientador ou qualquer outra figura que exerça alguma influência sobre nós num nível pedagógico.
Quando eu estava no colégio e quando trabalhava em cursinho, a tensão existente entre alunas e professores era tão presente que dava pra cortar ela com uma faca. De lembranças que me vêm à cabeça agora, me lembro de uma amiga que desistiu de cursar medicina na faculdade que ela queria porque um professor disse que “não respeitava” a instituição. A admiração dela por ele era tão grande que ela desistiu de fazer o curso que ela mais queria por causa dele. Na época era muito fácil falar que ela era trouxa e que estava se deixando levar pela opinião de um cara que ela nunca mais ia ver na vida. Hoje eu olho pra trás e percebo como a influência dos professores pode ser tão grande na gente por dois motivos: (1) eles seduzem sim as alunas, seja de maneira sutil ou não e (2) no ambiente competitivo de um colégio, principalmente às vésperas do vestibular, a aprovação de um professor faz parecer que você está no caminho exato do sucesso acadêmico, além de dar um conforto para alguém que tem que passar sozinha por um período super estressante.
O problema é o seguinte: se os professores não se preocupassem tanto em querer a nossa admiração e não recorressem ao abuso da autoridade que eles têm sobre a gente, nós aprenderíamos muito mais – e ficaríamos mais confiantes com o nosso desempenho acadêmico. Não é possível absorver informação se você tem que constantemente se proteger do abuso de um professor, seja em forma de humilhação ou de apelos sexuais. Trabalhar com ex-professor meu foi tão estressante que eu tive que largar o emprego – ele me xingava constantemente na frente dos alunos, o que ele também fazia na sala de aula quando ainda não era meu colega de profissão. Por outro lado, um professor meu também já me pediu pra tirar a roupa na frente da turma quando soube que eu estava vestindo só o blusão da escola (eu jamais soube como ele ficou sabendo disso, inclusive).
O que eu estou tentando pontuar é que não importa qual tipo de abuso soframos daqueles aos quais, em teoria, devemos respeito, o objetivo é sempre nos colocar pra baixo – mesmo ex-professores continuam agindo como seu professor, mesmo que ele só seja agora um cara xis que vai na mesma padaria que você. Ora, você já é uma mulher adolescente/jovem, que passa o dia inteiro ouvindo cantada na rua, é subestimada intelectualmente por “piadas” feitas na sala de aula e fora dela, não tem como você se sentir confiante nesse espaço. Quando você é educada a acreditar que qualquer forma de cortejo deva ser encarada como carinho, é lógico que se torna difícil identificar e denunciar o assédio, principalmente se você acreditar que fazer isso é desrespeitar a autoridade de alguém – afinal de contas, é a palavra dele, professor letrado, contra a sua, estudante do segundo grau. Pior ainda: de estudante estressada e preocupada com notas e vestibular, tirar você de louca será mais fácil do que tirar doce de criança.
Mas o que pra mim é ainda mais nocivo, e é aqui que eu retomo o final do episódio (que ficou lá em cima, eu sei, mas vai fazer sentido). Já pro final da trama, Chuck se defende com unhas e dentes, explicando como ele jamais poderia ter abusado sexualmente de sua fã e de como ele era a verdadeira vítima na situação – afinal de contas como seria se sua filha descobrisse que na verdade ele é um lixo humano? Pois bem, quando a narrativa está construída pra que você entre na dele (até porque a Hannah também entra) ele dá a sua cartada final: tira seu pinto pra fora e coloca no colo da Hannah pra ela o masturbar.
