No meu desespero para conseguir assistir aos filmes de 2014 que foram indicados antes da premiação ir ao ar, deixei uma lista muito mais interessante de lado. No fim das contas, eu havia assistido filmes bons, mas sem muita novidade, que apesar de diferentes eram iguais nos quesitos: todos sobre homens, com atores brancos como protagonistas (com exceção de Selma, claro). Mal assisti a transmissão na TV, pois já sabia os resultados: homens, homens, homens, homens… Ainda bem que alguns pontos da cerimônia valeram a pena pois serviram como bons protestos.
Valorizar a opinião da Academia e da crítica especializada me fez deixar de assistir o único filme com alta representatividade entre os indicados, e outros filmes mais importantes no ano passado que também cumprem esta proposta, além de expor e problematizar questões sociais, principalmente o racismo.
E se tem um filme também que fez isso em 2014, este é Dear White People, que aparentemente ainda não tem um título oficial em português. Porque Selma recebeu indicações ao Oscar (poucas, menos do que merecia), e Dear White People foi completamente ignorado pela academia? Não seria por falta de qualidade técnica, pois a fotografia do filme é boa, a edição muito bem alinhada, roteiro bem amarrado e bom ritmo de trama, além de apresentar boas atuações de seus protagonistas. Além disso, ambos os títulos falam de questões sociais, militância negra e representatividade.
Talvez a única diferença entre os dois seja que o primeiro trata de tudo isso em seu roteiro num momento histórico do passado, e o segundo faz uma crítica ao racismo nos dias de hoje nos Estados Unidos, o que o homem branco cisgênero heterossexual e acima de 50 anos residente do pais, acredita não existir mais. E digo isso para pontuar que este é o perfil da maioria que compõe a Academia de avaliação do Oscar.
Queridas pessoas brancas, assistam este filme!
Passado o momento de desabafo, vamos falar de Dear White People. Ou tentar falar, já que o filme trás tantos conflitos e pautas do movimento negro, que para mim ficou até difícil alinhar tudo para escrever sobre.
O filme é dirigido por Justin Simien, que estava cansado da baixa representatividade negra em Hollywood, como ele disse em seu discurso de aceitação do premiou Best First Screenplay, o que seria “melhor revelação” pelo Film Independent Spirit Awards no ano passado: “Comecei a escrever esse filme há dez anos por um impulso, porque eu não via minha história sendo retratada culturalmente. Eu não me via nos filmes que eu amava e as histórias não ressoavam a mim”.
A história gira em torno de quatro jovens negros que conseguem entrar em uma universidade renomada nos EUA e precisam lidar com racismo dentro da instituição, e cada um trás muitas questões a serem debatidas, tais como: a representação das negros na mídia, no mercado de trabalho e nas universidades, a resistência da comunidade negra ao se relacionar com os brancos por medo de racismo, a homofobia dentro da comunidade negra, a ideia de meritocracia que os brancos cultivam, a ideia de vitimização e culpalização que os brancos também cultivam. E os assuntos principais do longa, que podem girar em torno de todos os outros já citados: apropriação cultural e black face.
O termo black face é usado nos EUA para descrever o comportamento de pessoas brancas agindo como negros de forma preconceituosa e/ou literalmente pintando a pele de marrom para fazer comédia. Em Dear White People, os personagens começar a interagir por causa da organização, e depois execução, de uma festa com este tema, que é muito comum nas universidades americanas, onde os estudantes vão “fantasiados” de estereótipos de pessoas negras, como gangsters, rappers, atletas ou simplesmente em seu cotidiano nas periferias americanas. Ao assistir a cena, não pude deixar de me lembrar de como isso acontece no Brasil durante o Carnaval, ou até em programas de “humor”, principalmente com a imagem da mulher negra.
Com o título e todas essas pautas, o longa pode assustar um pouco. Mas tudo é ditado de forma sarcástica, com um tom de humor leve, muito embora o emocional ainda esteja presente. Talvez mais presente para quem é negro.
Este e todos os outros temas poderiam ser facilmente trazidos para a comunidade negra vivendo em sociedade aqui no Brasil, e serem traduzidos e discutimos da forma que os vivenciamos aqui. Por isso, tratar de cada assunto separadamente me levaria a escrever um livro, e não somente um post, e já que você está lendo a Ovelha Mag, vamos falar sobre as mulheres do filme, que surpreendentemente eu consigo relacionar com transição capilar, pelo menos com a minha.
A negra que eu fui e a negra que eu sou
Assistindo ao longa, eu imediatamente me identifiquei com Colandrea ‘Coco’ Conners (Teyonah Parris) e Sam White (Tessa Thompson) as duas mulheres entre os quatro personagens principais na trama.
Coco é a mulher negra que uma vez eu fui, mas nunca quis ser de verdade. É a mulher negra embranquecida pelo alisamento do cabelo, ou no caso dela pelas perucas de cabelo indiano, tão comuns nos Estados Unidos.
Ela se veste e se comporta como, assim dizem os americanos, uma patricinha branca. Não que uma mulher negra tenha que sempre vestir estereótipos ou não tenha liberdade de usar o que quiser e alisar o seu cabelo, Coco está na trama justamente para questionar tudo isso. Mas digo que nunca quis ser como Coco pois é ela quem recebe as críticas a sua beleza natural para depois ouvir acusações de racismo ao tentar parecer mais branca. Been there, did that, Coco.
É possível ver o incomodo de Coco com relação a como as pessoas julgam sua aparência. A curiosidade sobre a raiz do cabelo, sobre as lentes de contato, sobre o modo de se vestir, e o fato de que, quando uma mulher branca faz bronzeamento artificial, preenchimento nos lábios, ou quaisquer coisas que a façam adquirir a beleza que é naturalmente negra, ela não só não passa por críticas, como também é muito mais aceita do que a mulher negra.
Coco sabe da existência do racismo e o quanto isso a prejudica, a fere e a incomoda, ela se defende do racismo com relação a sua aparência, mas ao mesmo tempo sente a necessidade de se enturmar na universidade, fingindo que tal problema não existe para ela, caminho tomado muitas vezes pela falta de coragem de se impor diante da opressão, por questão de sobrevivência, ou pela simples vontade de caminhar em um lugar público sem ser julgada.
