Mujeres Creando: Um dos coletivos mais importantes da América Latina

Mujeres Creando, coletivo feminista boliviano considerado um dos mais importantes da América Latina

Em uma breve passagem pela cidade de São Paulo no ano passado, visitei a Bienal de Arte, uma das mais importantes exposições/encontros de arte da América Latina. Logo na entrada, me deparei com uma instalação chamada Espaço para Abortar, uma estrutura de arame com 7 cabines que formam sete úteros. Essa instalação foi criada pelo núcleo e coletivo feminista boliviano Mujeres Creando.

Mandei um email despretensioso para o coletivo que me respondeu prontamente aceitando fazer uma pequena entrevista. Inicialmente minha ideia era falar sobre a peça na Bienal, mas tive outras prioridades quando me encontrei na posição de estar ‘de frente’ com um coletivo feminista de 22 anos que tem uma enorme e inspiradora história de luta. Segue então a conversa que tivemos por email:
 
[caption id="attachment_3030" align="aligncenter" width="1023"]"Espaço para Abortar", instalação do Mujeres Creando na Bienal das Artes 2014, São Paulo “Espaço para Abortar”, instalação do Mujeres Creando na Bienal das Artes 2014[/caption]  
OVELHA: No domingo do dia 5 de outubro (de 2014), aconteceu o primeiro turno das eleições brasileiras para presidência da república. Eram 3 candidatas mulheres disputando a presidência, mas só uma com agenda feminista e que contemplavam os requisitos das minorias. Como é a situação política feminista na Bolívia (esqueci completamente de dizer que eu me referia a Luciana Genro e não à Dilma)?

MUJERES CREANDO: Começarei a te dizer que não acredito que Dilma Roussef represente um agenda feminista clara, não acredito na forma que ela alcançou o poder se garantindo a partir de alianças com as igrejas fundamentalistas cristãs, a não intenção de descriminalização do aborto no Brasil e a criminalização da pobreza. A organização de grandes eventos como a Copa do Mundo e as Olimpíadas e a política policial de eliminação dos pobres. Eu não acredito que essa seja uma agenda feminista. Não acredito que deveríamos nos resignar e nos contentar com um mal menor. Acredito que é importante como movimento, nos manter à claridade de nossas agendas, a claridade do horizontes e de nossas lutas e que não nos deixemos levar pela ‘oferta’ do mercado eleitoral como único universo de referência política. Na Bolívia, a situação é dramática, se implementou totalmente a paridade e alternância de sexo nas listas eleitorais, mas isso não significa a revisão do papel das mulheres na política, muito menos uma agenda feminista. O movimento ao socialismo do presidente Evo Morales é um projeto popular que tem se endireitado (no sentido de ser menos de esquerda e mais de direita), ao mesmo tempo o perfil tão machista dos candidatos exacerba o discurso das mulheres objeto, ao ponto que temos Miss Rainhas de Beleza como aliadas políticas mais importantes do partido de governo porque exaltam a virilidade destes personagens. A descriminalização do aborto nem sequer entrou em debate e a campanha eleitoral é um desperdício de promessas populistas vinculadas com as graves condições de vida das pessoas.
 
Mujeres Creando
 
OVELHA: Apesar de estarmos muito próximos geograficamente, (infelizmente) pelas diferenças culturais e linguísticas, o Brasil se distancia muito da unidade latino americana. Como você acha que poderíamos nos aproximar em vista que as lutas das mulheres permeiam as mesmas causas?

MUJERES CREANDO: Eu creio que tínhamos um cenário latino americano comum nos encontros feministas latino americanos e que lamentavelmente a partir dos anos 90 entraram em uma grave crise devido a cooptação da cooperação internacional destes cenários, que se tornaram cenários exclusivos de uma elite de trabalhadoras de organizações não governamentais (ongs). Acredito que devemos construir o intercâmbio e procurar a partir da cultura como cenário. Nós temos duas casas, uma em La Paz e outra em Santra Cruz (de La Sierra) e ali estamos dispostas a receber companheiras que querem vir e fazer intercâmbio cultural. Creio que isso é fundamental.
 