Além de nojento, esse episódio lança luz sobre uma coisa muito verdadeira: homens brilhantes não podem ser estupradores e nem abusar sexualmente de mulheres. Ora, é muito fácil seduzir uma mulher quando tudo ao nosso redor destrói a nossa auto-estima (afinal de contas, tudo o que a Hannah quer é ser uma boa escritora, e ele pontua constantemente o quão inteligente e engraçada ela é, principalmente na escrita). Pois bem, isso acontece fora das telas também. Apesar de ser visto como um homem desconstruído e arrependido de seus pecados, um ex-professor meu acaba de se casar com uma ex-aluna quase quinze anos mais nova. Veja, o problema aqui não é o relacionamento deles por si só, eles podem se amar muito e serem feitos um para o outro, mas eu acho suspeito que um professor se aproxime dessa forma de sua aluna do cursinho (repito: aluna, não ex-aluna). O professor que me abusou de todas as formas possíveis e imagináveis foi absolvido de tudo por ter respeitado a próxima aluna da qual ele foi atrás.
Eu não acho que seja impossível manter relações saudáveis com professores, orientadores e mestres no geral. Amo meu ex-orientador e queria que ele fosse meu tio, sei lá. Também não estou falando que toda e qualquer menina seja seduzida por professores dessa forma. Estou querendo criticar a forma com a qual professores usam de sua autoridade para assediar e abusar de suas alunas. Criticar como o tom professoral e aquele jeito de só-quero-o-seu-bem-linda pode ser nocivo para o aprendizado das alunas – tanto ou mais do que ser xingada de imbecil em voz alta na frente dos colegas. O ideal seria uma relação de respeito mútuo, que a aluna seja capaz de aprender em um ambiente livre de objetificações e medo – senão sua cabeça, que já tem um milhão de coisas, terá mais uma: o desconforto ou a aparente obrigação de agradar o mestre a qualquer custo.
Esse episódio de Girls ensina como devemos olhar com cautela para os homens que admiramos, e que não devemos nos deixar levar pelo efeito que esses homens podem ter sobre nós. Não precisamos da massagem nos nossos ombros, nem do carinho na perna feito pelo instrutor da auto-escola, nem do professor que chega perto demais pra tirar suas dúvidas. Precisamos menos ainda sermos xingadas a plenos pulmões na sala de aula, ou silenciadas e intelectualmente desmerecidas por um orientador. Precisamos de respeito à nossa condição de estudante – mas principalmente à nossa condição de mulher.
Pela primeira vez eu comecei a assistir a uma temporada de Girls e não tive vontade de gritar. Parece que a Lena Dunham está aprendendo aos pouquinhos a ser menos feminista branca e focando mais no potencial dramático e na capacidade de gerar empatia da série.
No terceiro episódio dessa sexta temporada (American Bitch), Hannah visita um autor chamado Chuck Palmer, famoso tanto por seus livros quanto por sua capacidade de se envolver sexualmente com as fãs. Depois de um escândalo no qual ele foi acusado de estupro, Hannah escreveu um texto sobre isso em seu blog apoiando a vítima. Chuck teria, então, convidado Hannah para ir em sua casa confrontá-lo.
Mas o gancho que eu gostaria de aproveitar aqui nem tem tanto a ver com a trama principal (vou retomar o desfecho do episódio mais ao final do texto), mas com um relato de Hannah sobre um abuso sofrido em sua infância. A garota recorda, durante uma conversa com Palmer, de um professor que, quando ela tinha 11 anos, gostava de fazer massagens em seus ombros. Quando, anos mais tarde, ela acusa o professor de assédio para um de seus antigos colegas, ela é taxada de exagerada. E é isso que eu gostaria de discutir aqui: quais os limites da relação professor-aluna e por que é tão difícil denunciar o assédio sofrido de algum professor, instrutor, orientador ou qualquer outra figura que exerça alguma influência sobre nós num nível pedagógico.