Já Sam White, seria a mulher negra que eu sou agora. O filme não especifica o seu passado, mas para mim a identificação foi maior com ela pois parecia que ela também tinha acabado de descobrir sua identidade, e estava no auge do seu engajamento.
Sam é a personagem principal do filme, e é ela quem comanda o programa de rádio na universidade, além de um canal de vídeos na internet chamados Dear White People, e começa todos os programas com esta frase, seguida de um sincerão para pessoas brancas que pensam que não são racistas. Logo ela se torna uma representante da comunidade negra na universidade e sofre pressão de liderança.
O principal conflito de Sam é com relação ao seu lugar de militância, pois quando ela deixa de fazer isso de forma criativa e traduzindo seus sentimentos sobre o racismo artisticamente como sempre fez, ela não consegue estar tão presente e aprende a valorizar mais os companheiros que lideravam movimentos, além de demonstrar que é possível protestar de diversas formas.
Embora não explícito no filme, o questionamento e a pressão sobre o poder da militância de Sam, quando vindo de homens, soava machista, a inferiorizando como líder, talvez não tenha sido a intenção do diretor, ali pode ter surgido uma nova problemática a ser debatida. Não sei se coincidentemente, não se tem essa impressão quando Coco faz o mesmo, embora hajam poucas interações entre elas (o que é uma pena).
Sam também levanta o debate sobre o relacionamento de mulheres negras com homens brancos, e sobre ser miscigenada numa comunidade negra que tanto se defende contra os brancos a ponto de repeli-los de seu convívio, como acontece nos Estados Unidos.
No geral, esse filme é pra gente assistir com um bloquinho de anotações na mão, depois sentar e debater. Se for sentar e debater na internet, conta pra gente o que achou ;)
No meu desespero para conseguir assistir aos filmes de 2014 que foram indicados antes da premiação ir ao ar, deixei uma lista muito mais interessante de lado. No fim das contas, eu havia assistido filmes bons, mas sem muita novidade, que apesar de diferentes eram iguais nos quesitos: todos sobre homens, com atores brancos como protagonistas (com exceção de Selma, claro). Mal assisti a transmissão na TV, pois já sabia os resultados: homens, homens, homens, homens… Ainda bem que alguns pontos da cerimônia valeram a pena pois serviram como bons protestos.
Valorizar a opinião da Academia e da crítica especializada me fez deixar de assistir o único filme com alta representatividade entre os indicados, e outros filmes mais importantes no ano passado que também cumprem esta proposta, além de expor e problematizar questões sociais, principalmente o racismo.
E se tem um filme também que fez isso em 2014, este é Dear White People, que aparentemente ainda não tem um título oficial em português. Porque Selma recebeu indicações ao Oscar (poucas, menos do que merecia), e Dear White People foi completamente ignorado pela academia? Não seria por falta de qualidade técnica, pois a fotografia do filme é boa, a edição muito bem alinhada, roteiro bem amarrado e bom ritmo de trama, além de apresentar boas atuações de seus protagonistas. Além disso, ambos os títulos falam de questões sociais, militância negra e representatividade.
Talvez a única diferença entre os dois seja que o primeiro trata de tudo isso em seu roteiro num momento histórico do passado, e o segundo faz uma crítica ao racismo nos dias de hoje nos Estados Unidos, o que o homem branco cisgênero heterossexual e acima de 50 anos residente do pais, acredita não existir mais. E digo isso para pontuar que este é o perfil da maioria que compõe a Academia de avaliação do Oscar.
Queridas pessoas brancas, assistam este filme!
Passado o momento de desabafo, vamos falar de Dear White People. Ou tentar falar, já que o filme trás tantos conflitos e pautas do movimento negro, que para mim ficou até difícil alinhar tudo para escrever sobre.
O filme é dirigido por Justin Simien, que estava cansado da baixa representatividade negra em Hollywood, como ele disse em seu discurso de aceitação do premiou Best First Screenplay, o que seria “melhor revelação” pelo Film Independent Spirit Awards no ano passado: “Comecei a escrever esse filme há dez anos por um impulso, porque eu não via minha história sendo retratada culturalmente. Eu não me via nos filmes que eu amava e as histórias não ressoavam a mim”.
A história gira em torno de quatro jovens negros que conseguem entrar em uma universidade renomada nos EUA e precisam lidar com racismo dentro da instituição, e cada um trás muitas questões a serem debatidas, tais como: a representação das negros na mídia, no mercado de trabalho e nas universidades, a resistência da comunidade negra ao se relacionar com os brancos por medo de racismo, a homofobia dentro da comunidade negra, a ideia de meritocracia que os brancos cultivam, a ideia de vitimização e culpalização que os brancos também cultivam. E os assuntos principais do longa, que podem girar em torno de todos os outros já citados: apropriação cultural e black face.
O termo black face é usado nos EUA para descrever o comportamento de pessoas brancas agindo como negros de forma preconceituosa e/ou literalmente pintando a pele de marrom para fazer comédia. Em Dear White People, os personagens começar a interagir por causa da organização, e depois execução, de uma festa com este tema, que é muito comum nas universidades americanas, onde os estudantes vão “fantasiados” de estereótipos de pessoas negras, como gangsters, rappers, atletas ou simplesmente em seu cotidiano nas periferias americanas. Ao assistir a cena, não pude deixar de me lembrar de como isso acontece no Brasil durante o Carnaval, ou até em programas de “humor”, principalmente com a imagem da mulher negra.
Com o título e todas essas pautas, o longa pode assustar um pouco. Mas tudo é ditado de forma sarcástica, com um tom de humor leve, muito embora o emocional ainda esteja presente. Talvez mais presente para quem é negro.
Este e todos os outros temas poderiam ser facilmente trazidos para a comunidade negra vivendo em sociedade aqui no Brasil, e serem traduzidos e discutimos da forma que os vivenciamos aqui. Por isso, tratar de cada assunto separadamente me levaria a escrever um livro, e não somente um post, e já que você está lendo a Ovelha Mag, vamos falar sobre as mulheres do filme, que surpreendentemente eu consigo relacionar com transição capilar, pelo menos com a minha.