[caption id="attachment_3027" align="aligncenter" width="750"]Mujeres Creando na exposição "Acción urgente", na Fundación Proa (Buenos Aires, Argentina, 2014) Mujeres Creando na exposição “Acción urgente” (Fundación Proa, Argentina, 2014)[/caption]  
OVELHA: A militância feminista é tão maravilhosa quanto é pesada, fico extremamente feliz de ver que vocês estão juntas há 22 anos. Com qual frequência se reúnem? Vocês fazem algum tipo de apoio interno para membros do coletivo?

MUJERES CREANDOO que acontece com o Mujeres Creando é muito original em todo continente. Sabe, nós não entendemos o feminismo como a construção de um grupo ou como um passatempo, mas como um modo de vida e de luta cotidiana. Temos duas casas em diferentes cidades e a partir da gestão dessas casas desenvolvemos formas de política concreta com a sociedade. Sempre estamos atuando de forma contínua e direta com os temas que preocupam a gente e isso cria uma dinâmica muito intensa dentro do movimento. Ao mesmo tempo temos pequenas cooperativas que vão surgindo e que vão gerando formas de auto sustentação econômica para muitas mulheres. Isso é fabuloso porque gera coesão, gera trabalho contínuo, gera capacidade de resposta social imediata a todo tempo, gera produção de teoria de ideias e de conhecimento a todo o tempo e produção cultural contínua também.
 
[caption id="attachment_2989" align="aligncenter" width="960"]Protesto das Mujeres Creando em frente à catedral Santa Cruz, Bolívia (8/3/2014) Protesto do Mujeres Creando em frente à catedral Santa Cruz, Bolívia (8/3/2014)[/caption]  
OVELHA: Às vezes para passarmos uma mensagem é preciso dialogar com partes que nos são adversas. Como por exemplo, a instituição de arte da Bienal de São Paulo. Vi que vocês fizeram uma carta aberta em repúdio ao logo do estado de Israel (ato do qual apoio integralmente) que estava nos apoios do evento. Quanto podemos nos permitir dialogar com certas instituições para que possamos passar a mensagem para frente?

MUJERES CREANDO: Olha, nós não temos uma visão maniqueísta de onde qualificamos o de fora como limpo e válido e toda instituição como podre. Cremos que temos que estar com nosso próprio discurso e com suas próprias condições em todos os lugares, seja na rua, até na televisão, passando por um cenário como a Bienal de Arte de São Paulo. Não se trata de se submeter à instituição, não se trata de absorver seus códigos, quase sem diálogo. Se trata de tornar a instituição como qualquer outro espaço possível e se instalar ali com a mesma lógica de invasão, como a qual em que o mendigo se instala na porta de uma igreja. Logo creio que as próprias instituições tem muitíssimas contradições e que temos que aproveitar. A arte, a universidade, o estado estão em crise, não se trata de ser uma catarse para sua crise mas sim de aproveitar esses espaços de crise para expandir ideias propostas, desacatos, desobediências. Há pouco tempo o vice presidente da Bolívia me chamou para uma entrevista. Eu repudio sua política e poderia ter dito que não, ao invés disso, decidi ir de encontro ao diálogo com ele mas sem me auto censurar, sem nenhum tipo de reverência grave ao encontro e foi uma bomba até hoje.
 
Mujeres Creando
 
OVELHA:  Como se dá a resistência feminista das Cholas? Há um movimento de contrapartida camponês?

MUJERES CREANDO: O movimento campesino na Bolívia está cooptado pelo governo e sofre um momento de inércia e complacência. São os clientes privilegiados pelo governo, mas se trata de uma aliança só com os líderes do movimento embora as bases também se alegrem com essa aliança. Em nosso movimento há muitas que são cholas, parte porque não construímos um movimento homogêneo branco urbano, mas são literalmente e metaforicamente putas e lésbicas, juntas e revoltas e geminadas como irmãs.
 
[separator type="thick"] Fiquei muitíssimo tocada com as respostas fortes da Maria Galindo (uma das representantes do coletivo), me lembrei muito da nossa musa brasileira Indianara Siqueira que tem uma história sólida de militância há anos e pela qual tenho muita admiração. Agradeço muitíssimo o coletivo Mujeres Creando por ceder uma entrevista, e a Maria Galindo. Viva las que luchan!
 
