Em uma breve passagem pela cidade de São Paulo no ano passado, visitei a Bienal de Arte, uma das mais importantes exposições/encontros de arte da América Latina. Logo na entrada, me deparei com uma instalação chamada Espaço para Abortar, uma estrutura de arame com 7 cabines que formam sete úteros. Essa instalação foi criada pelo núcleo e coletivo feminista boliviano Mujeres Creando.
Mandei um email despretensioso para o coletivo que me respondeu prontamente aceitando fazer uma pequena entrevista. Inicialmente minha ideia era falar sobre a peça na Bienal, mas tive outras prioridades quando me encontrei na posição de estar ‘de frente’ com um coletivo feminista de 22 anos que tem uma enorme e inspiradora história de luta. Segue então a conversa que tivemos por email:
OVELHA: No domingo do dia 5 de outubro (de 2014), aconteceu o primeiro turno das eleições brasileiras para presidência da república. Eram 3 candidatas mulheres disputando a presidência, mas só uma com agenda feminista e que contemplavam os requisitos das minorias. Como é a situação política feminista na Bolívia (esqueci completamente de dizer que eu me referia a Luciana Genro e não à Dilma)?
MUJERES CREANDO:Começarei a te dizer que não acredito que Dilma Roussef represente um agenda feminista clara, não acredito na forma que ela alcançou o poder se garantindo a partir de alianças com as igrejas fundamentalistas cristãs, a não intenção de descriminalização do aborto no Brasil e a criminalização da pobreza. A organização de grandes eventos como a Copa do Mundo e as Olimpíadas e a política policial de eliminação dos pobres. Eu não acredito que essa seja uma agenda feminista. Não acredito que deveríamos nos resignar e nos contentar com um mal menor. Acredito que é importante como movimento, nos manter à claridade de nossas agendas, a claridade do horizontes e de nossas lutas e que não nos deixemos levar pela ‘oferta’ do mercado eleitoral como único universo de referência política. Na Bolívia, a situação é dramática, se implementou totalmente a paridade e alternância de sexo nas listas eleitorais, mas isso não significa a revisão do papel das mulheres na política, muito menos uma agenda feminista. O movimento ao socialismo do presidente Evo Morales é um projeto popular que tem se endireitado (no sentido de ser menos de esquerda e mais de direita), ao mesmo tempo o perfil tão machista dos candidatos exacerba o discurso das mulheres objeto, ao ponto que temos Miss Rainhas de Beleza como aliadas políticas mais importantes do partido de governo porque exaltam a virilidade destes personagens. A descriminalização do aborto nem sequer entrou em debate e a campanha eleitoral é um desperdício de promessas populistas vinculadas com as graves condições de vida das pessoas.
OVELHA: Apesar de estarmos muito próximos geograficamente, (infelizmente) pelas diferenças culturais e linguísticas, o Brasil se distancia muito da unidade latino americana. Como você acha que poderíamos nos aproximar em vista que as lutas das mulheres permeiam as mesmas causas?
MUJERES CREANDO: Eu creio que tínhamos um cenário latino americano comum nos encontros feministas latino americanos e que lamentavelmente a partir dos anos 90 entraram em uma grave crise devido a cooptação da cooperação internacional destes cenários, que se tornaram cenários exclusivos de uma elite de trabalhadoras de organizações não governamentais (ongs). Acredito que devemos construir o intercâmbio e procurar a partir da cultura como cenário. Nós temos duas casas, uma em La Paz e outra em Santra Cruz (de La Sierra) e ali estamos dispostas a receber companheiras que querem vir e fazer intercâmbio cultural. Creio que isso é fundamental.
OVELHA: A militância feminista é tão maravilhosa quanto é pesada, fico extremamente feliz de ver que vocês estão juntas há 22 anos. Com qual frequência se reúnem? Vocês fazem algum tipo de apoio interno para membros do coletivo?
MUJERES CREANDO: O que acontece com o Mujeres Creando é muito original em todo continente. Sabe, nós não entendemos o feminismo como a construção de um grupo ou como um passatempo, mas como um modo de vida e de luta cotidiana. Temos duas casas em diferentes cidades e a partir da gestão dessas casas desenvolvemos formas de política concreta com a sociedade. Sempre estamos atuando de forma contínua e direta com os temas que preocupam a gente e isso cria uma dinâmica muito intensa dentro do movimento. Ao mesmo tempo temos pequenas cooperativas que vão surgindo e que vão gerando formas de auto sustentação econômica para muitas mulheres. Isso é fabuloso porque gera coesão, gera trabalho contínuo, gera capacidade de resposta social imediata a todo tempo, gera produção de teoria de ideias e de conhecimento a todo o tempo e produção cultural contínua também.
OVELHA: Às vezes para passarmos uma mensagem é preciso dialogar com partes que nos são adversas. Como por exemplo, a instituição de arte da Bienal de São Paulo. Vi que vocês fizeram uma carta aberta em repúdio ao logo do estado de Israel (ato do qual apoio integralmente) que estava nos apoios do evento. Quanto podemos nos permitir dialogar com certas instituições para que possamos passar a mensagem para frente?
MUJERES CREANDO: Olha, nós não temos uma visão maniqueísta de onde qualificamos o de fora como limpo e válido e toda instituição como podre. Cremos que temos que estar com nosso próprio discurso e com suas próprias condições em todos os lugares, seja na rua, até na televisão, passando por um cenário como a Bienal de Arte de São Paulo. Não se trata de se submeter à instituição, não se trata de absorver seus códigos, quase sem diálogo. Se trata de tornar a instituição como qualquer outro espaço possível e se instalar ali com a mesma lógica de invasão, como a qual em que o mendigo se instala na porta de uma igreja. Logo creio que as próprias instituições tem muitíssimas contradições e que temos que aproveitar. A arte, a universidade, o estado estão em crise, não se trata de ser uma catarse para sua crise mas sim de aproveitar esses espaços de crise para expandir ideias propostas, desacatos, desobediências. Há pouco tempo o vice presidente da Bolívia me chamou para uma entrevista. Eu repudio sua política e poderia ter dito que não, ao invés disso, decidi ir de encontro ao diálogo com ele mas sem me auto censurar, sem nenhum tipo de reverência grave ao encontro e foi uma bomba até hoje.