Quando eu estava no colégio e quando trabalhava em cursinho, a tensão existente entre alunas e professores era tão presente que dava pra cortar ela com uma faca. De lembranças que me vêm à cabeça agora, me lembro de uma amiga que desistiu de cursar medicina na faculdade que ela queria porque um professor disse que “não respeitava” a instituição. A admiração dela por ele era tão grande que ela desistiu de fazer o curso que ela mais queria por causa dele. Na época era muito fácil falar que ela era trouxa e que estava se deixando levar pela opinião de um cara que ela nunca mais ia ver na vida. Hoje eu olho pra trás e percebo como a influência dos professores pode ser tão grande na gente por dois motivos: (1) eles seduzem sim as alunas, seja de maneira sutil ou não e (2) no ambiente competitivo de um colégio, principalmente às vésperas do vestibular, a aprovação de um professor faz parecer que você está no caminho exato do sucesso acadêmico, além de dar um conforto para alguém que tem que passar sozinha por um período super estressante.
O problema é o seguinte: se os professores não se preocupassem tanto em querer a nossa admiração e não recorressem ao abuso da autoridade que eles têm sobre a gente, nós aprenderíamos muito mais – e ficaríamos mais confiantes com o nosso desempenho acadêmico. Não é possível absorver informação se você tem que constantemente se proteger do abuso de um professor, seja em forma de humilhação ou de apelos sexuais. Trabalhar com ex-professor meu foi tão estressante que eu tive que largar o emprego – ele me xingava constantemente na frente dos alunos, o que ele também fazia na sala de aula quando ainda não era meu colega de profissão. Por outro lado, um professor meu também já me pediu pra tirar a roupa na frente da turma quando soube que eu estava vestindo só o blusão da escola (eu jamais soube como ele ficou sabendo disso, inclusive).
O que eu estou tentando pontuar é que não importa qual tipo de abuso soframos daqueles aos quais, em teoria, devemos respeito, o objetivo é sempre nos colocar pra baixo – mesmo ex-professores continuam agindo como seu professor, mesmo que ele só seja agora um cara xis que vai na mesma padaria que você. Ora, você já é uma mulher adolescente/jovem, que passa o dia inteiro ouvindo cantada na rua, é subestimada intelectualmente por “piadas” feitas na sala de aula e fora dela, não tem como você se sentir confiante nesse espaço. Quando você é educada a acreditar que qualquer forma de cortejo deva ser encarada como carinho, é lógico que se torna difícil identificar e denunciar o assédio, principalmente se você acreditar que fazer isso é desrespeitar a autoridade de alguém – afinal de contas, é a palavra dele, professor letrado, contra a sua, estudante do segundo grau. Pior ainda: de estudante estressada e preocupada com notas e vestibular, tirar você de louca será mais fácil do que tirar doce de criança.
Mas o que pra mim é ainda mais nocivo, e é aqui que eu retomo o final do episódio (que ficou lá em cima, eu sei, mas vai fazer sentido). Já pro final da trama, Chuck se defende com unhas e dentes, explicando como ele jamais poderia ter abusado sexualmente de sua fã e de como ele era a verdadeira vítima na situação – afinal de contas como seria se sua filha descobrisse que na verdade ele é um lixo humano? Pois bem, quando a narrativa está construída pra que você entre na dele (até porque a Hannah também entra) ele dá a sua cartada final: tira seu pinto pra fora e coloca no colo da Hannah pra ela o masturbar.
Além de nojento, esse episódio lança luz sobre uma coisa muito verdadeira: homens brilhantes não podem ser estupradores e nem abusar sexualmente de mulheres. Ora, é muito fácil seduzir uma mulher quando tudo ao nosso redor destrói a nossa auto-estima (afinal de contas, tudo o que a Hannah quer é ser uma boa escritora, e ele pontua constantemente o quão inteligente e engraçada ela é, principalmente na escrita). Pois bem, isso acontece fora das telas também. Apesar de ser visto como um homem desconstruído e arrependido de seus pecados, um ex-professor meu acaba de se casar com uma ex-aluna quase quinze anos mais nova. Veja, o problema aqui não é o relacionamento deles por si só, eles podem se amar muito e serem feitos um para o outro, mas eu acho suspeito que um professor se aproxime dessa forma de sua aluna do cursinho (repito: aluna, não ex-aluna). O professor que me abusou de todas as formas possíveis e imagináveis foi absolvido de tudo por ter respeitado a próxima aluna da qual ele foi atrás.