[caption id="attachment_2987" align="aligncenter" width="700"]Maria Galindo Maria Galindo[/caption]  
Nota: A entrevista foi concedida à página xereca no dia 06/10/2014 e foi elaborada e traduzida por Bárbara Gondar.

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Assista: 3%, a série brasileira da Netflix

Nossa mãe, que rebuliço que deu essa primeira série brasileira original da Netflix, não é mesmo? Como tudo que tem sido a vida e o nosso dia a dia brasileiro, todas as opiniões foram pautadas num maniqueísmo só, ou as pessoas odiaram ou amaram. E eu, mesmo com todas as minhas críticas, estou no ~ time ~ das pessoas que amaram.

Sei esse já é um assunto da década passada para assuntos de internet, peço desculpas pelo atraso, mas ainda assim gostaria de falar sobre ele. Principalmente agora que a segunda temporada foi confirmada.

 

 

Bom, talvez a maioria já saiba do mote da série: em um mundo pós apocalíptico, há um sonho coletivo, ir para uma sociedade alternativa, um oasis em meio a todo o caos. O lugar se chama Maralto e a medicina é super avançada. Rola todo um estereótipo primeiro mundista, pessoas ~ civilizadas (como odeio essa palavra) ~, construções lindas, ordem e progresso (expressão não meramente ilustrativa e ilusória).

Anualmente, há um processo seletivo para adentrar ao Maralto. Na transição da adolescência para a idade adulta, aos 20 anos, você pode participar, ou melhor, você tem a chance de participar do Processo (agora com letra maiúscula). Como a sociedade pós apocalíptica é o antagonismo do Maralto, rola o estereótipo de uma sociedade esculhambada, mais ou menos o que a gente vive hoje, porém, um pouco mais olho por olho, dente por dente. Sem muitas condições básicas de sobrevivência, diria melhor.

 
3porcento
 

Claro que nesse momento você já faz comparações mil com Jogos Vorazes, Divergente, até mesmo Maze Runner, pelo mote, claro. A série passa pela parte filosófica da construção do herói, que, pessoalmente, eu adoro, por mais que seja uma fórmula tão repetida diversas vezes, mas enfim, sou uma ~ aficcionada ~ em ~ ficção ~ científica. E olha que isso é bem construído. Há uma parte com testes e é muitíssimo interessante,  as locações foram bem escolhidas, não são extremamente futuristas e bem acabadas mas passou muito bem.

O interessante é que, apesar de não ser muito subjetivo, o mote da série faz uma grande alusão à meritocracia na nossa sociedade brasileira (e por que não, mundial, se saindo do eurocentrismo e Estados Unidos?) e isso eu achei que fez a diferença. É praticamente desenhado para o espectador como é estar numa sociedade meritocrática, para uma minoria. A representatividade na série é a mais incrível, no núcleo principal temos mulheres brancas e negras, cadeirante, muitas pessoas negras na série no geral, pessoas de vários lugares do Brasil, sotaques diferentes e uma realidade só, passar por um processo injusto em que só 3% de milhares de pessoas poderão ~ ascender socialmente ~, ou, ter acesso ao Maralto.

 

 

Agora, é impossível passar batido pelos pontos baixos (e põe baixos nisso) da série. Há muitíssimos problemas de execução, direção e figurino, todos são muito fracos. Meu companheiro é figurinista e não quis assistir mais a partir do segundo capítulo. Eu respeito.

Não sou especialista no assunto e fiquei muitíssimo incomodada. Em peças teatrais de escolas, já vi figurinos muito melhores e mais trabalhados no sentido de, não serem tão clichê em se tratando de roupas que denotam pobreza, por exemplo. Senti vergonha alheia. Parece que quem fez o figurino está em uma bolha muito isolada. :(

Nas roupas das pessoas do Maralto, há uma abertura no braço, para mostrar a marca de uma vacina. Na abertura da roupa, não havia acabamento algum. Você vê claramente que cortaram a peça de roupa e não deram acabamento. Dá para ver os fiapos sem costura. Uó.

A atuação de atores incríveis que já conhecemos ficou super engessada, sem uma fluidez. Foi incômodo. Era notável que a direção e preparação dos atores não estava boa, sendo muito eufemista. Ainda assim, durante a narrativa, eu esqueci completamente dessa atuação arrastada, na minha cabeça, depois de uns 3 ou 4 episódios, virou uma chavinha e virou uma linguagem. Parou de incomodar. Porém, o figurino incomodou até o final.