OVELHA: Como se dá a resistência feminista das Cholas? Há um movimento de contrapartida camponês?
MUJERES CREANDO: O movimento campesino na Bolívia está cooptado pelo governo e sofre um momento de inércia e complacência. São os clientes privilegiados pelo governo, mas se trata de uma aliança só com os líderes do movimento embora as bases também se alegrem com essa aliança. Em nosso movimento há muitas que são cholas, parte porque não construímos um movimento homogêneo branco urbano, mas são literalmente e metaforicamente putas e lésbicas, juntas e revoltas e geminadas como irmãs.
Fiquei muitíssimo tocada com as respostas fortes da Maria Galindo (uma das representantes do coletivo), me lembrei muito da nossa musa brasileira Indianara Siqueira que tem uma história sólida de militância há anos e pela qual tenho muita admiração. Agradeço muitíssimo o coletivo Mujeres Creando por ceder uma entrevista, e a Maria Galindo. Viva las que luchan!
Nota: A entrevista foi concedida à página xereca no dia 06/10/2014 e foi elaborada e traduzida por Bárbara Gondar.
Em uma breve passagem pela cidade de São Paulo no ano passado, visitei a Bienal de Arte, uma das mais importantes exposições/encontros de arte da América Latina. Logo na entrada, me deparei com uma instalação chamada Espaço para Abortar, uma estrutura de arame com 7 cabines que formam sete úteros. Essa instalação foi criada pelo núcleo e coletivo feminista boliviano Mujeres Creando.
Mandei um email despretensioso para o coletivo que me respondeu prontamente aceitando fazer uma pequena entrevista. Inicialmente minha ideia era falar sobre a peça na Bienal, mas tive outras prioridades quando me encontrei na posição de estar ‘de frente’ com um coletivo feminista de 22 anos que tem uma enorme e inspiradora história de luta. Segue então a conversa que tivemos por email:
OVELHA: No domingo do dia 5 de outubro (de 2014), aconteceu o primeiro turno das eleições brasileiras para presidência da república. Eram 3 candidatas mulheres disputando a presidência, mas só uma com agenda feminista e que contemplavam os requisitos das minorias. Como é a situação política feminista na Bolívia (esqueci completamente de dizer que eu me referia a Luciana Genro e não à Dilma)?
MUJERES CREANDO:Começarei a te dizer que não acredito que Dilma Roussef represente um agenda feminista clara, não acredito na forma que ela alcançou o poder se garantindo a partir de alianças com as igrejas fundamentalistas cristãs, a não intenção de descriminalização do aborto no Brasil e a criminalização da pobreza. A organização de grandes eventos como a Copa do Mundo e as Olimpíadas e a política policial de eliminação dos pobres. Eu não acredito que essa seja uma agenda feminista. Não acredito que deveríamos nos resignar e nos contentar com um mal menor. Acredito que é importante como movimento, nos manter à claridade de nossas agendas, a claridade do horizontes e de nossas lutas e que não nos deixemos levar pela ‘oferta’ do mercado eleitoral como único universo de referência política. Na Bolívia, a situação é dramática, se implementou totalmente a paridade e alternância de sexo nas listas eleitorais, mas isso não significa a revisão do papel das mulheres na política, muito menos uma agenda feminista. O movimento ao socialismo do presidente Evo Morales é um projeto popular que tem se endireitado (no sentido de ser menos de esquerda e mais de direita), ao mesmo tempo o perfil tão machista dos candidatos exacerba o discurso das mulheres objeto, ao ponto que temos Miss Rainhas de Beleza como aliadas políticas mais importantes do partido de governo porque exaltam a virilidade destes personagens. A descriminalização do aborto nem sequer entrou em debate e a campanha eleitoral é um desperdício de promessas populistas vinculadas com as graves condições de vida das pessoas.
OVELHA: Apesar de estarmos muito próximos geograficamente, (infelizmente) pelas diferenças culturais e linguísticas, o Brasil se distancia muito da unidade latino americana. Como você acha que poderíamos nos aproximar em vista que as lutas das mulheres permeiam as mesmas causas?
MUJERES CREANDO: Eu creio que tínhamos um cenário latino americano comum nos encontros feministas latino americanos e que lamentavelmente a partir dos anos 90 entraram em uma grave crise devido a cooptação da cooperação internacional destes cenários, que se tornaram cenários exclusivos de uma elite de trabalhadoras de organizações não governamentais (ongs). Acredito que devemos construir o intercâmbio e procurar a partir da cultura como cenário. Nós temos duas casas, uma em La Paz e outra em Santra Cruz (de La Sierra) e ali estamos dispostas a receber companheiras que querem vir e fazer intercâmbio cultural. Creio que isso é fundamental.
OVELHA: A militância feminista é tão maravilhosa quanto é pesada, fico extremamente feliz de ver que vocês estão juntas há 22 anos. Com qual frequência se reúnem? Vocês fazem algum tipo de apoio interno para membros do coletivo?