Eu não acho que seja impossível manter relações saudáveis com professores, orientadores e mestres no geral. Amo meu ex-orientador e queria que ele fosse meu tio, sei lá. Também não estou falando que toda e qualquer menina seja seduzida por professores dessa forma. Estou querendo criticar a forma com a qual professores usam de sua autoridade para assediar e abusar de suas alunas. Criticar como o tom professoral e aquele jeito de só-quero-o-seu-bem-linda pode ser nocivo para o aprendizado das alunas – tanto ou mais do que ser xingada de imbecil em voz alta na frente dos colegas. O ideal seria uma relação de respeito mútuo, que a aluna seja capaz de aprender em um ambiente livre de objetificações e medo – senão sua cabeça, que já tem um milhão de coisas, terá mais uma: o desconforto ou a aparente obrigação de agradar o mestre a qualquer custo.
Esse episódio de Girls ensina como devemos olhar com cautela para os homens que admiramos, e que não devemos nos deixar levar pelo efeito que esses homens podem ter sobre nós. Não precisamos da massagem nos nossos ombros, nem do carinho na perna feito pelo instrutor da auto-escola, nem do professor que chega perto demais pra tirar suas dúvidas. Precisamos menos ainda sermos xingadas a plenos pulmões na sala de aula, ou silenciadas e intelectualmente desmerecidas por um orientador. Precisamos de respeito à nossa condição de estudante – mas principalmente à nossa condição de mulher.
[infobox maintitle="Atenção" subtitle="O texto contém spoilers da série Girls. Não leia se você não está acompanhando a última temporada e quer descobrir sozinha o que rola no episódio do qual eu estou falando aqui!" bg="red" color="black" opacity="on" space="30" link="no link"]
Pela primeira vez eu comecei a assistir a uma temporada de Girls e não tive vontade de gritar. Parece que a Lena Dunham está aprendendo aos pouquinhos a ser menos feminista branca e focando mais no potencial dramático e na capacidade de gerar empatia da série.
No terceiro episódio dessa sexta temporada (American Bitch), Hannah visita um autor chamado Chuck Palmer, famoso tanto por seus livros quanto por sua capacidade de se envolver sexualmente com as fãs. Depois de um escândalo no qual ele foi acusado de estupro, Hannah escreveu um texto sobre isso em seu blog apoiando a vítima. Chuck teria, então, convidado Hannah para ir em sua casa confrontá-lo.
Mas o gancho que eu gostaria de aproveitar aqui nem tem tanto a ver com a trama principal (vou retomar o desfecho do episódio mais ao final do texto), mas com um relato de Hannah sobre um abuso sofrido em sua infância. A garota recorda, durante uma conversa com Palmer, de um professor que, quando ela tinha 11 anos, gostava de fazer massagens em seus ombros. Quando, anos mais tarde, ela acusa o professor de assédio para um de seus antigos colegas, ela é taxada de exagerada. E é isso que eu gostaria de discutir aqui: quais os limites da relação professor-aluna e por que é tão difícil denunciar o assédio sofrido de algum professor, instrutor, orientador ou qualquer outra figura que exerça alguma influência sobre nós num nível pedagógico.
Quando eu estava no colégio e quando trabalhava em cursinho, a tensão existente entre alunas e professores era tão presente que dava pra cortar ela com uma faca. De lembranças que me vêm à cabeça agora, me lembro de uma amiga que desistiu de cursar medicina na faculdade que ela queria porque um professor disse que “não respeitava” a instituição. A admiração dela por ele era tão grande que ela desistiu de fazer o curso que ela mais queria por causa dele. Na época era muito fácil falar que ela era trouxa e que estava se deixando levar pela opinião de um cara que ela nunca mais ia ver na vida. Hoje eu olho pra trás e percebo como a influência dos professores pode ser tão grande na gente por dois motivos: (1) eles seduzem sim as alunas, seja de maneira sutil ou não e (2) no ambiente competitivo de um colégio, principalmente às vésperas do vestibular, a aprovação de um professor faz parecer que você está no caminho exato do sucesso acadêmico, além de dar um conforto para alguém que tem que passar sozinha por um período super estressante.