 
3-porcento-netflix-faltoufoco
 

A série não só deu o que falar depois que foi lançada, não. Antes mesmo da estreia, ainda na seleção de atores, a empresa que foi contratada para fazer a seleção foi extremamente racista e por isso desligada do projeto. Infelizmente, pelo que pude averiguar, ninguém deu parte na polícia. Confiram o caso clicando aqui.

Pra não terminar a resenha falando das partes ruins da série, gostaria de elogiar muito a escolha da trilha sonora, que não é nada mais, nada menos que A Mulher do Fim do Mundo, de Elza Soares, rainha da porra toda.

 

 

No final, até que não dei tanto spoiler, vai? Falei sobre o mote e as minhas impressões boas e ruins sobre as partes técnicas da série. Espero que para a próxima temporada, leiam bastante as críticas e reformulem algumas coisas porque 3% tem absolutamente tudo para dar (mais) certo. Agora, é preciso sim falar um pouco sobre o final da série. QUE FINAL FOI ESSE, BRASEEL? Joanna rainha da porra toda (sei que repeti, mas é merecido, sim), estou aguardando ansiosamente a segunda temporada. Caso você já esteja com saudade, pode conferir o episódio piloto, disponível no YouTube, pode deixar que eu deixo aqui pra você! ;)

 

 

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Mujeres Creando.

Mandei um email despretensioso para o coletivo que me respondeu prontamente aceitando fazer uma pequena entrevista. Inicialmente minha ideia era falar sobre a peça na Bienal, mas tive outras prioridades quando me encontrei na posição de estar ‘de frente’ com um coletivo feminista de 22 anos que tem uma enorme e inspiradora história de luta. Segue então a conversa que tivemos por email:
 

 
OVELHA: No domingo do dia 5 de outubro (de 2014), aconteceu o primeiro turno das eleições brasileiras para presidência da república. Eram 3 candidatas mulheres disputando a presidência, mas só uma com agenda feminista e que contemplavam os requisitos das minorias. Como é a situação política feminista na Bolívia (esqueci completamente de dizer que eu me referia a Luciana Genro e não à Dilma)?

MUJERES CREANDO: Começarei a te dizer que não acredito que Dilma Roussef represente um agenda feminista clara, não acredito na forma que ela alcançou o poder se garantindo a partir de alianças com as igrejas fundamentalistas cristãs, a não intenção de descriminalização do aborto no Brasil e a criminalização da pobreza. A organização de grandes eventos como a Copa do Mundo e as Olimpíadas e a política policial de eliminação dos pobres. Eu não acredito que essa seja uma agenda feminista. Não acredito que deveríamos nos resignar e nos contentar com um mal menor. Acredito que é importante como movimento, nos manter à claridade de nossas agendas, a claridade do horizontes e de nossas lutas e que não nos deixemos levar pela ‘oferta’ do mercado eleitoral como único universo de referência política. Na Bolívia, a situação é dramática, se implementou totalmente a paridade e alternância de sexo nas listas eleitorais, mas isso não significa a revisão do papel das mulheres na política, muito menos uma agenda feminista. O movimento ao socialismo do presidente Evo Morales é um projeto popular que tem se endireitado (no sentido de ser menos de esquerda e mais de direita), ao mesmo tempo o perfil tão machista dos candidatos exacerba o discurso das mulheres objeto, ao ponto que temos Miss Rainhas de Beleza como aliadas políticas mais importantes do partido de governo porque exaltam a virilidade destes personagens. A descriminalização do aborto nem sequer entrou em debate e a campanha eleitoral é um desperdício de promessas populistas vinculadas com as graves condições de vida das pessoas.
 
Mujeres Creando
 
OVELHA: Apesar de estarmos muito próximos geograficamente, (infelizmente) pelas diferenças culturais e linguísticas, o Brasil se distancia muito da unidade latino americana. Como você acha que poderíamos nos aproximar em vista que as lutas das mulheres permeiam as mesmas causas?