A negra que eu fui e a negra que eu sou
Assistindo ao longa, eu imediatamente me identifiquei com Colandrea ‘Coco’ Conners (Teyonah Parris) e Sam White (Tessa Thompson) as duas mulheres entre os quatro personagens principais na trama.
Coco é a mulher negra que uma vez eu fui, mas nunca quis ser de verdade. É a mulher negra embranquecida pelo alisamento do cabelo, ou no caso dela pelas perucas de cabelo indiano, tão comuns nos Estados Unidos.
Ela se veste e se comporta como, assim dizem os americanos, uma patricinha branca. Não que uma mulher negra tenha que sempre vestir estereótipos ou não tenha liberdade de usar o que quiser e alisar o seu cabelo, Coco está na trama justamente para questionar tudo isso. Mas digo que nunca quis ser como Coco pois é ela quem recebe as críticas a sua beleza natural para depois ouvir acusações de racismo ao tentar parecer mais branca. Been there, did that, Coco.
É possível ver o incomodo de Coco com relação a como as pessoas julgam sua aparência. A curiosidade sobre a raiz do cabelo, sobre as lentes de contato, sobre o modo de se vestir, e o fato de que, quando uma mulher branca faz bronzeamento artificial, preenchimento nos lábios, ou quaisquer coisas que a façam adquirir a beleza que é naturalmente negra, ela não só não passa por críticas, como também é muito mais aceita do que a mulher negra.
Coco sabe da existência do racismo e o quanto isso a prejudica, a fere e a incomoda, ela se defende do racismo com relação a sua aparência, mas ao mesmo tempo sente a necessidade de se enturmar na universidade, fingindo que tal problema não existe para ela, caminho tomado muitas vezes pela falta de coragem de se impor diante da opressão, por questão de sobrevivência, ou pela simples vontade de caminhar em um lugar público sem ser julgada.
Já Sam White, seria a mulher negra que eu sou agora. O filme não especifica o seu passado, mas para mim a identificação foi maior com ela pois parecia que ela também tinha acabado de descobrir sua identidade, e estava no auge do seu engajamento.
Sam é a personagem principal do filme, e é ela quem comanda o programa de rádio na universidade, além de um canal de vídeos na internet chamados Dear White People, e começa todos os programas com esta frase, seguida de um sincerão para pessoas brancas que pensam que não são racistas. Logo ela se torna uma representante da comunidade negra na universidade e sofre pressão de liderança.
O principal conflito de Sam é com relação ao seu lugar de militância, pois quando ela deixa de fazer isso de forma criativa e traduzindo seus sentimentos sobre o racismo artisticamente como sempre fez, ela não consegue estar tão presente e aprende a valorizar mais os companheiros que lideravam movimentos, além de demonstrar que é possível protestar de diversas formas.
Embora não explícito no filme, o questionamento e a pressão sobre o poder da militância de Sam, quando vindo de homens, soava machista, a inferiorizando como líder, talvez não tenha sido a intenção do diretor, ali pode ter surgido uma nova problemática a ser debatida. Não sei se coincidentemente, não se tem essa impressão quando Coco faz o mesmo, embora hajam poucas interações entre elas (o que é uma pena).
Sam também levanta o debate sobre o relacionamento de mulheres negras com homens brancos, e sobre ser miscigenada numa comunidade negra que tanto se defende contra os brancos a ponto de repeli-los de seu convívio, como acontece nos Estados Unidos.
No geral, esse filme é pra gente assistir com um bloquinho de anotações na mão, depois sentar e debater. Se for sentar e debater na internet, conta pra gente o que achou ;)
No meu desespero para conseguir assistir aos filmes de 2014 que foram indicados antes da premiação ir ao ar, deixei uma lista muito mais interessante de lado. No fim das contas, eu havia assistido filmes bons, mas sem muita novidade, que apesar de diferentes eram iguais nos quesitos: todos sobre homens, com atores brancos como protagonistas (com exceção de Selma, claro). Mal assisti a transmissão na TV, pois já sabia os resultados: homens, homens, homens, homens… Ainda bem que alguns pontos da cerimônia valeram a pena pois serviram como bons protestos.
Valorizar a opinião da Academia e da crítica especializada me fez deixar de assistir o único filme com alta representatividade entre os indicados, e outros filmes mais importantes no ano passado que também cumprem esta proposta, além de expor e problematizar questões sociais, principalmente o racismo.
E se tem um filme também que fez isso em 2014, este é Dear White People, que aparentemente ainda não tem um título oficial em português. Porque Selma recebeu indicações ao Oscar (poucas, menos do que merecia), e Dear White People foi completamente ignorado pela academia? Não seria por falta de qualidade técnica, pois a fotografia do filme é boa, a edição muito bem alinhada, roteiro bem amarrado e bom ritmo de trama, além de apresentar boas atuações de seus protagonistas. Além disso, ambos os títulos falam de questões sociais, militância negra e representatividade.
Talvez a única diferença entre os dois seja que o primeiro trata de tudo isso em seu roteiro num momento histórico do passado, e o segundo faz uma crítica ao racismo nos dias de hoje nos Estados Unidos, o que o homem branco cisgênero heterossexual e acima de 50 anos residente do pais, acredita não existir mais. E digo isso para pontuar que este é o perfil da maioria que compõe a Academia de avaliação do Oscar.
[caption id="attachment_3051" align="aligncenter" width="500"] Cena de Dear White People[/caption]
Queridas pessoas brancas, assistam este filme!
Passado o momento de desabafo, vamos falar de Dear White People. Ou tentar falar, já que o filme trás tantos conflitos e pautas do movimento negro, que para mim ficou até difícil alinhar tudo para escrever sobre.
O filme é dirigido por Justin Simien, que estava cansado da baixa representatividade negra em Hollywood, como ele disse em seu discurso de aceitação do premiou Best First Screenplay, o que seria “melhor revelação” pelo Film Independent Spirit Awards no ano passado: “Comecei a escrever esse filme há dez anos por um impulso, porque eu não via minha história sendo retratada culturalmente. Eu não me via nos filmes que eu amava e as histórias não ressoavam a mim”.