O problema é o seguinte: se os professores não se preocupassem tanto em querer a nossa admiração e não recorressem ao abuso da autoridade que eles têm sobre a gente, nós aprenderíamos muito mais – e ficaríamos mais confiantes com o nosso desempenho acadêmico. Não é possível absorver informação se você tem que constantemente se proteger do abuso de um professor, seja em forma de humilhação ou de apelos sexuais. Trabalhar com ex-professor meu foi tão estressante que eu tive que largar o emprego – ele me xingava constantemente na frente dos alunos, o que ele também fazia na sala de aula quando ainda não era meu colega de profissão. Por outro lado, um professor meu também já me pediu pra tirar a roupa na frente da turma quando soube que eu estava vestindo só o blusão da escola (eu jamais soube como ele ficou sabendo disso, inclusive).
O que eu estou tentando pontuar é que não importa qual tipo de abuso soframos daqueles aos quais, em teoria, devemos respeito, o objetivo é sempre nos colocar pra baixo – mesmo ex-professores continuam agindo como seu professor, mesmo que ele só seja agora um cara xis que vai na mesma padaria que você. Ora, você já é uma mulher adolescente/jovem, que passa o dia inteiro ouvindo cantada na rua, é subestimada intelectualmente por “piadas” feitas na sala de aula e fora dela, não tem como você se sentir confiante nesse espaço. Quando você é educada a acreditar que qualquer forma de cortejo deva ser encarada como carinho, é lógico que se torna difícil identificar e denunciar o assédio, principalmente se você acreditar que fazer isso é desrespeitar a autoridade de alguém – afinal de contas, é a palavra dele, professor letrado, contra a sua, estudante do segundo grau. Pior ainda: de estudante estressada e preocupada com notas e vestibular, tirar você de louca será mais fácil do que tirar doce de criança.
Mas o que pra mim é ainda mais nocivo, e é aqui que eu retomo o final do episódio (que ficou lá em cima, eu sei, mas vai fazer sentido). Já pro final da trama, Chuck se defende com unhas e dentes, explicando como ele jamais poderia ter abusado sexualmente de sua fã e de como ele era a verdadeira vítima na situação – afinal de contas como seria se sua filha descobrisse que na verdade ele é um lixo humano? Pois bem, quando a narrativa está construída pra que você entre na dele (até porque a Hannah também entra) ele dá a sua cartada final: tira seu pinto pra fora e coloca no colo da Hannah pra ela o masturbar.
[caption id="attachment_14524" align="aligncenter" width="800"] Cena do episódio ‘American Bitch’, da série ‘Girls’[/caption]
Além de nojento, esse episódio lança luz sobre uma coisa muito verdadeira: homens brilhantes não podem ser estupradores e nem abusar sexualmente de mulheres. Ora, é muito fácil seduzir uma mulher quando tudo ao nosso redor destrói a nossa auto-estima (afinal de contas, tudo o que a Hannah quer é ser uma boa escritora, e ele pontua constantemente o quão inteligente e engraçada ela é, principalmente na escrita). Pois bem, isso acontece fora das telas também. Apesar de ser visto como um homem desconstruído e arrependido de seus pecados, um ex-professor meu acaba de se casar com uma ex-aluna quase quinze anos mais nova. Veja, o problema aqui não é o relacionamento deles por si só, eles podem se amar muito e serem feitos um para o outro, mas eu acho suspeito que um professor se aproxime dessa forma de sua aluna do cursinho (repito: aluna, não ex-aluna). O professor que me abusou de todas as formas possíveis e imagináveis foi absolvido de tudo por ter respeitado a próxima aluna da qual ele foi atrás.