MUJERES CREANDO: O que acontece com o Mujeres Creando é muito original em todo continente. Sabe, nós não entendemos o feminismo como a construção de um grupo ou como um passatempo, mas como um modo de vida e de luta cotidiana. Temos duas casas em diferentes cidades e a partir da gestão dessas casas desenvolvemos formas de política concreta com a sociedade. Sempre estamos atuando de forma contínua e direta com os temas que preocupam a gente e isso cria uma dinâmica muito intensa dentro do movimento. Ao mesmo tempo temos pequenas cooperativas que vão surgindo e que vão gerando formas de auto sustentação econômica para muitas mulheres. Isso é fabuloso porque gera coesão, gera trabalho contínuo, gera capacidade de resposta social imediata a todo tempo, gera produção de teoria de ideias e de conhecimento a todo o tempo e produção cultural contínua também.
OVELHA: Às vezes para passarmos uma mensagem é preciso dialogar com partes que nos são adversas. Como por exemplo, a instituição de arte da Bienal de São Paulo. Vi que vocês fizeram uma carta aberta em repúdio ao logo do estado de Israel (ato do qual apoio integralmente) que estava nos apoios do evento. Quanto podemos nos permitir dialogar com certas instituições para que possamos passar a mensagem para frente?
MUJERES CREANDO: Olha, nós não temos uma visão maniqueísta de onde qualificamos o de fora como limpo e válido e toda instituição como podre. Cremos que temos que estar com nosso próprio discurso e com suas próprias condições em todos os lugares, seja na rua, até na televisão, passando por um cenário como a Bienal de Arte de São Paulo. Não se trata de se submeter à instituição, não se trata de absorver seus códigos, quase sem diálogo. Se trata de tornar a instituição como qualquer outro espaço possível e se instalar ali com a mesma lógica de invasão, como a qual em que o mendigo se instala na porta de uma igreja. Logo creio que as próprias instituições tem muitíssimas contradições e que temos que aproveitar. A arte, a universidade, o estado estão em crise, não se trata de ser uma catarse para sua crise mas sim de aproveitar esses espaços de crise para expandir ideias propostas, desacatos, desobediências. Há pouco tempo o vice presidente da Bolívia me chamou para uma entrevista. Eu repudio sua política e poderia ter dito que não, ao invés disso, decidi ir de encontro ao diálogo com ele mas sem me auto censurar, sem nenhum tipo de reverência grave ao encontro e foi uma bomba até hoje.
OVELHA: Como se dá a resistência feminista das Cholas? Há um movimento de contrapartida camponês?
MUJERES CREANDO: O movimento campesino na Bolívia está cooptado pelo governo e sofre um momento de inércia e complacência. São os clientes privilegiados pelo governo, mas se trata de uma aliança só com os líderes do movimento embora as bases também se alegrem com essa aliança. Em nosso movimento há muitas que são cholas, parte porque não construímos um movimento homogêneo branco urbano, mas são literalmente e metaforicamente putas e lésbicas, juntas e revoltas e geminadas como irmãs.
Fiquei muitíssimo tocada com as respostas fortes da Maria Galindo (uma das representantes do coletivo), me lembrei muito da nossa musa brasileira Indianara Siqueira que tem uma história sólida de militância há anos e pela qual tenho muita admiração. Agradeço muitíssimo o coletivo Mujeres Creando por ceder uma entrevista, e a Maria Galindo. Viva las que luchan!
Nota: A entrevista foi concedida à página xereca no dia 06/10/2014 e foi elaborada e traduzida por Bárbara Gondar.
Em uma breve passagem pela cidade de São Paulo no ano passado, visitei a Bienal de Arte, uma das mais importantes exposições/encontros de arte da América Latina. Logo na entrada, me deparei com uma instalação chamada Espaço para Abortar, uma estrutura de arame com 7 cabines que formam sete úteros. Essa instalação foi criada pelo núcleo e coletivo feminista boliviano Mujeres Creando.
Mandei um email despretensioso para o coletivo que me respondeu prontamente aceitando fazer uma pequena entrevista. Inicialmente minha ideia era falar sobre a peça na Bienal, mas tive outras prioridades quando me encontrei na posição de estar ‘de frente’ com um coletivo feminista de 22 anos que tem uma enorme e inspiradora história de luta. Segue então a conversa que tivemos por email:
[caption id="attachment_3030" align="aligncenter" width="1023"] “Espaço para Abortar”, instalação do Mujeres Creando na Bienal das Artes 2014[/caption]
OVELHA: No domingo do dia 5 de outubro (de 2014), aconteceu o primeiro turno das eleições brasileiras para presidência da república. Eram 3 candidatas mulheres disputando a presidência, mas só uma com agenda feminista e que contemplavam os requisitos das minorias. Como é a situação política feminista na Bolívia (esqueci completamente de dizer que eu me referia a Luciana Genro e não à Dilma)?
MUJERES CREANDO:Começarei a te dizer que não acredito que Dilma Roussef represente um agenda feminista clara, não acredito na forma que ela alcançou o poder se garantindo a partir de alianças com as igrejas fundamentalistas cristãs, a não intenção de descriminalização do aborto no Brasil e a criminalização da pobreza. A organização de grandes eventos como a Copa do Mundo e as Olimpíadas e a política policial de eliminação dos pobres. Eu não acredito que essa seja uma agenda feminista. Não acredito que deveríamos nos resignar e nos contentar com um mal menor. Acredito que é importante como movimento, nos manter à claridade de nossas agendas, a claridade do horizontes e de nossas lutas e que não nos deixemos levar pela ‘oferta’ do mercado eleitoral como único universo de referência política. Na Bolívia, a situação é dramática, se implementou totalmente a paridade e alternância de sexo nas listas eleitorais, mas isso não significa a revisão do papel das mulheres na política, muito menos uma agenda feminista. O movimento ao socialismo do presidente Evo Morales é um projeto popular que tem se endireitado (no sentido de ser menos de esquerda e mais de direita), ao mesmo tempo o perfil tão machista dos candidatos exacerba o discurso das mulheres objeto, ao ponto que temos Miss Rainhas de Beleza como aliadas políticas mais importantes do partido de governo porque exaltam a virilidade destes personagens. A descriminalização do aborto nem sequer entrou em debate e a campanha eleitoral é um desperdício de promessas populistas vinculadas com as graves condições de vida das pessoas.