[caption id="attachment_3049" align="aligncenter" width="500"] “Podemos ter um filme com, você sabe, personagens dele ao invés de esterótipos amarrados a dogmas cristãos?” – Sam White, cena de Dear White People[/caption]
A história gira em torno de quatro jovens negros que conseguem entrar em uma universidade renomada nos EUA e precisam lidar com racismo dentro da instituição, e cada um trás muitas questões a serem debatidas, tais como: a representação das negros na mídia, no mercado de trabalho e nas universidades, a resistência da comunidade negra ao se relacionar com os brancos por medo de racismo, a homofobia dentro da comunidade negra, a ideia de meritocracia que os brancos cultivam, a ideia de vitimização e culpalização que os brancos também cultivam. E os assuntos principais do longa, que podem girar em torno de todos os outros já citados: apropriação cultural e black face.
O termo black face é usado nos EUA para descrever o comportamento de pessoas brancas agindo como negros de forma preconceituosa e/ou literalmente pintando a pele de marrom para fazer comédia. Em Dear White People, os personagens começar a interagir por causa da organização, e depois execução, de uma festa com este tema, que é muito comum nas universidades americanas, onde os estudantes vão “fantasiados” de estereótipos de pessoas negras, como gangsters, rappers, atletas ou simplesmente em seu cotidiano nas periferias americanas. Ao assistir a cena, não pude deixar de me lembrar de como isso acontece no Brasil durante o Carnaval, ou até em programas de “humor”, principalmente com a imagem da mulher negra.
Com o título e todas essas pautas, o longa pode assustar um pouco. Mas tudo é ditado de forma sarcástica, com um tom de humor leve, muito embora o emocional ainda esteja presente. Talvez mais presente para quem é negro.
Este e todos os outros temas poderiam ser facilmente trazidos para a comunidade negra vivendo em sociedade aqui no Brasil, e serem traduzidos e discutimos da forma que os vivenciamos aqui. Por isso, tratar de cada assunto separadamente me levaria a escrever um livro, e não somente um post, e já que você está lendo a Ovelha Mag, vamos falar sobre as mulheres do filme, que surpreendentemente eu consigo relacionar com transição capilar, pelo menos com a minha.
A negra que eu fui e a negra que eu sou
Assistindo ao longa, eu imediatamente me identifiquei com Colandrea ‘Coco’ Conners (Teyonah Parris) e Sam White (Tessa Thompson) as duas mulheres entre os quatro personagens principais na trama.
Coco é a mulher negra que uma vez eu fui, mas nunca quis ser de verdade. É a mulher negra embranquecida pelo alisamento do cabelo, ou no caso dela pelas perucas de cabelo indiano, tão comuns nos Estados Unidos.
Ela se veste e se comporta como, assim dizem os americanos, uma patricinha branca. Não que uma mulher negra tenha que sempre vestir estereótipos ou não tenha liberdade de usar o que quiser e alisar o seu cabelo, Coco está na trama justamente para questionar tudo isso. Mas digo que nunca quis ser como Coco pois é ela quem recebe as críticas a sua beleza natural para depois ouvir acusações de racismo ao tentar parecer mais branca. Been there, did that, Coco.
É possível ver o incomodo de Coco com relação a como as pessoas julgam sua aparência. A curiosidade sobre a raiz do cabelo, sobre as lentes de contato, sobre o modo de se vestir, e o fato de que, quando uma mulher branca faz bronzeamento artificial, preenchimento nos lábios, ou quaisquer coisas que a façam adquirir a beleza que é naturalmente negra, ela não só não passa por críticas, como também é muito mais aceita do que a mulher negra.
Coco sabe da existência do racismo e o quanto isso a prejudica, a fere e a incomoda, ela se defende do racismo com relação a sua aparência, mas ao mesmo tempo sente a necessidade de se enturmar na universidade, fingindo que tal problema não existe para ela, caminho tomado muitas vezes pela falta de coragem de se impor diante da opressão, por questão de sobrevivência, ou pela simples vontade de caminhar em um lugar público sem ser julgada.
Já Sam White, seria a mulher negra que eu sou agora. O filme não especifica o seu passado, mas para mim a identificação foi maior com ela pois parecia que ela também tinha acabado de descobrir sua identidade, e estava no auge do seu engajamento.
Sam é a personagem principal do filme, e é ela quem comanda o programa de rádio na universidade, além de um canal de vídeos na internet chamados Dear White People, e começa todos os programas com esta frase, seguida de um sincerão para pessoas brancas que pensam que não são racistas. Logo ela se torna uma representante da comunidade negra na universidade e sofre pressão de liderança.
[caption id="attachment_3053" align="aligncenter" width="500"] “Pessoas negras não podem ser racistas, pois nós não nos beneficiamos desse sistema”, Sam White em Dear White People[/caption]
O principal conflito de Sam é com relação ao seu lugar de militância, pois quando ela deixa de fazer isso de forma criativa e traduzindo seus sentimentos sobre o racismo artisticamente como sempre fez, ela não consegue estar tão presente e aprende a valorizar mais os companheiros que lideravam movimentos, além de demonstrar que é possível protestar de diversas formas.
Embora não explícito no filme, o questionamento e a pressão sobre o poder da militância de Sam, quando vindo de homens, soava machista, a inferiorizando como líder, talvez não tenha sido a intenção do diretor, ali pode ter surgido uma nova problemática a ser debatida. Não sei se coincidentemente, não se tem essa impressão quando Coco faz o mesmo, embora hajam poucas interações entre elas (o que é uma pena).
Sam também levanta o debate sobre o relacionamento de mulheres negras com homens brancos, e sobre ser miscigenada numa comunidade negra que tanto se defende contra os brancos a ponto de repeli-los de seu convívio, como acontece nos Estados Unidos.