Eu não acho que seja impossível manter relações saudáveis com professores, orientadores e mestres no geral. Amo meu ex-orientador e queria que ele fosse meu tio, sei lá. Também não estou falando que toda e qualquer menina seja seduzida por professores dessa forma. Estou querendo criticar a forma com a qual professores usam de sua autoridade para assediar e abusar de suas alunas. Criticar como o tom professoral e aquele jeito de só-quero-o-seu-bem-linda pode ser nocivo para o aprendizado das alunas – tanto ou mais do que ser xingada de imbecil em voz alta na frente dos colegas. O ideal seria uma relação de respeito mútuo, que a aluna seja capaz de aprender em um ambiente livre de objetificações e medo – senão sua cabeça, que já tem um milhão de coisas, terá mais uma: o desconforto ou a aparente obrigação de agradar o mestre a qualquer custo.
Esse episódio de Girls ensina como devemos olhar com cautela para os homens que admiramos, e que não devemos nos deixar levar pelo efeito que esses homens podem ter sobre nós. Não precisamos da massagem nos nossos ombros, nem do carinho na perna feito pelo instrutor da auto-escola, nem do professor que chega perto demais pra tirar suas dúvidas. Precisamos menos ainda sermos xingadas a plenos pulmões na sala de aula, ou silenciadas e intelectualmente desmerecidas por um orientador. Precisamos de respeito à nossa condição de estudante – mas principalmente à nossa condição de mulher.
Acredito que todo mundo já tenha assistido 500 dias com Ela – e chorou. Chorou porque Tom era a epítome do cara bonitinho e gente boa que toda mulher quer, mas mesmo assim levou uma bota da vadia da Summer. Afinal de contas, Summer que estava errada: como ela se atrevia a não querer ficar com Tom? Assim, todo mundo sentiu raiva da Summer – ou pelo menos foi induzido a detestá-la, já que o filme todo se volta contra ela. Se 500 dias com Ela fosse um filme feminista, ele teria acabado na metade, e Summer teria sido muito mais feliz.
500 dias com Ela é um filme de bosta que ensina às mulheres que terminar um relacionamento traz apenas uma consequência: você vira a cretina da situação. Todas as amigas e todos os amigos do cara vão se virar contra você, os pais dele também, até suas amigas e seus amigos vão falar que você está exagerando (até a sua própria família, quem sabe). Mulher não pode ser feliz sozinha em Hollywood, e portanto não pode ser feliz sozinha na vida real também, tem que ficar com o cara bonzinho que, aparentemente, “se esforçou” para te fazer feliz.
O machismo nas relações interpessoais realmente não deixa sobreviventes, principalmente nas relações afetivas heterossexuais. Eu digo isso baseando-me na minha própria experiência enquanto mulher cis heterossexual. Todos os meus relacionamentos até então foram pautados por uma hierarquia de gênero que sempre me colocou na posição de Summer – não quis porque é uma vadia, porque não soube dar valor pro cara certo, porque não soube dar valor a si própria. A pior parte disso tudo é que eu tenho certeza de que eu não fui a única que passei por isso, e que muitas meninas, sejam elas bi ou heterossexuais, cis ou trans, ao se relacionarem com um homem sofreram algum tipo de violência – principalmente ao falar não pro cara.
“quando o homem sofre, a culpa é da mulher, mas quando a mulher sofre, a culpa é dela mesma”
Aparentemente os homens foram socializados de modo a nunca poderem ouvir a palavra não – não quero sair com você, não quero dar pra você, não quero ser mais sua namorada, não quero que você fale assim comigo, não quero que você me toque dessa forma, não quero que você olhe para mim. Não. Dizer não a um homem (principalmente um “homem bonzinho”) é negar a ele todos os privilégios que lhe foram conseguidos, e isso traz graves consequências às mulheres, como o estupro, a violência física e, claro, a violência emocional, tão presente, mas mesmo assim tão subestimada pela sociedade – se ela for feminina, claro.