OVELHA: Apesar de estarmos muito próximos geograficamente, (infelizmente) pelas diferenças culturais e linguísticas, o Brasil se distancia muito da unidade latino americana. Como você acha que poderíamos nos aproximar em vista que as lutas das mulheres permeiam as mesmas causas?
MUJERES CREANDO: Eu creio que tínhamos um cenário latino americano comum nos encontros feministas latino americanos e que lamentavelmente a partir dos anos 90 entraram em uma grave crise devido a cooptação da cooperação internacional destes cenários, que se tornaram cenários exclusivos de uma elite de trabalhadoras de organizações não governamentais (ongs). Acredito que devemos construir o intercâmbio e procurar a partir da cultura como cenário. Nós temos duas casas, uma em La Paz e outra em Santra Cruz (de La Sierra) e ali estamos dispostas a receber companheiras que querem vir e fazer intercâmbio cultural. Creio que isso é fundamental.
[caption id="attachment_3027" align="aligncenter" width="750"] Mujeres Creando na exposição “Acción urgente” (Fundación Proa, Argentina, 2014)[/caption]
OVELHA: A militância feminista é tão maravilhosa quanto é pesada, fico extremamente feliz de ver que vocês estão juntas há 22 anos. Com qual frequência se reúnem? Vocês fazem algum tipo de apoio interno para membros do coletivo?
MUJERES CREANDO: O que acontece com o Mujeres Creando é muito original em todo continente. Sabe, nós não entendemos o feminismo como a construção de um grupo ou como um passatempo, mas como um modo de vida e de luta cotidiana. Temos duas casas em diferentes cidades e a partir da gestão dessas casas desenvolvemos formas de política concreta com a sociedade. Sempre estamos atuando de forma contínua e direta com os temas que preocupam a gente e isso cria uma dinâmica muito intensa dentro do movimento. Ao mesmo tempo temos pequenas cooperativas que vão surgindo e que vão gerando formas de auto sustentação econômica para muitas mulheres. Isso é fabuloso porque gera coesão, gera trabalho contínuo, gera capacidade de resposta social imediata a todo tempo, gera produção de teoria de ideias e de conhecimento a todo o tempo e produção cultural contínua também.
[caption id="attachment_2989" align="aligncenter" width="960"] Protesto do Mujeres Creando em frente à catedral Santa Cruz, Bolívia (8/3/2014)[/caption]
OVELHA: Às vezes para passarmos uma mensagem é preciso dialogar com partes que nos são adversas. Como por exemplo, a instituição de arte da Bienal de São Paulo. Vi que vocês fizeram uma carta aberta em repúdio ao logo do estado de Israel (ato do qual apoio integralmente) que estava nos apoios do evento. Quanto podemos nos permitir dialogar com certas instituições para que possamos passar a mensagem para frente?
MUJERES CREANDO: Olha, nós não temos uma visão maniqueísta de onde qualificamos o de fora como limpo e válido e toda instituição como podre. Cremos que temos que estar com nosso próprio discurso e com suas próprias condições em todos os lugares, seja na rua, até na televisão, passando por um cenário como a Bienal de Arte de São Paulo. Não se trata de se submeter à instituição, não se trata de absorver seus códigos, quase sem diálogo. Se trata de tornar a instituição como qualquer outro espaço possível e se instalar ali com a mesma lógica de invasão, como a qual em que o mendigo se instala na porta de uma igreja. Logo creio que as próprias instituições tem muitíssimas contradições e que temos que aproveitar. A arte, a universidade, o estado estão em crise, não se trata de ser uma catarse para sua crise mas sim de aproveitar esses espaços de crise para expandir ideias propostas, desacatos, desobediências. Há pouco tempo o vice presidente da Bolívia me chamou para uma entrevista. Eu repudio sua política e poderia ter dito que não, ao invés disso, decidi ir de encontro ao diálogo com ele mas sem me auto censurar, sem nenhum tipo de reverência grave ao encontro e foi uma bomba até hoje.
OVELHA: Como se dá a resistência feminista das Cholas? Há um movimento de contrapartida camponês?
MUJERES CREANDO: O movimento campesino na Bolívia está cooptado pelo governo e sofre um momento de inércia e complacência. São os clientes privilegiados pelo governo, mas se trata de uma aliança só com os líderes do movimento embora as bases também se alegrem com essa aliança. Em nosso movimento há muitas que são cholas, parte porque não construímos um movimento homogêneo branco urbano, mas são literalmente e metaforicamente putas e lésbicas, juntas e revoltas e geminadas como irmãs.
[separator type="thick"]
Fiquei muitíssimo tocada com as respostas fortes da Maria Galindo (uma das representantes do coletivo), me lembrei muito da nossa musa brasileira Indianara Siqueira que tem uma história sólida de militância há anos e pela qual tenho muita admiração. Agradeço muitíssimo o coletivo Mujeres Creando por ceder uma entrevista, e a Maria Galindo. Viva las que luchan!
[caption id="attachment_2987" align="aligncenter" width="700"] Maria Galindo[/caption]
Nota: A entrevista foi concedida à página xereca no dia 06/10/2014 e foi elaborada e traduzida por Bárbara Gondar.
Em 2015, eu e meu companheiro resolvemos nos mudar pra Espanha e sabíamos que teríamos muitas coisas para resolver. Aos trancos e barrancos, conseguimos, com paciência, meter o pé com o Madiba, a Miel e a Frida. Resolvi fazer um passo a passo didático para as pessoas que também pretendem viajar com seus melhores amigos! Agora vai uma dica riquíssima, comece a se organizar com pelo menos 6 meses de antecedência se você for organizado, uns 5 se não, na moral, ouve o que eu tô te falando, hahaha!