No geral, esse filme é pra gente assistir com um bloquinho de anotações na mão, depois sentar e debater. Se for sentar e debater na internet, conta pra gente o que achou ;)
Assim como Jogos Vorazes e Divergente, franquias de filmes (e séries de livros) ambientadas em futuros distópicos, a série The 100 (que também é baseada em livros!) apresenta como protagonista, uma personagem feminina forte e singular, que se destaca como líder de um grupo em meio a crises e, no futuro, uma guerra.
E, também como os outros exemplos citados, The 100 não se limita somente à representação de Clarke Griffin. Menos ainda mantém o resto da presença feminina na trama de forma secundária.
Com este e outros fatores importantíssimos, a série está encerrando a terceira temporada melhorando a cada episódio.
Quem gosta de futuros distópicos?
A sinopse é o seguinte: Em meio a uma guerra nuclear que destruía a civilização e o planeta Terra, uma nave especial chamada Arca foi construída e enviada para o espaço com 400 sobreviventes, para que eles pudessem viver em órbita e manter a existência da raça humana. A ideia era que, um dia, as pesquisas na Arca avançassem e todos poderiam voltar e reabitar o planeta fora do perigo.
Depois de três gerações, a população na Arca já contava com 4 mil pessoas, porém, os recursos iam acabando. Para não arriscar a vida de todos os habitantes, a administração (ou governo) da Arca enviou cem adolescentes criminosos para a Terra (sacou porque chama The 100, né?), para que eles possam testar as condições de habitação e sobrevivência no planeta.
Com a responsabilidade da sobrevivência da raça humana nas mãos, estes jovens precisam chegar a Mount Weather, uma possível fonte de sobrevivência para todos, segundo as pesquisas da Arca. Mas conflitos internos surgem quando um grupo decide negar ajuda à nave em órbita e viver livre na Terra. Só que Os Cem precisam deixar os conflitos internos de lado quando encontram terráqueos selvagens tentando proteger o território. Ah! E, em meio a tudo isso, rola uma disputa política na Arca.
Tudo isso aí só na primeira temporada, tá?
A questão da representatividade
Apesar de trazer uma crítica social e um gancho político e social para gente grande, o fato de que os personagens centrais de The 100 são adolescentes, acaba atraindo um público na mesma faixa etária como espectadores.
Para as meninas jovens, não faltam exemplos de força feminina. Mas é interessante observar também que os personagens masculinos estão sempre sendo colocados à prova e tendo o conceito de masculinidade e liderança sempre desconstruídos. Nem sempre aquele cara com perfil de herói/príncipe vai cumprir mesmo este papel, ou ainda aquele típico mulherengo precisa corrigir seu comportamento para se provar como líder.
Além da questão da representação feminina, eu sempre busco avaliar o quanto a série (ou filme) valoriza a presença de negros e também personagens queer e LGBT. E até o fim da primeira temporada, estes dois últimos fatores me preocupavam. Mas parece que as coisas estão melhorando…
Ponto positivo para a série ao colocar um homem negro, Thelonious Jaha, como chanceler da Arca e seu filho, Wells Jaha, como um possível líder d’Os Cem. Mas, como dois personagens masculinos, ambos acabam ganhando menos destaque em comparação às garotas. O que me fez questionar: todas são muito singulares e relevantes, mas onde estão as negras, as lésbicas…?
[Alerta para trechinho com spoiler a seguir!]
A segunda temporada respondeu meu questionamento quando iniciou o romance entre Lexa, a líder dos terráqueos selvagens, e Clarke. Isso mesmo… A personagem principal se descobre bissexual e é completamente segura quanto a seus desejos e sexualidade. De quebra, ela ainda se envolve com a líder do grupo inimigo, o que apimenta a trama, não é mesmo?
A mesma fase da série também nos presenteia com Indra, guerreira líder do exército de terráqueos selvagens, braço direito da líder Lexa AND mulher negra e badass.
Claro que, apesar do avanço, a série tem potencial para fornecer muito mais representividade e a adição desses personagens mostra que, aparentemente, é isso que os criadores buscam. O negócio é ficar de olho e esperar por mais.
Uma luta (realista) por sobrevivência
Com foco na necessidade de todos os personagens, de todos os grupos, lutarem pela sobrevivência, a série sempre acaba surpreendendo. Por isso, mesmo se passando em uma realidade paralela, todos os personagens têm medos, sofrimentos e reações muito reais.
É fácil observar que as mulheres também são completamente reais e que, apesar de suas inseguranças e fraquezas, elas resistem e são fortes. E elas não são fortes de maneira forçada, por terem sido feitas dessa forma pelos criadores, mas sim por serem perfeitamente capazes de se ajustar à diferentes situações e buscarem por sobrevivência, assim como os homens.
[Mais um trechinho com spoiler a seguir!]
Entre as surpresas do roteiro, o triângulo amoroso entre Bellamy, Clarke e Lexa acabou sendo uma das coisas que mais me deixaram surpresa. Quando os primeiro indícios surgiram, pensei em todo o drama que poderia se delongar nos episódios seguintes, mas não foi nada disso.
Acontece que os personagens têm outras preocupações e prioridades, tipo sobreviver num planeta prejudicado por uma guerra nuclear! Logo, o roteiro não força a barra nesse triângulo e deixa as coisas rolarem naturalmente.
E ainda que esta parte da trama não ganhe muito destaque, é fácil ficar envolvida também com a situação de Clarke entre os dois pretendentes (e a situação amorosa de outros personagens também) e até acabar escolhendo lados. Eu por exemplo, mesmo tendo ficado animadíssima com a relação lésbica, acabo ficando no #TeamBellamy por causa de alguns eventos em particular :p.
Seis minas que valem por 100
Na série, as mulheres são lideres, guerreiras, médicas, mecânicas… Protagonistas. Todas tão importantes para a trama que, sem estas personagens, haveria buracos e perdas grandes para a história como um todo. A verdade é que elas valem mais do que todo o grupo de cem pessoas que desceu foi enviado para a Terra.
Então lá vai um resuminho sobre algumas das minas de The 100 para você entender do que estou falando e correr para assistir logo.