Tom Hansen não soube ouvir não, e seu sofrimento, tão romantizado pelo cinema, fez um desserviço às mulheres, colocando-as na posição de algozes da masculinidade. Já não basta toda a babaquice envolvida no mito da virilidade e da sexualidade masculina, os homens também detém o privilégio do sofrimento legítimo – quando o homem sofre, a culpa é da mulher,mas quando a mulher sofre a culpa é dela mesma. Além de ficarmos absolutamente sozinhas nessa relação, já que perdemos total credibilidade perante nossos círculos sociais, ainda temos que lidar com toda a culpabilização em nível simbólico, como nos mostra todas as comédias românticas, com exceção d’ “O Casamento do Meu Melhor Amigo“. Ou seja, o sofrimento masculino é algo absolutamente romantizado e público, enquanto o sofrimento feminino, se não for motivo de chacota, deve permanecer apenas no privado, de preferência trancado em diários, banheiros ou “conversas de mulher”.
Aí é que está: a violência da mulher (no caso, terminar um namoro), sempre será pior que a violência protagonizada pelo cara. Não importa o que o cara tenha feito, quantas vezes tenha mentido, quantas vezes tenha sido agressivo ou chantagista, a mina SEMPRE vai ser a algoz, destruidora de corações (já falaram para mim que eu tinha “destruído a vida do cara” por ter terminado o namoro). Além de tudo isso não fazer sentido (afinal de contas, ninguém é obrigado a ficar com ninguém), isso só corrobora com a realidade de milhares de meninas metidas em relacionamentos abusivos – muitas das quais nem se dão conta disso, tendo em vista o silenciamento e a falta de protagonismo na relação. O relacionamento abusivo se manifesta de maneiras sutis, sendo a mais perigosa delas a chantagem emocional – seja ela direta ou indireta. O que Tom Hansen faz não é sofrer, mas sim uma hora e meia de chantagem emocional indireta, uma vez que só podemos ouvir seus pensamentos no filme – claro né, gente, foda-se a Summer.
Recentemente eu tenho assistido a filmes que antes me emocionavam para ver se eles ainda tinham o mesmo efeito sobre mim. Ao rever 500 dias com Ela, percebi que o feminismo fez com que eu passasse de adoradora do Tom para a pessoa que mais quer mandá-lo se foder. Mais especificamente, todos os Toms e Mark Webbs do mundo deveriam se foder. Ainda estou tentando (re)digerir essa história patética de ode ao sofrimento e à superação masculina. Por que a superação da Summer é vista como um entrave na vida do Tom enquanto a superação dele é vista como um novo capítulo de um livro? Por que focar a história na figura masculina ferida, que não aceita ouvir um não?
Muitos (acreditem, muita gente mesmo) irão argumentar que o ponto do filme é, na verdade, mostrar o quão babaca o Tom é, mostrando o papelão que ele protagonizou por causa de um término de relacionamento (vamos lembrar da cena em que ele bate em um cara no bar só pra provar ser machão pra Summer?). Eu acho que se esse fosse o ponto do filme ele não estaria na posição de mocinho – todos sabemos como funciona essa estrutura dramática do herói que luta contra o mal e se exima dos pecados depois de passar por várias provações, bem ao estilo século XII. Se a Summer estivesse no lugar do Tom ela provavelmente terminaria internada em um hospital psiquiátrico, porque uma mulher fazendo qualquer uma das coisas que Hansen faz no filme seria considerado histeria ou personalidade borderline. É realmente cansativo ver essa exaltação do sofrimento masculino heterossexual enquanto todas já passamos por algum tipo de abuso no relacionamento e fomos silenciadas justamente devido a essa extrema compaixão para com os homens.
Não sei, acho que preciso dar um tempo nas comédias românticas.