Então bora lá, em ordem de tempo e importância (vou usar o termo ‘mascota’ em espanhol porque é lindo, é unissex e é bem melhor do que ‘bichinho de estimação’ e/ou ‘animal’ que é muito impessoal hahaha) aqui vão os passos da documentação para a maioria dos países da União Européia (vou botar umas fotos aleatórias das minhas mascotas pra vocês conseguirem segurar o textaum):
1. Veterinário
É muito importante e confortável, no sentido de segurança, ter um profissional que acompanhe o processo todo. Caso seu veterinário não estiver apto a fazer todos os processos requeridos, peça para ele uma indicação. É interessante que uma pessoa só acompanhe todos os passos, só pra se organizar melhor mesmo, porque são muitos.
Faça um check up completo para saber se está tudo bem. Caso sua mascota for mais velha, é bom conferir se está em condições de fazer uma viagem de avião. Lembrando que cães e gatos de raças com focinho achatado (branquicéfalos), como pugs, não são permitidos na maioria das companhias em viagens de avião (principalmente no porão) porque o sistema respiratório é debilitado e há grandes riscos de ‘dar ruim’.
2. Microchip
É muito importante que você coloque um microchip no seu animal antes de tudo. É bem micro mesmo, ele é inserido com uma seringa, não se preocupe! Se sua mascota for nova, é importante que você coloque o chip antes da vacina de raiva. Se for mais velha, coloque o chip antes da renovação da vacina de raiva, que é anual. Por quê? Porque colocado o chip, você receberá um certificado de identificação do animal e quando for aplicada a vacina, ela será referente à identificação da mascota. É apenas burocrático, como todo o resto, por isso a ordem das coisas devem ser seguidas!
3. Vacinas
Agora sim, está liberado pra vacinar! As vacinas são as obrigatórias, não se preocupe em dar além disso. Claro que, pode ser que o país que você vá precise de alguma coisa específica, cheque nesse link, mas pra garantir, cheque no site do consulado do país de destino! O importante é que as vacinas sejam feitas por um veterinário particular e não por campanhas públicas, não me pergunte o porquê. Assim que sua mascota tiver tomado a vacina, já marque a próxima consulta para colher a sorologia na primeira data que tiverem depois de 30 dias, segue abaixo o porquê.
4. Sorologia
O que é a sorologia? É um exame de sangue simples, nele vai ser testado se o seu animal, que contém o chip de número x, está com a vacina de raiva ativa em seu sistema.
AGORA PRESTE MUITA ATENÇÃO: a sorologia só pode ser feita no período de um mês (30 dias) depois de ter tomado a vacina de raiva. A vacina precisa de um tempo para ser ativada no sistema do animal, então é preciso que passe esse tempo para que ela apareça no exame. Se você fizer o exame antes, pode ser que ela não apareça e você vai ter que repetir o processo que é demorado e caro! Só vai atrasar mais a sua viagem.
Uma questão pendente: a sorologia era realizada em um único laboratório em São Paulo, o Instituto Pasteur, porém ele não está mais autorizado a atestar a sorologia, então possivelmente o tempo e o preço (que já era demorado por ser o único e caro) devem aumentar. Se atualize com seu veterinário! O teste provavelmente deve estar sendo realizado no laboratório mais perto, que é no Chile, segundo essa fonte.
Eu ainda consegui fazer pelo Instituto Pasteur, foi caro, por volta de R$400,00 e demorou em torno de um mês para o exame voltar para o IEMEV, onde realizei todo o processo. O bom é que a sorologia não precisa ser repetida caso você nunca não atrase a vacina da sua mascota. O que é o melhor a ser feito, já que tenho certeza que ninguém vai querer passar por esse processo chato mais de uma vez, certo?
Depois desse passo você só poderá viajar depois de 3 meses (90 dias) contanto do dia em que o sangue da mascota foi coletado para fazer o exame de sorologia e a data de embarque. É burocracia gente, abaixa a cabeça e segue senão não rola. Muita gente teve que remarcar viagem por causa disso! Posso julgar? Posso, mas vou fazer a glorinha e não opinar.
5. De volta ao Vet
É o penúltimo passo, uhuuuul! Você precisa levar sua mascota com toda a documentação adquirida até agora para o vet. emitir um certificado de sanidade da mascota. É apenas um documento que atesta que sua mascota está apta para viajar, com a saúde top na balada. Lembre-se de tirar esse documento num período de até 3 dias (72 horas) antes de ir ao VIGIAGRO (próximo passo) e até 10 dias antes da sua viagem para ele ser válido, ok?
6. Ministério da Agricultura/VIGIAGRO
Esse passo deve ser feito dentro de 10 dias até a sua viagem. Não pode ser mais do que isso, pode ser no dia anterior (não recomendo, até 2 dias é o recomendado) se você quiser, mas não pode passar de 10 dias.
Cada estado tem uma base do Ministério da Agricultura/ VIGIAGRO, entre nesse sitee descubra onde é a sua. Descobriu? Agora você vai ligar para lá e agendar uma entrevista para levar sua documentação e dar baixa em tudo. A pessoa vai te dar as instruções finais, vai perguntar qual é o país de destino, vai pedir o seu email para te mandar a confirmação do agendamento e também alguns documentos em anexo.
Como os certificados são internacionais, já estão em inglês e espanhol, não é necessário fazer tradução de nenhum documento.