Clarke Griffin
O motivo pelo qual Clarke Griffin foi presa e, consequentemente, acabou entre os cem jovens enviados à Terra não fica muito explicito na série, mas os conflitos com a mãe, Abby, revelam que muito de sua angústia e mágoas contidas têm a ver com a morte do pai.
Na Terra, ela se faz útil para o grupo em função de suas habilidades medicinais, aprendidas com a mãe. Mas logo se torna uma líder política, aprendendo a negociar com os selvagens e bolando estratégias de sobrevivência. O crescimento de Clarke até a terceira temporada é evidente, quando ela se torna uma figura forte de liderança.
Abby Griffin
Abby é chefe de medicina e costumava fazer parte do conselho da Arca até se envolver em problemas junto com o marido, que também fazia parte do conselho Mesmo afastada, ela continua sendo importante nas decisões da Arca, mesmo que de forma rebelde.
Raven Reyes
Raven não faz parte do grupo de cem rebeldes, mas, ao ver as condições precárias da Arca, acaba fugindo da unidade espacial sozinha, graça as suas habilidades mecânicas e químicas, e pousando na Terra para se tornar muito útil à equipe. A pobrezinha sofre muito na série, mas sua resistência é simplesmente inspiradora.
Octavia Blake
No episódio piloto, Octavia é apresentada como a irmã mais nova e bonitinha de Bellamy, ambos muito populares entre Os Cem. Quem vê Octavia na terceira temporada nem consegue imaginar como aquela mocinha do primeiro episódio pode ser a mesma pessoa! Pode esperar pelo desenvolvimento de uma grande guerreira ao longo da série, viu?
Lexa
Ela é a comandante geral de todos os 12 clãs compostos pelos terráqueos. Apesar de ser uma líder firme em suas decisões, é possível notar que a feminilidade de Lexa é sempre colocada por seus guerreiros, como uma questão problemática e enfraquecedora. Por isso, ela precisa sempre se provar como uma boa líder.
Indra
Como já adiantei nesse post, Indra é líder e treinadora de um exército inteiro de terráqueos. Muitas vezes, a sobrevivência e regras de conduta dos guerreiros fica na mão dela, mas sua prioridade é sempre proteger os interesses do clã, decididos por Lexa.
o retrocesso da maior premiação do cinema neste ano, também retrocede o nosso acesso, gosto e consumo por cultura.
No meu desespero para conseguir assistir aos filmes de 2014 que foram indicados antes da premiação ir ao ar, deixei uma lista muito mais interessante de lado. No fim das contas, eu havia assistido filmes bons, mas sem muita novidade, que apesar de diferentes eram iguais nos quesitos: todos sobre homens, com atores brancos como protagonistas (com exceção de Selma, claro). Mal assisti a transmissão na TV, pois já sabia os resultados: homens, homens, homens, homens… Ainda bem que alguns pontos da cerimônia valeram a pena pois serviram como bons protestos.
Valorizar a opinião da Academia e da crítica especializada me fez deixar de assistir o único filme com alta representatividade entre os indicados, e outros filmes mais importantes no ano passado que também cumprem esta proposta, além de expor e problematizar questões sociais, principalmente o racismo.
E se tem um filme também que fez isso em 2014, este é Dear White People, que aparentemente ainda não tem um título oficial em português. Porque Selma recebeu indicações ao Oscar (poucas, menos do que merecia), e Dear White People foi completamente ignorado pela academia? Não seria por falta de qualidade técnica, pois a fotografia do filme é boa, a edição muito bem alinhada, roteiro bem amarrado e bom ritmo de trama, além de apresentar boas atuações de seus protagonistas. Além disso, ambos os títulos falam de questões sociais, militância negra e representatividade.
Talvez a única diferença entre os dois seja que o primeiro trata de tudo isso em seu roteiro num momento histórico do passado, e o segundo faz uma crítica ao racismo nos dias de hoje nos Estados Unidos, o que o homem branco cisgênero heterossexual e acima de 50 anos residente do pais, acredita não existir mais. E digo isso para pontuar que este é o perfil da maioria que compõe a Academia de avaliação do Oscar.
Queridas pessoas brancas, assistam este filme!
Passado o momento de desabafo, vamos falar de Dear White People. Ou tentar falar, já que o filme trás tantos conflitos e pautas do movimento negro, que para mim ficou até difícil alinhar tudo para escrever sobre.
O filme é dirigido por Justin Simien, que estava cansado da baixa representatividade negra em Hollywood, como ele disse em seu discurso de aceitação do premiou Best First Screenplay, o que seria “melhor revelação” pelo Film Independent Spirit Awards no ano passado: “Comecei a escrever esse filme há dez anos por um impulso, porque eu não via minha história sendo retratada culturalmente. Eu não me via nos filmes que eu amava e as histórias não ressoavam a mim”.
A história gira em torno de quatro jovens negros que conseguem entrar em uma universidade renomada nos EUA e precisam lidar com racismo dentro da instituição, e cada um trás muitas questões a serem debatidas, tais como: a representação das negros na mídia, no mercado de trabalho e nas universidades, a resistência da comunidade negra ao se relacionar com os brancos por medo de racismo, a homofobia dentro da comunidade negra, a ideia de meritocracia que os brancos cultivam, a ideia de vitimização e culpalização que os brancos também cultivam. E os assuntos principais do longa, que podem girar em torno de todos os outros já citados: apropriação cultural e black face.
O termo black face é usado nos EUA para descrever o comportamento de pessoas brancas agindo como negros de forma preconceituosa e/ou literalmente pintando a pele de marrom para fazer comédia. Em Dear White People, os personagens começar a interagir por causa da organização, e depois execução, de uma festa com este tema, que é muito comum nas universidades americanas, onde os estudantes vão “fantasiados” de estereótipos de pessoas negras, como gangsters, rappers, atletas ou simplesmente em seu cotidiano nas periferias americanas. Ao assistir a cena, não pude deixar de me lembrar de como isso acontece no Brasil durante o Carnaval, ou até em programas de “humor”, principalmente com a imagem da mulher negra.
Com o título e todas essas pautas, o longa pode assustar um pouco. Mas tudo é ditado de forma sarcástica, com um tom de humor leve, muito embora o emocional ainda esteja presente. Talvez mais presente para quem é negro.