MUJERES CREANDO: Eu creio que tínhamos um cenário latino americano comum nos encontros feministas latino americanos e que lamentavelmente a partir dos anos 90 entraram em uma grave crise devido a cooptação da cooperação internacional destes cenários, que se tornaram cenários exclusivos de uma elite de trabalhadoras de organizações não governamentais (ongs). Acredito que devemos construir o intercâmbio e procurar a partir da cultura como cenário. Nós temos duas casas, uma em La Paz e outra em Santra Cruz (de La Sierra) e ali estamos dispostas a receber companheiras que querem vir e fazer intercâmbio cultural. Creio que isso é fundamental.
 

 
OVELHA: A militância feminista é tão maravilhosa quanto é pesada, fico extremamente feliz de ver que vocês estão juntas há 22 anos. Com qual frequência se reúnem? Vocês fazem algum tipo de apoio interno para membros do coletivo?

MUJERES CREANDOO que acontece com o Mujeres Creando é muito original em todo continente. Sabe, nós não entendemos o feminismo como a construção de um grupo ou como um passatempo, mas como um modo de vida e de luta cotidiana. Temos duas casas em diferentes cidades e a partir da gestão dessas casas desenvolvemos formas de política concreta com a sociedade. Sempre estamos atuando de forma contínua e direta com os temas que preocupam a gente e isso cria uma dinâmica muito intensa dentro do movimento. Ao mesmo tempo temos pequenas cooperativas que vão surgindo e que vão gerando formas de auto sustentação econômica para muitas mulheres. Isso é fabuloso porque gera coesão, gera trabalho contínuo, gera capacidade de resposta social imediata a todo tempo, gera produção de teoria de ideias e de conhecimento a todo o tempo e produção cultural contínua também.
 

 
OVELHA: Às vezes para passarmos uma mensagem é preciso dialogar com partes que nos são adversas. Como por exemplo, a instituição de arte da Bienal de São Paulo. Vi que vocês fizeram uma carta aberta em repúdio ao logo do estado de Israel (ato do qual apoio integralmente) que estava nos apoios do evento. Quanto podemos nos permitir dialogar com certas instituições para que possamos passar a mensagem para frente?

MUJERES CREANDO: Olha, nós não temos uma visão maniqueísta de onde qualificamos o de fora como limpo e válido e toda instituição como podre. Cremos que temos que estar com nosso próprio discurso e com suas próprias condições em todos os lugares, seja na rua, até na televisão, passando por um cenário como a Bienal de Arte de São Paulo. Não se trata de se submeter à instituição, não se trata de absorver seus códigos, quase sem diálogo. Se trata de tornar a instituição como qualquer outro espaço possível e se instalar ali com a mesma lógica de invasão, como a qual em que o mendigo se instala na porta de uma igreja. Logo creio que as próprias instituições tem muitíssimas contradições e que temos que aproveitar. A arte, a universidade, o estado estão em crise, não se trata de ser uma catarse para sua crise mas sim de aproveitar esses espaços de crise para expandir ideias propostas, desacatos, desobediências. Há pouco tempo o vice presidente da Bolívia me chamou para uma entrevista. Eu repudio sua política e poderia ter dito que não, ao invés disso, decidi ir de encontro ao diálogo com ele mas sem me auto censurar, sem nenhum tipo de reverência grave ao encontro e foi uma bomba até hoje.
 
Mujeres Creando
 
OVELHA:  Como se dá a resistência feminista das Cholas? Há um movimento de contrapartida camponês?

MUJERES CREANDO: O movimento campesino na Bolívia está cooptado pelo governo e sofre um momento de inércia e complacência. São os clientes privilegiados pelo governo, mas se trata de uma aliança só com os líderes do movimento embora as bases também se alegrem com essa aliança. Em nosso movimento há muitas que são cholas, parte porque não construímos um movimento homogêneo branco urbano, mas são literalmente e metaforicamente putas e lésbicas, juntas e revoltas e geminadas como irmãs.
 

Fiquei muitíssimo tocada com as respostas fortes da Maria Galindo (uma das representantes do coletivo), me lembrei muito da nossa musa brasileira Indianara Siqueira que tem uma história sólida de militância há anos e pela qual tenho muita admiração. Agradeço muitíssimo o coletivo Mujeres Creando por ceder uma entrevista, e a Maria Galindo. Viva las que luchan!
 

 
Nota: A entrevista foi concedida à página xereca no dia 06/10/2014 e foi elaborada e traduzida por Bárbara Gondar.

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