Agora você já tem toda documentação, que seria:
certificado de microchipagem
caderneta das vacinas em dia
teste de sorologia
certificado de sanidade
certificado veterinário internacional
requerimento de ficalização de animais de companhia
Tire duas cópias de tudo, leve a original e as outras duas cópias para o Ministério da Agricultura/ VIGIAGRO. Eu não precisei levar minhas mascotas lá, quando for ligar para agendar a entrevista, pergunte se é necessário! Não é necessário emitir um passaporte do animal, mas você pode emiti-lo se quiser, clique aqui para saber mais. Boa sorte, vai dar tudo certo!
Aqui uma timeline pra ajudar a visualizar o tempo que vai levar. Com o tempo muito apertado, 4/5 meses, rola fazer sim, mas precisa ser bem organizado e esperar que todas as etapas dêem certo!
A partir de agora, você já pode relaxar quanto às burocracias das documentações, esse é o passo a passo que eu fiz com meu compa e deu super certo. Existem empresas que cobram um preço exorbitante para realizar as partes de atestamento de documentação, as partes burocráticas, mas a real é que você pode fazer tudo se estiver disposto e tiver paciência.
Enquanto você estiver nesse processo burocrático para adquirir toda a documentação, há outras coisas que precisam ser resolvidas, debatidas e compradas. Vou colocar elas abaixo numa ordem indiferente de importância, mas vai precisar da sua atenção e pesquisa! Principalmente porque a maioria dessas informações são flutuantes, variam muito.
Onde minha mascota vai viajar?
R: Há duas opções dependendo do tamanho. Ou no porão do avião, ou embaixo do seu assento. Cada companhia aérea tem uma especificação diferente quanto ao tamanho/peso da mascota e há uma diferença brutal entre o tamanho da caixa que pode viajar no porão (maior) e a que pode viajar embaixo do seu assento (bem menor).Não se preocupe com a opção do porão, veja vídeos na internet para saber como e onde a mascota é levada, vou deixar um aqui. O porão tem a mesma climatização da cabine e como eu sabia que estaria nervosa de qualquer forma, achei melhor deixá-los no porão, assim o meu nervosismo não seria passado para eles.Como meu cachorro é médio, ele iria no porão de qualquer jeito, mas eu poderia levar minhas duas gatas comigo na cabine (um animal por pessoa, uma comigo e a outra com meu compa). Acabei desistindo de levá-las comigo por alguns motivos. O tamanho da caixa, não poderia ter nem 30cm de altura, minhas gatas mal poderiam ficar em pé e achei cruel levá-las por tanto tempo (de casa até onde ficaria na Espanha, umas 15 horas). Achei melhor os três irem juntos no porão porque já se conhecem e ficariam juntos, achei que tranquilizaria, mas posso estar viajando nesse motivo. Hahaha.
De qualquer forma, como eu já disse, cada companhia aérea tem sua especificação, então quando pra isso, vamos para o próximo tópico!
Como escolho a companhia aérea?
R: Dentro das opções que você tiver (pra onde for viajar e condições financeiras), entre no site de cada companhia e veja as especificações. Há várias a serem estudadas, como as quais: raças que são e não são transportadas, preço por mascota, tamanho da caixa de transporte, conexões (importante se você não for fazer uma viagem direta, as vezes é preciso pagar a mais), etc.Como eu queria muito pegar um vôo direto para que eles não ficassem tanto tempo no porão, comprei a passagem pela Ibéria. Eles tem um vídeo mostrando como é feito o transporte e tem uma cãzinha modelo, me passou bastante segurança, esse é o importante. Vou deixar aqui! :)Entre tudo o que eu pesquisei, a Lufthansa me pareceu a melhor companhia para fazer o transporte de animais, mas mais uma vez, como esse post é datado, sempre procure as reclamações das companhias e faça a sua escolha pessoal baseado na sua busca e confiança.A Iberia foi bem cuidadosa com a gente. Nem precisamos perguntar dentro do avião se nossas mascotas já tinham embarcado, eles anunciaram para todo o avião que hviam mascotas a bordo! Me tranquilizou muito.Quando for comprar sua passagem para viajar, é preciso que você ligue na companhia para avisar que vai viajar com sua mascota, há um limite de animais por vôo e mais uma vez, esse número varia de companhia para companhia.
Pra onde eu vou precisa do que?
R: A minha experiência foi transportar minhas mascotas para a Espanha que fica dentro da União Européia. A maioria dos países dentro da UE seguem as mesmas regras burocráticas (Inglaterra eu sei que não segue, por exemplo). Se você for pra outro lugar, isso pode ser facilmente checado no site do consulado do país pra onde você está indo (ou aqui). Para alguns países, é necessário que o animal fique numa quarentena, pra esses países, é bom que você comece o processo com bem mais de um ano antes da viagem. Se for o seu caso, sugiro que, se você tiver essa possibilidade, passe esse tempo num país que já tenha erradicado a raiva, assim você não vai precisar deixar sua mascota numa quarentena em um lugar desconhecido e sem você. Portanto, é preciso bastante planejamento!
Qual tipo de caixa eu compro?
R: Há um certificado de caixas para viajar de avião, chama IATA. Mas eu vou dar a letra, há duas opções de marca que pra mim são as melhores, PETMATE e/ou GULLIVER.Para escolher o tamanho da caixa é fácil, normalmente eles fazem pelo peso do cachorro, mas você também pode medir da seguinte forma: seu animal precisa entrar na caixa sem encostar a cabeça no teto e conseguir dar uma volta em torno dele mesmo confortavelmente. Leve ele na loja para testar!Além do tamanho da caixa, há outras especificações, já adianto que é sobre material da caixa ser resistente, ela não pode ter rodinhas, os parafusos precisam ser de metal, as marcas que sugeri seguem essas especificações. Não conferiram absolutamente nada disso quando fui despachar minhas mascotas no aeroporto, mas é melhor prevenir do que remediar.