Este e todos os outros temas poderiam ser facilmente trazidos para a comunidade negra vivendo em sociedade aqui no Brasil, e serem traduzidos e discutimos da forma que os vivenciamos aqui. Por isso, tratar de cada assunto separadamente me levaria a escrever um livro, e não somente um post, e já que você está lendo a Ovelha Mag, vamos falar sobre as mulheres do filme, que surpreendentemente eu consigo relacionar com transição capilar, pelo menos com a minha.
A negra que eu fui e a negra que eu sou
Assistindo ao longa, eu imediatamente me identifiquei com Colandrea ‘Coco’ Conners (Teyonah Parris) e Sam White (Tessa Thompson) as duas mulheres entre os quatro personagens principais na trama.
Coco é a mulher negra que uma vez eu fui, mas nunca quis ser de verdade. É a mulher negra embranquecida pelo alisamento do cabelo, ou no caso dela pelas perucas de cabelo indiano, tão comuns nos Estados Unidos.
Ela se veste e se comporta como, assim dizem os americanos, uma patricinha branca. Não que uma mulher negra tenha que sempre vestir estereótipos ou não tenha liberdade de usar o que quiser e alisar o seu cabelo, Coco está na trama justamente para questionar tudo isso. Mas digo que nunca quis ser como Coco pois é ela quem recebe as críticas a sua beleza natural para depois ouvir acusações de racismo ao tentar parecer mais branca. Been there, did that, Coco.
É possível ver o incomodo de Coco com relação a como as pessoas julgam sua aparência. A curiosidade sobre a raiz do cabelo, sobre as lentes de contato, sobre o modo de se vestir, e o fato de que, quando uma mulher branca faz bronzeamento artificial, preenchimento nos lábios, ou quaisquer coisas que a façam adquirir a beleza que é naturalmente negra, ela não só não passa por críticas, como também é muito mais aceita do que a mulher negra.
Coco sabe da existência do racismo e o quanto isso a prejudica, a fere e a incomoda, ela se defende do racismo com relação a sua aparência, mas ao mesmo tempo sente a necessidade de se enturmar na universidade, fingindo que tal problema não existe para ela, caminho tomado muitas vezes pela falta de coragem de se impor diante da opressão, por questão de sobrevivência, ou pela simples vontade de caminhar em um lugar público sem ser julgada.
Já Sam White, seria a mulher negra que eu sou agora. O filme não especifica o seu passado, mas para mim a identificação foi maior com ela pois parecia que ela também tinha acabado de descobrir sua identidade, e estava no auge do seu engajamento.
Sam é a personagem principal do filme, e é ela quem comanda o programa de rádio na universidade, além de um canal de vídeos na internet chamados Dear White People, e começa todos os programas com esta frase, seguida de um sincerão para pessoas brancas que pensam que não são racistas. Logo ela se torna uma representante da comunidade negra na universidade e sofre pressão de liderança.
O principal conflito de Sam é com relação ao seu lugar de militância, pois quando ela deixa de fazer isso de forma criativa e traduzindo seus sentimentos sobre o racismo artisticamente como sempre fez, ela não consegue estar tão presente e aprende a valorizar mais os companheiros que lideravam movimentos, além de demonstrar que é possível protestar de diversas formas.
Embora não explícito no filme, o questionamento e a pressão sobre o poder da militância de Sam, quando vindo de homens, soava machista, a inferiorizando como líder, talvez não tenha sido a intenção do diretor, ali pode ter surgido uma nova problemática a ser debatida. Não sei se coincidentemente, não se tem essa impressão quando Coco faz o mesmo, embora hajam poucas interações entre elas (o que é uma pena).
Sam também levanta o debate sobre o relacionamento de mulheres negras com homens brancos, e sobre ser miscigenada numa comunidade negra que tanto se defende contra os brancos a ponto de repeli-los de seu convívio, como acontece nos Estados Unidos.
No geral, esse filme é pra gente assistir com um bloquinho de anotações na mão, depois sentar e debater. Se for sentar e debater na internet, conta pra gente o que achou ;)
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o retrocesso da maior premiação do cinema neste ano, também retrocede o nosso acesso, gosto e consumo por cultura.
No meu desespero para conseguir assistir aos filmes de 2014 que foram indicados antes da premiação ir ao ar, deixei uma lista muito mais interessante de lado. No fim das contas, eu havia assistido filmes bons, mas sem muita novidade, que apesar de diferentes eram iguais nos quesitos: todos sobre homens, com atores brancos como protagonistas (com exceção de Selma, claro). Mal assisti a transmissão na TV, pois já sabia os resultados: homens, homens, homens, homens… Ainda bem que alguns pontos da cerimônia valeram a pena pois serviram como bons protestos.
Valorizar a opinião da Academia e da crítica especializada me fez deixar de assistir o único filme com alta representatividade entre os indicados, e outros filmes mais importantes no ano passado que também cumprem esta proposta, além de expor e problematizar questões sociais, principalmente o racismo.
E se tem um filme também que fez isso em 2014, este é Dear White People, que aparentemente ainda não tem um título oficial em português. Porque Selma recebeu indicações ao Oscar (poucas, menos do que merecia), e Dear White People foi completamente ignorado pela academia? Não seria por falta de qualidade técnica, pois a fotografia do filme é boa, a edição muito bem alinhada, roteiro bem amarrado e bom ritmo de trama, além de apresentar boas atuações de seus protagonistas. Além disso, ambos os títulos falam de questões sociais, militância negra e representatividade.
Talvez a única diferença entre os dois seja que o primeiro trata de tudo isso em seu roteiro num momento histórico do passado, e o segundo faz uma crítica ao racismo nos dias de hoje nos Estados Unidos, o que o homem branco cisgênero heterossexual e acima de 50 anos residente do pais, acredita não existir mais. E digo isso para pontuar que este é o perfil da maioria que compõe a Academia de avaliação do Oscar.
Queridas pessoas brancas, assistam este filme!
Passado o momento de desabafo, vamos falar de Dear White People. Ou tentar falar, já que o filme trás tantos conflitos e pautas do movimento negro, que para mim ficou até difícil alinhar tudo para escrever sobre.
O filme é dirigido por Justin Simien, que estava cansado da baixa representatividade negra em Hollywood, como ele disse em seu discurso de aceitação do premiou Best First Screenplay, o que seria “melhor revelação” pelo Film Independent Spirit Awards no ano passado: “Comecei a escrever esse filme há dez anos por um impulso, porque eu não via minha história sendo retratada culturalmente. Eu não me via nos filmes que eu amava e as histórias não ressoavam a mim”.
A história gira em torno de quatro jovens negros que conseguem entrar em uma universidade renomada nos EUA e precisam lidar com racismo dentro da instituição, e cada um trás muitas questões a serem debatidas, tais como: a representação das negros na mídia, no mercado de trabalho e nas universidades, a resistência da comunidade negra ao se relacionar com os brancos por medo de racismo, a homofobia dentro da comunidade negra, a ideia de meritocracia que os brancos cultivam, a ideia de vitimização e culpalização que os brancos também cultivam. E os assuntos principais do longa, que podem girar em torno de todos os outros já citados: apropriação cultural e black face.
O termo black face é usado nos EUA para descrever o comportamento de pessoas brancas agindo como negros de forma preconceituosa e/ou literalmente pintando a pele de marrom para fazer comédia. Em Dear White People, os personagens começar a interagir por causa da organização, e depois execução, de uma festa com este tema, que é muito comum nas universidades americanas, onde os estudantes vão “fantasiados” de estereótipos de pessoas negras, como gangsters, rappers, atletas ou simplesmente em seu cotidiano nas periferias americanas. Ao assistir a cena, não pude deixar de me lembrar de como isso acontece no Brasil durante o Carnaval, ou até em programas de “humor”, principalmente com a imagem da mulher negra.
Com o título e todas essas pautas, o longa pode assustar um pouco. Mas tudo é ditado de forma sarcástica, com um tom de humor leve, muito embora o emocional ainda esteja presente. Talvez mais presente para quem é negro.
Este e todos os outros temas poderiam ser facilmente trazidos para a comunidade negra vivendo em sociedade aqui no Brasil, e serem traduzidos e discutimos da forma que os vivenciamos aqui. Por isso, tratar de cada assunto separadamente me levaria a escrever um livro, e não somente um post, e já que você está lendo a Ovelha Mag, vamos falar sobre as mulheres do filme, que surpreendentemente eu consigo relacionar com transição capilar, pelo menos com a minha.
A negra que eu fui e a negra que eu sou
Assistindo ao longa, eu imediatamente me identifiquei com Colandrea ‘Coco’ Conners (Teyonah Parris) e Sam White (Tessa Thompson) as duas mulheres entre os quatro personagens principais na trama.
Coco é a mulher negra que uma vez eu fui, mas nunca quis ser de verdade. É a mulher negra embranquecida pelo alisamento do cabelo, ou no caso dela pelas perucas de cabelo indiano, tão comuns nos Estados Unidos.
Ela se veste e se comporta como, assim dizem os americanos, uma patricinha branca. Não que uma mulher negra tenha que sempre vestir estereótipos ou não tenha liberdade de usar o que quiser e alisar o seu cabelo, Coco está na trama justamente para questionar tudo isso. Mas digo que nunca quis ser como Coco pois é ela quem recebe as críticas a sua beleza natural para depois ouvir acusações de racismo ao tentar parecer mais branca. Been there, did that, Coco.
É possível ver o incomodo de Coco com relação a como as pessoas julgam sua aparência. A curiosidade sobre a raiz do cabelo, sobre as lentes de contato, sobre o modo de se vestir, e o fato de que, quando uma mulher branca faz bronzeamento artificial, preenchimento nos lábios, ou quaisquer coisas que a façam adquirir a beleza que é naturalmente negra, ela não só não passa por críticas, como também é muito mais aceita do que a mulher negra.
Coco sabe da existência do racismo e o quanto isso a prejudica, a fere e a incomoda, ela se defende do racismo com relação a sua aparência, mas ao mesmo tempo sente a necessidade de se enturmar na universidade, fingindo que tal problema não existe para ela, caminho tomado muitas vezes pela falta de coragem de se impor diante da opressão, por questão de sobrevivência, ou pela simples vontade de caminhar em um lugar público sem ser julgada.
Já Sam White, seria a mulher negra que eu sou agora. O filme não especifica o seu passado, mas para mim a identificação foi maior com ela pois parecia que ela também tinha acabado de descobrir sua identidade, e estava no auge do seu engajamento.
Sam é a personagem principal do filme, e é ela quem comanda o programa de rádio na universidade, além de um canal de vídeos na internet chamados Dear White People, e começa todos os programas com esta frase, seguida de um sincerão para pessoas brancas que pensam que não são racistas. Logo ela se torna uma representante da comunidade negra na universidade e sofre pressão de liderança.
O principal conflito de Sam é com relação ao seu lugar de militância, pois quando ela deixa de fazer isso de forma criativa e traduzindo seus sentimentos sobre o racismo artisticamente como sempre fez, ela não consegue estar tão presente e aprende a valorizar mais os companheiros que lideravam movimentos, além de demonstrar que é possível protestar de diversas formas.
Embora não explícito no filme, o questionamento e a pressão sobre o poder da militância de Sam, quando vindo de homens, soava machista, a inferiorizando como líder, talvez não tenha sido a intenção do diretor, ali pode ter surgido uma nova problemática a ser debatida. Não sei se coincidentemente, não se tem essa impressão quando Coco faz o mesmo, embora hajam poucas interações entre elas (o que é uma pena).
Sam também levanta o debate sobre o relacionamento de mulheres negras com homens brancos, e sobre ser miscigenada numa comunidade negra que tanto se defende contra os brancos a ponto de repeli-los de seu convívio, como acontece nos Estados Unidos.
No geral, esse filme é pra gente assistir com um bloquinho de anotações na mão, depois sentar e debater. Se for sentar e debater na internet, conta pra gente o que achou ;)