Uma boa dica, se você puder comprá-las o quanto antes, melhor. Por quê? Porque sua mascota vai poder se acostumar com ela naturalmente. Faça ela ser a caminha, tire a porta ou deixe ela aberta e vá treinando sua mascota a se sentir confortável dentro dela. Enquanto estiver dentro, feche um pouco a porta, se puder fazer pequenas viagens com a mascota dentro da caixa, faça. Vai ser divertido entrar naquela caixa e sair num lugar legal! Quando for viajar, deixe uma peça de roupa sua com seu cheiro para confortar a mascota, principalmente se ela for no porão! <3
Tem que pagar pra levar a mascota?
R: Infelizmente como tudo na vida, sim. Se estiver saindo do Brasil, não é barato. O preço varia, eu tive que pagar U$200 por mascota, foi uma bica. O valor paguei na hora do check in já embarcando, infelizmente esse valor não pode ser parcelado. Insert choro mexicano. Mas dê uma olhada na companhia aérea que você for escolher e confira o preço, fique atento nas conexões, as vezes você precisa pagar a mais caso vá fazê-las.
Minha mascota é branquicéfala (focinho achatado), posso viajar de avião com ela?
R: A primeira pessoa que vai poer responder essa pergunta é o seu veterinário. Pode depender apenas da saúde da sua mascota. De qualquer forma, a maioria das companhias aéreas, no porão, não permitem branquicéfalos. Algumas permitem se levadas na cabine junto com você, é mais um assunto que é necessário que você pesquise no site da companhia, mas não desanime!
Dou remédio para eles viajarem?
R: Minha veterinária recomendou apenas um dramin para meu cachorro que pesa 18kg e nada para as gatas. Se sua mascota estiver acostumada a algum tipo de medicação previamente passada pelo veterinário que já a conheça e recomende, então tudo bem. Muita atenção, não mediquem suas mascotas sem consultar um profissional, é extremamente perigoso!
No dia da viagem, alguma preparação especial?
R: Sim! Canse bastante a mascota, assim poderá dormir bastante durante a viagem. Só dê comida e água até o momento que faltar 5 horas para sair de casa e tenha certeza que sua mascota tenha feito as necessidades antes de partirem para o aeroporto. De qualquer forma, é legal forrar a caixinha com um tapete higiênico, para absorver o xixi caso aconteça!
Bicho, se até agora você não tinha preparado uma pastinha para colocar toda a documentação dentro, agora é a hora. Confira todos os documentos e coloque dentro de uma pasta. Deixe tudo organizado e sempre lembre/confira a data da última vacina de raiva para renová-la e não perder a sorologia. Chegue cedo para fazer o check in, demora para ser feito porque você vai precisar mostrar a documentação, a pessoa que estiver fazendo seu check in vai chamar alguém no rádio para buscar a mascota, então, chegue cedo!
Chegando no destino, como faz?
R: Assim que você chegar no aeroporto, deve ter que caminhar até onde ficam as esteiras para recolher a bagagem. Calma, sua mascota não chega pela esteira, hahaha. Vá até um guichê que esteja no salão e diga que você está aguardando sua mascota que foi despachada e a pessoa deve te indicar onde esperar.No nosso caso, tinham um guichê da própria Ibéria e nos foi informado que dali há alguns minutos nossas mascotas deveriam chegar por um elevador. Ficamos na frente esperando e depois de uns 20 minutos, todos chegaram muito bem.Uma dica, se a caixa da sua mascota for giga, ou se você viaja com mais de uma, como é o nosso caso, já peça um taxi que acomode tudo desde o Brasil. No nosso caso, tivemos que chamar um taxi/van, já que a caixa do Madi era muito grande, não caberíam as malas, as caixas e nós num carro normal!
Passado todo esse período de estresse, chegamos ansiosos ao nosso novo destino e aqui estamos. Todos felizes. Tudo isso se passou no final de dezembro de 2015, chegamos no dia 18, pra mim e Ivan, demasiado frio, para as mascotas, uma delícia! Imaginem, saírem do calor de 40 graus do RJ direto pra um friozinho em que o pêlo deles foi feito para curtir, hahaha.
Espero que as informações tenham sido úteis, tentei resumir mas é muita coisa mesmo, hahaha. É bom que seja bastante coisa, né? Afinal, estamos falando de nossos ‘bichinhos de estimação’, eu não gosto dessa expressão porque não é algo que eu apenas estimo, haha, eles fazem parte da minha família mesmo. Próximos posts são para atualizar como está sendo nossa viagem e como nossas mascotas estão, se é que alguém vai querer saber, né? Hahaha.
Mandei um email despretensioso para o coletivo que me respondeu prontamente aceitando fazer uma pequena entrevista. Inicialmente minha ideia era falar sobre a peça na Bienal, mas tive outras prioridades quando me encontrei na posição de estar ‘de frente’ com um coletivo feminista de 22 anos que tem uma enorme e inspiradora história de luta. Segue então a conversa que tivemos por email:
OVELHA: No domingo do dia 5 de outubro (de 2014), aconteceu o primeiro turno das eleições brasileiras para presidência da república. Eram 3 candidatas mulheres disputando a presidência, mas só uma com agenda feminista e que contemplavam os requisitos das minorias. Como é a situação política feminista na Bolívia (esqueci completamente de dizer que eu me referia a Luciana Genro e não à Dilma)?
MUJERES CREANDO:Começarei a te dizer que não acredito que Dilma Roussef represente um agenda feminista clara, não acredito na forma que ela alcançou o poder se garantindo a partir de alianças com as igrejas fundamentalistas cristãs, a não intenção de descriminalização do aborto no Brasil e a criminalização da pobreza. A organização de grandes eventos como a Copa do Mundo e as Olimpíadas e a política policial de eliminação dos pobres. Eu não acredito que essa seja uma agenda feminista. Não acredito que deveríamos nos resignar e nos contentar com um mal menor. Acredito que é importante como movimento, nos manter à claridade de nossas agendas, a claridade do horizontes e de nossas lutas e que não nos deixemos levar pela ‘oferta’ do mercado eleitoral como único universo de referência política. Na Bolívia, a situação é dramática, se implementou totalmente a paridade e alternância de sexo nas listas eleitorais, mas isso não significa a revisão do papel das mulheres na política, muito menos uma agenda feminista. O movimento ao socialismo do presidente Evo Morales é um projeto popular que tem se endireitado (no sentido de ser menos de esquerda e mais de direita), ao mesmo tempo o perfil tão machista dos candidatos exacerba o discurso das mulheres objeto, ao ponto que temos Miss Rainhas de Beleza como aliadas políticas mais importantes do partido de governo porque exaltam a virilidade destes personagens. A descriminalização do aborto nem sequer entrou em debate e a campanha eleitoral é um desperdício de promessas populistas vinculadas com as graves condições de vida das pessoas.
OVELHA: Apesar de estarmos muito próximos geograficamente, (infelizmente) pelas diferenças culturais e linguísticas, o Brasil se distancia muito da unidade latino americana. Como você acha que poderíamos nos aproximar em vista que as lutas das mulheres permeiam as mesmas causas?
MUJERES CREANDO: Eu creio que tínhamos um cenário latino americano comum nos encontros feministas latino americanos e que lamentavelmente a partir dos anos 90 entraram em uma grave crise devido a cooptação da cooperação internacional destes cenários, que se tornaram cenários exclusivos de uma elite de trabalhadoras de organizações não governamentais (ongs). Acredito que devemos construir o intercâmbio e procurar a partir da cultura como cenário. Nós temos duas casas, uma em La Paz e outra em Santra Cruz (de La Sierra) e ali estamos dispostas a receber companheiras que querem vir e fazer intercâmbio cultural. Creio que isso é fundamental.
OVELHA: A militância feminista é tão maravilhosa quanto é pesada, fico extremamente feliz de ver que vocês estão juntas há 22 anos. Com qual frequência se reúnem? Vocês fazem algum tipo de apoio interno para membros do coletivo?
MUJERES CREANDO: O que acontece com o Mujeres Creando é muito original em todo continente. Sabe, nós não entendemos o feminismo como a construção de um grupo ou como um passatempo, mas como um modo de vida e de luta cotidiana. Temos duas casas em diferentes cidades e a partir da gestão dessas casas desenvolvemos formas de política concreta com a sociedade. Sempre estamos atuando de forma contínua e direta com os temas que preocupam a gente e isso cria uma dinâmica muito intensa dentro do movimento. Ao mesmo tempo temos pequenas cooperativas que vão surgindo e que vão gerando formas de auto sustentação econômica para muitas mulheres. Isso é fabuloso porque gera coesão, gera trabalho contínuo, gera capacidade de resposta social imediata a todo tempo, gera produção de teoria de ideias e de conhecimento a todo o tempo e produção cultural contínua também.
OVELHA: Às vezes para passarmos uma mensagem é preciso dialogar com partes que nos são adversas. Como por exemplo, a instituição de arte da Bienal de São Paulo. Vi que vocês fizeram uma carta aberta em repúdio ao logo do estado de Israel (ato do qual apoio integralmente) que estava nos apoios do evento. Quanto podemos nos permitir dialogar com certas instituições para que possamos passar a mensagem para frente?
MUJERES CREANDO: Olha, nós não temos uma visão maniqueísta de onde qualificamos o de fora como limpo e válido e toda instituição como podre. Cremos que temos que estar com nosso próprio discurso e com suas próprias condições em todos os lugares, seja na rua, até na televisão, passando por um cenário como a Bienal de Arte de São Paulo. Não se trata de se submeter à instituição, não se trata de absorver seus códigos, quase sem diálogo. Se trata de tornar a instituição como qualquer outro espaço possível e se instalar ali com a mesma lógica de invasão, como a qual em que o mendigo se instala na porta de uma igreja. Logo creio que as próprias instituições tem muitíssimas contradições e que temos que aproveitar. A arte, a universidade, o estado estão em crise, não se trata de ser uma catarse para sua crise mas sim de aproveitar esses espaços de crise para expandir ideias propostas, desacatos, desobediências. Há pouco tempo o vice presidente da Bolívia me chamou para uma entrevista. Eu repudio sua política e poderia ter dito que não, ao invés disso, decidi ir de encontro ao diálogo com ele mas sem me auto censurar, sem nenhum tipo de reverência grave ao encontro e foi uma bomba até hoje.
OVELHA: Como se dá a resistência feminista das Cholas? Há um movimento de contrapartida camponês?
MUJERES CREANDO: O movimento campesino na Bolívia está cooptado pelo governo e sofre um momento de inércia e complacência. São os clientes privilegiados pelo governo, mas se trata de uma aliança só com os líderes do movimento embora as bases também se alegrem com essa aliança. Em nosso movimento há muitas que são cholas, parte porque não construímos um movimento homogêneo branco urbano, mas são literalmente e metaforicamente putas e lésbicas, juntas e revoltas e geminadas como irmãs.
Fiquei muitíssimo tocada com as respostas fortes da Maria Galindo (uma das representantes do coletivo), me lembrei muito da nossa musa brasileira Indianara Siqueira que tem uma história sólida de militância há anos e pela qual tenho muita admiração. Agradeço muitíssimo o coletivo Mujeres Creando por ceder uma entrevista, e a Maria Galindo. Viva las que luchan!
Nota: A entrevista foi concedida à página xereca no dia 06/10/2014 e foi elaborada e traduzida por Bárbara Gondar.